QUANDO O MEDO DOMINA: A ESPERANÇA CRISTÃ DIANTE DA MORTE, DO VAZIO E DA CULPA
Ricardo André
Ao descrever o cenário
do mundo imediatamente antes de Sua segunda vinda, Jesus apresentou um quadro
profundamente inquietante da condição humana: “As pessoas desmaiarão de terror,
apreensivas com o que sobrevirá ao mundo, pois os poderes do céu serão
abalados” (Lucas 21:26). Nessa declaração, Cristo revela que o medo — em suas
múltiplas formas — não será apenas um sentimento ocasional, mas uma marca
dominante da experiência humana nos últimos dias.
O medo, na verdade,
sempre acompanhou a humanidade. Tememos o desconhecido, o fracasso, a velhice,
as perdas, os acidentes e tantas outras possibilidades que fogem ao nosso
controle. Há uma infinidade de medos que silenciosamente moldam nossas decisões
e emoções. Ainda que evitemos falar sobre eles — muitas vezes por orgulho,
negação ou tentativa de autoproteção — o medo permanece como uma realidade
inevitável da existência. Ele se manifesta, sobretudo, em três dimensões
profundas: o medo da morte, o medo da falta de sentido da vida e o medo da culpa e da condenação.
Diante disso, surge uma
questão central e inevitável: como a fé em Cristo responde a esses medos
fundamentais da experiência humana?
O
MEDO DA MORTE
Entre todos os temores,
a morte talvez seja o mais universal e perturbador. Ninguém deseja morrer, e
muitos sequer toleram pensar na própria finitude. No entanto, a morte é uma
realidade incontornável. Diante dela, a humanidade tem buscado consolo em
diversas crenças, sendo uma das mais difundidas a ideia da “imortalidade da
alma”.
Essa crença atravessa
civilizações e épocas: egípcios, babilônios, gregos, romanos e muitos outros
povos sustentaram a noção de que a alma continua consciente após a morte. Mesmo
grande parte do cristianismo adotou essa ideia, embora ela não encontre base
consistente nas Escrituras, nem no Antigo nem no Novo Testamento. Ainda que
ofereça aparente conforto, trata-se de um conceito que não corresponde à
revelação bíblica.
Além disso, a sociedade
contemporânea tenta suavizar a realidade da morte por meio de linguagem
eufemística. Já não se “morre”, mas se “parte”, se “descansa” ou se “vai
embora”. Cemitérios tornam-se “parques memoriais”, e a velhice é revestida por
expressões como “melhor idade”. Essas estratégias revelam não uma superação do
medo, mas uma tentativa de escondê-lo.
Contudo, nenhuma dessas
abordagens elimina a realidade da morte. Ela permanece como uma presença
inevitável, trazendo consigo angústia e questionamentos profundos.
O
MEDO DA FALTA DE SENTIDO
Outro aspecto
inquietante da existência humana é a busca por significado e sentido para a
vida. As pessoas procuram sentido na carreira, na família, nas conquistas
materiais, no reconhecimento social ou na produção intelectual. Outras fazem da
própria busca o sentido da vida.
No entanto, sem Deus —
e sem a revelação que Ele oferece sobre o propósito da existência — essa busca
se torna, em última instância, frustrante. Afinal, qual o sentido da vida se
tudo inevitavelmente termina com a morte? É tudo por nada? Não há motivo para a
vida? Se não há transcendência, tudo se reduz ao efêmero. Nesse cenário, a
existência pode parecer vazia, sem direção e sem propósito duradouro.
A fé cristã responde a
essa inquietação ao afirmar que o sentido da vida não está em realizações
temporais, mas no relacionamento com o Criador. Somente em Deus encontramos uma
resposta coerente tanto para a vida quanto para a morte.
O
MEDO DA CULPA E DA CONDENAÇÃO
Há ainda um terceiro
medo profundamente enraizado na alma humana: o da culpa. A consciência moral,
presente em todos, testemunha que nossas ações têm peso e consequências. A
culpa, quando não tratada, pode corroer a paz interior, afetando tanto a mente
quanto o corpo.
Quem nunca
experimentou, em algum grau, o peso da culpa? A pergunta que surge é
inevitável: como libertar-se dela?
A experiência do rei
Davi ilustra bem esse drama. Após seu pecado, ele mergulhou em profunda
angústia: “Ele jejuou e passou as noites deitado no chão, vestido de pano de
saco. Os anciãos de sua casa se colocaram ao lado dele para ajudá-lo a se
levantar do chão, mas ele se recusou e não quis comer nada com eles” (2 Sm
12:16, 17).
A dor era real. A culpa
roubava-lhe a paz, tornando a vida pesada e sem alegria. Como descreve o profeta:
“Mas os ímpios são como o mar agitado, que não pode sossegar, cujas ondas
lançam lama e lodo. ‘Não há paz’, diz o meu Deus, ‘para os ímpios’” (Is 57:20,
21).
A
RESPOSTA DE CRISTO: LIBERTAÇÃO DO MEDO
Diante desses três
grandes temores — morte, vazio e culpa — o evangelho apresenta uma resposta
clara e poderosa na pessoa de Jesus Cristo: “'Venham a mim, todos vocês que
estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o
meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês
encontrarão descanso para as suas almas'” (Mt 11:29).
“Nessas palavras, fala
Cristo a todos os seres humanos. Saibam-no eles ou não, todos estão cansados e
oprimidos. Todos se acham vergados ao peso de fardos que só Cristo pode
remover. O mais pesado dos fardos que levamos é o pecado. Fôssemos deixados a
suportar esse peso, e ele nos esmagaria. Mas o Inocente tomou-nos o lugar. [...]
Ele carregou o peso de nossa culpa. Ele tomará o fardo de nossos cansados
ombros. Dar-nos-á descanso. Também o peso do cuidado e da dor Ele tomará sobre
Si. Convida-nos a lançar sobre Ele toda a nossa ansiedade; pois nos traz no
coração” (Ellen G. White, O Desejado de
Todas as Nações [CPB, 2004], p. 328, 329).
Jesus prometeu que,
quando formos a Ele, encontraremos descanso para a alma. Esse descanso inclui a
vida, as lutas, a paz, a certeza da salvação, a esperança no amanhã e o medo.
Vitória sobre a morte
Cristo oferece
esperança diante da morte. A promessa bíblica não é de uma alma consciente
vagando após a morte, mas de um descanso até a ressurreição. “Felizes os mortos
que morrem no Senhor de agora em diante". Diz o Espírito: "Sim, eles
descansarão das suas fadigas, pois as suas obras os seguirão" (Ap 14:13,
NVI). Esses são “os que morreram com a fé fixa em Jesus” (Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 7, p. 924).
Neste
texto sacro somos lembrados de uma verdade profunda e reconfortante: os mortos
que morreram em Cristo são felizes. Esse pensamento bíblico da morte, soa como
um paradoxo. Parece estranho considerar "felizes" aqueles que morrem.
Porém, quando analisamos o que a Bíblia diz sobre este assunto chegamos a uma
conclusão diferente. Por que são felizes os que “morrem no Senhor”? Porque os
que têm fé em Jesus ao morrer têm um brilhante futuro ao qual aguardar. Eles
são "felizes" por causa da recompensa que receberão. Sobre isso,
Ellen G. White escreveu: “Nossos corpos mortais podem morrer e ser colocados na
sepultura. No entanto, a bendita esperança vive até a ressurreição, quando a
voz de Jesus invoca os que dormem reduzidos ao pó da terra. Desfrutaremos então
da plenitude da bendita e gloriosa esperança. Sabemos em quem nós cremos. Não
corremos nem trabalhamos em vão. Um rica e gloriosa recompensa está diante de
nós; é o prêmio pelo qual corremos e, se perseverarmos com coragem, certamente
o obteremos” (As Três Mensagens Angélicas [CPB, 2023], p. 131).
Sobre
isso, a nota de rodapé da Bíblia King James afirma: “Os cristãos [os santos]
que perseveram em obedecer aos mandamentos de Deus e
permanecem fiéis a Jesus serão abençoados com a recompensa de
suas obras piedosas” (BKJ Fiel 1611, p. 2021).
Portanto,
a fé cristã se projeta desta vida para a eternidade. Isso porque Jesus venceu a
morte, deixando a tumba vazia (Mt 28:5-7; 1 Co 15:3-8). Como Ele disse
às irmãs enlutadas na aldeia de Betânia, após a morte de seu irmão Lázaro: “Eu sou a ressurreição, e a vida;
quem crê em mim, ainda que esteja morto, ele viverá.” (Jo 11:25, BKJ 1611).
A mensagem Dele para nós é: Ainda
não acabou. Confie em Mim.
Aqueles que choram seus
mortos podem encontrar grande esperança nestas palavras! E nestas também: “Não
tenham medo. Eu sou o Primeiro e o Último. Eu sou o que vive; estive morto, mas
eis que estou vivo para todo o sempre! E tenho as chaves da morte e do Hades” (Apocalipse
1:18).
O
apóstolo cristão Paulo, em sua inspirada carta escrita aos tessalonicenses,
traz uma outra palavra de encorajamento e de fé aos que creem em Jesus. Diz-nos
o apóstolo: “Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos
que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança.
Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante
Jesus e juntamente com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela
palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a
vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem,
com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá
do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois disso, os que
estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o
encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre.
Consolem-se uns aos outros com estas palavras. (1 Ts 4:13-18, NVI).
Os
Tessalonicenses haviam recebido o Evangelho há bem pouco tempo. Após esta
experiência maravilhosa, alguns de seus parentes e amigos "dormiram no
Senhor"... Como esperavam permanecer vivos até o retorno do
Senhor, e alguns "dormiram em Jesus", eles estavam extremamente
perplexos. A fim de neutralizar esta tendência ao aborrecimento e tristeza
imoderados, o apóstolo, os consola com a agradável esperança de uma reunião
feliz e eterna com aqueles que morreram quando o Senhor Jesus aparecer em
glória. Esse magnífico clímax da História é a última esperança do cristão. Diz
o apóstolo Paulo: “Aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de
nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo. Ele Se entregou por nós a fim de
nos remir de toda a maldade e purificar para Si mesmo um povo particularmente
Seu, dedicado à prática de boas obras” (Tito 2:13, 14).
Na
ocasião, ocorrerão dois dos acontecimentos mais esperados pelos cristãos de
todas as eras: a ressurreição dos santos mortos e a transformação dos santos vivos.
Como é bom ser cristão adventista e crer na volta de Jesus. O quadro pintado
por Paulo será a concretização de todos os que creram e que creem em Jesus e
que, vivos ou mortos, aguardam ansiosos por Sua segunda vinda à Terra. Para
eles, a morte não é o fim de todas as coisas; é simplesmente um sono de espera
pela ressurreição e a vida eterna.
Esse
evento é o grande clímax da história! É o cumprimento de toda espera e
esperança do povo de Deus desde Adão até a última geração que estará vivendo na
Terra. Por isso, o nosso foco permanente está no retorno de Jesus, Aquele que
suportou a cruz “para tirar os pecados de muitos”, e que aparecerá pela segunda
vez “para aqueles que esperam ansiosamente por Ele” (Hebreus 9:28).
Aqueles
que "dormiram no Senhor", não pereceram... Esta separação que nos
causa tanta dor não será eterna. Eles também contemplarão o Senhor retornando
em glória. Nós, os vivos "não precederemos os que dormem" v.15. Ou
como diz a Nova Tradução na Linguagem de Hoje: “não iremos antes daqueles que
já morreram”. Tanto nós quanto eles "seremos arrebatados" nas nuvens
(v. 17).
Portanto,
o apóstolo Paulo “assegura aos leitores que os cristãos vivos não se unirão ao
Senhor antes daqueles que dormiram. [...] Assim, os santos vivos não terão
prioridade sobre os que morreram no Senhor. Este ensino deixa claro o
verdadeiro estado daqueles que morreram “em Cristo”. Eles estão adormecidos,
aguardando a vinda do Senhor. Ainda não foram unidos ao Senhor, mas, como os
cristãos vivos, aguardam o segundo advento para a tão esperada união com o
Mestre (Jo 11:23-25). Nenhuma classe tem precedência sobre a outra; ambas serão
levadas juntas em glória ao Senhor na Sua vinda” (Comentário Bíblico
Adventista, v. 7, p. 249).
Nesse
momento a história humana dará um salto para alcançar a eternidade, cuja porta
estará aberta quando Jesus, o Criador e Redentor estenderá a mão para dar as
boas-vindas aos fiéis, com as mais doces palavras jamais ouvidas: “Venham, […].
Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado” (Mateus 25:34). É a
herança final que estamos aguardando com esperança!
Viveremos
por toda a eternidade sem fim com todos os remidos de todos os tempos. No Mundo
do Amanhã que Deus trará para todos os que crerem nele não haverá mais morte.
Ele nos promete: “Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais
morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras
coisas são passadas." (Ap 21:4).
Sentido para a vida
Em seguida, Jesus é o
único que pode nos salvar da sensação de uma existência vazia e sem sentido.
Somente Aquele que nos criou à Sua imagem e semelhança pode nos dar propósito.
E nossas vidas só têm significado quando conectadas a Deus e à Sua vontade.
O que Deus disse sobre
a Sua vontade a nosso respeito? O que dá sentido às nossas vidas? Em dois
mandamentos principais, Deus nos dá a resposta a essas perguntas: “'Ame o
Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de toda a sua
mente. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é semelhante a ele:
Ame o seu próximo como a si mesmo. Toda a Lei e os Profetas se fundamentam nesses
dois mandamentos'” (Mt 22:37-40).
Deus é amor e, criados
à Sua imagem, somos chamados a refletir esse amor em nossas vidas. Essas duas
dimensões — o amor a Deus e o amor ao próximo — determinam o significado da
existência humana.
E se nossas vidas
estiverem cheias desse amor, não haverá espaço para o medo: “No amor não há
medo; pelo contrário, o perfeito amor expulsa o medo” (1 Jo 4:18).
Libertação da culpa
Por fim, somente Jesus
pode nos salvar da dor da culpa e da condenação. Em Romanos 8:1, o apóstolo
Paulo disse que Jesus nos oferece libertação da culpa e da condenação: “Portanto,
agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (NVI). Segundo
Paulo, quando estamos “em Cristo Jesus”, isto é, quando O aceitamos como
Salvador, não há mais condenação, não porque somos irrepreensíveis, sem pecado
ou digna de vida eterna (nós não somos), mas porque o registro da vida perfeita
de Jesus toma o lugar dos nossos registros; portanto não há condenação. Mesmo
depois que Cristo concede justificação e libertação da culpa e condenação, o
crente continua com deficiências de caráter, porém “quando está no coração
obedecer a Deus, quando são feitos esforços nesse sentido, Jesus aceita essa
disposição e esse esforço como o melhor serviço do crente, e compensa a
deficiência com Seu próprio mérito” (Ellen G. White, Signs of the Times, 16/06/1890. Citado em Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 6, p. 615).
Davi, sabia onde
encontrar a paz que tanto almejava. “Faze-me ouvir júbilo e alegria; alegrem-se
os ossos que esmagaste” (Sl 51:8). “Cria em mim um coração puro, ó Deus, e
renova dentro de mim um espírito firme” (v. 10). “Devolve-me a alegria da tua
salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer” (v. 12).
Davi experimentou a
libertação da culpa e da condenação, mas somente depois de confessar seus
pecados a Deus. “Bem-aventurado aquele cujas transgressões são perdoadas, cujos
pecados são cobertos. Bem-aventurado aquele a quem o Senhor não atribui culpa,
e em cujo espírito não há engano. Então, confessei-te o meu pecado e não
encobri a minha iniquidade. Disse eu: Confessarei ao Senhor as minhas
transgressões. E tu perdoaste a culpa do meu pecado” (Sl 32:1, 2, 5).
Para todos aqueles que
sofrem sob o mesmo fardo da culpa por seus pecados, há esperança na Palavra de
Deus. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar
os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 Jo 1:9). Confessando nossos
pecados a Deus, aceitando pela fé o Seus perdão, e a Jesus como Senhor absoluto
de nossa vida, conquistaremos a paz que excede todo entendimento.
Caro amigo leitor,
deixe a culpa do seu coração levá-lo ao Salvador de sua alma. Aceite que ela
existe e corra para ele.
CONCLUSÃO
Os três maiores medos
da humanidade — a morte, a falta de sentido e a culpa — encontram resposta em
Jesus Cristo. Nele há esperança para além da morte, propósito para a vida
presente e perdão para o passado.
Assim, a experiência
cristã não é apenas teórica, mas vivencial. Ao experimentar essa libertação, o
crente é chamado a compartilhar essa esperança com outros.
Porque, no fim, a
mensagem do evangelho é clara: o medo não tem a última palavra — Cristo tem.

Comentários
Postar um comentário