O TEMPO DA MINHA “PARTIDA” ESTÁ PRÓXIMO
Ricardo André
“Eu
já estou sendo derramado como uma oferta de bebida. Está próximo o tempo da
minha partida” (2 Tm 4:6, NVI).
INTRODUÇÃO:
O apóstolo Paulo que,
depois de tão grande labuta, depois de perseguição, açoitado e encarcerado por
causa do evangelho, para não ser julgado pelo injusto tribunal da Judeia, onde
sua morte seria certa, mas prematura, apelou para César, sendo enviado para
Roma a fim de ser Julgado por Nero, o mais tirano dos imperadores romanos.
Foi lá em Roma, na
prisão Mamertina, que o velho soldado de Cristo, então encarcerado pela segunda
vez, escreveu a 2ª Carta a Timóteo, seu querido filho na fé. “Eu já estou sendo
derramado como uma oferta de bebida. Está próximo o tempo da minha partida” (2
Tm 4:6, NVI). Nessa passagem significativa e inspiradora, ele compartilha um
momento profundo de sua vida. Ele sabe que está perto do fim de sua jornada
terrestre, mas encara isso com paz e propósito. Este é um momento de reflexão
sobre sua vida e ministério.
Naquele sombrio calabouço,
o grande apóstolo terminou sua gloriosa carreira. Mesmo em circunstâncias as
mais desfavoráveis, o idoso e esgotado servo de Deus não deixou de revelar ao
mundo e a todos os cristãos a esperança e confiança que tinha em seu Salvador.
A expressão
"derramado como oferta de bebida" aponta para a total entrega de sua
vida a Deus, como um sacrifício vivo e santo. Ele viveu para servir ao Senhor e
agora vê a conclusão de sua missão com gratidão.
Para nós, essa passagem
é um lembrete poderoso de como devemos encarar nossa vida cristã. Ela não é
apenas uma lista de tarefas ou um esforço para agradar a Deus, mas uma oferta
contínua de quem somos. Cada dia, cada escolha, cada ato de amor é como uma
gota derramada no altar da nossa adoração.
Além disso, Paulo nos
ensina a importância de viver com o fim em mente. Ele sabia que sua “partida”
estava próxima, mas isso não gerava medo, e sim confiança. Sua fé em Cristo o
sustentava, dando-lhe a certeza de que sua vida não foi em vão.
I.
UMA VIDA DERRAMADA COMO OFERTA
“Já estou sendo derramado
como oferta de bebida [...]”, disse o apóstolo Paulo. Ele se refere as ofertas
de bebidas no Antigo Testamento. Naquele tempo a oferta de bebida (libação) era
derramada sobre o altar em adoração e gratidão a Deus (Números 15:5-10).
Simboliza entrega total e completa devoção a Deus. “Deus quer uma dedicação
completa a Ele, como um ato de adoração permanente. Um culto que provenha da
natureza completa do ser humano, que inclui sua razão e seu espírito” (Mario
Veloso, Romanos, Contando o Significado
do Evangelho: Comentário Bíblico Homilético [CPB, 2011], p. 208).
Além disso, a declaração
de Paulo significa que ele está pronto para sofrer pelo evangelho. Os grandes
homens de Deus nunca tiveram vida fácil. Realizaram Sua obra passando por
sofrimentos e duras provas, mas guardaram a fé e avançaram vendo sempre o
invisível (Hb 11:27).
O exemplo do apóstolo
Paulo é um dos mais tocantes. Ele foi exemplo de uma vida de sacrifício para
Deus (Romanos 12:1). Deus permitiu que Ele
enfrentasse muitas vicissitudes e dificuldades. Seu aprisionamento em Roma é um
exemplo disso. Ao longo de seu ministério ele suportou dores, sofrimentos,
perseguições e trabalho árduo pelo Evangelho (2 Co 11:23-27), que dão uma ideia
do desgaste físico e da pressão emocional que ele teve que enfrentar. Mesmo
nessas condições desanimadoras, Deus permitiu que ele pregasse para
autoridades, líderes e pessoas estratégicas, expandindo o evangelho de forma
mais rápida. À época, Roma era considerada a metrópole do mundo, onde poucos
davam atenção à história de Jesus Cristo. Porém, “em menos de dois anos, o
evangelho teve acesso da modesta casa do prisioneiro aos recintos imperiais”
(Ellen G. White, Atos dos Apóstolos [CPB,
2006], p. 462).
Assim como no Antigo
Testamento os animais eram sacrificados a Deus, agora os cristãos devem render
sua vida a Deus como sacrifício vivo (e não mortos) dedicado a Seu serviço.
Nossa vida deve ser vivida como uma oferta contínua, buscando glorificar a Deus
em tudo o que fazemos (1 Coríntios 10:31).
Quando aceitamos o chamado de Deus e avançamos sem medo de oposição ou
sofrimento, podemos estar seguros de que a recompensa virá. A mão que se move
silenciosamente ao longo da história lhe entregará a “coroa da justiça” (2 Tm
4:8) no momento certo, e, então, todas as perguntas terão respostas.
Queridos irmãos e
irmãs, o Senhor nos chama a realizar a Sua obra com o mesmo zelo de Paulo,
mesmo
se isso significar enfrentar perseguição ou até mesmo o martírio, tendo a
certeza de que Ele sempre transformará as dificuldades em novas oportunidades.
Assim como Paulo,
pergunte a si mesmo: "Estou vivendo como uma oferta a Deus? Minhas
atitudes, palavras e decisões refletem minha entrega a Ele?"
II.
O RECONHECIMENTO DO TEMPO DE PARTIDA
“Está próximo o tempo
da minha partida”, afirmou Paulo. Ele empregou a metáfora da “partida” para se
referir a sua morte. "Partida" é uma tradução da palavra grega “analusis”, que significa “soltura, como a do cabo de uma tenda
quando se levanta um acampamento, ou das cordas de amarração de um navio
preparando-se para zarpar. Paulo fala de sua esperada execução, comparando sua
morte ao desarmar de um acampamento ou à saí de um navio do porto” (Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia
[CPB, 2015], v. 7, p. 367).
Ele aceita que seu
tempo na terra está chegando ao fim, mas isso não gera desespero, pois ele confia
em Deus. A grande certeza da vida, desde que nascemos, é que um dia morreremos.
Desde nosso primeiro instante de vida, entramos em uma contagem regressiva que
marcará nossos dias de vida terrestre. A cada instante estamos mais próximos
deste momento tão “misterioso” e temido por muitos. Neste exato momento, muitos
estão dando seu último suspiro. Indubitavelmente, a morte é uma triste
experiência pela qual a humanidade passa. Ela nos tem tomado pais, filhos e
amigos. O apóstolo Paulo a chama de inimiga (1 Co 15:26). A morte é o dilema
que faz parte da vida de todo ser humano após a entrada do pecado (Rm 5:12;
6:24).
Não obstante a dura realidade
inevitável da morte, ela não representa o ponto final, mas apenas uma espera
inconsciente até a volta de Cristo. O apóstolo cristão Paulo em sua inspirada
carta escrita aos tessalonicenses, traz uma palavra de encorajamento e de fé
aos que creem em Jesus: “Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também
que Deus trará, mediante Jesus e juntamente com ele, aqueles que nele dormiram”
(1 Tessalonicenses 4:14, NVI). Neste texto Paulo fala que como cristãos não
devemos ter medo da morte. Ela é um doce sono, para quem morre em Cristo (Ec
9:5,6; Jo 11:11-14). Jesus morreu na cruz e ressuscitou, dando prova do Seu
poder sobre ela. Assim quem morre em Cristo, ressuscitará para viver a
eternidade.
Sobre
isso, Ellen G. White escreveu: “Nossos corpos mortais podem morrer e ser
colocados na sepultura. No entanto, a bendita esperança vive até a
ressurreição, quando a voz de Jesus invoca os que dormem reduzidos ao pó da
terra. Desfrutaremos então da plenitude da bendita e gloriosa esperança.
Sabemos em quem nós cremos. Não corremos nem trabalhamos em vão. Um rica e
gloriosa recompensa está diante de nós; é o prêmio pelo qual corremos e, se
perseverarmos com coragem, certamente o obteremos” (As Três Mensagens Angélicas [CPB, 2023], p. 131).
Diz-nos
mais o apóstolo: “Dizemos a vocês, pela
palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a
vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem,
com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá
do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois disso, os que
estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o
encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre.
Consolem-se uns aos outros com estas palavras. (1 Ts 4:15-18, NVI).
Os
Tessalonicenses haviam recebido o Evangelho há bem pouco tempo. Após esta
experiência maravilhosa, alguns de seus parentes e amigos "dormiram no
Senhor" [...] Como esperavam permanecer vivos até o retorno do Senhor, e
alguns "dormiram em Jesus", eles estavam extremamente perplexos. A
fim de neutralizar esta tendência ao aborrecimento e tristeza imoderados, o
apóstolo, os consola com a agradável esperança de uma reunião feliz e eterna
com aqueles que morreram quando o Senhor Jesus aparecer em glória. Esse
magnífico clímax da História é a última esperança do cristão. Diz o apóstolo
Paulo: “Aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande
Deus e Salvador, Jesus Cristo. Ele Se entregou por nós a fim de nos remir de
toda a maldade e purificar para Si mesmo um povo particularmente Seu, dedicado
à prática de boas obras” (Tito 2:13, 14).
Na
ocasião, ocorrerão dois dos acontecimentos mais esperados pelos cristãos de
todas as eras: a ressurreição dos santos mortos e a transformação dos santos
vivos. Como é bom ser cristão adventista e crer na volta de Jesus. O quadro
pintado por Paulo será a concretização de todos os que creram e que creem em
Jesus e que, vivos ou mortos, aguardam ansiosos por Sua segunda vinda à Terra.
Para eles, a morte não é o fim de todas as coisas; é simplesmente um sono de
espera pela ressurreição e a vida eterna.
Esse
evento é o grande clímax da história! É o cumprimento de toda espera e
esperança do povo de Deus desde Adão até a última geração que estará vivendo na
Terra. Por isso, o nosso foco permanente está no retorno de Jesus, Aquele que
suportou a cruz “para tirar os pecados de muitos”, e que aparecerá pela segunda
vez “para aqueles que esperam ansiosamente por Ele” (Hebreus 9:28).
III. O FELIZ REENCONTRO NO CÉU
Em
1863, Tiago e Ellen White encontravam-se em viajem, em Brookfield, Nova York.
Enquanto o casal viajava, Tiago teve um sonho que indicava que “algumas coisas
não estavam bem com seus filhos, e que deveriam retornar ao Maine sem demora” (Arthur
L. White, Ellen White: Mulher de Visão
[CPB, 2015], p.110). Ao retornar a cidade de Topsham, Maine, em 27 de
novembro, Tiago e Ellen G. White descobriram que Henry White, seu querido filho
mais velho, de apenas 16 anos, havia contraído um grave resfriado. Quatro dias
depois de chegarem, a enfermidade se transformou em pneumonia. “Apesar dos
White [...] orarem fervorosamente pedindo a cura, o jovem piorou. Seus pais não
hesitaram em conversar com ele sobre a morte e quanto a se preparar para ela. A
fé de Henry em Jesus permaneceu firme” (Ibdem,
p. 111).
“Sentindo
que poderia morrer, o jovem se aproximou de Deus. Houve um momento de
confissão, perdão e choro e abraços no círculo familiar” (Enciclopédia Ellen G. White [CPB, 2018], p. 604). Enquanto a mãe
cuidava dele, pediu: “Mamãe, prometa-me que, se eu morrer, eu poderei ser levado
para Battle Creek e ser colocado ao lado do meu irmãozinho John Herbert [que
morrera aos três meses de vida], para que possamos levantar juntos na manhã da
ressurreição” (Arthur L. White, Ellen
White: Mulher de Visão [CPB, 2015], p. 111).
Dois
dias antes de falecer, ele pediu que trouxessem os irmãos a seu lado. Para
Edson, disse: “Eddie, não estarei mais aqui para continuar sendo seu irmão.
Nunca desista de tentar fazer o que é certo. O leito de morte é um péssimo
lugar para se arrepender”. Então Henry chamou o pai e disse: “Pai, o senhor
estar perdendo seu filho. Irá sentir muita saudade, mas não chore, pois será
melhor para mim. Eu escaparei de ser recrutado para p exército [durante a
Guerra Civil norte-americana] e não presenciarei as sete últimas pragas. Morrer
tão feliz é um privilégio” (Ibdem).
No
dia 8 de dezembro de 1863, o filho agonizante disse à mãe: “Mãe, eu encontrarei
a senhora no Céu na manhã da ressurreição, pois eu sei que estará lá”. Então,
ele chamou os irmãos, pais e amigos e lhes deu um beijo de despedida. Em
seguida, sussurrou: “O Céu é doce!” (Ibdem).
Essas foram suas últimas palavras. Henry faleceu naquele dia, às 13h30.
A dor da família foi
imensa. “Nosso lar ficou vazio. Meu marido, eu e meus filhos restantes sentimos
de modo muito agudo o golpe. Mas Deus confortou-nos em nosso luto, e com fé e
ânimo retomamos a obra que Ele nos tinha dado, com a esperança de reencontrar
nossos filhos, então tragados pela morte, em um mundo onde a doença e a morte
não existirão” (Ellen G. White, Testemunhos
Para a Igreja, v. 1, p. 103).
Alguns queridos meus já
partiram, tragados pela morte: Minha querida mãe, Noêmia Cordeiro de Souza, dia
25 de junho de 2004, aos 53 anos. Depois, no mesmo ano, minha vozinha Deutrudes
Cordeiro. E 12 anos depois minha sogra, Janilda Matos de Santana, no dia 23 de
novembro de 2016. Infelizmente, tivemos que dizer adeus à mãe, avó e sogra mais
fortes e maravilhosas que conheci. As imagens delas permanecerão em minha
memória para sempre, evocando muitas boas lembranças. Tenho a certeza que elas
foram recolhidas e dormem até aquele dia, quando Cristo voltar e os anjos com
toque de clarim de trombetas, chamarem todos os que dormem em Cristo,
inclusive, minha mãe, avó e sogra (Mt 25:31; I Ts 4:13-18).
Tenho a esperança
bíblica de que um dia nos encontraremos, não muito longe, no Novo Céu e na Nova
Terra. Caminharemos pelas ruas de ouro da Santa Cidade que Deus preparou para
aqueles que O amam (Ap 21). Estaremos juntos por toda eternidade sem fim com o
nosso compassivo Salvador Jesus e todos os remidos do Senhor.
Esta separação que nos
causa tanta dor não será eterna. Quando nosso querido Jesus voltar em glória e
Majestade poderemos reencontrar todos os nossos queridos que morreram em
Cristo, se crermos em Jesus. Esta ESPERANÇA está baseada sobre um sólido e
indestrutível fundamento... Sim, ela se baseia na realidade de um Cristo vivo
(I Co 15:4). A ressurreição do Senhor é o fundamento de nossa esperança (I Ped.
1:3; I Co 15:12-19). Assim como Deus, o Pai, trouxe Jesus, nosso Salvador,
dentre os mortos na manhã de Sua ressurreição no jardim, fora dos muros de
Jerusalém, assim com Ele também trará nossos queridos mortos à vida novamente,
quando voltar a segunda vez. Ela também está fundamentada no prometido e
esperado retorno do Senhor à Terra (I Tes. 1:10; Atos. 1:10, 11).
Haverá, então, um feliz
e eterno reencontro! Viveremos por toda a eternidade sem fim com todos os
remidos de todos os tempos. No Mundo do Amanhã que Deus trará para todos os que
crerem nele não haverá mais morte. Ele nos promete: “Ele enxugará de seus olhos
toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem
dor; porque já as primeiras coisas são passadas." (Ap 21:4).
CONCLUSÃO:
Paulo
nos ensina que a vida cristã deve ser uma oferta completa e contínua a Deus, ou
seja, nossa vida deve ser submetida a vontade de Deus (“sacrificada”). Ele enfrentou a morte com coragem porque
sabia em quem havia crido (2 Tm 1:12). Que possamos viver de maneira a
glorificar a Deus, perseverando até o fim, confiando que há uma recompensa
eterna esperando por nós.
Como
estamos vivendo? Estamos preparados para enfrentar o momento da nossa
“partida”? Se ainda não entregou sua vida completamente a Cristo, hoje é o dia
para começar essa jornada de fé e sacrifício, preparando-se para receber a
“coroa da justiça”, prometida a todos que amam a vinda do Senhor.
Oração:
“Querido Deus e bom Pai
que estás no Céu, ajuda-me a viver cada dia como uma oferta a Ti. Que minha
vida seja um reflexo do Teu amor e da Tua graça. Obrigado pela promessa de vida
eterna! Ensina-me a viver com propósito, com os olhos fixos na eternidade. Que
eu confie em Ti em todas as etapas da minha jornada, sabendo que tudo está em
Tuas mãos. Amém.”
Que esta palavra
inspire você a viver como Paulo: com coragem, entrega e a certeza de que sua
vida é um sacrifício agradável a Deus.
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