O PRIMEIRO PRESENTE DE NATAL
Ricardo André
Nos aproximamos do
Natal. Particularmente, amo o Natal! Para mim, é o período do ano que mais
gosto. A época do Natal é encantador. Na minha vida e história ele tem um
significado muito importante, pois é uma época do ano em que minha família se
reúne, nos reencontramos, renascemos um para o outro, estamos ali sendo luz na
vida do outro. Mais que isso, o Natal é uma data bem marcante para mim,
sobretudo, porque é um tempo de celebrar o maior acontecimento da história, o
nascimento de Jesus, o Deus que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1:1, 14; 1Tm 3:16). Essa história
sempre me impressiona e me emociona, porque como diz a escritora cristão Ellen G.
White, “a história de Belém é inexaurível. Nela se acham ocultas as
‘profundidades das riquezas, tanto da sabedoria como da ciência de Deus’”.1
Então, gostaria de apresentar uma reflexão sobre este extraordinário
acontecimento.
No Natal as pessoas são
tomadas pelo espirito de generosidade, que os impulsiona a dar presentes aos
familiares e amigos próximos. Trocamos presentes em nossas
comemorações natalinas familiares, o que, em si, não está errado. Parece não
haver dúvidas de que essa prática de dar presentes se inspirou no presente dos
magos do Oriente. Nesse caso, os magos poderiam ser considerados os verdadeiros
autores da ideia. Em outras palavras, o primeiro presente de Natal teria sido
ouro, incenso e mirra, e os magos seriam os primeiros doadores (Mt 2:1, 11).
Quem
eram os magos do oriente?
Quem eram esses magos
do Oriente? As Sagradas Escrituras não dão maiores informações
quanto a estes homens, segundo a tradição eram três porque trouxeram três
presentes para o Senhor, mas a verdade é que a Palavra não fala nada sobre
isso. Segundo o Comentário Bíblico
Adventista, “esses “magos” não eram magos no sentido como hoje se entende
essa palavra. Eles eram nobres de nascimento, educados, ricos e influentes.
Eram os filósofos, os conselheiros do reino, instruídos em toda sabedoria do
antigo Oriente. Os “sábios” que foram em busca do Cristo recém-nascido não eram
idólatras; eram homens retos e íntegros (...). Eles estudavam as Escrituras
hebraicas e ali encontraram uma clara exposição da verdade. Em particular, as
profecias messiânicas do AT chamaram sua atenção e, entre elas, as palavras de
Balaão: “uma estrela procederá de Jacó” (Nm 24:17). É provável que também
conhecessem e entendessem a profecia de tempo de Daniel (Dn 9:25, 26), e
chegaram à conclusão de que a vinda do Messias estava próxima (...). Na noite do nascimento de Cristo, uma luz
misteriosa apareceu no céu e se tornou uma estrela brilhante que persistia no
céu ocidental (...). Impressionados com seu brilho, os magos consultaram outra
vez os rolos sagrados. Ao buscarem compreender o significado dos escritos
sagrados, foram instruídos em sonho a partir em busca do Messias”2. Provavelmente, aqueles magos eram astrólogos oriundos da Pérsia. Mas o que era aquela estrela? Seria a estrela resultado de um fenômeno natural
ou da providência divina? O que era a estrela? De acordo com
a Biblioteca Bíblica, “todas as
tentativas de se explicar a estrela como um fenômeno natural são inadequadas
dada a razão dela conduzir os magos de Jerusalém até Belém e então permanecer
sobre a casa. Antes, foi uma manifestação especial dada por Deus, primeiro
quando apareceu indicando o fato do nascimento de Cristo, e depois quando
reapareceu sobre Jerusalém e guiou os magos ao lugar certo. Considerando que
foi registrada uma revelação direta para os magos (v. 12), nada há de
improvável em aceitar uma revelação direta desde o começo para emprestar
significado à estrela”.3
A escritora cristã
Ellen G. White afirma que aquela misteriosa luz brilhante “não era uma estrela
fixa, nem um planeta, e o fenômeno despertou o mais vivo interesse. Aquela
estrela era um longínquo grupo de anjos resplandecentes, mas isso os sábios
ignoravam. Tiveram, todavia, a impressão de que aquela estrela tinha para eles
significado especial. Consultaram sacerdotes e filósofos, e examinaram os rolos
dos antigos registros. A profecia de Balaão declarara: "Uma Estrela
procederá de Jacó e um cetro subirá de Israel." Núm. 24:17. Teria acaso
sido enviada essa singular estrela como precursora do Prometido? Os magos
acolheram com agrado a luz da verdade enviada pelo Céu; agora era sobre eles
derramada em mais luminosos raios. Foram instruídos em sonhos a ir em busca do
recém-nascido Príncipe”.4
Um
presente para Jesus
A grande diferença entre
o presente dos magos e os de hoje, é que os magos deram para Jesus, e não para
os amigos. Presentes geralmente são dados para o dono da festa, e para os magos
o Dono da festa era Jesus. Ele era o próprio Natal.
Foi por isso que vieram
de tão longe. Não era nada cômodo viajar mais de 650 km, desde a Mesopotâmia,5
por caminhos desconhecidos, atravessando desertos, e sem
informações precisas a respeito da viagem. Além disso, tinham
que viajar à noite, para poderem seguir a estrela. Se vieram de
camelos, o que é mais provável, tinham que trazer, além da bagagem
normal, toda a alimentação para os camelos durante a viagem. Provavelmente
trouxeram também vasilhas com água, tendo em vista a travessia do
deserto. Tudo isso representava um grande trabalho e muitos sacrifícios.
Contudo, para aqueles homens nobre e sábios, valia qualquer sacrifício para
levar os presentes para o Dono da festa. Eles tinham a consciência de que o
menino nascido em Belém merecia mais do que isso. Assim pensavam e agiam.
Os magos procuraram
prever tudo o que seria necessário para a viagem. Entretanto, o que eles jamais
previam, também aconteceu. Emocionados, avistaram Jerusalém. Desceram o monte
das Oliveiras e entraram na cidade. Como a estrela parou sobre o templo e desapareceu,
ficaram meio confusos. “Ansiosos, dirigem os passos para diante, esperando
confiantemente que o nascimento do Messias fosse o jubiloso assunto de todas as
bocas. São, porém, vãs suas pesquisas. Entretanto na santa cidade, dirigem-se
ao templo. Para seu espanto, não encontram ninguém que parecesse saber do
recém-nascido Rei. Suas perguntas não despertavam expressões de alegria, mas
antes de surpresa e temor, não isentos de desprezo.”6
Na cidade, a
indiferença foi a mesma, nenhum sinal de novidade. Para grande decepção dos
magos, não havia festa de Natal em Jerusalém. Aos poucos, a cidade ficou
sabendo dos estranhos visitantes. Os líderes judeus sentiram-se ofendidos. Como
poderia Deus indicar o nascimento do Messias aos pagãos e não a eles? "E
levaram o povo a considerar o interesse em Jesus como excitação fanática. Aí
começou a rejeição de Cristo pelos sacerdotes e rabis”.7
Quando o rei Herodes
ouviu isso, ficou perturbado, e com ele toda a Jerusalém” (Mt 2:3, NVI). Ante a
notícia de que nascera um possível rival, Herodes desconfiou de que os
sacerdotes estivessem planejando um golpe de Estado para tomar-lhe o trono. Irado,
ordenou-lhes que pesquisassem, nas profecias, onde seria o nascimento do
Messias. Só assim os magos ficaram sabendo que Jesus nascera em Belém. Após uma
audiência com Herodes, reiniciaram a viagem.
“Sozinhos partiram os
magos de Jerusalém. Caíam as sombras da noite quando saíram das portas, mas,
para sua grande alegria viram novamente a estrela, e foram guiados a Belém.”8
Avistaram a cidade e entraram.
Para surpresa deles, a
estrela parou em cima de uma casa comum. Os magos pararam à distância, e esperaram
que a estrela prosseguisse até um palácio. Mas a estrela não prosseguiu.
“Ao entrarem na casa,
viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Então abriram
os seus tesouros e lhe deram presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2:11, NVI).
Finalmente os magos acharam o Dono da festa, e fizeram a festa para Ele. Quanta
vontade de dar um presente de Natal! Quanta vontade de dar para Jesus! Quando
aqueles sábios orientais viram o menino Jesus reconheceram sua divindade e,
prostrando-se diante Dele, O adoraram, diz a narrativa bíblica. Tinham
percorrido uma enorme distância e driblado todo tipo de perigos para cultuar o
Rei dos judeus. O recorte da cena dos magos com Cristo e
Seus pais evidencia senso de adoração. O enfoque não eram e nunca deveriam ser
os presentes e tudo o que foi criado em torno disso para consolidar o
consumismo e fortalecer tradições completamente dissociadas da história
bíblica, a exemplo da figura do Papai Noel, símbolo do natal comercial. O foco
era Jesus, o adorado, porque simplesmente é Deus.
A
casa de Jesus onde os magos o visitaram
Agora, vamos abrir um
parêntese para uma pequena discussão teológica. Que casa era essa em que os
magos encontraram a Jesus? Estamos acostumados a ver imagens em que os magos
aparecem no estábulo, ao lado da manjedoura. Os presépios em nossos dias,
comumente colocam na cena do nascimento de Jesus, a presença dos magos, adorando
juntamente com os pastores o menino Jesus. Afinal, a visita ocorreu no estábulo
ou na casa? O evangelista Mateus afirma que eles entraram "na casa"
(Mt 2:11), e não numa estrebaria. Obviamente, essa não era a noite do nascimento
de Jesus, “mas depois que Jesus
nasceu” (Mt 2:1, NVI). A partir daí, pode-se concluir que após o nascimento de
Jesus, seus pais já estavam morando numa casa e que ele não era mais um
recém-nascido numa manjedoura. Logo, essa visita dos magos a Jesus aconteceu
depois de vários dias, semanas ou até meses do nascimento de Dele e também
após
a visita dos pastores descrita por Lucas 2. A visita ocorreu muito
provavelmente após a consagração de Jesus no templo de Jerusalém. Se
a visita ocorreu após a apresentação no templo, Jesus teria pelo menos 40 dias
de idade9, pois “a lei levítica estipulava que o tempo de “impureza”
da mãe se tivesse um menino era de 40 dias, se tivesse uma menina, era de 80
dias [...]. Durante esse período ela deveria permanecer em casa e não deveria
participar das práticas religiosas públicas. [...] A ida ao templo ocorreu
antes da visita dos magos, porque, depois disso, José e Maria não se atreveriam
a visitar Jerusalém. Além disso, deixaram Belém e foram ao Egito quase que
imediatamente após a visita dos magos (ver Mt 2:12-15)”10
Seguindo essa linha de
pensamento, alguns afirmam que Jesus já teria a idade de um ou dois anos, já
que Herodes mandou matar os meninos dessa idade. Esta posição parece
forte, se levarmos em conta que o evangelho de Mateus afirma nitidamente que o
Rei Herodes inquiriu sobre “o tempo exato em que a estrela tinha aparecido”
para os magos (Mt 2:7, NVI). Note que o texto diz claramente que Herodes procurou
saber sobre o “tempo exato”, não por alto ou mais ou menos, mas com exatidão. Com
isso, ele veio a conhecer a idade de Jesus. Assim, se Jesus nasceu quando
"a sua estrela apareceu" no leste, pode-se concluir que quando os
magos o visitaram ele poderia estar ainda com até 2 anos de idade. Herodes deve
ter esperado o retorno dos magos por alguns dias ou semanas, e então, quando
percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que
matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades,
de acordo com a informação que havia obtido dos magos (Mt 2:16). Se os magos
tivessem visitado Jesus recém-nascido, Herodes não teria colocado a idade da
criança próximo aos dois anos de idade. Repetimos: Ele calculou essa idade com
base nas informações que recebeu dos magos.
De fato, Ellen G. White
afirma que no dia em que Jesus nasceu, os magos ainda estavam no Oriente, e
viram “uma luz misteriosa nos céus, naquela noite em que a glória de Deus
inundara as colinas de Belém. Ao desvanecer-se a luz, surgiu uma luminosa estrela
que permaneceu no céu.”11 Até que investigassem os tratados de
astronomia, consultassem sacerdotes e filósofos, e pesquisassem as profecias
hebraicas, levou um bom tempo. Depois, “foram instruídos
em sonhos a ir em busca do recém-nascido Príncipe"12, e
gastaram outra temporada entre os preparativos e a viagem propriamente
dita. Isto explica a demora até o encontro com Jesus.
Quanto a casa onde
Jesus recebeu a visitas dos magos, a Bíblia Sagrada não revela que casa era
essa. Há quem diga que tratava-se de uma hospedaria, uma vez que, com o fim
recenseamento não mais haveria excesso de hóspedes. Outros dizem que tratava-se
de uma casa alugada por José após o nascimento de Jesus. Todas essas posições
são possíveis, e dificilmente se poderá saber ao certo o que ocorreu. Seja qual
for a casa ou a época, o importante é que Jesus recebeu, dos magos, um presente
de Natal.
Um
presente para nós
O primeiro presente de
Natal, porém, não foi o presente dos magos. Naquele primeiro Natal, antes de os
magos chegarem a Belém, outro Presente estava sendo dado por Deus para nós, e o
presente era o próprio Jesus. Ele é o verdadeiro Presente de Natal.
Ao passo que os magos
se sacrificaram para dar um presente para Jesus, Deus estava sacrificando-Se
para dar um presente para nós. E que Presente! Deus condescendeu em tornar a humanidade
o centro das atenções do Natal, dando-nos o que de mais precioso havia no Céu -
Seu próprio Filho. Nosso para sempre, Ele veio como um menino “que nos nasceu,
um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será
chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz”
(Is 9:6, NVI). Quem pode negar que esse foi o mais extraordinário evento na
história terrestre, o maior presente de Deus para a humanidade? Ele entrou
neste mundo para aproximar-Se de nós, mostrar-nos o amor de Deus e dar-nos vida
eterna. “Ao tomar a nossa natureza o Salvador ligou-Se à humanidade por um laço
que jamais se partirá. Ele nos estará ligado por toda a eternidade."13
Após receber o Presente
de Deus, o homem passou a ser a única criatura do Universo a ter parentesco com
a Divindade, o que ele não possuía nem mesmo antes do pecado. Nem os anjos
possuem esse parentesco. Não existe, por exemplo, nenhum anjo que seja também
Deus. Existe, porém, um homem que é Deus, ou seja, o homem possui um Irmão
entre as três Pessoas da Divindade. E isto nós ganhamos de presente no Natal. O
Dono da festa fez a festa para nós.
O
nosso presente para Jesus
E nós, para quem estamos
fazendo a festa no Natal? Geralmente desejamos "boas festas e feliz Natal
" para muita gente. E é bom que assim seja. Mas o que entendemos por
"boas festas"? Para as crianças, a festa é boa quando recebem muitos
presentes. E não somente para elas. Para Jesus também, por incrível que pareça.
Ou Jesus não gosta de presentes? Óbvio que sim. O problema é que quase nunca
Ele recebe um presente de Natal.
Não há nenhum erro em
dar presentes para os amigos e familiares. O erro está em nos esquecermos de
que Jesus é o Dono da Festa. “Muitos oferecem presentes aos seus amigos
terrestres, mas não têm nada para dar a Jesus, o seu Amigo do Céu, que lhes dá
todas as bênçãos. Não devia ser assim. Devemos dedicar a Ele o melhor do que
possuímos, o melhor do nosso tempo, dos nossos recursos e do nosso amor. Podemos
também dar a Cristo, quando damos nossas ofertas para confortar os pobres e
anunciar aos pecadores o Salvador. Deste modo podemos ajudar a salvar aqueles
por quem Ele morreu. Estas são dádivas que Jesus aceita e abençoa.”14
Para Jesus, a festa é
boa quando Lhe damos Seu presente predileto. É um presente tão desejado que Ele
chega a pedi-lo: “Meu filho, dê-me o seu coração” (Pv 23:26, NVI). Esse é o
melhor presente para Jesus. Durante esse período natalino, o maior presente que
podemos apresentar a Jesus é um coração receptivo, somos nós mesmos. Não
importa quão insignificante seja nossa vida, é a intenção pura e o gesto de fé
que Lhe agradam. Os magos deram tudo de si, e, junto com o presente, levaram o
próprio coração. Jesus espera o nosso presente. Não gostaria você de desejar
"boas festas e feliz Natal" para Jesus? Curvemo-nos e adoremo-Lo
neste natal!
Feliz Natal para todos
e todas!!!
Referências:
1. Ellen
G. White, O Desejado de Todas as Nações [Tatuí: CPB, 2004], p. 48.
2. Francis D. Nichol,
Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia [Tatuí: CPB, 2014], v. 5, pág. 293.
3. Interpretação de
Mateus 2; Biblioteca Bíblica digital. Disponível em < https://bibliotecabiblica.blogspot.com/2015/11/interpretacao-de-mateus-2.html>
Acesso em 11 de dezembro de 2023.
4. Ellen
G. White, O Desejado de Todas as Nações [Tatuí: CPB, 2004], p. 60.
5. Francis D. Nichol,
obra citada, p. 293.
6. Ellen G. White, O
Desejado de Todas as Nações [Tatuí: CPB, 2004], p. 60, 61.
7. Idem, pág. 63.
8. Idem, p. 60.
9. Francis
D. Nichol, obra citada, p. 296.
10. Francis D. Nichol,
obra citada, p. 770.
11. Ellen G. White,
obra citada, p. 60.
12. Idem.
13. Idem, p. 25.
14. Ellen G. White,
Vida de Jesus [Tatuí: CPB, 1987], p. 29, 30.
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