TRÊS ANJOS, UM EVANGELHO
Ángel Manuel Rodriguez*
Uma
interpretação cristológica de Apocalipse 14:6 a 12
O que você prega todas
as semanas? A resposta deve ser óbvia: O evangelho da salvação pela fé na morte
sacrifical de Cristo. Sua obra salvadora deve colorir e determinar o conteúdo
de qualquer sermão. Um pregador adventista não tem outra opção porque no próprio
cerne do verso bíblico que resume nossa missão e mensagem está o evangelho, ou
seja, Apocalipse 14:6 a 12: as três mensagens angélicas. Neste artigo, sugiro
uma interpretação cristológica da passagem.1
Primeira
mensagem angélica
Os três anjos “representam
aqueles que recebem a verdade e com poder abrem o evangelho diante do mundo”.2
O fundamento exegético para essa afirmação encontra-se em Apocalipse 14:6 a 12.
O primeiro anjo proclama o evangelho eterno à raça humana no fim do conflito
cósmico (v. 6). A passagem termina com a bênção do Espírito Santo sobre aqueles
que mantêm juntos a lei de Deus e o evangelho da salvação pela fé na obra
salvadora de Cristo (v. 12). O segundo anjo proclama a ruína do falso evangelho
da Babilônia (v. 8), e no centro da terceira mensagem está uma referência
maravilhosa ao Cordeiro de Deus (v. 10).
O anjo não descreve o
conteúdo do evangelho, mas o chama de “evangelho eterno” (v. 6). Não há outro
evangelho eterno senão aquele que anuncia ao mundo que a salvação vem por intermédio
de Jesus Cristo (Mt 24:14). Esse evangelho é apresentado em Apocalipse 1:5,
quando João se refere a Jesus como Aquele que “nos ama e, pelo Seu sangue, nos
libertou dos nossos pecados”.
O amor de Deus foi
visivelmente manifestado na morte sacrificial de Cristo. Essa linguagem
soteriológica é transmitida ao longo do livro usando a imagem do Cordeiro que
foi morto. Os seres celestiais proclamam que o Cordeiro é digno de adoração
porque Ele foi morto, e com o sangue Dele comprou para Deus os que procedem de
toda tribo, língua, povo e nação (Ap 5:9). É Cristo como o Cordeiro que foi
exaltado ao trono de Deus (Ap 22:3), que, como Guerreiro, derrotou o inimigo
por meio de Sua morte sacrificial (Ap 17:14) e compartilha essa vitória com Seu
povo (Ap 12:11). A figura do Cordeiro é uma expressão do amor sacrificial de
Deus, por meio do qual somos redimidos.
As três mensagens estão
integradas em uma mensagem, o evangelho eterno, que é poderoso o suficiente
para nos salvar e encerrar o conflito cósmico.
A proclamação do
evangelho é seguida por um chamado aos habitantes da Terra para temer a Deus
(Ap 14:7). O conceito de temor a Deus pressupõe que o Senhor é um Ser
transcendental e imponente, que se manifesta à humanidade envolto em luz
radiante e impenetrável e faz a terra tremer (Êx 19:16, 18, 19). Este Ser
majestoso oferece aos seres humanos, em um ato de amor, o privilégio de se
tornar Deus deles (Dt 4:20; 5:26, 27; 7:6). Aqueles que reconhecem Nele um Deus
amoroso demonstram isso submetendo-se a Ele e à Sua vontade. O primeiro anjo
convoca os seres humanos a escolher esse Deus glorioso como seu Deus.
A frase “dar glória a
Deus” é usada na Bíblia para expressar a disposição dos pecadores em reconhecer
que eles são culpados e que Deus é justo ao condená-los (Js 7:19; 1Sm 6:5; Jo
9:24; cf. Sl 51:4). Às vezes, é uma expressão de contrição e arrependimento que
reconhece a justiça de Deus (Jr 13:16; Ap 11:13). O anjo convida todos, com
base na obra divina de redenção, a se arrepender e admitir que o Senhor é amoroso
e justo.
O chamado é urgente
porque a hora do juízo chegou e está em andamento. Na Bíblia, o Dia da Expiação
era um tipo do dia do julgamento. Em Apocalipse 11:19, João é levado em visão
ao lugar santíssimo do santuário celestial, em antecipação ao dia antitípico da
expiação. Em Apocalipse 14:7, somos informados de que o momento profético, ou
“hora”, do dia antitípico da expiação chegou. Deve-se escolher a Deus e
arrepender-se (cf. Dn 8:14).
O chamado angélico
convida os pecadores a adorar o Criador (Ap 14:7), ecoando a linguagem do
mandamento do sábado, o sinal e selo do poder santificador de Deus. O sétimo
dia nos lembra Daquele que nos criou e que, por intermédio do Cordeiro, nos
redimiu. Adoração é um ponto-chave no conflito cósmico, e os seres humanos são
encorajados a adorar a Deus e não ao querubim caído e seus aliados
(Ap 14:9). No momento
em que o Criador e o sábado foram rejeitados ou ignorados, Deus insiste que
todos devem se curvar diante da Fonte de vida.
Segunda
mensagem angélica
O segundo anjo anuncia
a queda de Babilônia, um símbolo da independência e da busca pela
autopreservação por meio das realizações humanas (Gn 11). As descrições das
intenções do querubim caído e do rei da antiga Babilônia coincidem: ambos
queriam ocupar o lugar de Deus na Terra
(Is 14:3-23). Contudo,
o reino literal de Babilônia ruiu. No tempo do fim, o dragão criará uma
Babilônia mística por intermédio da qual tentará ocupar o lugar de Deus e
receber a adoração que Lhe é devida. Babilônia é constituída por uma falsa
trindade: a besta do mar (Ap 13:1), o cristianismo apostatado da Idade Média; a
besta da terra (v. 11), o protestantismo apostatado, representado pelos Estados
Unidos; e o dragão, a obra de Satanás por meio do espiritualismo.
Babilônia é a tentativa
do dragão de unificar o cristianismo apóstata por meio de eventos milagrosos
que visam legitimar sua afirmação de ser de origem divina. Ela oferece ao mundo
seu evangelho corrompido, chamado de “vinho” (Ap 14:8). Jesus deu vinho a Seus
discípulos como símbolo de Sua morte sacrificial (Mt 26:27, 28). No tempo do
fim, Babilônia oferece à humanidade seu próprio vinho, um meio de salvação por
meio da submissão ao querubim caído. Nestes últimos dias, o dragão mudará de
muitas maneiras o mapa religioso, político, filosófico e econômico por meio da
realização de milagres que vão persuadir muitos de que ele é, de fato, Deus.
Devemos antecipar mudanças radicais no mundo, cuja magnitude é difícil de
imaginar.
A Babilônia mística
ainda está se revelando. Os três espíritos demoníacos que saem da boca do
dragão, da besta e do falso profeta vão ao mundo a fim de uni-lo para a batalha
do dia do Senhor (Ap 16:13, 14). Enquanto isso, as três mensagens angélicas são
proclamadas com o objetivo de preparar o mundo para a vinda de Cristo. Como
resultado dos dois movimentos, o mundo será polarizado entre aqueles que serão
fiéis ao Cordeiro e ao dragão. No entanto, a vitória do Cordeiro, o verdadeiro
evangelho, está assegurada, e Babilônia cairá para não mais se levantar (Ap
16:19; 17:14; 19:20).
Terceira
mensagem angélica
A mensagem do terceiro
anjo é o último apelo de Deus aos habitantes da Terra para que escolham o lado
do Cordeiro no conflito cósmico. É uma questão de lealdade e compromisso final.
Enquanto o dragão anuncia que aqueles que não o adorarem e rejeitarem o nome e
a marca da besta serão eliminados (Ap 13:15-17), o terceiro anjo alerta que os
seguidores do dragão enfrentarão a ira divina no juízo final (Ap 14:9-11).
A lealdade ao dragão e
seus aliados exige o recebimento do nome e da marca da besta. Os ímpios se
identificarão com o caráter e as aspirações da falsa trindade.
A lealdade se expressa
em ações que manifestam a natureza do objeto de lealdade. Apropriar-se do nome
e da marca da besta significa que eles pertencem ao dragão e supostamente serão
protegidos por ele. Ao se submeter à autoridade da falsa trindade, a vontade de
Deus se torna irrelevante para os ímpios.
A marca da besta é a
falsificação do selo de Deus, o sábado. O domingo se torna o símbolo da
autoridade do dragão sobre aqueles que o seguem, sua autoridade para mudar a
lei de Deus, e isso facilita a sua adoração. Adoramos o Criador no sábado do
sétimo dia e, no fim do conflito cósmico, os ímpios adorarão a criatura por
meio de sua obediência ao domingo.
O terceiro anjo anuncia
que aqueles que são leais ao dragão experimentarão a ira de Deus (Ap 6:16, 17).
Em seguida, o anjo passa a explicar como é a ira divina, usando a linguagem do
vinho, fogo e enxofre. De acordo com o anjo, a ira de Deus é como o vinho que
não foi misturado com água, mas cujo poder intoxicante foi aumentado pela
adição de certas especiarias. O ponto da metáfora é que a ira escatológica do
Senhor não será misturada com misericórdia, ou seja, não haverá espaço para
arrependimento. Os ímpios cairão e não se levantarão novamente.
A segunda metáfora é
tirada da experiência de uma pessoa que foi diretamente exposta ao enxofre. A
ira de Deus é comparada à intensa dor que uma pessoa sente quando o enxofre em
chamas cai sobre sua pele. É extremamente doloroso! Há um segundo ponto nessa
metáfora, a saber, que o que é queimado perece para sempre. A ira de Deus
resultará na morte eterna dos ímpios.
A intensidade do
sofrimento dos ímpios no juízo final é descrita como um tormento, uma dor sobre
a qual a pessoa não tem controle e que experimentará durante um período de
tempo não especificado (Ap 14:11). Essa experiência ocorre “diante dos santos
anjos e na presença do Cordeiro”. Os estudiosos sugerem diferentes maneiras de
interpretar essa frase, ignorando a óbvia. A imagem é tirada da vinda de Cristo
com Seus anjos na parousia. É a linguagem de uma cristofania usada para indicar
que Jesus aparecerá aos ímpios durante o julgamento final. Eles estarão diante
do Cordeiro que foi morto! Olharão para a cruz de Jesus, rejeitada por eles,
mas onde o amor magnífico de Deus foi revelado ao Universo.
Essa é a melhor e única
evidência que Deus apresenta ao tribunal cósmico para demonstrar que o anjo
caído estava errado, e que Ele é inquestionavelmente um Deus amoroso e justo.
Na presença do Cordeiro, os ímpios se veem como realmente são, miseráveis
pecadores com um profundo sentimento de culpa, percebendo que estarão
eternamente separados do Pai. A compreensão dessa separação eterna é realmente
muito dolorosa, um tormento. Na cruz, Jesus experimentou a dor lancinante da
separação de Deus para que mais ninguém tivesse que passar por isso. No
entanto, os ímpios desconsideraram o sangue do Cordeiro que foi morto e serão
atormentados pelo amor que escolheram ignorar. Paradoxalmente, o amor de Deus,
constituindo a alegria dos mundos não caídos e despertando a mais profunda
gratidão no coração dos redimidos, é um tormento para os ímpios, Satanás e seus
anjos.
O conflito cósmico
termina pacificamente com o reconhecimento universal e a declaração de que o
Senhor é um Deus de amor. O poder persuasivo do sacrifício do Cordeiro derrota
as forças do mal. João antecipou esse momento quando escreveu: “Então ouvi que
toda criatura que há no Céu e sobre a Terra, debaixo da terra e sobre o mar, e
tudo o que neles há, estava dizendo: ‘Àquele que está sentado no trono e ao
Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória e o domínio para todo o sempre’” (Ap
5:13).
As três mensagens
angélicas estão incorporadas em uma mensagem, o evangelho eterno, que é
poderoso o suficiente para nos salvar e encerrar o conflito cósmico. Talvez
seja bom perguntar novamente: o que você vai levar ao púlpito na próxima
semana? Pregue o Cordeiro!
*Ángel
Manuel Rodríguez, ex-diretor do Instituto de Pesquisa
Bíblica da Igreja Adventista do Sétimo Dia
Referências
1. Este artigo é um
resumo de “The Closing of the Cosmic Conflict: Role of the Three Angels’
Messages”, a ser publicado em Artur Stele (ed.), The Word: Searching, Living,
Teaching, v. 2 (2021).
2. Ellen G. White, A
Verdade Sobre os Anjos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2005), p. 246.
FONTE:
Revista Ministério,
Nov-Dez 2021
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