A TERRA PRÉ-EXISTENTE: REFLEXÕES SOBRE A IDEIA DE QUE A TERRA JÁ EXISTIA ANTES DA SEMANA DA CRIAÇÃO EM GÊNESIS 1
Ricardo André
INTRODUÇÃO:
A narrativa da criação
em Gênesis 1 é uma das histórias mais conhecidas da Bíblia e é fundamental para
muitas tradições religiosas, especialmente o Cristianismo e o Judaísmo. A
passagem descreve a criação do mundo em seis dias, culminando com a criação do homem
e da mulher no sexto dia, e Deus descansando no sétimo
dia. No entanto, existe uma questão
intrigante que tem sido debatida ao longo dos séculos: a Terra já existia antes
da semana da criação?
Os primeiros versículos
de Gênesis 1 fornecem um ponto de partida para explorar essa questão. Eles
afirmam: "No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era sem
forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus se
move sobre as águas" (Gênesis 1:1-2, NVI). Alguns estudiosos argumentam
que esses versículos sugerem a existência prévia da Terra, que estava "sem
forma e vazia" antes do ato criativo descrito no restante do capítulo.
Há várias
interpretações sobre o estado da Terra antes da criação da luz, dos céus, das
plantas e dos animais. Alguns acreditam que a Terra pré-existente era um caos
desordenado e vazio, enquanto outros veem como uma matéria-prima não
organizada, esperando uma intervenção criativa de Deus.
INTERPRETAÇÕES
TEOLÓGICAS:
1)
A Teoria criacionista tradicional: Alguns grupos religiosos,
defendem a interpretação literal do Gênesis 1. Eles acreditam que a Terra foi
criada em sua forma atual, com uma semana de criação literal que ocorreu há
cerca de 6.000 anos. Nessa perspectiva, a Terra não existia antes dessa semana.
Ainda segundo essa teoria, Gênesis 1:1 é parte do primeiro dia da semana da
criação. Desse modo, o verso 2 descreve a condição da Terra imediatamente após
a criação dos “céus e da Terra” – o nosso planeta e o céu atmosférico que o
circunda – e antes da criação da luz. O quarto mandamento da lei de Deus
afirma: “Pois em seis dias o Senhor fez
os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia
descansou. Portanto, o Senhor abençoou o sétimo dia e o santificou” (Êx 20:11).
De acordo com a teoria criacionista tradicional, a expressão “tudo o que neles
existe” inclui a matéria-prima dos céus e da Terra.
Ainda segundo essa
interpretação, a criação ex nihilo (a
partir do nada), argumenta que Deus criou o universo a partir do zero, sem
utilizar preexistências. Isso é consistente com a ideia de um Deus
todo-poderoso que não depende de elementos pré-existentes para criar.
Essa teoria foi
defendida pelos reformadores protestantes do século XVI, Martinho Lutero e John
Calvino. A escritora cristã Ellen G. White também defendia essa interpretação.
É o que se depreende de sua afirmação: “A teoria de que Deus não criou a
matéria ao trazer à existência o mundo não tem fundamento. Na formação de nosso
mundo, Deus não dependeu de matéria preexistente” (Testemunhos Para a Igreja, v. 8, p. 258).
É importante ressaltar
que, um dos problemas com essa teoria é que se o planeta Terra foi criado no
primeiro dia (“no princípio”), o relato de Gênesis 1 informa que o Sol pareceu
três dias depois, no 4º dia da semana literal da criação (Gn 1:14-18). Caso a
Terra fosse mais antiga que o Sol, em torno do que ela teria orbitado até o 4º
dia da criação? Com a palavra os que defendem a ideia da criação em uma única
etapa.
2)
A teoria criacionista da Terra Antiga: Outra interpretação
teológica aceita por muitos é o criacionismo da Terra Antiga. Segundo essa
visão, a Terra já existia antes da semana da criação, e os "dias" de
Gênesis 1 podem ser entendidos como períodos de tempo significativos, não
necessariamente dias literários de 24 horas. As Testemunhas de Jeová é um dos
grupos religiosos que promovem essa teoria.
Na obra A Vida – Qual a sua origem? A evolução ou a
criação?, da Sociedade Torre de Vigia, ed. de 1985, afirma-se: “A primeira
parte de Gênesis indica que a Terra já poderia existir bilhões de anos antes do
primeiro “dia” de Gênesis, embora não diga por quanto tempo (p. 26). Mais adiante é dito que “pareceria
razoável que os “dias” de Gênesis abrangessem, igualmente, longos períodos –
milênios” (p. 27). Entretanto, a
ideia de que os dias da semana da criação representaram longos períodos de anos
não encontra apoio bíblico.
A palavra hebraica
traduzida por dia é “yom” (Nisto Cremos:
As 28 Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia [CPB, 2018], p.
89). De fato, o termo “yom” pode referir-se a um período de mais de 24
horas. Mas no caso dos dias da criação, nem de perto isto pode ser, pois quando
“a Bíblia emprega a palavra “dia” associada a um numeral em um relato
histórico, “dia” sempre se refere a um dia normal; por exemplo, “no primeiro
dia”, “no segundo dia”, etc. (Nm 7:12-78; 29:1-35)” (Interpretando as Escrituras: descubra o sentido dos textos mais
difíceis da Bíblia [CPB, 2019], p. 106). Isto ocorre nos dias da semana
mencionados em Gênesis. Vejamos:
1) “Houve tarde e
manhã, o primeiro dia” (Gênesis 1.5);
2) “Houve tarde e
manhã, o segundo dia” (verso 8);
3) “Houve tarde e
manhã, o terceiro dia” (verso 13);
4) “Houve tarde e
manhã, o quarto dia” (verso 19);
5) “Houve tarde e
manhã, o quinto dia” (verso 23);
6) “Houve tarde e
manhã, o sexto dia” (verso 31);
Deve-se ressaltar
também outros fatos importantes que nos impedem de crer que Deus tenha criado o
mundo em milhares de anos ao invés de criá-lo em “dias”: Os versos de Gênesis 1
falam que a semana da criação era composta de “tarde e manhã”, e não de
“milhares de anos”. “A declaração literal: ‘Foi
tarde [com as horas sucessivas da noite], e foi manhã [com as horas sucessivas do dia], dia um é claramente a descrição de um dia astronômico, isto é, um
dia com a duração de 24 horas. [...] A duração do sétimo dia necessariamente
determina a extensão dos outros seis” (Comentário
Bíblico Adventista do Sétimo Dia [CPB, 211], v. 1, p. 191).
O teólogo Jirí Moskala destaca: “Outros textos
bíblicos também interpretam os sete dias da criação de forma literal. Por
exemplo, o quarto mandamento contém a frase: “porque, em seis dias, fez o
Senhor os céus e a Terra [...] e, ao sétimo dia, descansou” (Êx 20:11); e, em
Êxodo 31:17, os israelitas são instruídos a guardar o sábado “porque, em seis
dias, fez o Senhor os céus e a Terra, e, ao sétimo dia, descansou, e tomou
alento”. Em ambos os textos, os seres humanos recebem instrução para seguir o
exemplo de Deus e descansar no sétimo dia” (Interpretando as Escrituras: descubra o sentido dos textos mais
difíceis da Bíblia [CPB, 2019], p. 106, 107). Portanto, o quarto mandamento
não faria qualquer sentido se cada dia da criação representasse milhares de
anos. “A
admissão de que os acontecimentos da primeira semana exigiram milhares de
milhares de anos, fere diretamente a base do quarto mandamento [...]. É a
incredulidade em sua forma mais traiçoeira, e portanto mais perigosa; seu
verdadeiro caráter se acha tão disfarçado que é tal opinião mantida e ensinada
por muitos que professam crer na Bíblia” (Ellen G. White, Patriarcas e Profetas [CPB, 2007], p. 111).
Na tentativa de dá uma
base bíblica a sua teoria de que os dias da criação representam longos períodos
de anos, as Testemunhas de Jeová citam em suas literaturas o texto de 2 Pedro
3:8, que diz: “Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que,
para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia.” Pedro não está
dizendo que cada dia da criação equivale a mil anos pelas seguintes razões:
1) Ele não estava
falando da criação do Gênesis, mas, da volta de Jesus. Por isso, o argumento
dele é o de que o Senhor sabe melhor que ninguém o dia que tem de voltar a esse
mundo para terminar com o pecado.
2) A conjunção
comparativa – como (como mil anos) está apenas comparando um dia de 24h com mil
anos porque Deus é eterno e, para Ele, não faz diferença um dia de mil anos.
Pedro não usou o termo “um dia é mil anos”. Portanto, ele comparou um dia com
mil anos e não afirmou que um dia é mil anos.
3)
A teoria da lacuna ou do “intervalo passivo”: Muitos cristãos
defendem a existência de uma "lacuna" ou “intervalo” de tempo entre
os versículos de Gênesis 1:1, 2 e 1: 1:3-31, argumentando
que a expressão “no princípio criou Deus os Céus e a Terra” refere-se à criação
do Universo, incluindo a Terra em seu estado bruto, há bilhões de anos. Portanto,
quando a História começou, a Terra já estava aqui, mas ainda era tohu vhohu (“sem forma e vazia”), escura
e úmida. Na última parte do versículo 2 diz-se que o Espírito Santo pairava por
sobre as águas, mostrando a existência da água bem antes da semana da criação. Depois
disso, em outro estágio, a 6.000 anos atrás, Deus organizou os elementos em
nosso planeta e fez surgir nele a vida, em seis dias consecutivos de 24 horas.
No sétimo dia, Ele terminou Sua obra e descansou (Gn 2:2). Para esses cristãos,
essa teoria se harmoniza com as descobertas científicas sobre a idade da Terra,
que indicam que o planeta tem bilhões de anos. Essa abordagem busca manter a
integridade da fé religiosa sem negar os avanços da ciência nesse aspecto.
Importante dizer que,
os cristãos que promovem essa teoria não pretendem, de forma alguma, endossar
as datações geológicas de milhões de anos adotadas pelos evolucionistas. A
ideia de que as camadas geológicas e os fósseis ali contidos datam de milhões
de anos confronta com o relato bíblico da criação, que revela que a criação da
vida é recente.
QUAL
TEORIA É SUSTENTADA PELA IGREJA ADVENTISTA?
Para responder a essa
pergunta citamos a Enciclopédia
Adventista do Sétimo Dia: “Os adventistas sempre defenderam a crença na
criação ex nihilo – que Deus não dependeu de matéria preexistente quando trouxe
a Terra à existência. Eles geralmente admitem como fato consumado que, no
primeiro dia da criação, Deus criou a matéria que compunha a Terra e a seguir
prosseguiu com a obra dos seis dias. Desde o início, porém, tem havido alguns
adventistas para quem Deus, mediante Sua palavra, criou a substância da Terra
antes dos eventos ocorridos nos seis dias literais da criação” (p. 357). (Citado em Interpretando as Escrituras: descubra o sentido dos textos mais
difíceis da Bíblia [CPB, 2019], p.
103).
Como se vê, a teoria
predominante entre os adventistas é a criacionista tradicional. Contudo, nem
sempre foi assim. Nos primórdios do adventismo, a teoria da lacuna era
predominante entre os pioneiros adventistas. MC Wilcox em 1898 escreveu:
“Quando Deus criou, ou trouxe à existência, o céu e a terra? 'No princípio.'
Quando foi esse 'início', quanto tempo durou, é inútil conjecturar; pois não é
revelado. É evidente que foi um período anterior aos seis dias de trabalho” ("O Evangelho em Gênesis Um", The
Signs of the Times, 24.27 (7 de julho de 1898): 16). Hoje, ainda há muitos
adventistas que sustentam a teoria do “intervalo passivo”. Estou entre eles.
Até porque, como afirmou o teólogo adventista Gerhard Pfandl, “o primeiro
capítulo de Gênesis admite, portanto, duas teorias: a do intervalo passivo e a
criacionista tradicional” (Interpretando
as Escrituras: descubra o sentido dos textos mais difíceis da Bíblia [CPB, 2019], p. 103).
Embora as Sagradas
Escrituras não digam explicitamente que o Universo e a própria Terra já
existiam muito antes do início da vida na Terra, temos boas razões bíblicas
para acreditar nessa interpretação. Em primeiro lugar, em Jó 38:4-6, Deus
afirma que houve seres vivos, chamados de “filhos de Deus”, que rejubilaram
enquanto Ele “lançava os fundamentos da Terra”. A implicação lógica desse texto
é que seres preexistentes viviam no Universo antes da criação da Terra.
Acreditar que todo o Universo passou a existir a partir da semana da criação
traz sérias dificuldades para o intérprete desse texto. Em Segundo lugar, a
serpente estava presente no jardim do Éden antes que Adão e Eva pecassem (Gn
3:1; Ap 12:9), sem que haja qualquer referência à sua origem, sugerindo que ele
já existia naquela semana inicial. O livro de Ezequiel descreve Satanás no jardim
do Éden como coberto de pedras preciosas (Ez 28:13).
Ainda em referência a
Lúcifer, Isaías 14 diz-nos que, quando ele rebelou-se contra Deus, alguns
elementos cósmicos já existiam: ele desejava subir “acima das estrelas de Deus”
(v. 13) e “acima das mais altas nuvens” (v. 14), evidenciando nitidamente que o
Universo, com seus elementos básicos (tempo, matéria e vida), já existiam antes
da semana da criação.
Em terceiro lugar, o
próprio relato de Gênesis 1:1-3 deixa claro que, quando Deus criou a luz, no
primeiro dia, o Espírito de Deus “pairava por sobre as águas”. O teólogo adventista
William H. Shea, ao comentar essa passagem no Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia, reconhece “o fato de
que a Terra inerte se achava em um estado aquoso antes dos acontecimentos da
semana da criação” (p. 469). Vale
ressaltar que, na história do adventismo, a teoria de que a Terra poderia ter
sido criada em um estado aquoso, sem forma e vazia antes da semana da criação
não é totalmente nova. De acordo com o Comentário
Bíblico Adventista do Sétimo Dia, várias pessoas, desde os tempos do
pioneiro adventista Uriah Smith, década de 1860, tinham a compreensão de “que o
testemunho bíblico sugere, ou pelo menos permite sugerir, que a substância da
Terra e do sistema solar tenha resultado, pelo menos em parte, de atividade
criadora ocorrida anteriormente à semana da Criação (v. 1, p. 24).
Em quarto lugar, ao
lermos o relato dos dias da criação em Gênesis 1, notamos que cada dia é
introduzido com a expressão “e disse Deus”, e concluído com “houve tarde e a
manhã, o primeiro dia”, “houve tarde e a manhã, o segundo dia”, e assim
sucessivamente. Acontece, que esse padrão repetitivo empregado para cada dia da
criação não é usado nos versículos 1 e 2, o que sugere a ideia de que esses
versos não fazem parte do primeiro dia da criação (v. 3-5), mas a um tempo ou
período muito anterior a semana da criação. Desse modo, não
obstante os eventos ocorridos na semana da criação tenham acontecido entre 6 e
10 mil anos, as Sagradas Escrituras apontam diversas evidências de que o
Universo, assim como a própria Terra em seu estado físico, é muito mais antigo
que isso.
Particularmente, não
tenho dúvidas de que, o relato da criação apresenta a ação de Deus em dois
momentos distintos: o primeiro, criando a matéria e a energia (Gn 1:1, 2); e o
segundo, dando forma a essa matéria e trazendo à existência seres vivos (Gn
1:3-31). Crer dessa forma não significa diminuir o poder
criador de Deus. Sendo soberano, ele pode escolher criar como desejar, seja de
uma vez ou em etapas, sem que isso signifique apoio à teoria da evolução.
Vale aqui destacar um
pensamento relevante de Ellen G. White: “Na verdadeira ciência não pode existir
coisa alguma contrária aos ensinamentos da Palavra de Deus, uma vez que ambas
são originadas do mesmo Autor. A correta compreensão das duas sempre provará
que se encontram em mútua harmonia” (Testemunhos
Para a Igreja, v. 8, p. 258). A ciência mostra que o Universo e o próprio
planeta Terra são muito mais antigos que a vida na Terra. Nesse aspecto, as Sagradas
Escrituras e a ciência estão, como afirmou Ellen White, “em mútua harmonia”, e
nos mostra que ciência e Bíblia, quando há “correta compreensão das duas”,
podem andar de mãos dadas.
CONCLUSÃO:
A questão de que a
Terra já existia antes da semana da criação em Gênesis 1 é um tópico complexo
que tem sido desafiado por teólogos e estudiosos ao longo da história. As duas interpretações
teológicas, como a teoria criacionista tradicional e a teoria da lacuna
prevalecentes no meio adventista, fornecem maneiras diversas de abordar essa
questão. Cada cristão é livre para escolher a que melhor responde as suas
necessidades. Independentemente da visão que alguém adote, é
importante lembrar que a mensagem fundamental de Gênesis 1 é uma crença na
criação divina e no poder criativo de Deus.
A discussão sobre a
Terra pré-existente não deve obscurecer o ponto central da passagem, que é o
reconhecimento de que o relato da criação em Gênesis foi um fato histórico, de
um Deus amoroso que criou todas as coisas visíveis e invisíveis, em seis dias
de 24 horas. Portanto, embora esse debate teológico possa ser interessante e
desafiador, ele não deve desviar a atenção da fé fundamental nas Escrituras
Sagradas e na importância da adoração a Deus como Criador. A doutrina da
criação deve nos levar a uma experiência de admiração e obediência a Deus Yahweh,
à semelhança do que ocorreu com o profeta Isaías (cap. 6).
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