DINOSSAUROS
Raúl Esperante
Oferecem
a Bíblia e os escritos de Ellen G. White alguma base para a crença na
existência desses estranhos animais?
Anos atrás, depois de
terminar uma palestra para universitários e profissionais liberais, fui
abordado por um pastor. Ele me pediu que tentasse convencer a esposa dele sobre
a existência dos dinossauros. Ela era professora e se recusava a ensinar os
alunos sobre esse tema. Compreendi que atrás daquela negativa havia uma luta
para compreender o mistério que deixa perplexas algumas pessoas e fascina
outras: Como explicar a passada existência (e extinção) dos dinossauros, num
contexto bíblico? A negação da existência dos dinossauros tem se tornado mais
difundida do que gostaríamos de admitir, mesmo considerando nossa sociedade
científica com pesquisas altamente avançadas em todas as áreas, incluindo
geologia e paleontologia. Essas ciências parecem fora de lugar em nossas
instituições educacionais e raramente são consideradas por nossos jovens na
escolha de sua carreira profissional. Como cristão e paleontólogo, tenho que
enfrentar diariamente a noção de uma evolução biológica envolvendo milhões de
anos e posso compreender que algumas pessoas temem ser envolvidas por uma
filosofia contraditória às Escrituras.
Entretanto, é possível
estudar fósseis, rochas e evolução, sem renunciar à fé. Nossa apreciação da
beleza e do mistério da criação da Terra e sua história subsequente depende em
grande parte de como e o que professores e pastores estão ensinando nas igrejas
e escolas.
No
museu e na TV
Se você já visitou um
museu de história natural, provavelmente viu grandes esqueletos de dinossauros.
Também pode ter visto reproduções animadas em que, no caso de documentários da
televisão, eles parecem vivos e reais. Ao assistir a tais animações, o
espectador deve considerar alguns detalhes. Primeiramente, devemos aceitar que
os dinossauros existiram por um período de tempo na Terra e que, em certos
lugares, eles pareciam numerosos. Paleontólogos têm encontrado evidências de
sua existência em todos os continentes, incluindo Antártica. Essas evidências
incluem ossos, ovos, tocas e pegadas. Rastros e pegadas são abundantes e não
podem ser associados a nenhuma outra criatura fora do que conhecemos como
dinossauros.
Em segundo lugar,
devemos saber que os esqueletos encontrados em museus não são tipicamente
reais, mas réplicas. Os ossos originais são muito valiosos e delicados para ser
expostos ao público; portanto, são armazenados em lugares mais seguros. Além
disso, os esqueletos dos museus são ajuntamentos de réplicas de ossos de várias
espécies oriundas de lugares distantes. Os paleontólogos são capazes de compor
a arquitetura do corpo dos dinossauros, embora não possam ter todos os
elementos da mesma criatura. Assim, as réplicas encontradas nos museus são
razoavelmente confiáveis. Entretanto, animações vistas na TV são mais
especulativas, especialmente no que tange à cor, fisiologia, comportamento e
assim por diante.
Desaparecimento
Na coluna geológica,
vestígios de dinossauros aparecem em camadas de rochas que os paleontólogos
chamam de Triássico, Jurássico e Cretáceo. Essas camadas sedimentadas,
amontoadas uma sobre a outra, mostram características específicas, incluindo as
de certas espécies fósseis como moluscos, répteis, peixes, dinossauros e
organismos microscópicos (diatomácea, algas) que habitaram os oceanos. Alguns
paleontólogos creem que os dinossauros, bem como outros grupos de animais e
plantas, desapareceram subitamente em consequência do impacto de um meteorito
gigante 65 milhões de anos atrás. Outros duvidam disso, por várias razões.
Muitos cientistas
criacionistas acreditam que os dinossauros desapareceram junto com outras
espécies, durante o dilúvio universal descrito em Gênesis. Esse cenário poderia
incluir atividade de um meteorito resultando em tsunamis, atividade vulcânica e
emissão de dióxido de carbono, sulfeto e outros elementos químicos prejudiciais
a plantas e animais. Portanto, a ideia de um meteorito impactando a Terra não é
necessariamente incompatível com o modelo bíblico do dilúvio.
Apesar da falta de
consenso entre os cientistas sobre a causa do desaparecimento dos dinossauros,
a mídia e a imprensa pseudocientífica decidiram que a teoria do impacto do
meteoro é a única explicação válida. Isso está longe da realidade. Os
dinossauros desapareceram, mas não sabemos exatamente quando nem por quê.
Entretanto, a possibilidade de sua extinção durante o dilúvio do Gênesis (com
ou sem impacto) pode ser vista como hipótese científica plausível e merece
consideração.
Na
Bíblia
O relato da criação em
Gênesis 1 fala de um Deus que criou vida marinha bem como pássaros no quinto
dia; e o restante dos animais, no sexto dia. Embora os répteis sejam citados,
os dinossauros não são mencionados, o que não deve nos surpreender; afinal, nos
dias de Moisés, a palavra “dinossauro” não existia, nem ele estava obrigado a
mencioná-los. Ele também não mencionou outros grupos de animais como, por
exemplo, besouros, tubarões, estrelas-do-mar.
O fato de a Bíblia não
citar os dinossauros pelo nome não prova que Deus não os tivesse criado; muito
menos a estranha aparência deles. Hoje existem muitos animais tão estranhos
como os dinossauros - observe o ornitorrinco e o canguru – que não atraem muito
a atenção. Algumas pessoas creem que os dinossauros surgiram como resultado da
maldição depois do pecado de Adão e Eva, mas a Bíblia não emite luz sobre isso,
nem identifica explicitamente os animais que mudaram como resultado do pecado
nem qual foi o tipo de mudança.
Muitos cientistas
criacionistas acreditam que os dinossauros desapareceram durante ou logo após o
dilúvio. Mas, a Bíblia também não nos dá indícios sobre o destino deles. Por
causa desse silêncio bíblico, o fato de que os dinossauros desapareceram
durante uma catástrofe mundial conhecida como dilúvio é uma hipótese que deve
ser considerada através de pesquisa científica. A comprovação de tal hipótese
deve ser feita através de dados geológicos e paleontológicos, não por forçar a
Bíblia a dizer o que ela não diz.
Finalmente, há quem
pense que os dinossauros sobreviveram ao dilúvio, mas logo desapareceram por
não se terem adaptado ao novo ambiente. Essa é outra possibilidade, pois havia
dinossauros na arca e, talvez, tenham desaparecido durante a colonização pós-diluviana.
A Bíblia menciona duas estranhas criaturas: beemote (Jó 40:15-18) e leviatã (Jó
41:1), que alguns interpretam como possíveis exemplos dos dinossauros
pós-diluvianos. Entretanto, a maioria dos eruditos não aceita essa explicação,
e esses termos são geralmente traduzidos respectivamente como hipopótamo e
crocodilo. Não estão relacionados aos dinossauros.
Ellen
White
O termo dinossauro foi
usado pela primeira vez em 1842, pelo zoólogo inglês Richard Owen, para nomear
um grupo de fósseis répteis então descobertos. O uso do termo se expandiu
enquanto novas descobertas aconteciam na Europa e América do Norte. No tempo em
que Ellen White escreveu suas primeiras declarações sobre criação, dilúvio,
ciência e fé (1864), o termo dinossauro já era comum nos livros e revistas.
Entretanto, ela nunca usou esse termo nem qualquer outra palavra similar para
se referir a esses répteis extintos.
Numa breve declaração,
em 1864, ela escreveu: “Todas as espécies de animais que Deus criou foram
preservadas na arca. As espécies confusas que Ele não criou, e que foram
resultado de amálgama, foram destruídas no dilúvio”.1 Essa é uma
declaração favorita entre alguns adventistas para os quais ela explica os
organismos extintos, incluindo dinossauros, bem como fósseis com características
intermediárias, também conhecidos como fósseis em transição, ou seja, aqueles
que, de acordo com a teoria da evolução, mostram mistura de características
entre dois grupos de animais ou plantas considerados consecutivos no tempo.
Exemplo disso são os répteis parecidos com mamíferos, considerados um degrau
intermediário na evolução.
Muitas pessoas leem
nessas palavras o que nós conhecemos como engenharia genética, indicando que,
nos tempos antediluvianos as pessoas praticavam acasalamento híbrido,
resultando em estranhas formas biológicas.
Entretanto, essa
interpretação apresenta problemas. O primeiro é a dificuldade para definir o
que Ellen White quis dizer com “amálgama”. Estudos mais profundos sobre a
declaração não têm dado uma resposta definitiva, e concluímos que ainda não
sabemos exatamente o significado desse termo.
Um segundo problema é a
aplicação de “amálgama” a casos reais no registro fóssil. Se “amálgama”
significa “híbrido”, como poderíamos reconhecer esse fenômeno entre os fósseis ou
entre animais e plantas dos nossos dias? Como poderíamos determinar que
espécies eram híbridas antes do dilúvio, se elas realmente já existiam? Alguns
respondem a essa pergunta dizendo que as espécies híbridas não sobreviveram ao
dilúvio, precisamente porque Deus não quis. Mas, esse raciocínio é um círculo
vicioso falho porque o critério que usamos para diferenciar os híbridos
(extinção) é o mesmo que usamos para definir o que gostaríamos de diferenciar
(híbridos). Em outras palavras, amalgamação explica seu próprio
desaparecimento, e seu desaparecimento define o que são eles.
Ellen White continua
dizendo que “desde o dilúvio tem havido amalgamação de homens e bestas, como
pode ser visto em variedades quase infindáveis de espécies de animais”.2
Em primeiro lugar, é importante enfatizar que ela diz “amalgamação de”; não diz
“amalgamação entre” como alguns interpretam. Em segundo lugar, se amalgamação
significa formas intermediárias, híbridas ou criaturas estranhamente formadas,
qual é o critério para reconhecê-las? Se essas foram formadas depois do
dilúvio, provavelmente se tornaram fósseis, e outras teriam sobrevivido até
agora. Como podemos diferenciá-las entre si e de outros organismos vivos que
não são híbridos? Ellen White não dá indícios sobre isso.
No mesmo texto, ela
estabelece que lhe foi mostrado “que animais muito grandes e poderosos
existiram antes do dilúvio, e não mais existem agora”.3 E também
disse em outro texto que “houve uma classe de animais que pereceram no dilúvio.
Deus sabia que a força do homem diminuiria e esses mamutes não poderiam ser
controlados por homens fracos”.4
Entre outras, essa
declaração a respeito da vida antes do dilúvio sugere que a profetiza estava se
referindo à existência de uma ampla variedade de animais que não sobreviveram
na arca. Entretanto, não estamos seguros quanto ao significado da declaração;
não sabemos o que eram esses “animais muito grandes e poderosos”. Porém, suas
palavras não estão longe da descrição científica dos dinossauros. Falando
biologicamente, eles são um tanto confusos, não apenas porque alguns são
gigantes, mas também partes do seu corpo (pernas, pescoço, cauda, cérebro) são,
em alguns casos, desproporcionais.
A verdade é que muitas
pessoas têm lutado para encontrar declarações de Ellen White apoiando a ideia
de que os dinossauros não foram criados por Deus, mas resultaram de amálgama
antes do dilúvio, sendo, portanto, condenados ao desaparecimento na catástrofe
universal. Essa pode ser uma possibilidade, mas, depois de minucioso estudo de seus
escritos, não encontramos apoio inequívoco para essa conclusão.
A Escritura não
menciona a existência de dinossauros, pelo menos como nós os compreendemos, nem
antes nem depois do dilúvio. Ellen White também não os menciona, e não estamos
absolutamente seguros quanto ao significado de sua afirmação referente a
“animais muito grandes”. Porém, isso não representa evidência de que eles não
existiram. Ao contrário, as evidências disso são claras: ossos, dentes, ovos,
pegadas e impressões. Mas, em algum ponto da história, eles desapareceram. Sua
origem e seu desaparecimento estão envolvidos num mistério que requer cuidadoso
e rigoroso estudo. E isso não compromete nossa fé nos ensinamentos bíblicos.
Referências:
1. Ellen G. White,
Spiritual Gifts (Battle Creek, MI: SDA Publishing, 1864), v. 3, p. 75.
2. Ibid., p. 35.
3. Ibid., p. 92.
4. Ibid., v. 4, p. 121.
FONTE:
Artigo
publicado originalmente na Revista Ministério Jul-Ago 2010.
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