SAUDADES DA MINHA MÃE
Ricardo André
Nesse artigo quero prestar
uma homenagem emocionada a uma mulher extraordinária: minha mãe. Seu nome era
Noêmia Cordeiro de Souza. Foi uma mãe incansável que enfrentou com uma coragem
indomável inúmeras dificuldades para criar e cuidar de seus oito filhos. No dia
25 de junho completará 19 anos de seu falecimento. Embora já não esteja mais
entre nós, sua memória e seu amor permanecem vivos em nossos corações.
É difícil imaginar um
lar sem mãe. Tudo no lar gira em torno dela e, graças a ela, tudo funciona
satisfatoriamente. A provisão material adquirida pelo pai é por ela
transformada em utilidades que configuram a felicidade e a satisfação da
família inteira. Está sempre pronta a sacrificar-se a fim de que cada um dos
membros da família esteja com suas necessidades supridas.
Sua dedicação nem
sempre é reconhecida e apreciada como deveria ser, mas isso não parece
afetá-la. Sua vocação é dar-se, embora os filhos, muitas vezes, e mesmo o
próprio marido, não compreendem a extensão e a grandeza de sua dedicação, e
fazem pouco ou nada para aliviar-lhe os fardos que a vida impõe.
Enfrenta doenças,
motivos para irritação, desenganos e desgostos, para poder ter sua família
satisfeita e feliz. Diariamente, depara-se com situações difíceis e com a
necessidade de tomar decisões corretas para que o êxito do lar seja assegurado.
Priva-se de muitas coisas em favor dos filhos. Seus cabelos brancos, sua pele
enrugada, os passos trôpegos, a voz quase inaudível de algumas; tudo isso é
fruto do desgaste natural do tempo, mas também das preocupações que lhes
causamos, da energia que lhes extraímos.
Com essas palavras
tentei construir um perfil fiel da minha querida mãe Noêmia Cordeiro de Souza.
Ela vivenciou tudo o que descrevi acima. Minha mãe mostrou-nos o
verdadeiro significado da dedicação. Em cada obstáculo que surgiu em seu
caminho, ela nunca desistiu. Sua força de vontade e determinação eram
inabaláveis, e seu amor incondicional era uma luz que nos guiava.
Ela enfrentou desafios
financeiros e momentos de incerteza, mas nunca perdeu a esperança. Recordo-me
que houve uma época que vendia perfumes e vasilhas da tupperware para
complementar o orçamento da família. Seus filhos eram sua razão de viver. Ela
trabalhou arduamente para proporcionar-lhes um futuro melhor, mesmo quando o
mundo parecia conspirar contra ela.
Em 2002, aos 51 anos
minha mãe sofreu um AVC, que paralisou um lado do seu corpo. Fiquei assaz
apreensivo. Após uma noite insone, em que fiquei preocupado com o estado de
saúde dela, li pela manhã o Salmo 23, o famoso Salmo do Pastor. Enquanto lia,
pensava: “Será que mamãe vai nos deixar? E se ela morrer? Tenho uma irmã com 13
anos de idade, que ainda precisa muito dela. Como será a vida de minha irmã
mais nova Rayane Cordeiro de Souza, sem mamãe? Em meio a essa angústia li a
expressão “(...) nada terei falta” (Salmos 23:1). E me concentrei na
leitura: “O Senhor é o meu pastor; de nada terei falta. Em verdes pastagens me
faz repousar e me conduz a águas tranquilas; (...) Sei que a bondade e a
fidelidade me acompanharão todos os dias da minha vida, e voltarei à casa do
Senhor enquanto eu viver” (Sl 23:1, 2 e 6, NVI).
Tinha esses versos
memorizados, pois precisava de algo que amenizasse meus temores. E me apeguei
durante todo o tempo em que minha mãe esteve doente. Todos os dias pedia a Deus
que a curasse. Naquele ano (não lembro mais o dia e o mês), recebi um
telefonema de minha irmã Roberlane Cordeiro de Souza que informou que ela não
estava bem, e que encontrava-se no hospital para submeter-se a uma cirurgia
para a retirada de mioma. Ela falou ainda que seu eu quisesse vê-la ainda com
vida fosse lá. O pensamento de perdê-la doía tanto que eu mal conseguia puxar o
fôlego entre um soluço e outro. Então clamei a Deus: “Senhor Jesus, Tu sabes o
quanto eu desejo que minha mãe viva, por isso peço-Te que cures minha mãe. Eu
não quero que mamãe morra, mas não sei como orar”.
Contei a situação de
minha mãe as minhas duas amigas Vânia Higino e Luzinete Carvalho, que me
orientaram a ir rapidamente ver minha mãe em Pernambuco. O valioso conselho
daquelas irmãs em Cristo e amigas foi fundamental para que eu tomasse a decisão
de ir ver minha mãe. Sou eternamente grato a essas preciosas amigas. Um dia
depois da minha chegada ao Cabo, fui com meu irmão Roberval André de Souza visitá-la
no IMIP (Instituto de Medicina Integral), em Recife. Ao chegar lá, encontrei minha
querida mãe. Que emoção! Que alegria para nós! Que abraços gostosos! Vi a
alegria estampada no seu rosto por me ver ali. Recordo-me que ela nos apresentou
para sua colega de quarto, com as seguintes palavras: “Esses são os meus dois
gatos!” Mas, ao mesmo tempo fui tomado por um sentimento de tristeza ao ver
minha mãe tão debilitada, com andar trôpego, resultante do derrame que havia
sofrido. Eu contive minhas lágrimas. Eu não queria que ela me visse chorando, e
aumentasse o seu sofrimento. Ela precisava da minha força naquele momento.
Ficou vários dias naquele hospital. Sua pressão arterial estava descontrolada.
Ela era hipertensa. Somente depois que a sua pressão foi controlada, os médicos
puderam realizar a cirurgia para retirar o mioma. Minha mãe teve oito filhos e
lutou por eles. Penso que ela lutou pela família, mais até do que por si mesma.
Aquele dia no IMIP
marcou indelevelmente minha vida. Nunca vou esquecer aquele encontro. Foi o meu
último encontro em que ela falava e estava lúcida. Meses depois sofreria o
segundo, terceiro e quarto derrame que lhe tiraria sua capacidade motora, sua
fala e memória.
Em junho de 2004,
recebi um outro telefonema de minha irmã Roberlane Cordeiro. Usando quase as
mesmas palavras dois ano antes, informou-me que nossa mãe ficou muito doente e
que estava hospitalizada, que eu precisava ir ao Cabo de Santo Agostinho se
quisesse vê-la ainda com vida. E Deus novamente usou um texto das Sagradas
Escrituras para ajudar-me. Dessa vez foi o profeta Daniel. Li a corajosa
resposta de Sadraque, Mesaque e Abednego deram ao rei, a caminho da fornalha de
fogo ardente: “Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos
culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das suas mãos, ó rei. Mas, se ele não
nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos seus deuses nem
adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer" (Daniel 3:17,18, NVI).
As palavras de
Sadraque, Mesaque e Abednego me deram coragem para orar: “Senhor, por favor,
cura minha mãe. Tu tens poder para restaurar sua saúde. Mas, faça-se a Tua
vontade. Não importa o que acontecer, continuarei a Te amar e a Te servir.”
No dia 20 de junho de
2004, viajei ao Cabo de Santo Agostinho/PE para ver minha mãe, que se
encontrava em coma no Hospital São Sebastião.
Fui ao hospital vê-la nos dias 22 a 24. Ela não mais se movia nem
falava. Ao vê-la naquele leito do hospital definhando e inerte tive a certeza
de que minha mãe guerreira e batalhadora, e que amava muito estava bem próximo
de encerrar sua vida aqui. A certeza de que aquela indesejada
despedida estava chegando aumentava a cada dia de internação. Eu não queria que
ela partisse, mas, no fundo, eu sabia que não sairia mais daquele hospital com
vida.
Nessa hora difícil, eu
precisava de Deus mais do que nunca. Abri a Bíblia e li: “(...) Transformarei o lamento
deles em júbilo; eu lhes darei consolo e alegria em vez de tristeza” (Jeremias
31:13). No dia 25, fui pela tarde ao hospital novamente. Quando cheguei
lá, sentei ao lado do seu leito, peguei em sua mão, desabei. Uma colega de infância e vizinha nossa
chamada Adma tentou me consolar, mas não consegui segurar. Chorei copiosamente.
Eu queria orar, mas o que devia pedir? Então clamei: Senhor, salva minha mãe!
Tenha misericórdia dela! Senti que a misericórdia do Senhor se estendeu sobre
nós. Isso não mudaria minha dor, mas me ajudaria a suportá-la. Mais tarde, li Lamentações
3:22, que diz: “As misericórdias do SENHOR são a causa de
não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim”.
Imaginando que ela
ficaria mais tempo naquele estado de coma, decidi voltar para minha casa, em
Lagarto, Sergipe. Tomei o ônibus à meia-noite do dia 24 de junho, na Rodoviária
do Recife. Ao chegar em casa, na manhã do dia 25, minha esposa, Ana Claudia, me
deu a pior notícia que já recebi: Minha mãe tinha morrido. Ela morreu na madrugada
do dia 24 para 25 de junho de 2004, enquanto viajava de volta para Lagarto. Não
tinha mais como voltar para o Cabo de Santo Agostinho para acompanhar o
velório. A dor de não ter podido participar do velório de mamãe
foi uma experiência extremamente dolorosa e angustiante. A
sensação de impotência e a tristeza de não estar presente para prestar minhas
últimas homenagens e buscar consolo nos rituais de despedida foram avassaladoras.
Infelizmente, tivemos
que dizer adeus à mãe mais forte e maravilhosa que conheci. Não poderia estar
mais impressionado por sua força e me sinto um afortunado por tê-la como minha
mãe. Foi uma grande tristeza para mim, para meus irmãos, para sua mãe Deutrudes
Cordeiro (que faleceu meses depois), seus irmãos e amigos. Ao longo do ano
fartei-me de chorar. Eu havia vivido o ano mais triste e difícil da minha vida.
E durante esse tempo Deus usou os as promessas constantes na Bíblia Sagrada
para trazer-me conforto.
Convivi com ela apenas
19 anos da minha vida, pois em fevereiro de 1993, viajei para morar na cidade
de Lagarto, em Sergipe, onde até hoje vivo. No dia 23 de janeiro de 1994, minha
mãe escreveu uma pequena carta para mim. Nesta linda carta ela expressa muita
preocupação e tristeza por eu, à época, está sozinho em Lagarto. Num trecho da
Carta ela diz: “(...) Naquele dia que você me telefonou entrei em depressão só
em lembrar que estava sozinho sem família. Espero que tenha encontrado alguém
que [lhe dê] palavras de conforto. [...] Termino aqui estas poucas linhas com o
coração cheio de saudades. A próxima te dou mais notícias. Eu te abençoo”. Esta carta da minha mãe causou-me uma
impressão tão grande que a guardo com muito carinho. Vi muito amor nela. Ela me
abençoou. E essa bênção me acompanha até hoje. Foi graças as suas orações e sua
bênção que tenho dois empregos públicos (professor concursado das Redes
Estadual e Municipal) e construí uma família maravilhosa.
Seu legado não está
apenas nas histórias que compartilhamos, mas também nas lições que aprendemos.
Ela nos ensinou a valorizar o que realmente importa: a fé em Deus, o amor, a
família e a solidariedade. Suas palavras de encorajamento e de amor ecoam em
nossos ouvidos, nos momentos em que precisamos de coragem para enfrentar os
desafios que a vida nos apresenta. Não obstante estar afastada da igreja de sua
infância, algumas vezes entrei em seu quarto, à noite, e a vi de joelho orando
a Deus. Mesmo afastada de sua igreja nunca perdeu a fé e continuou com o hábito
espiritual de orar a Deus. Nunca perguntei a ela pelo que orava, mas certamente,
entre seus pedidos a Deus estava por sua família. Acredito profundamente que as
orações de uma mãe acompanham seus filhos neste mundo, e adiante através dos
portais da Nova Jerusalém para o eterno mundo por vir.
Também recordo-me com
carinho as vezes que sentei ao seu lado, no sofá de casa, e ela me ensinou
alguns hinos da Harpa Cristã, hinos que ela tinha aprendido em sua adolescência
na Igreja Assembleia de Deus. Aqueles dias em que me ensinou os cânticos ficaram
marcados para sempre em minha mente, e especialmente o hino: “Breve Vem o Dia”,
Harpa Cristã, nº 371. É muito significativa e inspiradora a letra do hino:
1. Breve vem o grande
dia
Em que lutas findarão
Todos males, agonias
Deste mundo cessarão
Coro: Cessará no céu o pranto
Pois não haverá mais
dor
E ouvir-se-á o canto
Dos remidos do Senhor!
2. Oh! Que gozo, estar
com Cristo
Escutando a Sua voz!
Eu almejo hoje isto
E segui-lo sempre após!
3. Se Jesus Cristo é
meu guia
O caminho hei de
trilhar
Quem assim em Deus
confia
Lá no céu há de chegar
Aquela atitude de oração de minha mãe, os cânticos que me ensinou nunca saíram da minha memória. Certamente, suas lições, sua força diante do sofrimento, simplicidade e orações moldaram a vida de seus filhos e nos guiaram pelos caminhos da vida. Somos o que somos hoje, graças a nossa mãe.
Acredito profundamente
que as mães receberam de Deus o poder de moldar o caráter dos filhos para o
tempo e a eternidade, poder esse que ultrapassa nossa imaginação. A escritora
cristã Ellen G. White escreveu: “Depois de Deus, o poder da mãe para o bem é
a maior força conhecida na Terra” (O
Lar Adventista, p. 240).
Minha mãe foi uma
guerreira incansável, uma verdadeira inspiração para todos que a conheceram. Sinto
falta dela mais do que as palavras podem dizer. Sinto falta das conversas que
sempre tivemos e das gargalhadas na varanda de casa, no Cabo de Santo
Agostinho/PE. Do nosso dia a dia, do seu abraço, da sua graça, da sua comida
saborosa (na época de São João preparava a canjica, mungunzá e cozia milhos),
de sua maneira simples de contar as coisas, da sua presença maravilhosa. Quando
a morte arrebatou-a um grande vazio foi aberto em minha alma. Acho que esse
espaço nunca será preenchido e a lembrança dos bons momentos e daquilo que
vivemos e aprendemos consegue me dar conforto. Ela viverá para sempre no meu
coração e no coração dos meus outros sete irmãos. Embora a saudade seja imensa,
encontramos conforto ao saber que ela “morreu no Senhor” (1Ts 4:16; Ap 14:13),
sabendo que, nós, seus filhos seguiremos seu exemplo e continuaremos honrando
sua memória.
De acordo com as
Sagradas Escrituras, quando os seguidores de Jesus morrem, eles descansam “das
suas fadigas, pois as suas obras os seguirão" (Ap 14:13, NVI). Sua
influência para o bem não para na borda da sepultura; ela segue adiante e abençoa
o mundo. As obras da mãe a acompanham. Ela, mesmo estando morta, “ainda fala”
(Hb 11:4). Por seu exemplo, em algum momento de crise, um filho toma a decisão
de fazer as coisas certas, em favor de Cristo, e uma de suas filhas busca o
auxílio de Deus.
Minha mãe, anos antes
de seu falecimento, tinha voltado para Jesus Cristo, aceitando-O novamente como
Senhor e Salvador de sua vida. Portanto, descansou no Senhor. Tenho a esperança
bíblica de que um dia nos encontraremos, não muito longe, no Novo Céu e na Nova
Terra. Caminharemos pelas ruas de ouro da Santa Cidade que Deus preparou para
aqueles que O amam (Ap 21). Estaremos juntos por toda eternidade sem fim com o
nosso compassivo Salvador Jesus e todos os remidos do Senhor.
Caro amigo leitor, esta
separação que nos causa tanta dor não será eterna. Quando nosso querido Jesus
voltar em glória e Majestade poderemos reencontrar todos os nossos queridos que
morreram em Cristo, se crermos em Jesus. "Promete-se um reencontro entre
pais, filhos e amigos. Veremos novamente os nossos filhos. Encontrar-nos-emos
com eles e os reconheceremos nos átrios celestiais" (Ellen G. White, Carta
196, 1899). Esta ESPERANÇA está baseada sobre um sólido e indestrutível
fundamento... Sim, ela se baseia na realidade de um Cristo vivo (I Co 15:4). A
ressurreição do Senhor é o fundamento de nossa esperança (I Ped. 1:3; I Co
15:12-19). Assim como Deus, o Pai, trouxe Jesus, nosso Salvador, dentre os
mortos na manhã de Sua ressurreição no jardim, fora dos muros de Jerusalém,
assim com Ele também trará nossos queridos mortos à vida novamente, quando
voltar a segunda vez. Ela também está fundamentada no prometido e esperado
retorno do Senhor à Terra (I Tes. 1:10; Atos. 1:10, 11).
Haverá, então, uma
feliz e eterna reunião! Viveremos por toda a eternidade sem fim com todos os
remidos de todos os tempos. No Mundo do Amanhã que Deus trará para todos os que
crerem nele não haverá mais morte. Ele nos promete: “Ele enxugará de seus olhos toda
lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor;
porque já as primeiras coisas são passadas." (Ap 21:4).
Oh, como almejo esse dia! Vem, Senhor Jesus!
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