NOSSA VIDA NA “CAVERNA DE ADULÃO”: QUE ESPÉCIE DE INFLUÊNCIA EXERCEMOS?
Ricardo André
1.
Introdução
Nesse artigo vamos
refletir sobre um episódio marcante na vida do rei Davi, descrito no livro de 1
Samuel, capítulo 22, versículos 1 e 2. Neste trecho, encontramos um exemplo
inspirador de como é possível encontrar força e encorajamento mesmo em meio à
adversidade. Vamos explorar juntos as lições que podemos extrair dessa
passagem.
O texto diz: “Davi fugiu da cidade de Gate e foi para a
caverna de Adulão. Quando seus irmãos e a família de seu pai souberam disso,
foram até lá para encontrá-lo. Também juntaram-se a ele todos os que estavam em
dificuldades, os endividados e os descontentes; e ele se tornou o líder deles.
Havia cerca de quatrocentos homens com ele” (1 Samuel 22:1,2, NVI).
Antes de mergulharmos
no texto, é importante entender o contexto em que Davi se encontrou. Após matar
Golias, Davi foi convidado a ficar no palácio de Saul, onde aprendeu sobre
governar o reino de Israel, incluindo a arte de guerrear. Anos depois, ele
havia sido ungido por Samuel para ser o próximo rei de Israel, mas até então,
Saul ainda ocupava o trono. Saul, sentindo-se ameaçado pela popularidade
crescente de Davi, buscava matá-lo. Infelizmente, o ciúme de Saul levou Davi ao
exílio. Ele encontrou refúgio em uma caverna chamada Adulão, onde se encontrou
com uma companhia especial. Que situação mais triste, estar sendo perseguido, e
ter que viver por algum tempo escondido dentro de uma caverna. É nesse ponto da
vida de Davi que encontramos a história da passagem bíblica que queremos
analisar.
2.
A “caverna de Adulão” é uma realidade da existência humana
Como se vê, foi numa
circunstância adversa que Davi vai se refugiar na caverna de Adulão, que ficava
a “26 km a sudoeste de Jerusalém [...]. A cidade fica na extremidade oriental
do vale de Elá, onde Davi enfrentou o gigante filisteu” (Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 2, p. 601). Foi num
momento de desânimo, em que sua vida encontrava-se em perigo que Davi foge para
a caverna. Em nossas vidas, muitas vezes, depois de lutarmos e perseverarmos
por muito tempo para alcançarmos nossos objetivos, nossas emoções nos desanimam
e nos levam a entrar em cavernas. Na realidade, ninguém corre pra caverna pra
dar um banquete ou para celebrar uma vitória. Corre pra fugir, pra se esconder,
para sobreviver. Refugiar-se nas “cavernas da vida” tem sido uma experiência
constante da existência humana, desde a entrada do pecado no mundo. Em alguns
momentos da nossa vida, certamente poderemos esperar situações semelhantes como
esta de Davi. Não que tenhamos que fugir fisicamente de alguém e nos
escondermos para preservarmos nossa vida, como Davi o fez, mas nos encontramos
com nosso coração triste, com tantos problemas e olhamos para o que está a
nossa volta e não sabemos como sair daquela situação, que direção seguir,
parece que estamos presos aos nossos próprios pensamentos e nada que possa nos
ajudar a sair daquele momento parece acontecer. O tempo vai passando e não
acontece aparentemente nada. Não adianta querermos mascarar a situação e
acharmos que tudo está bem e ficarmos disfarçando para as pessoas que convivem
conosco, tentando sorrir, quando na realidade em nosso íntimo estamos muito
tristes e desanimados.
Muitas vezes somos
confrontados com a perda de um emprego, não conseguimos fazer a faculdade do
sonho, o fim do casamento, conflito com os filhos, sonhos se desfazem, crise
financeira, a perda de um ente querido ceifado pela morte, um diagnóstico de
uma doença grave e a morte nos ameaça. Nessas ocasiões, muitas vezes, os amigos
e irmãos de fé desaparecem. Então, somos tomados pelo sentimento de derrota
quando vemos as coisas conspirarem contra nós. Em nossa desorientação e
perplexidade, fugimos para a “caverna de Adulão”. Mas não dá pra ficar lá pra
sempre. É preciso desejar o tempo de sair. Na caverna a gente espera, mas se a
espera não for alimentada por um sentimento de reação, a morte é iminente.
3.
Sair da caverna é preciso
Diante das dificuldades
da vida às vezes nos escondemos em algumas cavernas: decepção, desilusão,
desesperança, tristeza, falta de perspectiva, desânimo e especialmente falta de
direção. Caro amigo leitor, em que caverna você está? A caverna do desânimo? A caverna do rancor? A
caverna da falta de perdão? A caverna da tristeza? A caverna das frustrações? A
caverna do medo? A caverna da incredulidade? Realmente não sei em que caverna
você está, mas uma coisa eu sei: você pode sair dessa caverna, do mesmo jeito
que Davi saiu. Ele mesmo conta como lidou com as circunstâncias difíceis: “Meu
coração está firme, ó Deus [...], cantarei ao som de instrumentos! Acorde,
minha alma! Acordem, harpa e lira! Vou despertar a alvorada! Eu te louvarei, ó
Senhor, entre as nações; cantarei teus louvores entre os povos. Pois o teu amor
é tão grande que alcança os céus; a tua fidelidade vai até às nuvens” (Salmos
57:7-10, NVI).
Ao longo de sua
jornada, Davi nunca perdeu de vista a importância de buscar refúgio em Deus.
Ele entendeu que, apesar das circunstâncias adversas, Deus era o seu verdadeiro
refúgio e fortaleza. Em meio à confusão e ao perigo, Davi encontrou força e
coragem na presença de Deus. Ele confiou que, mesmo nas situações mais difíceis,
Deus estava com ele.
É importante que se
entenda que, a “caverna” faz parte da rota, quase que uma parada obrigatória.
Árduo, árido, difícil, quente, frio, perigoso e seco. Porém, não é o seu
destino, é só parte do caminho. Não é lá o seu repouso e você só deve estar lá
de passagem. Em Apocalipse 12:11 encontramos
o segredo para encontrarmos força para sairmos da caverna, que diz: “Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e
pela palavra do testemunho que deram; diante da morte, não amaram a própria
vida” (NVI). “Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro”. Esta frase é muito
significativa. As Sagradas Escrituras estão afirmando aqui que os cristãos do
passado, que sofreram perseguição, injúria e morte, venceram não pela própria
força, mas “por causa do sangue do Cordeiro”. Ou seja, “com base no sangue” de
Jesus vertido na cruz do Calvário. Ele venceu o pecado e Satanás na cruz e
continua triunfando hoje e o vencerá definitivamente no fim da história. Pelo
poder transformador do sangue de Jesus podemos também vencer a tentação, o
pecado, superar a dor das perdas, das desilusões, frustrações, os infortúnios
da vida, enfim. E ainda, por viver Jesus em nós, tornamo-nos testemunhas vivas
para Ele. Em outras palavras, os filhos de Deus vencem por causa da vitória
conquistada por Cristo no Calvário.
Portanto, nosso grande
segredo para vencer é apegar-nos a Cristo. Sim, na hora da crise, da angústia e
da dor; quando tudo parece estar se desmoronando, quando tudo falha, é hora de
buscarmos a Deus; é hora de nos apegarmos, pela fé, à mão de Jesus para
superarmos os problemas e encontrar novos significados para eles. Quando tudo
falha, quando nossa vida está um verdadeiro farrapo, não devemos
desistir, pois temos a promessa da presença de Deus, motivando-nos,
inspirando-nos, concedendo-nos poder. Devemos continuar até alcançar o lugar
que Deus designou para nós. Lá encontraremos Jesus, o maior exemplo de
resiliência e resistência ante o sofrimento. Diz a Bíblia a respeito dEle:
“[...] Ele não deixou que a cruz fizesse com que ele desistisse. Pelo
contrário, por causa da alegria que lhe foi prometida, ele não se importou com
a humilhação de morrer na cruz e agora está sentado do lado direito do trono de
Deus” (Hb 12:2, NTLH).
Ainda que não
consigamos fazer a faculdade do sonho, o emprego tão almejado, a restauração do
nosso casamento, a cura de uma doença crônica, devemos permanecer fiel,
confiando que os mesmos braços que foram pregados na cruz por nós em breve se
estenderão para dar-nos as boas-vindas no Céu, concedendo-nos a herança
imortal.
4.
Os seguidores de Davi na Caverna de Adulão
Agora, quero chamar a
atenção de todos para as pessoas que se reuniram em torno de Davi: todos os que
estavam em dificuldades, os que tinham dívidas, todos os descontentes. Note
que, quando Davi escapou para a caverna, ele atraiu o aflito e o descontente,
mas pelo exemplo da dependência de Deus, ele transformou seus homens em
efetivos guerreiros – e líderes. Davi, mesmo enfrentando a tentação e vivendo
em uma caverna, não se entrega ao desespero. Em vez disso, ele assumiu a
liderança e se tornou um capitão para aqueles homens. Ele transformou aquele
grupo de pessoas desesperadas em um exército de valentes guerreiros. Davi
inspirou confiança e encorajou seus companheiros a não desistirem diante das
dificuldades.
Quando Davi subiu ao
trono, eles estavam preparados para assumir a liderança da nação. “Quando
disseram a Davi que os filisteus estavam atacando a cidade de Queila e
saqueando as eiras, ele perguntou ao Senhor: "Devo atacar esses filisteus?"
O Senhor lhe respondeu: "Vá, ataque os filisteus e liberte Queila". Os
soldados de Davi, porém, lhe disseram: "Aqui em Judá estamos com medo.
Quanto mais, então, se formos a Queila lutar contra as tropas dos
filisteus!" Davi consultou o Senhor novamente. "Levante-se",
disse o Senhor, "vá à cidade de Queila, pois estou entregando os filisteus
em suas mãos". Então Davi e seus homens foram a Queila, combateram os
filisteus e se apoderaram de seus rebanhos, impondo-lhes grande derrota e
libertando o povo de Queila” (1Sm 23:1-5, NVI).
A força e o valor
daqueles que seguiram Davi à caverna de Adulão continuaram. Eles prosseguiram
conquistando as nações de Canaã, aniquilando os gesuritas, gersitas e os
amalequitas. Eles também foram bem-sucedidos ao escaparem do rei Saul. “Davi
permaneceu nas fortalezas do deserto e nas colinas do deserto de Zife. Dia após
dia, Saul o procurava, mas Deus não entregou Davi em suas mãos” (1Sm 23:14, NVI).
No decorrer da
história, constatamos que o grupo de Davi aumenta de 400 para 600 pessoas (1Sm
23:13).
Na caverna, Davi se
esconde para fugir de Saul, mas também é lá que ele forma seu poderoso
exército. Soldados fortes e treinados? Não: homens amargurados, oprimidos e
endividados, mas em vez de esperarem a morte, decidiram usar seu tempo lá
dentro para se fortalecerem. Sim, fugindo dos seus opressores, escondidos de
seus problemas, se esquivando de lutas antigas e se preparando para lutas
novas. Os homens que saíram de lá, não são mais um bando de derrotados
fugitivos, mas um exército de valentes. Eu não conheço mais nenhum exército tão
exaltado na Bíblia como o de Davi. Tudo começou na caverna, mas não é lá que as
coisas devem terminar. Um reino está a sua espera.
5.
Duas perguntas de capital importância
A experiência de Davi
nos confronta com duas perguntas: que tipo de pessoas atraímos? O que acontece
com essas pessoas quando se associam a nós?
Olhe para a sua vida.
Pense nas pessoas que vivem ao seu redor como amigos ou colegas de trabalho.
Que espécie de pessoas são? São realizadoras e visionárias? Ou são descontentes
e insatisfeitas? Você já reparou que as pessoas tendem a nos julgar não somente
pelos amigos que escolhemos, mas também pelas pessoas que atraímos como colegas
ou mesmo pela escolha de empregados?
Nessa primeira questão
há, implicitamente, outra: Que tipo de pessoas somos? Nunca vamos atrair os
otimistas se somos sombrios e pessimistas. Nunca vamos atrair os visionários se
não vemos esperança. Nunca captaremos a imaginação e o entusiasmo das pessoas
ao nosso redor se ignoramos as oportunidades e nos concentramos em nossos
problemas.
Então, há uma segunda
pergunta: O que acontece com as pessoas que se associam conosco? Nossos pais
sempre nos dizem para sermos cuidadosos ao escolhermos amigos por causa da
influência deles sobre nós. Mas a história de Davi também nos desafia a pensar
sobre como influenciamos as pessoas. Vemos nessa história que os aflitos e os
descontentes não precisam permanecer em seu descontentamento! Podemos
influenciá-los. Algumas vezes, pergunto-me se damos tão pouca atenção ao que se
refere à influência das associações que estabelecemos. Se tal como é sugerido pelo
apóstolo Paulo (2Co 3:18), tornamo-nos como as coisas que admiramos, então
influenciaremos aqueles que olham para nós!
Sobre isso, a escritora
cristã Ellen G. White afirma: “Se não estamos unidos a Cristo, desperdiçamos
tudo. Todos exercemos uma influência, e essa influência conta sobre o destino
de outros, para o seu bem presente e futuro ou para a perda de sua vida eterna”
(Testemunhos Para a Igreja. v. 3, p. 528).
Ela ainda afirmou: “Todo
o ato de nossa vida afeta a outros para bem ou para mal. Nossa influência tende
a elevar ou a rebaixar; ela é experimentada, posta em prática e, em maior ou
menor escala, reproduzida por outros. Caso por nosso bom exemplo, ajudemos
outros no desenvolvimento de bons princípios, damos lhes poder para fazer o
bem. Por sua vez, eles exercem a mesma influência benéfica sobre outros, e
assim centenas e milhares são afetados por nossa inconsciente influência” (Testemunhos Para a Igreja. v. 2, p. 133).
São o nosso otimismo,
nossa visão, imaginação e fé contagiosos? As pessoas que se associam conosco
são mais dependentes do Senhor Jesus ou mais indiferentes com as Suas
exigências para nós? Estão mais descansadas em Sua bondade e graça? Estão mais
determinadas a cumprir as Suas ordenanças? Estão mais ávidas para edificar o
Seu reino?
Ainda sobre a poderosa
influência que exercemos sobre as pessoas, Ellen G. White escreveu: “Você pode
nunca saber o resultado de sua influência do dia a dia, mas tenha a certeza de
que ela é exercida para o bem ou para o mal [...]. Jogue uma pedrinha no lago e
uma onda está formada, e outra e outra; e como elas aumentam, o círculo se
alarga até que elas alcançam a margem. Assim é a nossa influência, embora
aparentemente insignificante, pode continuar a se estender para além do nosso
conhecimento ou controle” (Review and
Herald (24 de Janeiro de 1882).
Que tipo de pessoas
atraímos? O que acontece a elas quando se associam a nós?
6.
Conclusão
Desertos e cavernas
fazem parte do aperfeiçoamento da nossa vida cristã. Mas de nada vale a
passagem por lá se não for o lugar do seu encontro com Deus. Podemos fugir da
nossa dor, nos esconder dos nossos problemas, mas não escapamos dos olhos do
Pai e nem do seu amor. Na caverna Deus te acha, no deserto Ele te vê e te
sustenta. Sim, Ele entende que existe um tempo pra você se recompor, mas quando
esse tempo chegar ao fim e ele te chamar pra fora, saia. Quando a caminhada no
deserto chegar ao fim, celebre.
Assim como Davi
enfrentou dificuldades imensas na caverna de Adulão e encontrou uma comunidade de apoio, pessoas
que compartilhavam de suas lutas e o incentivavam em seu propósito, é essencial
buscar a comunhão com outros cristãos durante as adversidades. Encontre uma
igreja ou grupo de apoio onde possa compartilhar suas lutas e encontrar
encorajamento mútuo.
Mesmo quando estamos
passando por momentos difíceis, podemos exercer uma influência positiva na vida
das pessoas ao nosso redor. Não se deixe abater pela adversidade, mas inspire
outros a perseverar e confiar em Deus.
Não importa quão grande
seja a adversidade que enfrentamos, nunca devemos esquecer de buscar refúgio em
Deus. Ele é o nosso abrigo seguro é a nossa fonte de força e coragem (Sl 46:1).
Confie em Sua fidelidade e entregue suas preocupações e medos a Ele.
Caro amigo leitor,
assim como Davi encontrou força na caverna de Adulão, podemos encontrar
encorajamento e esperança nas dificuldades difíceis que enfrentamos. Lembremo-nos
de que Deus está conosco em todas as circunstâncias e que Ele pode transformar
nossas adversidades em oportunidades de crescimento e testemunho. Que o exemplo
de Davi nos inspira a buscar comunhão, praticar liderança e buscar refúgio em
Deus, encontrando força na adversidade. Ele está sempre pronto para te ajudar,
te libertar da caverna da tristeza, da decepção, das angústias e ansiedades
desta vida e te dar uma direção, uma nova vida, uma esperança que você nem
imagina acontecer!
Confie a tua vida, o
teu clamor, nas mãos de Deus que pode certamente te ajudar e dar a direção que
você precisa seguir! Que Deus nos abençoe e nos capacite a enfrentar os
desafios da vida com fé e coragem!
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