TODOS SEREMOS SALVOS?
Joel Iparraguirre* e Christian Varela**
O universalismo e a
relação entre amor e justiça nas Escrituras
Nos últimos anos,
ressurgiu uma crença cuja premissa fundamental afirma que Deus salvará todos os
seres humanos, independentemente da condição em que se encontrem, mesmo que
continuem a pecar e não tenham sido transformados pelo Espírito Santo. Essa
abordagem é conhecida como universalismo (apokatastasis) ou restauracionismo.1
Mas, afinal, todos seremos salvos? O que a Bíblia diz sobre isso? Com o
objetivo de responder a essas perguntas, vamos rever quais são os argumentos
bíblicos e teológicos do universalismo, além de apresentar sua hermenêutica e
filosofia. Depois, analisaremos essa crença à luz das Escrituras.
Argumentos
teológicos
Os universalistas
utilizam vários conceitos bíblicos para validar a ideia de restauração
universal. Por exemplo: Deus deseja salvar a todos (Gn 12:3; Ez 33:11; 1Tm 2:3;
2Pe 3:9);2 Deus é amor e Sua graça é infinita (1Jo 4:8, 16; cf. Sl
103:8; 1Co 13:4-8); e a morte expiatória de Cristo pagou os pecados de todos
(Jo 12:32; 1Co 15:22, 23; Hb 2:9; 1Jo 2:2). Portanto, todos os seres humanos
serão aceitos e recebidos na Nova Jerusalém. Da mesma forma, o ser humano terá
a oportunidade de aceitar a graça divina até mesmo depois da morte (1Pe
3:18-21; 4:6) ou depois do milênio.3 Os universalistas também
declaram que as palavras de Pedro em Atos 3:21 comprovam a restauração final de
toda a criação.4
Além disso, para os
universalistas, a soberania de Deus é um aspecto fundamental no processo de
reconciliação universal (Ef 1:11). Como um Deus amoroso, justo e onisciente,
Ele não criou os seres humanos para castigá-los eternamente ou extingui-los. A
Sua bondade exige a salvação de todos os seres racionais. Em Sua onisciência, o
Senhor fará o impossível para salvar cada pecador (2Cr 20:6; Pv 19:21; Is
46:10; Mt 19:26). O caráter misericordioso de Deus seria incoerente se Ele não
fosse capaz de salvar toda a Sua criação.
Por outro lado, eles
pretendem defender o livre-arbítrio humano ao dizer que Deus não força a
vontade de Suas criaturas, mas que elas mesmas são guiadas para que aceitem a misericórdia
divina.5 Eles também não negam as consequências do pecado, a ira
divina nem a existência de um castigo. No entanto, esse castigo tem como
finalidade purificar e corrigir o pecador.6 A punição é real, mas
temporária. O propósito da justiça divina para Sua criação não é punitivo, mas
redentivo.7
Hermenêutica
e filosofia do universalismo
Ilaria L. E. Ramelli
demonstrou que esse ensinamento é resultado da influência de vários livros
apócrifos como o Apocalipse de Pedro, os Oráculos Sibilinos, o Apocalipse de
Elias, a Epístola dos Apóstolos, e a Vida de Adão e Eva. Ainda que essas fontes
literárias não tenham abordado de forma direta o conceito da restauração
universal, foram claros antecedentes para a crença de uma intercessão e
conversão após a morte.8
Orígenes e Clemente,
dois grandes mestres do cristianismo, foram os que impulsionaram e moldaram
essa crença. Ramelli sublinhou que “a teoria da apokatastasis” se originou “no
contexto de debates filosóficos sobre o livre-arbítrio, a teodiceia e o destino
eterno das criaturas racionais”.9
Ao utilizar uma
hermenêutica alegórica, Orígenes assinalou que “o que parecia indignante ou
inapropriado devia ser interpretado espiritualmente”.10 Assim, os
textos bíblicos referentes ao castigo, à ira divina e ao fogo eterno eram
entendidos alegoricamente devido ao contexto apologético de seu tempo.11
Orígenes e Clemente
integraram a doutrina da restauração final com outros ensinamentos que deram
coerência a toda sua exposição bíblica. Entre eles, encontramos a crença da
imortalidade da alma,12 a conversão pós-morte13 e o
castigo pedagógico nesta vida e depois dela.14 Finalmente, eles
apontaram que o amor divino venceria a infidelidade do pecador.15
Por isso, a punição era considerada um processo de purificação.16
Os pensadores
universalistas atuais provavelmente rejeitariam a hermenêutica alegórica e a preexistência
das almas; no entanto, é impossível negar que existam semelhanças no uso que
fazem das Escrituras e nas pressuposições filosóficas e teológicas.
A
Bíblia apoia a teoria universalista?
Estamos convencidos de
que a Bíblia não apoia essa crença. De fato, acreditamos que muitos dos textos
usados pelos universalistas (por exemplo, Jo 1:29; Rm 5:18; 1Tm 4:10; 1Co
15:22; Hb 2:9; 1Jo 2:2, entre outros) realmente apontam para uma expiação
universal, não para a ideia de que todos serão salvos.17 O contexto
imediato e canônico torna impossível a perspectiva universalista sobre a
salvação.
As Escrituras afirmam
que a vida eterna está condicionada à justificação e santificação em Cristo
durante nossa vida aqui na Terra (Jo 5:21; 15:1-5; Jd 21; 1Co 15:53; 1Jo 5:20;
Ap 22:14). Isso sugere que nem todas as pessoas aceitarão a Cristo ou que nem
todos serão santificados pelo Espírito em obediência à Sua vontade (At 5:32; Ef
1:3-14). Essa é uma das razões pelas quais a Bíblia destaca que Jesus deu Sua
vida em resgate por muitos (Mc 10:45; 14:24 cf. Mt 20:28; Hb 9:28). Cada pessoa
escolhe qual será seu destino final (Dt 30:15-19; Mc 16:16; Jo 6:35; Ap 21:6;
22:17).
Ao propor a salvação de
todos em Cristo, os universalistas rejeitam as ideias levantadas anteriormente
e utilizam textos como Romanos 5:18. No entanto, uma leitura cuidadosa desse
texto mostra justamente o contrário. Ao considerar o contexto (v. 12-21),
notamos que o apóstolo Paulo contrastou duas ideias: 1) a condenação divina por
causa do pecado de Adão e 2) a salvação que se obtém mediante Cristo.
O pecado afetou todos
os seres humanos; por isso, a salvação é oferecida igualmente a todos. No
entanto, alguns a aceitam e outros a rejeitam. Assim, nem todos se salvarão,
mas somente muitos. No verso 15, Paulo declarou que “muitos morreram” e que
abundou a graça em Cristo para “muitos”. Além disso, o apóstolo afirmou que
“por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos” (v. 19).
Por outro lado, é
importante reconhecer que o uso bíblico da palavra todo(s) alude à totalidade
em sentido absoluto (Js 3:7; 1Sm 10:23; Sl 145:9; Mc 5:9, 12) ou a uma
quantidade geral sem implicar plenitude (Dt 28:12; Is 52:10; Mc 1:5; Jo 3:26).
Esse último uso é observado em certas ocasiões com fins retóricos. Por exemplo,
Marcos 1:5 menciona que as pessoas de “toda a região da Judeia e todos os
moradores de Jerusalém” iam a João para serem batizadas “por ele no rio
Jordão”. Francis Chan e Preston Sprinkle afirmam que a palavra “todos” descrita
aqui “não significa cada uma das pessoas da Judeia – homens, mulheres e
crianças. Pelo contrário, ‘todos’ simplesmente denota um grande número de
pessoas”.18
Essa ideia encontra
apoio em outros textos bíblicos. Por exemplo, em 1 Coríntios 15:22, Paulo
afirmou que “em Cristo todos serão vivificados”, isto é, ressuscitados e
glorificados. Não se fala aqui de toda a humanidade, mas apenas dos crentes,
“dos que são de Cristo” (v. 23, NVI), os quais serão ressuscitados e
transformados em Sua vinda (cf. 1Ts 4:13-17; 1Co 15:51, 52).
O que foi dito aqui
implica que podemos perder a salvação? A resposta é “sim”. Jesus afirmou que
podemos perder a salvação se pecarmos contra o Espírito Santo (Mt 12:32 cf. Mc
3:28, 29; Hb 6:4-6; 10:26-31). Além disso, em várias parábolas se evidencia o
destino daqueles que aceitam o evangelho e dos que o rejeitam (Mt 7:13; 8:12;
22:13, 14; 24:51). Até mesmo o sermão escatológico de Jesus aponta para essa
realidade (Mt 24:31, 40, 41; 25:12, 30, 41).
Os apóstolos ensinaram
a mesma coisa. Paulo destacou que a salvação está condicionada à fé do crente e
à sua santificação (Rm 5:9; 2Co 5:10; Gl 6:7-10; Ef 1:13, 14; 2:1-10). Em sua
carta aos Filipenses, ele exortou os crentes a permanecer fiéis diante dos inimigos
da cruz de Cristo, pois o “destino deles é a perdição” (Fp 3:19). Portanto,
aqueles que não aceitam a provisão realizada por Deus (Rm 2:7, 8), simplesmente
perderão a salvação (1Co 9:23-27; 2Co 6:1; 1Ts 3:5; Gl 1:6). Por sua vez, João
assinalou que as promessas de imortalidade foram dadas aos vencedores (Ap 2:5,
7; 3:12, 21; 7:9, 14; 14:3-5; 15:2; 22:14). Em consequência, nem todos entrarão
na cidade santa por causa de seus pecados (Ap 21:8, 27; 22:11).
Enquanto estivermos
vivos, devemos tomar nossa decisão, já que a Bíblia ensina que depois da morte
não haverá possibilidade de experimentar a misericórdia e o perdão divino (Mt
25:46; Gl 6:7; 2Co 5:10; 6:1, 2; Hb 9:27). A parábola do rico e Lázaro ensina
que depois da morte não há forma de reverter as decisões tomadas em vida (Lc
16:23-31). O juízo final de Deus é irreversível!
A
justiça e o amor de Deus
Os universalistas se
perguntam como Deus pode castigar alguém ou destruir para sempre uma pessoa se
Ele é amor. Para responder a essa questão, devemos começar mencionando que a
ira divina é compatível com a misericórdia para o pecador e o justo (Êx 20:5,
6; 33:6, 7; Dt 7:9, 10; Sl 103:8; Jo 3:15-18). A ira é uma intervenção justa e
santa diante dos pecados cometidos pelos opressores do povo de Deus (Is 42:13;
59:17; Zc 1:14; Na 1:2; Sf 2:8).
A ira divina
escatológica é o castigo que receberão aqueles que rejeitaram a salvação
oferecida por Deus por intermédio de Cristo (Jo 3:36; 1Ts 1:9, 10; 2:8-12; Ap
14:9, 10). O elemento moral é importante para compreender as razões divinas da
punição, que terminará com a destruição total.
Alguns universalistas
também afirmam que Deus castigou as nações com fins redentivos e disciplinares
(Sl 78:32-39; Lm 3:31-33). Embora os castigos divinos tivessem o propósito de
restaurar, eles estavam dirigidos principalmente ao remanescente fiel (Is
10:20; 37:31; Ob 17).19 Contudo, devemos estar conscientes de que as
advertências e castigos disciplinares muitas vezes não foram efetivos por causa
da rebeldia do povo (Is 1:5; Ml 1:6, 12; 3:13, 14).
A destruição
escatológica será no lago de fogo e enxofre. Essa é uma das expressões mais
gráficas para descrever a justa retribuição de Deus a todos os infiéis e
ímpios. Ela será executada após o milênio. A morte final ou segunda morte será
a retribuição pela desobediência ao Criador; cada um morrerá por seus próprios
pecados. Depois daquela morte não haverá mais vida para aqueles que forem
condenados; ou seja, deixarão de existir eternamente.20
Portanto, é importante
ter em mente que esse fogo não é purificador. É verdade que, às vezes, a imagem
do fogo é usada metaforicamente para descrever a purificação do caráter
cristão, mas é mencionada no contexto das provas e aflições da vida (Ml 3:2;
1Co 3:13-15; 1Pe 1:7). Ao contrário, no contexto escatológico, o fogo é usado
para descrever a destruição dos pecadores.
Conclusão
Hoje, muitos cristãos
aceitam o universalismo em seu desejo de assinalar que todos – inclusive os
ímpios – serão salvos; do contrário, Deus não seria um ser amoroso como
testemunham as Escrituras. No entanto, essa concepção provém de uma inadequada
compreensão da Bíblia, influenciada por fontes apócrifas e pressuposições
teológicas e filosóficas que desvirtuam a doutrina bíblica da salvação.
A salvação está ao
alcance de todos, sim, mas as Escrituras são claras ao afirmar que muitos
aceitarão a salvação enquanto outros não o farão. Além disso, se todos fossem
se salvar, por exemplo, que sentido teria a Grande Comissão (Mt 28:19, 20) ou
as exortações para vivermos uma vida santa (Hb 12:14; 1Pe 1:15, 16)? Portanto,
somente os crentes justificados e santificados serão glorificados para viver
com Deus e o Cordeiro para sempre. Dessa forma, os textos utilizados pelos
universalistas, interpretados de maneira cuidadosa, apontam para a salvação dos
crentes fiéis, não para a humanidade em geral.
*Joel
Iparraguirre, pastor e editor da Safeliz, na Espanha
**Christian
Varela, pastor na Argentina
Referências
1. Alguns a chamaram de
“salvação inclusiva” ou “reconciliação universal”. Para mais detalhes, ver
Ilaria L. E. Ramelli, A Larger Hope? Universal Salvation from Christian
Beginnings to Juan of Norwich (Eugene, OR: Cascade Books, 2019). Para uma
crítica ao universalismo, ver Todd Miles, A God of Many Understandings
(Nashville TN: B&H, 2010), p. 95-120.
2. David Artman, Grace
Saves All (Eugene, OR: Wipf & Stock, 2020), p. 5-7. Thomas Talbott, The
Inescapable Love of God, 2ª ed. (Eugene, OR: Wipf & Stock, 2014), p. 37-48.
Robin A. Parry, “A Universalist View”, em Four Views on Hell, ed. Preston Sprinkle
(Grand Rapids, MI: Zondervan, 2016), p. 108. Keith Giles, Jesus Undefeated:
Condemning the False Doctrine of Eternal Torment (Orange, CA: Quoir, 2019), p.
95-103.
3. Artman, Grace Save
All, p. 68-77.
4. Talbott, The
Inescapable Love of God, p. 152.
5. Talbott, The
Inescapable Love of God, p. 167-189.
6. A crença de um lugar
de castigo é interpretada de maneira metafórica ou como se fosse um purgatório.
7. Jan Bonda, The One
Purpose of God. An Answer to the Doctrine of Eternal Punishment (Grand Rapids,
MI/Cambridge, U.K.: Eerdmans, 1998), p. 219. Parry, “A Universalist View”, p.
113.
8. Ilaria L. E.
Ramelli, “Origen, Bardaisan, and the Origin of Universal Salvation”, Harvard
Thelogical Review 102, nº 2 (2009): p. 135-150.
9. Ramelli, “Origen,
Bardaisan, and the Origin of Universal Salvation”, p. 168.
10. Ramón Trevijano
Etcheverría, La Biblia en el Cristianismo Antiguo (Barcelona: Verbo Divino,
2001), p. 91.
11. Manlio Simonetti,
Biblical Interpretation in the Early Church: An Historical Introduction to
Patristic Exegesis (Edinburgh: T&T Clark, 1994), p. 7.
12. Clemente, Stromata,
5, 14.91.2. Orígenes, Tratado de Principios 3.1.13; Contra Celso 3.25.33, 6.26.
13. Clemente, Stromata
6.51.2-3; 6.6.44.4-5; 6.6.47.1, 4; Clemente, Quis Dives?, 40. Orígenes, Tratado
de Principios, 3.6.3; 2.10.8.
14. Clemente, Stromata,
6. 6.52.1; 6.26.168.1-2; 7.12.78.3; El Pedagogo 1.65.1-3; Orígenes, Tratado de
Principios 2.10.4; 3.1.13; Comentario de Mateo, 14.11; Homilía sobre Ezequiel,
1.3.1; Homilías sobre Jeremías, 19.3.
15. Orígenes, De
Orationes 27.
16. Orígenes, Contra
Celso 6, 72.
17. Millard Erickson,
Teología Sistemática (Barcelona: Clie, 2008), p. 1026.
18. Francis Chan e
Preston Sprinkle, Erasing Hell (Colorado Springs, CO: David C. Cook, 2011), p.
29.
19. John G. Stackhouse
Jr. “A Terminal Punishment Response”, em Four View of Hell, ed. Preston
Sprinkle (Grand Rapids: Zondervan, 2016), p. 135.
20. Para mais detalhes,
ver Christian Varela, “El destino final de la humanidad: Resurrecciones,
segunda muerte e inmortalidad en el Apocalipsis”, em Um Pouco Menor Que Anjos:
Multileituras bíblico-antropológicas, ed. Carlos Olivares y Karl Boskamp (São
Paulo: Editora Reflexão: 2021), p. 293-312.
FONTE: Revista Ministério
Mar-Abr 2023.
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