A EQUIVOCADA CONCEPÇÃO FILOSÓFICA DE KARL MARX ACERCA DA RELIGIÃO
Ricardo André
Karl Marx (1818-1883), foi um grande filósofo e
sociólogo do século XIX, cujas ideias revolucionaram o pensamento filosófico,
rompendo barreiras e desvelando as contradições do modo de produção
capitalista, que é baseado na exploração do homem pelo homem. Em sua análise, mostrou
que o sistema capitalista é
perverso e injusto, pois perpetua a exclusão e a miséria entre milhões de pessoas
no mundo enquanto alguns ricos burgueses esbanjam muito mais do que precisam
para viver. E essa
exploração da classe trabalhadora (classe dominada) por parte da burguesia
(classe dominante) é o único meio desta lucrar.
Ainda segundo Marx, nesse tipo de sociedade os
trabalhadores precisam se submeter à burguesia. Recebem um salário e, em troca,
sua capacidade de trabalhar fica à disposição do patrão. O patrão procura
explorar o máximo essa capacidade de trabalho. Desse modo, o valor do trabalho
realizado pelo operário acaba sendo maior do que o salário que recebe. Tudo o
que o proletário produz além do valor do seu salário é embolsado pelo patrão. O
valor da produção excedente é a origem do seu lucro. Marx chama essa diferença
de mais-valia. O fato dos trabalhadores não possuírem quase nada está
relacionada justamente a essa exploração capitalista. O produto do trabalho de
milhões de homens e mulheres vão de graça para a burguesia. O capital acumulado
é o resultado do trabalho não-pago. Dessa maneira, trabalhadores e capitalistas
estão em classes opostas: o ganho de um representa a perda para o outro. Essa
é, para a teoria marxista, a essência da luta de classes (materialismo
dialético): o capitalista ganha à medida que o trabalhador perde.
Ele defendia a ideia de que a emancipação dos
proletários seria obra dos próprios proletários. Eram eles que deveriam
conduzir a transformação na sociedade, em um movimento até o comunismo.
Acreditava ainda que isso seria inevitável. A
vitória dos trabalhadores colocaria um fim ao capitalismo que estava sendo
moldado e continua sobrevivendo até os dias de hoje. Se autodestruindo, o
sistema seria substituído pelo socialismo, e, depois, finalmente, pelo
comunismo.
Tenho total concordância com o conjunto de análise
científica que Marx faz do modo de produção capitalista. Nós, trabalhadores e
trabalhadoras compreendemos perfeitamente essa análise porque ele fala
justamente, em termos científicos, da realidade cotidiana com a qual nós lidamos,
que é a exploração capitalista de que somos objeto. Todavia, com profundo
respeito a Marx e a todos os marxistas, quero discordar da sua concepção filosófica
a respeito da religião.
A
equivocada visão materialista ateísta de Marx
Como é sabido por todos, Karl Marx era materialista,
ou seja, para ele, não há nada além da matéria e da energia; não há Deus (ou
deuses) e não há ações sobrenaturais. Portanto era ateu. Acompanhando os
pensamentos de Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872), acreditava que Deus e a
religião não passavam de meras projeções humanas. Afirmou que a religião havia
sido inventada como uma forma de reagir contra o sofrimento e a injustiça do
mundo, os pobres e oprimidos tinham criado a religião para imaginar que teriam
uma vida melhor após a morte. Servindo como uma forma de “ópio”, uma maneira de
escapar da realidade. Portanto, para ele, o ateísmo é um postulado evidente. Tanto é assim que ele escreveu: “A miséria
religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto
contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de
um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos.
Ela é o ópio do povo.” (“Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, ed. Boitempo, p. 145). Ele
ainda vislumbrava a possibilidade do desaparecimento do sentimento religioso
com a eliminação da alienação, numa sociedade despojada da exploração do homem
pelo homem e livre do trabalho alienado, ou com a construção do socialismo.
Em outras palavras, com o fim da
desigualdade social e da exploração capitalista o homem não sentiria mais
necessidade da religião no sentido de encontrar nela alento, pois a miséria
deixaria de existir. Ela ia desaparecer naturalmente.
Nesse aspecto, marxistas e cristãos estão em campos
opostos. Enquanto se percebe toda uma ontologia que se encontra à base do
marxismo, de que não há um Deus que criou o mundo, acreditamos que há algo além
da matéria, que há uma realidade transcendental. Nele, há um Deus amoroso que
habita no Céu, e que criou o mundo e os vários seres vivos em seis dias por
meio do poder de Sua palavra há alguns milhares de anos (Gn 1:1; Jo 1:1-4).
Essa fé está baseada em uma confiança na Bíblia Sagrada, revelação desse Deus
maravilhoso, que se relaciona com seus filhos.
Antes de avançarmos na análise da visão
materialista ateísta desse renomado pensador, é importante ressaltar que,
embora Marx tenha negado a existência de Deus e a religião como forma de
ligação com esse Deus, reconhecemos a contribuição do marxismo, como método de
análise, na produção de conhecimento filosófico, histórico e sociológico na
atualidade. Indubitavelmente, Marx foi um pensador de máxima envergadura,
brilhante em suas análises e que revolucionou o pensamento filosófico, rompendo
barreiras e desvelando a forma de organização de nossa sociedade. O conjunto de
suas análises do modo de produção capitalista continuam válidas. Afinal, o
sistema capitalista permanece, e como consequência, permanece também ainda hoje
a exploração das camadas mais pobres pelas camadas mais ricas da sociedade.
Suas ideias continuam inspirando aqueles que acreditam que é possível construir
um mundo melhor, livre da exploração capitalista.
Todavia, como cristãos, não podemos endossar todas
as formas de pensar e escrever de Marx, ainda que a essência de suas ideias
seja boa e bem fundamentada cientificamente. A Bíblia Sagrada não sugere
censura. Ela recomenda o discernimento espiritual. É o que recomenda o apóstolo
Paulo: “Examinem tudo, fiquem com o que
é bom” (1Ts 5:21, NTLH). Ao encorajar o livre exame das coisas, Paulo
acrescenta um conselho: o de ficar com o que é bom. É exatamente o que os
cristãos progressistas fazem em relação ao marxismo, examinam seus postulados e
suas ideias. Aquilo que não é bom, por conflitar com sua cosmovisão, que é
baseada na Bíblia Sagrada, lançam-no fora. Porém, aquilo que é bom no marxismo
abraçam, sem, contudo, abandonar um ponto sequer da fé.
Continuemos. Para o cristão não há, é claro, nenhum
argumento final e racional que possa provar, por si mesmo, a existência de
qualquer coisa no âmbito espiritual. Daí em diante, é a fé! Ele deposita a sua
confiança nas Sagradas Escrituras – não na mera observação humana – como a
expressão máxima da verdade. “Pela fé entendemos que o universo foi formado
pela palavra de Deus, de modo que o que se vê não foi feito do que é visível”
(Hebreus 11:3).
Quando a disciplina da ciência se abre para algo
mais do que aquilo que é meramente materialista, então as respostas invisíveis
para as principais questões começam realmente a entrar no foco. Foi nestas
palavras que o apóstolo Paulo escreveu: “Assim, fixamos os olhos, não naquilo
que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não
se vê é eterno” (2 Coríntios 4:18).
Podemos, então, provar a existência de Deus? Não,
somos incapazes de prová-la. Mas, também a ciência não pode refutá-la. A questão
de capital importância é: Para onde apontam as evidências? Temos evidências
suficientes para crer em Deus. O rei Davi declarou: “Os céus declaram a glória
de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Sl 19:1, NVI). E o
próprio Deus nos desafia: “Ergam os olhos e olhem para as alturas. Quem criou
tudo isso?” (Is 40:26, NVI). Se “os céus declaram a glória de Deus e o
firmamento proclama a obra das Suas mãos”, como canta o salmista, então o
estudo do Céu [no sentido espiritual], dos céus e da natureza, iluminará a
nossa compreensão do próprio Deus, de Seu caráter, bondade e poder.
Por exemplo, nos últimos 20 anos, cada vez mais
evidências da astronomia, da astrofísica e de diferentes campos da biologia
sugerem fortemente que muitas estruturas complexas no universo físico e
biológico devem ter sido projetadas. A complexidade do Universo e da vida, bem
como a exata adequação do nosso Universo para a vida ganhou admiração de
cientistas e levou muitos deles a comentar que ele parece ter sido projetado por
um ser inteligente. O mundo também deve ter sido planejado sabiamente para que
a vida existisse. A variação de temperaturas deve ser compatível com a vida.
Por isso, a distância do Sol, a velocidade de rotação e a composição da
atmosfera devem estar em equilíbrio. Muitos outros detalhes do mundo devem ter
sido cuidadosamente projetados. Na verdade, a sabedoria de Deus é revelada no
que Ele criou.
A convicção de que Deus é o Autor da criação e a
crença na racionalidade de Deus levaram muitos cientistas em séculos passados –
e ainda levam muitos no presente – à cuidadosa observação e experimentação, a
fim de compreenderem a estrutura e o funcionamento do mundo criado. A
revista Diálogo Universitário v. 7, Nº 3, de 1995, traz uma
interessante matéria sobre diversos cientistas do passado e do presente que
foram e são cristãos, a exemplo de Werner von Braun. Ele era “alemão, o
engenheiro de foguetes, foi diretor do Centro Marshall de Voo Espacial na
década de 60. No prefácio de um livro ele diz: “Acho tão difícil compreender um
cientista que não reconhece a presença de uma razão superior atrás da
existência do Universo como compreender um teólogo que nega os avanços da
ciência. E certamente não há razão científica pela qual Deus não pode reter a
mesma relevância em nosso mundo moderno que Ele tinha antes de começarmos a
perscrutar sua criação com telescópio, ciclotron e veículos espaciais”. [...]
Num livro recente, 60 cientistas de renome, incluindo 24 que receberam o prêmio
Nobel, responderam a perguntas sobre ciência e Deus. Um deles é Arthur
Schawlow, professor de física na Universidade de Stanford, e detentor do prêmio
Nobel em 1981. Ele diz: ‘Parece-me que quando confrontado com as maravilhas da
vida e do Universo, a gente precisa perguntar por que e não apenas como. As
únicas respostas possíveis são religiosas.... Acho necessidade de Deus no
Universo e em minha própria vida’” (p. 8-10).
As descobertas na natureza levam os ateus a
concluírem que o acaso, os longos períodos de tempo e a seleção natural são
capazes de produzir qualquer coisa, ao passo que os cristãos podem concluir que
a causa final de tudo é o Deus Criador.
Em relação a fala de Marx acerca da religião, para
não se incorrer em erros de descontextualização das afirmações, se faz mister
conhecer o contexto político em que estava inserido o jovem Marx para entender
essa afirmação tão incisiva contra a religião. À época, a religião na Alemanha
estava a serviço do Estado. E a elite dominante instrumentalizava a religião
para conformar as pessoas (os dominados) a diferentes formas de opressão
política e/ou econômica. Os líderes religiosos ensinavam os fiéis a se
conformarem com a pobreza e a miséria, com aquela ordem vigente, marcada pela
exploração capitalista, impedindo desse modo que o povo se organizasse para
reivindicar melhores condições de vida, melhores salários. Esse alinhamento
político das igrejas cristãs com as classes socialmente dominante levou Karl
Marx e outros socialistas a considerarem a religião como adversárias
ideológicas dos trabalhadores. Por conta da sua condição de instrumento de
conformação (e por consequência, de sujeição), a religião foi, então,
metaforicamente caracterizada por Marx como um ópio, um mecanismo de alienação
dos dominados. Portanto, quando Marx disse que “a religião era o ópio do povo”,
ele se referia a essa religião criada pela elite social, alienante, que levava
(e leva) o povo à aceitação das desigualdades e à passividade diante das
injustiças. Penso que se as igrejas da Alemanha daquele período não estivessem a
serviço da burguesia e estivesse do lado dos oprimidos, talvez Marx não teria
formulado essa declaração.
Em seu artigo “A religião é o ópio do povo”, publicado no Blog Ativismo Protestante, o filósofo e poeta Felipe Catão torna mais clara essa frase de Marx e
seus desdobramentos, à luz de seus contextos histórico, social e político:
"O ópio, naquele século, era um narcótico que
a Companhia Britânica das Índias Orientais contrabandeava às toneladas da Índia
para a China, com a intenção de contrabalancear o comércio entre o Reino Unido
e a China. O interesse pelos produtos chineses (chá, seda, porcelana) era
enorme, ao passo que os chineses pareciam se interessar por único produto – o
ópio. A menção ao ópio é como uma metáfora, pois o cerne da questão é a
exploração dos mais pobres pelos mais ricos – nesse caso, os chineses (mais
pobres), o Reino Unido (mais ricos). Para Marx, a religião servia para aliviar
a vida dos explorados, que se apegavam a ela como uma compensação (o sofrimento
religioso compensa o sofrimento real). Havendo um sociedade sem exploradores e
explorados, a religião deixaria de existir, segundo Marx. A proposta de Marx
era para que a classe operária saísse do seu entorpecimento e rompesse com o
círculo de exploração do seu trabalho, e que reivindicasse o que era seu de
direito: o controle do seu trabalho e a posse de seus frutos como propriedades
legítimas; que abandonassem a felicidade ilusória, proporcionada pela religião,
e tomassem posse da felicidade real. E isso somente poderia ser conquistado com
a luta de classe e com a revolução. De outro modo, os ricos e poderosos jamais
iriam renunciar ao seu papel de explorador. Colocando a frase (“a religião é o
ópio do povo”) dentro do seu contexto histórico-sócio-político, a crítica de
Marx visava atingir as religiões dominantes de então, que não só comungavam,
mas colaboravam diretamente com as classes dominantes e com os exploradores da
classe trabalhadora. Religiosos exaltavam e enalteciam a experiência religiosa
como a realização fundamental terrena do ser humano, negando a eles o direito à
luta de classes e a prática revolucionária, como que condenando a classe
operária às privações sem o direito de aspirar à vida digna.”
A religião como criação divina
Diferentemente do que pensava Marx a respeito da
religião, as Sagradas Escrituras revelam que a religião tem sua origem em Deus,
o Criador. Em Eclesiastes 3:11, Salomão fala de forma enfática
que “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade
no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o
princípio até ao fim”. Segundo o texto bíblico, na criação, Deus
colocou no coração do homem a eternidade, algo eterno, algo maior do que tudo
que pensamos ou fazemos ou planejamos. O que significa isso? Isso quer dizer
que, como Deus pôs no coração do homem o anseio pelo infinito, logo as coisas
finitas não podem em toda a sua plenitude preencher o coração do homem. Isto é
notório na sociedade como um todo. De acordo com as Sagradas Escrituras, fomos
feitos à imagem de Deus (Gn 1:26, 27). Logo, fomos dotados por Deus de uma
faculdade espiritual. Nascemos com o desejo nato de adorar alguém ou a algo.
Por isso, que em todas as civilizações antigas que temos conhecimento possuem
um traço em comum: a religião. Desde as comunidades mais primitivas até as
sociedades mais desenvolvidas, todas tinham religião, (e até hoje as nações e
regiões se fundam em princípios religiosos, mesmo que minimamente) sejam elas
cultos e divinizações dos elementos da natureza ou religiões organizadas com
deuses complexos. Nessa mesma linha de raciocínio, a Nova Enciclopédia Britânica diz que “até onde os peritos
conseguiram descobrir, jamais existiu um povo, em qualquer parte, em qualquer
tempo, que não fosse de algum modo religioso”.
No nosso entendimento, isso representa uma clara
evidência de que o homem é um ser essencialmente espiritual. Temos uma
necessidade interna de nos relacionarmos com Deus, implantada nele pelo próprio
Deus. Uma vez que o desejo de cultuar a um deus está arraigado no homem,
independentemente de sua condição social ou de sistema socioeconômico em que se
viva, o homem sempre sentirá no recôndito de seu coração o desejo de se
relacionar com Deus. Faz parte da sua natureza, da sua essência humana
relacionar-se com Deus. Por isso, não acredito na previsão do Marx de que, com
o fim das desigualdades sociais e da miséria o homem não sentiria mais
necessidade da religião. Ledo engano!
Arriscaria dizer que, numa sociedade comunista,
livre da exploração capitalista, como idealizada por Marx, as religiões ainda
estariam entre nós, o homem continuaria sentido a necessidade de comunicar-se
com Deus. Tanto é assim, que a inglória tentativa de suprimir a religião pelos
governos socialistas da ex-URSS e dos países do Leste Europeu fracassou. Não
obstante as perseguições ao cristianismo e a outras formas de crenças
religiosas, milhares de pessoas nesses estados continuaram praticando a
religião de forma privada. Na realidade, nenhum sistema socioeconômico tampouco
a ciência irá destruir a religião. E isso tem a ver com a natureza
essencialmente espiritual do homem. Mesmo hoje, vivendo numa sociedade onde o
nível de vida é elevado, com menor exploração capitalista, as pessoas continuam
com alguma prática religiosa, e, se o homem consciente e persistentemente, não
cultivar esta profunda espiritualidade resultará num vazio do coração humano.
Esse vazio é sentido por pessoas que vivem tanto em países ricos como em países
pobres. Assim, não há relação consistente entre o elevado padrão de vida, a
ausência da miséria, o grau de progresso científico e um nível menor de
influência, crença e prática religiosa.
Se há homens e mulheres, como os marxistas, que
adotam uma postura de indiferença ou até de contraposição à religião é por
causa da cultura materialista em que estão inseridos, à qual lhes leva a ter
uma ideia deformada de Deus e da realidade. Porém, as causas últimas disso
seria a falta de esforço intelectual e de retidão da vontade, potencialidades
humanas que devem estar abertas à verdade e a beleza de Deus, claramente reveladas
na criação (Rm 1:20).
Cabe aqui dizer que, ao advogarmos a ideia da necessidade
natural que o homem possui de relacionar-se com Deus e se contrapor a ideia de
Marx de que a religião é uma projeção da mente humana e que esse ser humano
gera a religião conforme suas demandas, não significa jamais que defendemos que
os cristãos ou os praticantes de outras confissões religiosas sejam alienados e
propaguem pensamentos do tipo: “a injustiça, as desigualdades sociais e a fome
existem pela vontade de Deus” ou “Deus quis que isso acontecesse”, fazendo com
que a pessoa se distancie do contexto histórico, político, social e econômico
em que vive e legitime a injusta ordem social. Os cristãos, por exemplo, precisam
romper com o processo de alienação. Como luz e sal da Terra (Mt 5:13-16), eles podem e
devem dá sua contribuição na construção de um mundo com mais justiça social e
mais fraterno, através das várias expressões do agir político – seja no sentido
amplo, seja na militância partidária ou num movimento social. Isso não compete
com a autoridade da Palavra de Deus, como querem alguns. Ao contrário, está em
harmonia com a Bíblia. No passado, movido pelo chamado de Deus e pela
compreensão de que Ele deseja a justiça, os profetas ousaram ser a voz dos
oprimidos (Is 1:17, 23 e 24; Mq 6:8; Ez 16:49).
Ao estudarmos o Antigo Testamento descobrimos que uma
vida em comum-unidade com os outros, sem a propriedade privada, a exploração e
a desigualdade social era o ideal de Deus para Israel. Após libertar os hebreus
da escravidão egípcia, depois de 400 anos de opressão, Deus queria estabelecer
um novo tipo de sociedade com eles, que fosse uma sociedade justa e sem
opressão (Êx 22:21-23; 23:9). Para a realização desse projeto Deus estabeleceu
diversas leis e mandamentos. “Entre essas leis, destacava-se a preocupação com
os concidadãos nessa nova sociedade, bem como o cuidado com os estrangeiros e
os mais vulneráveis. Essas pessoas não deveriam ser exploradas” (Lição da Escola Sabatina, 3º Trim. 2019, CPB,
ed. do Professor, p. 22). Mas, infelizmente, cedo a nação israelita
afastara-se do ideal de Deus para ela. As estruturas econômicas e políticas
foram transformadas, tornando-se menos participativas levando à exclusão.
Formaram-se grupos sociais que enriqueceram a partir da exploração dos outros,
provocando o surgimento de pobres explorados e oprimidos.
No capítulo 1 do profeta Isaías, podemos ver
evidências do estado apóstata, rebelde e corrupto de Israel, com somente uns
poucos permanecendo fiéis. Os líderes do professo povo de Deus, estavam tirando
vantagem dessas classes desafortunadas e se enriquecendo às suas custas. Era
dever daqueles que amavam a Deus, corrigir isso. Os opressores deveriam ser
refreados, e os pobres, desafortunados e oprimidos precisavam ser libertados. O
Senhor chama Israel ao arrependimento e a praticar obras dignas. Entre outras
coisas Ele pede: “Aprendam a fazer o
bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão,
defendam a causa da viúva” (Isaías 1:17). Se fizerem, o Senhor promete
remissão dos pecados e perdão.
Nesse contexto, ao longo dos reinados de Israel e
Judá, além do profeta Isaías, Deus enviou diversos outros profetas para
denunciar e advertir o pecado da injustiça contra os oprimidos, bem como para
lembrar aos líderes e ao povo suas responsabilidades para com os excluídos.
“Embora pareça que os israelitas não conseguiram viver o projeto de uma
sociedade justa e generosa, a comunidade da igreja primitiva levou a sério a
ordem de que não deveria haver pobres entre eles (Dt 15:4). Uma das expressões
práticas de sua fé foi compartilhar seus recursos materiais, até mesmo vendendo
terras doando o valor recebido (veja At 4:34-5:2) a fim de atender aos que não
faziam parte daquela nova comunidade [...]” (Lição da Escola Sabatina, 3º Trim. 2019, CPB, ed. do Professor, p. 111).
Sobre isso, a escritora cristã norte-americana
Ellen G. White escreveu: “Contra a indisfarçada opressão, a flagrante
injustiça, o luxo inusitado e extravagante, despudorados banquetes e
bebedeiras, a grosseira licenciosidade e deboche de seu tempo, os profetas ergueram
a voz; mas seus protestos foram vãos, em vão foi a denúncia do pecado”. (WHITE, Ellen G. Profetas e Reis. Tatuí, SP: CPB,
2007. p. 282).
Como se vê, o ideal de sociedade projetado pelo
próprio Deus, é uma sociedade justa, igual e sem opressão. Portanto, não vemos
nenhuma contradição em um cristão pretender uma sociedade que não se funda na
exploração de uma classe por outra, prática pecaminosa, inclusive denunciada
pelos antigos profetas hebreus. Ao contrário do que dizem muitos cristãos
direitistas de que um cristão não pode ser de esquerda, que isso significa
negar a fé, ao defender uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária não o
afasta da “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Judas 3), uma vez
que toda a Bíblia revelam que essa era a experiência que Deus queria que Seu
povo vivenciasse. Acreditamos profundamente que Deus ainda hoje pede que
busquemos a justiça social e lutemos contra a opressão e pelos direitos dos
pobres e excluídos. Como cristãos, antes que Cristo Jesus volte em glória e
majestade para estabelecer seu reino de justiça, devemos promover as mudanças
sociais que refletem os valores e ensinamentos de Jesus.
Indubitavelmente, uma “insatisfação divina” permeia
a experiência humana, o que nos leva a indagar se existe alguma coisa capaz de
satisfazer a busca do homem pela satisfação dos desejos do seu coração. O ser
humano está numa constante busca pela realização. Há em nós uma sensação de
incompletude. Isso é inegável. Esse fenômeno é um fato conhecido e discutido
desde o início da história da filosofia. Platão, um dos grandes filósofos
gregos da antiguidade, em um de seus diálogos (Górgias, 492b-d) compara os
seres humanos a jarros que estão vazando. De algum modo, estamos sempre incompletos.
Podemos despejar coisas nos recipientes de nossa vida, mas há algo que impede
que o jarro fique cheio. Estamos sempre parcialmente vazios e, por esse motivo,
temos uma consciência profunda de falta de completude e de felicidade.
Aristóteles, discípulo de Platão, afirmou que
“Todos os homens aspiram à vida feliz e à felicidade, esta é uma coisa
manifesta”. O fato a ser observado é que a felicidade e satisfação pessoal é a
grande aspiração do ser humano. Porém esse desejo não é o problema, mas o fato
dos homens buscarem nos lugares errados.
A igualdade social, o avanço científico e
tecnológico não resolveu, nem resolverá jamais, o problema existencial do ser
humano – essa sensação de que sempre há algo faltando, mesmo depois de termos
concretizado nossos sonhos. Sempre queremos mais e queremos coisas diferentes.
Parece-nos então que nada que seja finito é capaz de satisfazer o profundo
anseio que sentimos dentro de nós. Muitos se matam, e muitos outros estão
sofrendo de depressão, stress, insônia, alcoolismo. Hoje há fobias de todos os
tipos. A ansiedade é um mal generalizado. Isso tudo claramente aponta para um
sentimento de vazio no ser humano.
“Nas profundezas da alma humana se acha implantada
a inquietação pelo futuro. Essa percepção do infinito no tempo e no espaço produz
insatisfação com a natureza transitória das coisas desta vida. É o plano de
Deus que o homem perceba que o atual mundo material não constitui o centro de
sua existência. Ele se acha ligado a dois mundos: fisicamente a este mundo, mas
mental, emocional e psicologicamente ao mundo eterno” (Comentário Bíblico
Adventista do Sétimo Dia, v. 3, 1075).
Certa vez, Santo Agostinho escreveu que cada um de
nós tem dentro de si um espaço vazio deixado por Deus. Você pode tentar
preencher esse vazio com qualquer coisa que existe no mundo, mas nunca vai
conseguir, pois é imenso, infinito como Deus, e só Ele pode preencher. Ele
escreveu: “Criaste-nos para Ti, e nosso coração permanece intranquilo até que
encontre paz em Ti”.
Os seres humanos têm tentado de tudo, na ânsia de
preencher esse vazio cavado por Deus. Diz C. S. Lewis: “O que Satanás pôs na
cabeça de nossos primeiros pais foi a ideia de que eles poderiam ser como Deus,
como se fossem independentes e tivessem vida em si próprios; que eles poderiam
inventar algum tipo de felicidade sem Deus. E dessa tentativa infrutífera
surgiu quase tudo na história humana – riqueza, pobreza, ambição, guerras,
prostituição, classes, impérios, escravidão – a longa e terrível história do
homem tentando achar outra coisa, menos Deus, para fazê-lo feliz. E por
que isso nunca deu certo? É porque Deus nos criou, nos inventou, um como um
fabricante inventa uma máquina. Se um veículo é fabricado para ser movido a
óleo diesel, ele não vai funcionar direito com outro combustível. E Deus criou
a máquina humana para se mover nEle. Ele é o combustível que nos faz agir, o
alimento do qual precisamos para nos nutrir. Não há outro”.
A resposta para o vazio não é encontrada em nós
mesmos tampouco no ateísmo, porque como disse o personagem do escritor russo de
pequenas estórias, Fyodor Mikhaylovich Dostoyevsky, Príncipe Mishkin, na
obra O Idiota: “O ateísmo não proclama nada”. O preenchimento do
vazio existencial não é encontrada no dinheiro. Podemos conquistar fortunas
incalculáveis, e ainda que fosse possível conquistar o mundo todo, restaria
sempre a ânsia de novas e maiores aquisições, nessa sede insaciável de
preencher o vazio infinito do coração. O magnata Rockfeller disse: "Juntei
milhões, mas eles não me trouxeram felicidade". Não é encontrada no poder.
Alexandre, o Grande chorava após derrubar seus inimigos e dizia desconsolado:
"Não há mais mundos para conquistar". Não é encontrada nos prazeres
terrenos. O escritor pornográfico Lord Byron disse antes de morrer: "Tudo
que me restou agora foram vermes, câncer e ressentimento". Por outro lado,
Deus tem preenchido milhões de pessoas no correr da História, entre as quais eu
me incluo.
Muitos povos achavam que eram espertos demais para
precisar de Deus. Pensavam que poderiam preencher esse vazio infinito com
poder, diversão, sexo ou malas cheias de dinheiro. Mas nunca conseguiram.
Amigo, talvez você esteja lutando com dúvidas a
respeito da existência de Deus. Suas dúvidas são a fonte de um continuo desejo
de conhecer a Deus e estar em harmonia com Ele. Como o homem na narrativa do
evangelho clame: "Eu creio; ajuda-me a vencer minha incredulidade!"
(Marcos 9:24). Talvez você também sinta dentro de si esse vazio. Não perca
tempo e esforço tentando preenchê-lo com trabalho, estudo, consumismo,
filosofias, sexo, divertimentos, relacionamentos pessoais, viagens. Você poderá
conseguir distrair-se por algum tempo, mas quando a sua máquina começar a
engasgar e a tossir, por ter usado combustível errado, você vai ter de parar e
pensar que a única solução é nEle viver, se mover e existir (At 17:28).
Para além do “ópio” de Marx, nossa religação com
Deus é a chave para o mistério dos mistérios, o significado da vida. Ao
longo dos séculos as pessoas se perguntaram: Por que estamos aqui? Para viver
só pouco tempo, tirar da vida o máximo proveito que pudermos e depois morrer?
Para onde vamos realmente? Podemos esperar mais do que apenas o breve ciclo de
nascimento, vida e morte? O livro Religiões
do Mundo – Da História Antiga ao Presente afirma: “O estudo da religião revela
que um de seus importantes aspectos é o anseio de encontrar valor na vida, uma
crença que a vida não é acidental e sem significado. A busca de significado
leva à fé num poder superior ao humano, e, por fim, a uma mente universal ou
super-humana que tem a intenção e a vontade de preservar os mais elevados
valores para a vida humana”.
Portanto, a vida somente fará sentido se aceitarmos
a realidade da existência de Deus. Ele é o Criador da vida, por isso é Ele que
dá sentido à vida. Deus nos criou para Seu louvor (Isaías 43:20-21). Ele nos
formou de maneira especial, para mostrar Sua glória e Seu amor através de nós.
Esse é o grande sentido da vida. A satisfação plena é produto da segurança
absoluta e da paz interior que só Deus pode dar. Só um Deus infinito pode
preencher, com o Seu amor, o espaço infinito do coração humano. E esta
conquista espiritual está ao alcance de todos os que, reconhecendo a sua
insuficiência, aceitam o presente que o Céu oferece – a vida eterna, através de
Jesus Cristo: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus
é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6:23).
Ocorre que o Senhor não invade nosso coração, Ele
espera um convite para entrar e fazer moradas. Em Apocalipse 3:20 diz: “Eis que
estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em
sua casa e cearei com ele, e ele comigo”.
Quando detectamos o vazio de nossa alma, tentamos
preenchê-lo de todas as formas, mas somente somos saciados quando Jesus entra
em nosso coração. É Ele que quer saciar a sede de nossa alma. Quando Ele entra
em nosso coração nos sentimos supridos, saciados, felizes, prontos para
qualquer boa obra.
Quer as pessoas aceitem ou não; todos precisam de
Jesus. Jesus está batendo à porta do nosso coração; se abrirmos, Ele entrará e
equilibrará nossa alma e a paz que excede todo entendimento invadirá nossa vida
para sermos plenos nEle.
Caro amigo leitor, que tal começar a buscar a Deus
hoje? Que tal largarmos dessa vida miserável que o mundo oferece, vida vazia e
eu sei que uma vida longe de Deus é vazia, uma vida de aparência e buscarmos
aquilo que é eterno. Que adianta preservar uma vida nessa terra, umas amizades,
uns prazeres terrenos e perder a vida eterna? Perder a herança que Deus nos
deixou?
Não existe vida sem Deus, não tem, não é viver com
Deus ou viver sem Deus, é viver. Com Deus você vive, sem Deus você não vive,
simples. Ele é tudo o que você tem e precisa, sem Ele você não tem nada.
Deus abençoe sua vida!
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