O VÍRUS DE JUDAS
por Lyndon K. McDowelI
Como
detectá-lo e como se livrar dele
Jerusalém jamais havia
visto um julgamento como aquele. 0 Prisioneiro era inocente do todo pecado;
Seus juízes, culpados dos mais hediondos crimes. 0 acusado, era o Juiz de toda
a Terra; os que pronunciavam a sentença, estavam condenados por suas próprias
obras. Como se estivessem presos nas mãos do destino, homens e mulheres
pareciam compelidos por forças além de seu próprio controle.
E, entre a agitada
multidão, um homem estava sentado só, enquanto um sombrio temor lhe aguilhoava
a alma. "Aquele a quem eu beijar, é esse; prendei-O." Mat. 26:48.
No bruxuleante ambiente
do pátio superlotado, Judas via somente o clarão do archote incidindo na pálida
face do Filho do homem, e, acima do tumulto e da gritaria, ouviu apenas uma
sentença: "Judas, com um beijo trais o Filho do homem?" Luc. 22:48. Então,
sem poder suportar a tortura de sua consciência culpada, exclamou: "Ele é inocente;
poupa-O, ó Caifás!" (O Desejado é Todas
as Nações, p. 721; Mat. 27:4). E, saindo apressadamente do pátio, foi-se
enforcar.
0 que levou esse homem,
antes honrado membro de um grupo especial, a se tornar um provérbio em todas as
nações, através do tempo? A pergunta é importante, pois a história de Judas não
é a história exclusiva de um homem. Embora seu nome seja vilipendiado e
desprezado, Judas representa muitos que professam ser seguidores de Cristo, e os
métodos que o diabo usou para enganá-lo naquele tempo, são usados contra nós
hoje.
Lembremo-nos de que
Judas não havia manifestado oposição aberta a Jesus. Mesmo durante a Santa
Ceia, quando Jesus lhe disse que ele devia fazer o que estava em seu coração,
os discípulos pensaram que "Jesus lhe dissera: Compra o que precisamos
para a festa ou lhe ordenara que desse alguma coisa aos pobres". João
13:29. Eles jamais haviam pensado no plano diabólico a que Jesus Se referia.
Como, pois, se
desenvolveu um plano tão ímpio no coração de Judas? Como se tomou ele um
traidor? Apresento três razões com base em comentários de Ellen G. White (ver O
Desejado de Todas as Nações, págs. 716-722).
1.
Judas orgulhava-se de suas opiniões próprias e cultivava uma disposição para criticar
e acusar.
Inventado no Céu,
praticado no Éden e usado através da história cristã, o espírito de divisão é
uma das mais bem-sucedidas artimanhas de Satanás. E todos os homens e mulheres
dotados de carisma, poder de persuasão e mente ágil, são especialmente vulneráveis.
É fácil estribar-se num pequeno ponto de discórdia e, daí para a frente, acrescentar
outros.
Um exemplo, neste
sentido, encontra-se na Didache: "Vossos jejuns não devem ser feitos nos
mesmos dias com os hipócritas, pois eles jejuam na segunda-feira e na quinta-feira,
mas deveis jejuar na quarta-feira e na sexta-feira." (Edgar Goodspeed, The
Apostolic Fathers, An American Translation (New York: Harper and Brothers, 1950,
pág. 14). Uma disputa dessa natureza levou Paulo a escrever Romanos 14:1-6. Ele
disse que não devemos fazer julgamentos sobre assuntos polêmicos. "Um faz
diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias" (verso 5).
Na época de Henrique
VIII, um tipógrafo cometeu um erro numa edição do Livro de Orações. Escrita em
Latim, a palavra sumpsimus foi escrita assim: mumsimus. Como poucos clérigos
soubessem Latim, logo se habituaram a pronunciar "mumsimus".
Certo dia, um clérigo
perspicaz percebeu o engano e exigiu que fosse feita a correção. Isso causou
uma divisão tão grande entre o clero que Henrique VIII foi obrigado a fazer um
discurso sobre o assunto, em 1545: "Alguns são intransigentes com seu mumsimus,
ao passo que outros se apegam ao seu sumpsimus."
A Igreja Adventista tem
seus "mumsimus" e "sumpsimus". Há membros independentes, relutantes
em ceder a suas opiniões, e, por este motivo, causam divisão. Independência contumaz
é parte da insanidade de nosso tempo, e quem de nós não sente seu apelo? Judas
tomou sua penúltima decisão em Cafamaum. Foi em Cafarnaum que muitos discípulos
de Jesus "O abandonaram e já não andavam com Ele" (João 6:66).
Decepcionado, Judas "decidiu não se unir a Cristo tão intimamente que não
se pudesse retirar" (O Desejado de Todas as Nações, pág. 719). Raramente
se vê uma igreja de centro que não enfrente pressões a respeito de problemas teológicos
ou administrativos, e, assim, as igrejas independentes proliferam e aumentam. Isso
faz parte da agitação de nosso tempo.
Judas
queria ser independente e tomou-se um traidor.
2.
Judas não conseguiu vencer as características perversas de sua vida.
Vivemos num tempo em
que nossas percepções espirituais se corrompem ante o que é sensual e obsceno.
Os desvios de comportamento são considerados coisas normais, e a liberdade
individual tem o beneplácito da sociedade. Há um crescente abismo entre as
injunções dos mandamentos de Deus e a fantasia mundana que a mídia moderna quer
inculcar em nossa mente. Nenhum de nós está imune a suas atrações. A televisão
está poluída e violenta, e isto faz parte de um propósito definido. Muitos se deixam
levar passivamente por esses programas, e o gosto pela verdade e pelo belo é
imperceptivelmente minado. Revistas requintadas, com conceitos morais liberalizantes,
estão diante de nossos olhos nos caixas de todo supermercado. Orientadas para
as paixões carnais, estimulam nosso eros e ofuscam nosso agape. (Obs.: Eros refere-se
ao amor sensual e agape, ao amor-princípio.) Os anúncios publicitários cortejam
nossa cobiça.
Lá no íntimo,
ambicionamos fama e sucesso, ao passo que um coração quebrantado e humilde não
é mais algo atrativo. Estamos tão insensíveis que quase não percebemos as arremetidas
das ondas do mal. Como podemos ter a certeza de que não estamos seguindo os
passos de Judas?
O pecado não foi
arquitetado para ser uma atração apenas; foi também configurado para parecer
racional. Por vezes, só começamos a ver a fealdade e hediondez do pecado quando
colhemos os seus frutos. Judas estava ciente de sua decisão de trair a Jesus. Se
Jesus fosse condenado por alguma falta, Ele teria sido visto como um falso
Messias. E se fosse, de fato, o Messias, não poderia permitir que fosse
crucificado. Judas imaginava que não tinha nada a perder, qualquer que fosse o
desfecho.
Assim,
tornou-se ele um traidor.
3.
Judas negligenciou a oportunidade de se entregar a Jesus.
A entrega do coração a
Jesus pode tornar-se um mero chibolete.
Mas, na vida real, é algo muito difícil. O inimigo, muitas vezes, zomba de
nossas fraquezas, enquanto nos cega para pecados mais graves.
Se nos deixarmos
influenciar pela atmosfera que nos cerca, como poderemos discernir entre uma
entrega total e o fanatismo? E fazer a diferença entre regras de natureza cultural
e os mandamentos divinos? A distinção não parece tão fácil como se imagina, e
ambos têm sido confundidos.
A entrega sincera
requer uma compreensão de tudo o que nos tem levado a ser o que somos: nossa
abordagem das Escrituras, nossa cultura, nossa educação, nossa posição
hierárquica. Todos esses aspectos desempenham um papel fundamental.
Portanto, o que
chamamos de entrega sem reservas é algo muito íntimo e extremamente difícil.
Tal entrega não pode ser definida nem imposta por comissões ou mesas
administrativas.
0 ato final do drama de
Judas ocorreu na Santa Ceia. Quando Jesus estava lavando seus pés, "Judas
comoveu-se intensamente com o impulso de confessar no mesmo instante e ali mesmo
o seu pecado. Mas não se queria humilhar". (0 Desejado de Todas as Nações,
pág. 645). Judas havia tomado sua última decisão, pois "a hora e o poder
das trevas" haviam chegado (Luc. 22:53). Para ele, a porta da graça estava
fechada, e "Satanás se apossou dele". (Testimonies, vol. 5, pág. 103).
Parte da tragédia de
Judas deveu-se ao fato de que ele foi leal a uma causa e não a Cristo, e quando
lhe pareceu que a causa fosse fracassar, ele conscientemente desfez o compromisso.
Judas nunca experimentou o que Isaías sentiu quando viu a santidade do Senhor e
exclamou: "Ai de mim! Estou perdido!" Isa. 6:5. Ele nunca partilhou a
experiência de Pedro, que, prostrando-se aos pés de Jesus, disse: "Senhor,
retira-Te de mim, porque sou pecador" (Luc. 5:8), ou de Tome, que, deixando
de lado a incredulidade, exclamou: "Senhor meu e Deus meu!" João 20:28.
E Judas jamais soube da visão de João, que, ao contemplar a glória do Cristo ressurreto,
caiu a Seus pés como se estivesse morto.
É importante enfatizar
novamente que não houve uma oposição aberta da parte de Judas para com Jesus,
nenhum "grande" pecado em sua vida. Ele foi um evangelista, um operador
de milagres. Foi, por assim dizer, tesoureiro da igreja e membro influente do
grupo. Mas suas tênues decisões, sua decrescente convicção diária foram traços
de caráter que o levaram finalmente a trair o Senhor.
Ao olhar para dentro de
mim e para a igreja, após 40 anos de ministério, vejo um problema semelhante.
Temos anunciado a santidade do sábado. Temos retratado a besta em nossos folhetos,
e nos orgulhamos, até certo ponto, de nossas luminosas ideias. Mas temos nós levado
homens e mulheres a ver a santidade transcendente de Cristo e a prostrar-se a
Seus pés, dizendo: "Estou perdido! Porque sou homem de lábios
impuros"?
Judas
jamais exclamou assim; por isso, tornou-se um traidor.
Todos nós, em maior ou
menor grau, temos o vírus de Judas. O único antídoto é o humilde reconhecimento
de nossa vulnerabilidade e uma sincera entrega diária ao controle de Cristo em
nossa vida. Se o terrível dia do "poder das trevas" (Luc. 22:53) está
às portas, também é verdade que temos um amorável Salvador que não quer que ninguém
pereça. Ele conhece os mais íntimos segredos de nossa alma e Se interessa por
nós, dizendo: "Como te deixaria?" Osé. 11:8.
Nossa resposta
determinará nosso destino. Nem hábitos, nem posição hierárquica, nem "30
moedas de prata" - nada disso pode ser comparado à gloriosa aparência de
nosso Senhor.
*Lyndon
JC McDowell é pastor jubilado e reside em
Scottsdale, Arizona, EUA.
FONTE:
Revista Adventista, Ago 1998, p. 8-10
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