O ÚNICO DEUS VERDADEIRO
Cristhian Alvarez Zaldúa*
O
significado de João 17:3 e suas implicações no debate sobre a Trindade
Um dos textos bíblicos
utilizados por adeptos do antitrinitarianismo para negar a divindade de Cristo
é João 17:3: “A vida eterna é esta: que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro,
e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” Segundo eles, essas palavras proferidas por
Jesus aos discípulos, antes da Sua morte, são evidência de que para Ele somente
o Pai é Deus, porque, se para Cristo o Pai é o “único Deus verdadeiro”,
evidentemente que Ele, Jesus, não pode ser Deus igual ao Pai.1
Deve-se notar que, para os antitrinitarianos, esse é um argumento irrefutável
que anula completamente a doutrina da Trindade. Portanto, é preciso analisar o
assunto com cuidado.
Problemas
de interpretação
Antes de analisar o
texto de João 17:3, dois problemas que impedem os antitrinitarianos de entender
corretamente a doutrina da Trindade devem ser destacados: (1) confusão em
relação aos conceitos e (2) desconsideração ao contexto amplo da Bíblia.
Confusão
dos conceitos. Um dos erros mais óbvios nas
publicações antitrinitarianas, por exemplo, é que confundem Trindade com modalismo
(sabelianismo). A doutrina bíblica da Trindade ensina que há três Pessoas
divinas que são uma unidade, enquanto o modalismo fala de uma pessoa divina que
adotou três maneiras diferentes de Se apresentar. Portanto, as diferenças entre
os dois conceitos são evidentes.
Assim, nessas
publicações podemos encontrar perguntas como: “Ao se aproximar o tempo da morte
de Jesus, a quem Ele orou? A quem clamou? Para Si mesmo ou para uma parte de Si
mesmo? [...] E se Jesus é Deus, então quem O abandonou? Ele abandonou a Si
mesmo?”2
Sem dúvida, essas são
boas perguntas para os modalistas que não veem nenhuma diferença entre as
Pessoas da Divindade, e que precisam recorrer a malabarismos interpretativos
complexos para tentar explicar como uma única Pessoa pode Se apresentar como
três em toda a Bíblia.
Entretanto, esse não é
um problema para os trinitarianos que acreditam na distinção de personalidade
entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Mt 28:19; 2Co 13:14).3
Para os que creem na
doutrina bíblica da Trindade é muito simples responder que durante Seu ministério,
Jesus orou e clamou ao Pai que “está nos Céus” (Mt 5:45, 48, NAA; 7:11; 10:32).
Em um exemplo de
argumento antitrinitariano, encontramos o seguinte texto: “Jesus também mostrou
que Ele e Deus eram seres diferentes [...]. Quando Seus inimigos questionaram
Sua autoridade, Ele lhes disse: ‘Em sua lei está escrito: O testemunho de dois
homens é verdadeiro’. [...] Para considerar seu testemunho e o de Jeová como
dois testemunhos, é óbvio que eles não poderiam ser o mesmo ser.”4 Outro
texto ilustrativo dedica grande parte do seu conteúdo para apresentar o Pai
e o Filho como duas Pessoas diferentes. Nele pode-se ler
declarações como: “Visto que Jesus orou para estar ao lado de Deus,
como poderia Ele ser ao mesmo tempo ‘o único Deus verdadeiro’?
[...] Poderia ser ‘o Cordeiro’ o mesmo ‘que Seu Pai’? (Ap 14:1, 3).
Obviamente que não. A Bíblia descreve Deus e Jesus como dois
Seres distintos e dá nomes diferentes a cada um Deles.”5
É evidente que os
antitrinitarianos entendem que, ao afirmar que Jesus é Deus, estamos dizendo
que Jesus e o Pai são a mesma pessoa. Entretanto, sem dúvida, eles interpretam
erroneamente, porque, concordamos em declarar que o Pai e o Filho são duas Pessoas
distintas, porém o Filho possui a mesma natureza divina do Pai (Jo 1:1).
Desconsideração
ao contexto. Outro grande problema que os antitrinitarianos
enfrentam ao refutar a doutrinada Trindade é se apegarem a certos textos preferidos,
que parecem favorecer sua posição doutrinária, e ignorar o amplo contexto da
Bíblia. Para argumentar em favor de que somente o Pai é Deus, e o Filho sempre
é subordinado a Ele, reconhecendo-O como superior, eles citam várias afirmações
de Jesus, por exemplo: “Mas a respeito daquele dia ou da hora ninguém sabe; nem
os anjos no Céu, nem o Filho, senão o Pai” (Mc 13:32); “Pai [...] não se faça a
Minha vontade, e sim a Tua” (Lc 22:42); “Eu nada posso fazer de Mim mesmo [...]
porque não procuro a Minha própria vontade, e sim a Daquele que Me enviou” (Jo
5:30); “Assim como o Pai, que vive, Me enviou, [...] igualmente Eu vivo pelo
Pai” (Jo 6:57); “Se vocês Me amassem, ficariam alegres com a Minha ida para o
Pai, porque o Pai é maior do que Eu” (Jo 14:28, NAA).
Tomar essas declarações
de maneira isolada para apoiar a inferioridade ontológica de Cristo em relação
a Seu Pai não é apenas ignorar o contexto em que foram ditas, mas contradizer
outra quantidade de textos bíblicos que, sem deixar lugar para dúvida, mostram
claramente que Jesus é Deus (por exemplo, Jo 1:1, Tt 2:13, Hb 1:8).
O amplo contexto das
Escrituras revela que Jesus pronunciou essas palavras enquanto estava
encarnado, isto é, depois de ter Se despojado de Sua glória, igual à de Seu
Pai. “A Si mesmo Se esvaziou, assumindo a forma de Servo, tornando-Se em
semelhança de homens”, assim Ele “a Si mesmo Se humilhou, tornando-Se obediente
até à morte” (Fp 2:7, 8). Nesse estado de autolimitação, como qualquer ser
humano, Cristo dependia inteiramente de Seu Pai e esteve completamente sujeito
à vontade Dele. Foi nessa condição que Jesus afirmou que Seu Pai tinha
conhecimentos que Ele não tinha, ou que Sua vida dependia do Pai. Quando esse
estado de humilhação terminou, o Pai “O exaltou sobremaneira e Lhe deu o nome
que está acima de todo nome” (Fp 2:9). Dessa forma, embora o Filho mantenha uma
natureza humana glorificada (Cl 2:9) e continue a exercer funções dentro da
Divindade, Suas limitações autoimpostas terminaram (Hb 1:6, 8).
Uma regra básica para
não gerar contradições quando se interpreta a Bíblia é não construir uma
doutrina fundamentada somente em um único texto, especialmente quando a
interpretação deste conflita com outras partes das Escrituras. Portanto,
qualquer interpretação de João 17:3 deve estar em harmonia com o restante da
Bíblia.
Interpretação
correta
A expressão “o único
Deus verdadeiro” (Jo 17:3) no grego koinê é ton
monon alethinon Theon. Se essa frase é tão restritiva que exclui Jesus da
Sua divindade e alude que somente o Pai seja “Deus (Theos) verdadeiro (alethinos)”,
então Cristo deve ser “um deus falso”,6 porque, no grego, o mesmo
livro de João usa Theos (Deus) várias vezes para Ele, além das vezes em que
o fez no restante da Bíblia. João 1:1 diz: “E o Verbo era Deus
(Theos)”; 1:18 diz: “o Deus (Theos) unigênito, que está no seio do
Pai, é quem O revelou”;7 20:28 diz: “Senhor meu e
Deus (Theos) meu!”
Os antitrinitarianos
não aceitam chamar Jesus de “falso Deus”, somente um deus menor. Mas o texto
diz “o único Deus verdadeiro”, e se a frase é total e absolutamente exclusiva
como eles afirmam, e o único “verdadeiro Theos” é o Pai, não há outra conclusão
além de pensar em Cristo como algum tipo de “falso deus”.
Na tentativa de não
colocar Jesus na categoria de “falso Deus”, algumas denominações afirmam que os
termos “Deus” e “deus” também foram atribuídos a seres humanos como Moisés (Êx
7:1), aos anjos (Sl 82:1, 6) e até mesmo ao próprio Satanás (2Co 4:4).8
O argumento é que, se eles receberam esses títulos sem ser “deuses
verdadeiros”, então Cristo também pode aceitá-lo sem a necessidade de ser verdadeiro.
Contudo, é preciso
esclarecer que em nenhum dos três casos mencionados (Moisés, anjos e Satanás),
o termo “deus” é atribuído em sentido absoluto, mas
apenas em sentido relativo, a fim de designar alguém que recebeu autoridade e
poder, como no caso de Moisés diante do faraó; ou para alguém sobrenatural,
como Satanás, a quem o mundo rebelde serve (1Jo 5:19).
Nos três casos, eles
sempre foram e serão seres criados que dependem do verdadeiro Deus para
existir. No entanto, Jesus está em um plano totalmente diferente de todas as
criaturas finitas. A Bíblia revela que Cristo possui a mesma natureza divina do
Pai (Jo 1:1); Ele foi o Agente ativo da Criação (Jo 1:3; Cl 1:16); tem os
títulos divinos do Pai “o primeiro e o último”, “o princípio e o fim”, “o Alfa
e o Ômega” (Ap 22:12-16); o Pai O chama Deus (Hb 1:8) e ordena aos anjos que
adorem o Filho (Hb 1:6).9
O apóstolo João, ao
escrever “o único Deus verdadeiro” (Jo 17:3), não estava excluindo Jesus, que é
divino e da mesma natureza do Pai. Na Bíblia, o termo “único” é mais abrangente
quando aplicado às pessoas da Divindade. Em Judas 1:4, a tradução literal do
grego ton monon despoten kai kyrion hemon
Iesou Christon é “nosso único
Soberano e Senhor, Jesus Cristo”.10 De acordo com essa passagem, Jesus é “o único Senhor”, o que significa que, se aplicarmos a interpretação antitrinitariana, o Pai seria excluído de ser
chamado “Senhor”. No entanto, Cristo chama o Pai de “Senhor do Céu e da Terra” (Mt 11:25). Isso significa
que, embora Jesus seja “o único Senhor”, também não exclui o Pai de ser chamado de “Senhor”.
Em 1 Coríntios 8:6,
lemos: “Para nós há um só Deus, o Pai [...]; e um só Senhor, Jesus Cristo.” Se
a expressão “um só Deus” exclui Jesus de ser Deus, então a expressão “um só
Senhor” também deve excluir o Pai de ser Senhor, como já foi mencionado. Em Judas
1:25 a expressão grega mono Theo soteri
hemon dia Iesou Christou é traduzida da seguinte forma: “Ao único Deus,
nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso.” Aqui o Pai é o “único
Deus”, e também é chamado de “Salvador”, no entanto, isso não exclui que Jesus
seja chamado Salvador (Lc 2:11; 2Pe 3:18; Tt 3:6; Fp 3:20).
Curiosamente, as
denominações antitrinitarianas reconhecem que a palavra “único” não é exclusiva
quando se trata de aplicar atributos às três Pessoas da Divindade. Por exemplo,
1 Timóteo 6:15 e 16, que diz: “Único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos
senhores; o único que possui imortalidade.” Para alguns antitrinitarianos, esse
texto se aplica a Jesus. Entretanto, observe que o texto fala do “único (monos)
que tem imortalidade”. Será então que, ao dizer que Jesus é o “único que tem
imortalidade”, a Bíblia exclui o Pai de ser imortal? Obviamente, não!
Eles têm tentado
explicar que Jesus Se tornou imortal somente após Sua ressurreição, que Ele
“não possuía imortalidade antes que Deus O ressuscitasse. Por essa razão [...]
[Jesus] difere de todos os outros reis e senhores no sentido de que Ele é ‘o único
que tem imortalidade’. Por serem mortais, os outros reis e senhores morrem
[...]. No entanto, o Jesus glorificado, [...] tem ‘vida indestrutível’ (Hb
7:15-17, 23-25).”11 Além dessa interpretação questionável, é inegável
que o texto diz “o único que tem imortalidade”, e se eles consideram que aqui
se fala de Cristo, então é impossível negar o fato de que “único” não seja tão
restritivo a ponto de excluir Deus, o Pai, dessa prerrogativa.
Os exemplos acima
revelam que a expressão “único Deus verdadeiro” em João 17:3 não exclui que
Jesus seja Deus porque, quando Ele orou ao Pai e disse essas palavras, Ele não
estava Se eximindo da Sua unidade em natureza com o Pai (Jo 17:5), mas
exaltando o Pai acima de todos os deuses inventados pelo homem, isto é, os falsos
deuses. Além disso, deve ser lembrado que, no livro de João, a unidade entre o
Pai e o Filho é tão estreita que a única maneira de conhecer o Pai é por meio
do conhecimento do Filho (Jo 1:18; 14:6-11; 5:22, 23).
Conclusão
Portanto, à luz dos
argumentos desse artigo, fica claro que João 17:3 confirma a divindade do Pai,
mas não descarta a divindade plena e absoluta do Filho (cf. Jo 1:1), a qual
está em total harmonia com a Bíblia.
Como ministros do
evangelho, devemos estar conscientes de que a verdadeira mensagem de salvação
deve ser levada “a cada nação, e tribo, e língua, e povo” (Ap 14:6). No
entanto, na tentativa de alcançar todos, encontraremos pessoas que talvez não
estejam ensinando em conformidade com as Escrituras. Por essa razão, é nossa
responsabilidade preparar o rebanho não apenas para defender a fé, mas para
alcançar aqueles sinceros que, vendo a verdade, desejem abandonar o erro.
Referências
1. La Atalaya,
1º/4/2012.
2. ¿Debería Creer Usted
en la Trinidad? (Brooklyn, NY: Watch Tower Bible and Tract Society, 1989), p.
18.
3. Cristhian Alvarez
Zaldúa, ¿Doctrina Bíblica o Invento Humano? (Lima: Universidad Peruana Unión,
2012), p. 79-96.
4 Jesus Cristo:
preguntas y respuestas”, La Atalaya, 1º/4/2012, p. 5.
5. “¿Quién es ‘el único
Dios verdadero’?”, ¡Despertad!, 22/4/2005, p. 6.
6. Razonamiento a partir
de las Escrituras (Brooklyn, NY: Watch Tower Bible and Tract Society of New York,
1989), p. 404.
7. Reina-Valera (1995):
“el unigénito Hijo”, mas no original, monogenés Theos (Deus unigênito).
8. “¿Hay un solo Dios
verdadero?”, ¡Despertad!, fev. 2006, p. 29.
9. “Adora a Jesus”, as
Testemunhas de Jeová, em sua versão da Bíblia, traduzem “render homenagem”.
10. Bruce M. Metzger, A
Textual Commentary on the Greek NT, 2ª ed. (Stuttgart: German Bible Soc., 1994),
p. 169.
11. Perspicacia para Comprender
las Escrituras, v. 1 (Brooklyn, NY: Watch Tower and Tract Soc. Of Pennsylvania,
1991), p. 1229.
*Cristhian
Alvarez Zaldúa, doutor em Teologia, é professor de
Teologia Sistemática na Universidade Adventista da Bolívia.
FONTE:
Revista
Ministério, Jul-Ago de 2018, p. 19-21
Deus abençoe a todos do blog.
ResponderExcluirGostaria de contribuir também deixando um artigo aqui bem completo sobre Jesus.
Espero que gostem.
https://conselheirocristao.com.br/jesus/
Oi, irmão Conselheiro. Obrigado por sua contribuição. Vou ler seu artigo. Abraço afetuoso!!!
ResponderExcluir