A PROFECIA CONECTANDO PESSOAS A JESUS
Merlin D. Burt
“Deus
prometeu dar visões nos ‘últimos dias’, não para uma nova regra de fé, mas para
conforto do Seu povo e para corrigir os que se desviam da verdade bíblica.” — Ellen
G. White.
Há muito tempo Deus
falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos
profetas…” (Hebrews 1:1)1
A profecia, ou a
comunicação profética, é um dos principais meios através do qual Deus revela a
Si mesmo e os Seus propósitos ao Seu povo e prediz os Seus planos para o
futuro. Através da palavra profética, Deus Se conecta conosco em um nível
profundo e pessoal. Embora esteja acima de nós e além da nossa compreensão, Ele
ainda Se aproxima de nós pela obra do Espírito Santo que pode chamar a nossa
atenção e tocar o nosso coração de muitas maneiras, mas, a maneira mais clara e
mais confiável é através da revelação especial que chega até nós por meio da
Bíblia Sagrada e da revelação profética. “As profecias que o grande EU SOU nos
deu em Sua Palavra, unindo elo com elo na cadeia dos acontecimentos, da
eternidade no passado à eternidade no futuro, dizem-nos onde estamos hoje na
sucessão dos séculos e o que se pode esperar no tempo por vir. Tudo o que a
profecia tem predito que haveria de acontecer, até o presente, tem tomado lugar
nas páginas da História, e podemos estar certos de que tudo quanto ainda está
por suceder será cumprido no seu devido tempo.”2
Duas etapas estão
envolvidas na revelação profética. Na primeira, Deus envia a mensagem através
do dom profético e, na segunda, o Espírito Santo ilumina o nosso coração com
essa mensagem e nos conecta a Jesus. Pedro assim explica esse processo de duas
etapas: “Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de
interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana,
mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo” (2 Pedro
1:19-21).
Pouco antes dessa
afirmação ousada sobre o papel da palavra profética, Pedro se refere à sua
experiência pessoal de realmente ter ouvido a voz de Deus: “Nós mesmos ouvimos
essa voz vinda dos céus, quando estávamos com Ele no monte santo” (2 Pedro
1:18). O próprio Deus, no Monte da Transfiguração, apontou Jesus aos
discípulos: “Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo” (verso 17 - ARA).
Para Pedro, Jesus foi o ponto focal da revelação divina, de forma especial.
Pedro experimentou por
si mesmo a palavra profética, através da qual ele pôde entender que Jesus é o
Filho amado de Deus. O apóstolo escreveu que a palavra profética entra em nosso
coração como “uma candeia que brilha em lugar escuro”. Em outras palavras, não
podemos ver ou compreender os atos de Deus se não tivermos a iluminação divina.
Um milagre acontece quando o Espírito Santo dá poder à palavra profética. A
palavra profética continua brilhando “até que “o dia clareie e a Estrela da
Alva nasça em vosso coração” (2 Pedro 1:19 – ARA). A que se refere o termo
“Estrela da Alva”? A Jesus, nosso Salvador, que chama a Si mesmo de “Brilhante
Estrela da Manhã” (Apocalipse 22:16). Jesus toca a nossa mente e os nossos
sentimentos através do Seu Santo Espírito, ao lermos as palavras proféticas
inspiradas pelo Espírito. Somente quando sentimos a operação do Espírito Santo
no mais íntimo do nosso ser e aceitamos o perdão do pecado que vem até nós por
meio de Jesus é que podemos entender e experimentar o milagre da transformação
que Ele nos oferece.
A
PROFECIA NOS CONECTA A JESUS
Pedro explicou ainda
que o principal propósito da revelação profética é conectar-nos a Jesus de
maneira viva e transformadora, em nível pessoal. Ao longo de suas páginas, a
Bíblia fala frequentemente sobre essa experiência de iluminação e
transformação. Quando a Terra havia saído recentemente das mãos do Criador e
Adão e Eva caíram vítima do pecado, a palavra profética de Deus assegurou-lhes
que um Salvador viria para redimi-los do pecado (uma promessa registrada em
Gênesis 3:15). Foi a palavra profética, através de Isaías, que trouxe esperança
a todos os pecadores de que um Salvador haveria de vir para salvá-los (Isaías
9:6). Ezequiel, o profeta, viu o profundo desejo de Deus por Seus filhos
faltosos em Israel: “Livrem-se de todos os males que vocês cometeram, e busquem
um coração novo e um espírito novo. Por que deveriam morrer, ó nação de
Israel?” (Ezequiel 18:31). João Batista, na força e no poder do Espírito,
surgiu “batizando no deserto e pregando um batismo de arrependimento para o
perdão dos pecados” (Marcos 1:4). O próprio Senhor Jesus orou para que Seus
discípulos pudessem ter uma experiência de santificação que vem de conhecer e
viver a verdade (João 17:17), e prometeu que Ele viria novamente para levar
Seus filhos para o Lar, para que onde Ele está eles também possam estar (João
14:1-3). E Paulo profetizou: “[...] o próprio Senhor descerá dos céus, e os
mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que estivermos vivos,
seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares.
E assim estaremos com o Senhor para sempre” (1 Tessalonissenses 4:16, 17).
João, o Revelador,
escreveu em vários lugares, no livro do Apocalipse (1:2, 9; 12:17; 19:10;
20:4), que ele estava partilhando o “testemunho de Jesus”, que é “o espírito de
profecia” (Apocalipse 19:10). O próprio Senhor Jesus comunicou ao mundo,
através de João, o que iria acontecer no futuro, culminando com o
estabelecimento dos Novos Céus e da Nova Terra (Apocalipse 21:1 em diante). A
comunicação dessa grande verdade é o grande propósito do livro profético do
Apocalipse. Assim a profecia percorre as Escrituras, desde o Gênesis até o
Apocalipse, como um método infalível de comunicação entre Deus e o Seu povo,
assegurando a base da sua esperança. A intuição e a compreensão se combinam com
a conexão pessoal com Deus, através do Espírito Santo e de Jesus, a Estrela da
Manhã, que nasce em nosso coração.
Mas não é apenas
através do cânon das Escrituras que Deus nos tem dado a revelação profética.
Por várias vezes, ao longo da História, Deus concedeu revelações proféticas
especiais que não se tornaram parte do cânon bíblico. A própria Bíblia menciona
alguns autores que foram claramente inspirados e que escreveram livros ou documentos
que nunca fizeram parte do cânon sagrado: Jaser, Samuel, Natã, Gade, Semaías,
Oded, Aías, Jeú e Ido (para detalhes, ver Josué 10:13; 2 Samuel 1:18; 1
Crônicas 29:29; 2 Crônicas 9:29; 12:15; 15:8; 20:34).3 Esse apelo e ministério
de profetas inspirados não canônicos está previsto para continuar até ao fim
dos tempos (Joel 2:28, 29). Deus decide em vários momentos, muitas vezes
durante períodos de grande crise, fornecer orientação profética adicional.
O
MINISTÉRIO DE ELLEN WHITE
Um desses ministérios proféticos
não canônicos, no qual os adventistas do sétimo dia acreditam, veio através do
ministério de Ellen G. White. Ela recebeu muitas visões e sonhos proféticos
durante um período de mais de 70 anos, até a sua morte em 1915. O que ela
recebeu, ela escreveu em inúmeras cartas, manuscritos, artigos, folhetos e
livros. Ela os produziu sob a inspiração do Espírito Santo. No entanto, ela se
considerava uma profetisa não canônica. Sobre isso, ela mesma escreveu na
introdução de um de seus livros mais significativos, O Grande Conflito entre
Cristo e Satanás:
“Durante os séculos em
que as Escrituras do Antigo Testamento bem como as do Novo estavam sendo dadas,
o Espírito Santo não cessou de comunicar luz a mentes individuais,
independentemente das revelações a serem incorpora- das no cânon sagrado. A
Bíblia mesma relata como, mediante o Espírito Santo, os homens receberam
advertências, reprovações, conselhos e instruções, em assuntos de nenhum modo
relativos à outorga das Escrituras. E faz-se menção de profetas de épocas
várias, de cujos discursos nada há registrado. Semelhantemente, após a
conclusão do cânon das Escrituras, o Espírito Santo deveria ainda continuar a
Sua obra, esclarecendo, advertindo e confortando os filhos de Deus.”4
Ellen White foi muito
clara quanto ao propósito de que sua obra profética era, antes de tudo,
conduzir à Bíblia. Na conclusão de seu primeiro folheto, publicado em 1851, ela
escreveu: “Recomendo-vos, caro leitor, a Palavra de Deus como regra de vossa fé
e prática. Por essa Palavra seremos julgados. Nela Deus prometeu dar visões nos
‘últimos dias’; não para uma nova regra de fé, mas para conforto do Seu povo e
para corrigir os que se desviam da verdade bíblica.”5
Talvez a afirmação mais
clara em que ela falou do seu papel profético em relação à Bíblia seja a
seguinte:
“Eu tenho uma obra de
grande responsabilidade para fazer − comunicar pela pena e de viva voz as
instruções a mim concedidas, não somente para os adventistas do sétimo dia, mas
para o mundo. Publiquei muitos livros, grandes e pequenos, e alguns deles foram
traduzidos para várias línguas. Esta é a minha obra − revelar para outras
pessoas as Escrituras, assim como Deus a mim as revelou.”6 Essa obra de Ellen
White em conduzir-nos à Bíblia tinha por objetivo conectar as pessoas com
Jesus, conforme Pedro disse que aconteceria através do dom profético. O livro
mais apreciado entre os vários que ela escreveu é o Caminho a Cristo, que foi
traduzido em mais de 160 línguas. Tem levado milhões de pessoas à salvação e
concretizado o objetivo profético de Pedro de que a Estrela da Manhã nascerá
nos corações feridos e tristes. Em Caminho a Cristo, o leitor descobrirá que
ela apresenta o caminho da salvação através de palavras convincentes e
persuasivas, cheias do Espírito e das mensagens encontradas nas Escrituras.
Outro livro de Ellen
White também grandemente apreciado é O Desejado de Todas as Nações*, uma obra
inspiradora sobre a vida de Jesus. Eu cito aqui um texto um pouco mais longo
desse livro para ilustrar como suas mensagens e seus escritos são centralizados
em Cristo, e de grande beleza literária:
“O imaculado Filho de
Deus pendia da cruz, a carne lacerada pelos açoites; aquelas mãos tantas vezes
estendidas para abençoar, pregadas ao lenho; aqueles pés tão incansáveis em
serviço de amor, cravados no madeiro; a régia cabeça ferida pela coroa de espinhos;
aqueles trêmulos lábios entreabertos para deixar escapar um grito de dor. E
tudo quanto sofreu − as gotas de sangue a Lhe correr da fronte, das mãos e dos
pés, a agonia que Lhe atormentou o corpo, e a indizível angústia que Lhe encheu
a alma ao ocultar-se dEle a face do Pai − tudo fala a cada filho da família
humana, declarando: É por ti que o Filho de Deus consente em carregar esse
fardo de culpa; por ti Ele destrói o domínio da morte, e abre as portas do
Paraíso. Aquele que impôs calma às ondas revoltas, e caminhou por sobre as
espumejantes vagas, que fez tremerem os demônios e fugir a doença, que abriu os
olhos cegos e chamou os mortos à vida − ofereceu-Se a Si mesmo na cruz em
sacrifício, e tudo isso por amor de ti. Ele, o que leva sobre Si os pecados,
sofre a ira da justiça divina, e torna-Se mesmo pecado por amor de ti.”7
Ela selou essa poderosa
apresentação do livro mostrando como Jesus venceu o pecado por nós na cruz: “Em
meio da horrível escuridão, aparentemente abandonado por Deus, sorvera Cristo
as derradeiras fezes da taça da miséria humana. Durante aquelas horas
pavorosas, apoiara-Se às provas que anteriormente Lhe haviam sido dadas quanto
à aceitação de Seu Pai. Estava familiarizado com o caráter de Deus;
compreendia-Lhe a justiça, a misericórdia e o grande amor. Descansava, pela fé
nAquele a quem Se deleitara em sempre em obedecer. E à medida que em submissão
Se confiava a Deus, o sentimento da perda do favor do Pai se desvanecia. Pela
fé saiu Cristo vitorioso.”8
O
AMOR DE DEUS REVELADO NA CRUZ
O tema central do amor
de Deus revelado na morte de Jesus na cruz é representado em uma litografia de
1883, que Ellen White publicou. Com o título de “Cristo, o Caminho da Vida”,
essa obra retrata a sua visão do grande conflito entre o bem e o mal, iniciando
no Jardim do Éden e continuando até a segunda vinda de Jesus e a Nova
Jerusalém. Como se pode ver representado aqui, Jesus é colocado no centro de
todo o plano da salvação.
“Todo o amor paternal
que veio de geração em geração através do coração humano, toda fonte de ternura
que se abriu na alma do homem, não passam de tênue riacho em comparação com o
ilimitado oceano, quando postos ao lado do infinito, inesgotável amor de Deus.
A língua não o pode exprimir, nem a pena é capaz de o descrever. Podeis meditar
nele todos os dias de vossa vida; podeis esquadrinhar diligentemente as
Escrituras a fim de compreendê-lo; podeis reunir toda faculdade e poder a vós
concedidos por Deus, no esforço de compreender o amor e a compaixão do Pai
celeste; e todavia existe ainda um infinito para além. Podeis estudar por
séculos esse amor; não obstante jamais podereis compreender plenamente a
extensão e a largura, a profundidade e a altura do amor de Deus em dar Seu
Filho para morrer pelo mundo. A própria eternidade nunca o poderá bem revelar.
No entanto, ao estudarmos a Bíblia e meditarmos sobre a vida de Cristo e o
plano da redenção, esses grandes temas se desdobrarão mais e mais ao nosso
entendimento.”9
Possa essa revelação
profética especial ser eficaz e transformadora para nós, ao Deus nos revelar a
Sua mensagem inspirada. Que o Espírito Santo ilumine e transforme essas
palavras em uma experiência viva, ao Jesus, a Estrela da Manhã, surgir em nosso
coração.
* Os escritos de Ellen
G. White estão disponíveis em: http://ellenwhite.cpb.com.br/.
Merlin
D. Burt PhD pela Universidade Andrews, Berrien Springs,
Michigan, EUA, é o Diretor do Ellen G. White Estate, Inc., e é também professor
de Pesquisa de História da Igreja no Seminário Teológico Adventista do Sétimo
Dia, na Universidade Andrews. Seus e-mails:
burt@whiteestate.org;burt@andrews.edu.
NOTAS
E REFERÊNCIAS
1. A menos que de outra
forma indicado, todas as referências bíblicas deste artigo foram citadas da
Nova Versão Internacional da Bíblia Sagrada.
2. Ellen G. White,
Profetas e Reis, (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1992), p. 536.
3. Jirí Moskala, “A
Prophetic Voice in the Old Testament: An Overview”: Review and Herald, 2015),
p. 16.
4. Ellen G. White, O
Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), p. viii.
5. ____________, A
Sketch of the Christian Experience and Views of Ellen G. White (Saratoga
Springs, N.Y.: James White, 1851), p. 64.
6. ____________, Testemunhos
Para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2006), Vol. 8, p. 236.
7. ____________, O
Desejado de todas as Nações (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1990), p.
755.
8. Ibid., 756.
9. ____________,
Testemunhos Para a Igreja, Vol. 5, 2004, p. 740.
FONTE: Revista Diálogo
Universitário
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