A POLÊMICA SOBRE A LEI DOMINICAL
Marcos De Benedicto*
Razões
para crer no impensável
Em uma democracia, será
que a voz da maioria deve predominar sempre ou é preciso proteger o direito
legítimo das minorias? Houve uma fase na história estadunidense em que a elite
usava o argumento de que democracia é sinônimo de maioria. Porém, no século 19,
as minorias reagiram contra a “tirania” da maioria e ajudaram a redefinir a
democracia do país. Mais tarde, os adventistas, interessados na liberdade de
consciência e no direito de adorar no sábado bíblico, fizeram parte dessa luta.
Ao mesmo tempo, a partir dos anos 1820 e 1830, líderes protestantes começaram a
defender a premissa de que a maioria moral deveria controlar a crescente
democracia da nação. Kyle G. Volk documenta esses embates no livro Moral
Minorities and the Making of American Democracy (Oxford University Press,
2014). Será que a história se repetirá? Poderia um “sábado” do interesse da
maioria ser imposto ao mundo?
Desde os estágios
iniciais do adventismo, a questão do sábado como fator de polarização no fim
dos tempos fez parte da escatologia e do imaginário adventista. Porém,
recentemente surgiram tentativas de releituras do nosso ensino sobre o fim,
relegando a expectativa da promulgação de leis dominicais ao cenário do século
19. Por isso, pautamos o tema como matéria de capa. É fato que não conhecemos a
configuração do futuro, nem devemos especular, tampouco criar sensacionalismo.
Mas dizer que o mundo hoje não comporta leis obrigando a observância do domingo
seria não ver o óbvio.
Tentativas de impor
leis dominicais não são novas e surgiram em muitos lugares. Em 321, o imperador
Constantino promulgou a primeira lei conhecida proibindo o trabalho no domingo,
e o mesmo ocorrerá no fim dos tempos. Esse é o cenário claro de Apocalipse 13 e
de outros capítulos que falam da marca da besta, em oposição ao selo de Deus.
Afinal, o sábado é parte essencial da ordem da criação, um memorial no tempo
sinalizando quem é o Criador. Não é por acaso que o inimigo tenta mudar o dia
de adoração, violar a configuração do mundo e estabelecer um reino alternativo.
CONFIAR
NO CENÁRIO PROFÉTICO, AINDA QUE PAREÇA IMPLAUSÍVEL, FAZ PARTE DA FÉ
Há precedentes em
vários países para as chamadas blue laws (leis azuis), que objetivam regular
certas atividades no domingo. Nos Estados Unidos, onde 28 estados têm blue
laws, elas são debatidas há séculos, com destaque para o século 19. A primeira
lei dominical no país foi promulgada na colônia de Virgínia em 1610. Mas o ano
de 1961 foi um marco, pois em um só dia (29 de maio) quatro decisões sobre
diferentes casos foram tomadas em favor de leis dominicais. A Suprema Corte do
país decidiu que as leis sobre restrições de atividades no domingo não têm
caráter religioso e não ferem a constituição. Um desses casos (Gallagher v.
Crown Kosher Market) foi o de um judeu que havia sido preso por abrir seu
estabelecimento no domingo, violando a legislação de Massachusetts.
Em todos os casos, o
juiz William Douglas, apelidado pelos inimigos de “Wild Bill” por seu estilo
independente, foi uma voz discordante. Defensor da Primeira Emenda, que proíbe
o Congresso de fazer leis sobre religião e limitar a liberdade de expressão,
ele citou em sua peça o quarto mandamento e concluiu que o fato de muita gente
“guardar o primeiro dia da semana não autoriza a legislação a tornar essa
observância compulsória”. Foi voto vencido.
Apesar dos
revisionismos, mais do que nunca temos que preservar os fundamentos da nossa
escatologia, pois são pilares da crença e formam a subestrutura do edifício
teológico. Elimine a escatologia da teologia e você perderá metade do reino.
Elimine o sábado da escatologia e perderá um sétimo de sua substância. Confiar
no cenário profético, ainda que pareça implausível, faz parte da fé. Acima de
tudo, Deus está no controle, e Seu poder protetor é maior do que qualquer ameaça.
*MARCOS
DE BENEDICTO é editor da Revista Adventista
(Editorial da edição de
agosto de 2021)
FONTE: Revista
Adventista
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