NÃO TENHA MEDO
Bill
Knott*
Não
temos o controle sobre as tempestades da vida, mas podemos aprender a confiar
que estamos a salvo com Deus em nosso barco
Quando éramos crianças,
às vezes tínhamos a impressão de que controlávamos o mundo. Mantínhamos os
dedos eretos diante dos nossos olhos e os membros queridos da nossa família
desapareciam – mas só por um momento.
Nós ríamos, e a sala
cheia de adultos parava de conversar para rir freneticamente conosco. Quando chorávamos,
normalmente o mundo deixava de girar, pois os adultos se apressavam a nos
abraçar, enxugar nossas lágrimas, nos confortar ou nos alimentar. Orávamos
pelos gatinhos e cachorrinhos perdidos, e (quase sempre) eles voltavam para casa.
Orávamos por proteção para os missionários que levavam o evangelho ao mundo, e
eles voltavam com histórias que validavam nossas orações.
Pensávamos que havia
uma conexão direta entre nossas ações e os acontecimentos à nossa volta. Quando
éramos bons, o sol surgia por entre as nuvens. Quando estávamos aborrecidos,
irados ou éramos indelicados e egoístas, as coisas só iam de mal a pior.
As bicicletas ou carros
quebravam nas tardes de sexta-feira porque não tínhamos nos preparado
adequadamente para o sábado. Amizades eram rompidas porque, de algum modo, tínhamos
um pecado nunca confessado. No universo que conhecíamos, as boas coisas só aconteciam
às pessoas que faziam escolhas corretas e sábias. As coisas ruins – terríveis,
indescritíveis – esperavam por aqueles que viviam sem a lei. E porque,
finalmente, aprendemos que “não existe um só justo, nem um sequer” – nem nós,
nem eu –, questionávamos se o fogo que havia queimado o celeiro ou o acidente
que quebrou um braço não seria um sinal enviado do Céu para nós, mostrando a
perda de nossa inocência ou as nossas más escolhas.
Então somos afetados por
acontecimentos tão cósmicos e amplamente escalonados que parece não haver nada
em nós que possa provocá-los. Economias nacionais se endividam e as moedas são
desvalorizadas. A corrupção domina onde a justiça deveria reinar e nossa bússola
moral parece ficar invertida. Um terrorista ataca uma indústria petrolífera a
milhares de quilômetros de onde moramos e, de repente, temos dificuldade para encher
o tanque de combustível.
Os incêndios destroem
matas e derretem os icebergs. Furacões e tufões rodopiam pelos vastos oceanos,
visando, ao que parece, apenas aos lugares em que a miséria será ainda maior. Os
corais morrem; espécies desaparecem; e as cidades costeiras veem suas torres
cintilantes sucumbirem à elevação dos mares.
Uma grande pandemia
varre o globo, levando com ela os corretos e os descuidados, os fiéis e os
ateus. Nem a idade, nem a saúde, nem a raça, nem a riqueza nos protegem de um
inimigo minúsculo que não podemos ver. E a cada morte pela Covid-19 de alguém
que conhecemos, de quem amamos, levantamos nossos olhos chorosos para o céu e murmuramos
em nossa dor: “Não Te importas que morramos?”
As catástrofes da vida
cotidiana no século 21 são tão reais que chegamos à conclusão de que são
causadas por forças maiores e mais escuras do que qualquer coisa que fizemos,
ou escolhas que tenhamos feito. “Porque a nossa luta não é contra o sangue e a
carne, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo
tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais” (Ef
6:12). Como os discípulos exaustos, agarrados a um barco que naufragava, esperamos
impacientemente o resgate: “Até quando, Senhor, Te esquecerás de mim? Será para
sempre? Até quando esconderás de mim Teu rosto” (Sl 13:1).
E ali, deitado no
convés do nosso barco, está Aquele no qual fomos ensinados a
confiar, dormindo o sono imperturbável da inocência e da fé.
É o suficiente para
fazer homens e mulheres adultos rangerem os dentes, pois temos como regra o que
chamamos de “fé”: a compreensão de que todos são necessários em uma crise.
“Todas as mãos no convés” é o lema da marinha quando as calamidades requerem todos
os recursos e todos os marinheiros possíveis. Murmuramos: Jesus poderia estar,
no mínimo, nos ajudando a retirar a água do barco. Poderia estar manejando os
remos, ou arrastando o mastro quebrado. Pelo fato de estarmos enfrentando uma
emergência em nossa vida, concluímos que Ele também deve enfrentar na Dele.
Mas Ele ainda está
dormindo – na verdade, está descansando – como que num vácuo, não do barco, mas
nas mãos do Seu Pai. E enquanto Ele sonha com os milhares que alimentará, os
corpos que irá curar e os olhos aos quais devolverá a visão, sentimos que nosso
desespero e pânico se transformam em uma indignação cáustica. Então expressamos
em alto e bom som o que antes só ousávamos pensar: “Não Te importas que
morramos?”
“Jesus, é o meu emprego
que estou perdendo... Como vou alimentar minha família?” “Foi o meu bairro que
o tufão destruiu. Como vamos reconstruí-lo?” “É minha esposa, meu marido – que o
Senhor me deu – que agora está no hospital e mal consegue respirar, nem consegue
comunicar-se!”
Essas são questões
nascidas do medo, mas parecem terrivelmente urgentes. Nesse momento, a fé
parece semelhante
a “Deus ajuda quem ajuda a si mesmo” (e outras ideias não bíblicas). Insistimos
que as respostas às nossas crises dependem dos recursos que temos à mão – estabilizando
um barco prestes a virar, em águas revoltas, mantendo os remos presos.
Não conseguimos
imaginar Alguém que interrompe Seu descanso, levanta-Se em um barco que naufraga
e ordena ao vento e às ondas que se aquietem. Não conseguimos enxergar que
Aquele que dorme inocentemente tem em Suas mãos a vasta onipotência. Sua resposta
está além da nossa náufraga imaginação, pois Ele controla inclusive as forças
que consideramos as mais mortais. “As ondas e os ventos ainda reconhecem Sua
voz que os governa mesmo Ele vivendo entre nós” (Katharina von Schlegel, “Be
Still, My Soul” (Review and Herald, 1985, p. 461). Ele sabe que, terrível como
possa ser, essa tempestade não é a maior que cairá sobre nossa jornada.
A calma criada por Ele
e a suave ondulação das ondas sobre o barco subitamente estável são tão
surpreendentes quanto a tempestade que veio dos desfiladeiros. A dor e a tensão
dos músculos e mentes retesados diminuem gradualmente, na medida em que somos invadidos
por um novo e justo medo – ou melhor, temor – que outro discípulo entorpecido
uma vez confessou no fundo de outro barco: “Senhor, afaste-Se de mim, porque
sou pecador” (Lc 5:8).
Sentimos, novamente,
nossa impotência – não como a causa de tudo que aconteceu, nem daqueles cujo
comportamento gerou a grande tempestade, mas do quanto a graça nos sustenta,
mesmo nas emergências, especialmente nelas. Aquele que esteve no fundo encharcado
de um barco com 12 homens desesperados e fragilizados agora divide o fundo do seu
barco enquanto você olha por cima dos barris de pólvora para um mundo que
ameaça com mais doenças e tempestades.
Ainda se perderão
empregos e os animais de estimação irão desaparecer. A reconstrução de casas e
comunidades será difícil e lenta, e os relacionamentos desfeitos só serão
restaurados no compasso da humildade e do amor. Ainda vamos sofrer quando
nossos queridos se forem, ou afundarem nos lugares em que o diálogo não
consegue chegar. Mas tivemos a visão vital de um Senhor que nunca abandona um
barco naufragando, nem vira Seu rosto quando enfrentamos as calamidades. Contra
as ondas revoltas ou nuvens cinzentas vemos a silhueta Daquele que Se
comprometeu a levar-nos até Seu porto eterno. Agora temos a certeza de que nada
“poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm
8:39) – nem as altas tempestades, nem os mares profundos, nem as crises de
hoje, nem as que virão; nem vida encurtada, nem morte atrasada; nem qualquer
outra coisa em toda a criação.
“Por isso não
desanimamos. Pelo contrário, mesmo que o nosso exterior se desgaste, o nosso
ser interior se renova dia a dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação
produz para nós um eterno peso de glória, acima de toda comparação na medida em
que não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem. Porque
as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas” (2Co
4:16-18).
*Bill
Knott é editor-chefe da revista Adventist World
FONTE: Revista Adventista, fevereiro 2021, p. 16-18.
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