QUANDO AS COISAS NÃO DÃO CERTO
Ricardo André
Todo ser humano deseja
uma vida melhor, prosperidade, um salário mais alto, harmonia na sua casa, paz
interior, um trabalho que lhe satisfaça, que lhe dê alegrias e prazer de
trabalhar, uma família feliz, entre outras coisas. Porém, por mais que nos
esforcemos não conseguimos obter muitas dessas coisas que almejamos. Gastamos
nosso tempo. Trabalhamos duro e mesmo assim, parece que nada acontece. Muitas
vezes somos confrontados com a perda de um emprego, não conseguimos fazer a
faculdade do sonho, o fim do casamento, conflito com os filhos, crise
financeira, um diagnóstico de uma doença grave. Nessas ocasiões, muitas vezes,
os amigos e irmãos de fé desaparecem. Então, somos tomados pelo sentimento de
derrota quando vemos as coisas darem errado na nossa vida. Somos levados a
indagar: por que as coisas não dão certo comigo? Por que, Senhor, tudo isso
acontece comigo, apesar de ser um servo teu, buscar diariamente a Tua presença,
querer o bem das pessoas, dos meus familiares, ser uma pessoa honesta, … Por
que as coisas não dão certo? Por que, Senhor?
A
história de Hannah More
Encontramos na história
inicial do adventismo do sétimo dia o nome de Hannah More, uma moça em que as
coisas não deram certo para ela. Hannah tinha uma excelente formação para a
época. Possuía excelente potencial para contribuir para o adventismo. Ávida
estudante da Bíblia, ela havia memorizado o Novo Testamento. Tinha experiência
no trabalho cristão como professora, administradora de escola, missionária do
Comitê Americano de Chamados a Missões estrangeiras, em meio às distantes
tribos indígenas, em Oklahoma. Aos 31 anos, também serviu como missionária no
oeste da África, no início de 1841, custeada pela Associação Missionária
Norte-Americana.
Em 1862, ela conheceu o
Pr. Sthephen Haskell que a encheu de bons livros adventistas, inclusive History of the Sabbath [História do
Sábado], de John Andrews. Depois de voltar para a África, aceitou o adventismo
por meio de leituras.
Rejeitada por sua antiga
comunidade por causa do adventismo, “na primeira metade de 1867, viajou a Batle
Creek, esperando encontrar emprego e um lugar para morar na crescente
comunidade adventista. Contudo, chegou à cidade em um momento em que Ellen e
Tiago White estavam ausentes em uma jornada de viagens, de modo que não
conseguiu nem emprego nem um lugar para morar entre os membros da igreja.
Alguns deles, a julgaram “fora de moda”. Tendo-lhe sido negado um lugar em
Batle Creek, acabou aceitando o convite de uma colega da missão africana
para morar com a família dela ao noroeste de Michigan” (Enciclopédia Ellen G. White, p. 516).
Apesar de tudo, Hannah
não desistiu de sua fé. Os White ao saberem dessa tragédia na vida de Hannah,
começaram a se corresponder com ela, prometendo ajudá-la a se mudar para Batle
Creek, mas isso não chegaria a acontecer. Hannah More adoeceu. Segundo a
Enciclopédia Ellen G. White, ela adoeceu “provavelmente de insuficiência cardíaca
congestiva e dificuldades respiratórias correlatas, e acabou falecendo em 2 de
março de 1868” (Idem). Ellen G.
White condenou de forma dura o tratamento mesquinho dado a Hannah pelos membros
da igreja em Batle Creek, usando inclusive uma linguagem confrontadora,
escreveu: “ela morreu como mártir de egoísmo e da cobiça dos professos
guardadores dos mandamentos” (Testemunhos
Para a Igreja, v. 1, p. 674).
Disse ainda que Hannah
Morre “está morta, mártir do egoísmo de um povo que professa estar em busca da
glória, honra, imortalidade e vida eterna” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 332).
Anos mais tarde, quando
os adventistas tentavam introduzir-se no campo das missões estrangeiras, Ellen
G. White escreveu: “Oh, quanto necessitamos de nossa Hannah More para
ajudar-nos agora a chegar a outras nações! Seu vasto conhecimento de campos
missionários nos daria acesso a outras línguas das quais não nos é possível
agora aproximar. Deus trouxe essa dádiva [...] mas não a apreciamos” (Testemunhos Para a Igreja, v. 3, p. 407,
408).
A maneira mesquinha
como foi tratada por seus irmãos adventistas e sua morte solitária no norte do
Michigan levaram Ellen G. White a escrever um dos textos mais comoventes (Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p.
666-679; v. 2, p. 140-144).
Quando somos
confrontados por eventos e incidentes que nos causam profundas dores e
sofrimentos, somos naturalmente levados ao desânimo e nossa ligação com Deus é fortemente
abalada. Alguns amigos confortadores bem-intencionados podem oferecer suas
próprias respostas: “Deus está lhe ensinando alguma coisa”, ou “seja grato pelo
que você está enfrentando uma vez que este é o método de Deus para purificar
você no fogo purificador”. Essa empatia é mais ofensiva do que útil. E também
reencarna a heresia que Jesus combateu em Seu ministério: “E passando Jesus,
viu um homem cego de nascença. Perguntaram-lhe os seus discípulos: Rabi, quem
pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele
pecou nem seus pais; mas foi para que nele se manifestem as obras de Deus”
(João 9:1-3). Jesus é claro: A ninguém aqui está sendo “ensinada uma lição”.
Surpresas
desagradáveis acontecem com todas as pessoas
Devemos aceitar o fato
de que a vida é cheia de surpresas desagradáveis. Nós planejamos um casamento
feliz, mas ele acaba em um amargo divórcio. Nós oramos e planejamos por
crianças saudáveis, mas todos os anos milhares de pais dão à luz a bebês cujas
deficiências criam um fardo ao longo da vida. Se aqueles que sofrem agarram-se
à crença que Deus controla tudo o que lhes acontece, que estas coisas sempre
estão de acordo com os planos de Deus, porque Deus planeja todas as coisas,
elas são obrigadas a sentir que Deus as está alvejando, por algum propósito
divino inescrutável. Um dia ouvi um irmão da igreja dizer: “Se Deus me envia
uma doença debilitante, Ele deve ter uma razão, e eu devo tentar aprender qual
é”.
A Bíblia não ensina que
Deus envia danos ou bebês deficientes para certos pais para refiná-los através
do sofrimento ou castigá-los por suas más ações. Nem todo sofrimento é uma
correção de Deus. Pessoalmente não acredito que Deus planeja tudo o que
acontece. Quando Jesus chamou Seus discípulos, Ele os avisou que teriam de
enfrentar aflições, a perseguição e o sofrimento físico para a proclamação do
evangelho (Mt 5;11, 12; 24:9; Jo 16:33). Ele não disse que todo e qualquer
sofrimento que experimentariam indicaria “disciplina” de Deus para eles. Sofrer
por amor do evangelho certamente refina nosso caráter e fortalecer-nos na
obediência. Nós não estamos sendo punidos para sermos purificados; somos
purificados porque somos perseguidos por causa de Cristo.
É possível que os
infortúnios que nos sobrevêm ao longo da nossa jornada não sejam completamente
compreendidos por nós nessa vida, mas precisamos confiar que “na vida futura,
os mistérios que aqui nos inquietaram e desapontaram serão esclarecidos.
Veremos que as orações na aparência desatendidas e as esperanças frustradas tem
lugar entre as nossas maiores bênçãos” (Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 474).
Penso que a melhor
maneira de entender tudo isso, não é dizer: “Esta tragédia é uma parte do plano
de Deus”, mas sim: “Agora que isso aconteceu, Deus tem um plano.” Se por minha
própria imprudência ou algum acidente trágico acabo um tetraplégico, minhas
esperanças (e esperança em Deus) para a minha vida não vão acabar, mas serão
drasticamente alteradas. Deus trabalhará comigo e com minha família para nos
ajudar a reconstruir a história da minha vida. Porque isso aconteceu, Deus me
ajudará a desenvolver um plano e dar sentido à minha nova realidade.
Deus não precisa enviar o sofrimento para nos
ensinar uma lição, porque Ele sabe que o sofrimento vai nos encontrar, não
importa o que fazemos para evitá-lo. Não importa o que nos acontece, o plano
final de Deus para nós não pode ser frustrado, o plano de Deus é restaurar-nos
à vida novamente. Quando o apóstolo Paulo diz: “E sabemos que todas
as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são
chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28), Ele não está
dizendo que tudo que nos acontece é bom porque Deus o enviou para a nossa
edificação. Ele está dizendo que porque nós amamos e somos amados por Deus,
todas as coisas, mesmo as tragédias têm o potencial para tecer uma teia de
significado e bênção para nossas vidas. A sabedoria e o poder de Deus
transformará a desordem em nossas vidas de forma que irá restaurar a nossa confiança
de que tudo está em Suas mãos.
O que fazer quando tudo
está dando errado? Qual é o segredo?
Não existe uma fórmula mágica. Muitos livros têm sido escritos a respeito do
assunto, apresentando métodos e princípios. Porém, só existe um segredo e para
ele chamo sua atenção. O segredo está em Apocalipse
12:11, que diz: “Eles o venceram
pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do testemunho que deram; diante da morte,
não amaram a própria vida” (NVI). “Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro”.
Esta frase é muito significativa. As Sagradas Escrituras estão afirmando aqui
que os cristãos do passado, que sofreram perseguição, injúria e morte, venceram
não pela própria força, mas “por causa do sangue do Cordeiro”. Ou seja, “com base
no sangue” de Jesus vertido na cruz do Calvário. Ele venceu o pecado e Satanás
na cruz e continua triunfando hoje e o vencerá definitivamente no fim da história.
Pelo poder transformador do sangue de Jesus podemos também vencer a tentação, o
pecado, superar a dor das perdas, das desilusões, frustrações, os infortúnios
da vida, enfim. E ainda, por viver Jesus em nós, tornamo-nos testemunhas vivas
para Ele. Em outras palavras, os filhos de Deus vencem por causa da vitória
conquistada por Cristo no Calvário.
Existe uma declaração muito poderosa da escritora cristã norte-americana Ellen G. White sobre esse texto bíblico: "Todos quantos queiram podem ser vencedores. Esforcemo-nos fervorosamente para alcançar a norma colocada diante de nós. Cristo conhece nossas fraquezas, e a Ele devemos ir diariamente em busca de auxílio. Não nos é necessário obter força com um mês de antecedência. Devemos vencer dia a dia" (O Cuidado de Deus [MM 1995], p. 313).
Portanto, nosso grande
segredo para vencer é apegar-nos a Cristo. Sim, na hora da crise, da angústia e
da dor; quando tudo parece estar se desmoronando, quando tudo falha, é hora de
buscarmos a Deus; é hora de nos apegarmos, pela fé, à mão de Jesus para
superarmos os problemas e encontrar novos significados para eles. Quando tudo
falha, quando nossa vida está um verdadeiro farrapo, não devemos
desistir, pois temos a promessa da presença de Deus, motivando-nos,
inspirando-nos, concedendo-nos poder. Devemos continuar até alcançar o lugar
que Deus designou para nós. Lá encontraremos Jesus, o maior exemplo de
resiliência e resistência ante o sofrimento. Diz a Bíblia a respeito dEle: “[...]
Ele não deixou que a cruz fizesse com que ele desistisse. Pelo contrário, por
causa da alegria que lhe foi prometida, ele não se importou com a humilhação de
morrer na cruz e agora está sentado do lado direito do trono de Deus” (Hb 12:2,
NTLH).
Ainda que não
consigamos fazer a faculdade do sonho, o emprego tão almejado, a restauração do
nosso casamento, a cura de uma doença crônica, devemos permanecer fiel,
confiando que os mesmos braços que foram pregados na cruz por nós em breve se
estenderão para dar-nos as boas-vindas no Céu, concedendo-nos a herança
imortal.
Conclusão
Qual é o seu problema?
Desajuste com a família? Problemas financeiros? Falta de saúde física?
Desilusão? Seus castelos ruíram? Tudo falhou para você? Você está aflito? Está
desanimado? Sente-se fracassado? Ouça esta palavra de Cristo: “Vinde a mim,
todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11:28).
O Deus da Bíblia é o
Deus que se fez carne. Ele se fez homem, ele é o Deus presente. Considere mais estas
promessas bíblica: “Não tenha medo, pois estou com você; não desanime, pois sou
o seu Deus. Eu o fortalecerei e o ajudarei; com minha vitoriosa mão direita o
sustentarei. Pois eu o seguro pela mão direita, eu, o Senhor, seu Deus, e lhe
digo: ‘Não tenha medo, estou aqui para ajudá-lo” (Is 41:10, 13, NVT).
É preciso que se
entenda que, embora aqui, muitas vezes, tudo falhe, nem tudo está perdido. “A
impossibilidade humana indica a oportunidade de Deus. Portanto, é preciso
compreender os caminhos do Onipotente” (Rodolpho Belz, Quando Tudo Falha, p. 1). Jesus é o melhor amigo,
o companheiro certo, a nossa luz, a nossa rocha inamovível. Se tudo falhou em
sua vida, entregue-se agora, incondicionalmente ao Senhor e Salvador Jesus
Cristo.
Gostaria de concluir
essa reflexão com o lindo pensamento do Rodolpho Belz: “Há um poder acima de
todos os poderes humanos. Há um nome acima de todos os nomes poderosos. Há um socorro
quando todos os socorros de homens falham. Há uma salvação quando toda a
ciência terrena se revela limitada. Há algo que o segura quando a tentação procura
fazê-lo cair. Há uma felicidade que nenhum mortal com todos os seus prazeres
pode lhe proporcionar. Há uma luz quando as trevas o rodeiam. Há um amor quando
todos lhe devotam ódio. Tudo isso e muito mais você encontrará em Jesus. Quando
tudo falha, Ele resolverá os seus problemas. Será sua luz na escuridão. Salvará
você quando estiver perdido no oceano frio da vida. Ele lhe dará felicidade, e
você sentirá o Seu amor. Ele lhe dará repouso, descanso e um eterno lar. Só Ele
tem esse poder, porque Ele tem “todo o poder”. Você falará com Ele através da
oração, como se fala a um amigo. Ouvirá Sua voz por meio das Sagradas
Escrituras, a Bíblia. Aí terá a norma de sua vida e encontrará o caminho de
volta ao eterno lar feliz. Amigo(a), quando tudo falha, Ele estará com você.”.
(Rodolfo Belz, Quando Tudo Falha, p. 2)
Ricardo, meu amigo
ResponderExcluirDois comentários:
> Para mim, que atravesso um momento difícil, esse seu artigo veio na hora certa. Obrigado.
> Você precisa pregar sobre isso e o povo de Deus precisa ouvir.
Parabéns!
Léo de Vincei
Parabéns, Ricardo! Mensagem oportuna para os dias em que vivemos.
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