ENTENDENDO MEUS AMIGOS BUDISTAS
Amy Whitsett
Quando nos mudamos para
o Laos, lembro- -me de que nossos novos amigos nos levaram para uma viagem
especial a um dos vários locais famosos do país que marcam o caminho por onde
Buda passou ao viajar pelo sudeste da Ásia. Nossos amigos nos levaram a um
templo e nos disseram que esse templo era especial porque possuía uma marca da
presença de Buda que havia sido preservada em uma pedra. Imagine como fiquei
chocada quando descobri que essa marca não era uma pegada normal, mas obviamente
uma pegada produzida, com cerca de um metro de comprimento por 60 cm de
largura. Enquanto observava aquela pegada, notei várias das prováveis marcas
que dizem ter sido encontradas no corpo de Buda – dedos dos pés perfeitamente
alinhados, sem arco, e vários símbolos. Fiquei ainda mais chocada quando meu
amigo cristão comentou: “Uau! Você pode imaginar como Buda era alto?!”
Enquanto eu continuava
aprendendo sobre o budismo e como ele é vivido e expresso no Laos, não levou
muito tempo para compreender que, assim como muitos outros heróis e heroínas
importantes culturalmente, Buda se tornou, de certo modo, uma grande lenda,
através da narração de uma história tantas vezes contada e recontada, composta
de uma mistura de verdades e exageros, uma história que serve para descrever e
ajudar as pessoas a entenderem Buda, como também uma história que enfatiza
certas crenças e práticas que definem a cultura. Assim, quem era Buda e o que o
levou às crenças que finalmente se tornaram no budismo?
Buda recebeu o nome de
Siddhartha Guatama, onde atualmente é o Nepal, próximo da fronteira com a
Índia. Embora não se saiba exatamente quando ele nasceu, os historiadores
acreditam que pode ter sido há cerca de 2.600 anos, mais ou menos por volta da
época de Nabucodonosor. Portanto, ele teria sido um contemporâneo de
personagens bíblicos como Daniel, Zacarias, Ageu e Ester. Por ser o filho de um
governante de uma cidade-estado ou de um pequeno reino, por ocasião de seu
nascimento, os sábios indicaram que ele estava destinado a ser tanto um
poderoso rei como um grande e santo homem. Desejando que seu filho seguisse
seus passos, o pai de Siddhartha o protegeu do sofri- mento do mundo fora do
palácio e fez o máximo que pôde para proporcionar a ele tudo o que as riquezas
e o poder são capazes de oferecer. Entretanto, Siddhartha ficou revoltado. Aos
29 anos, idealizou um plano de fuga e saiu para explorar o reino.
Vestido como um plebeu,
ele percorreu a área ao redor do palácio, onde ele se deparou com o sofrimento
que nunca lhe foi permitido ver e, mais especificamente, um homem doente, um
homem idoso, um homem à morte e um religioso ascético. Ao vê-los, ele começou a
se perguntar o que causava o sofrimento e o que se poderia fazer para evitá-lo.
Compreendendo que uma vida de indulgência não o havia deixado satisfeito, fato
que lhe causou um sofrimento ainda maior, deixou para trás o palácio e sua
família, trocando-os por uma vida de ascetismo extremo, na qual jejuava e
meditava por longos períodos. Diz um relato que ele chegava a desmaiar enquanto
meditava, devido ao longo período de jejum, e certa vez caiu em uma poça d’água
de chuva. Esse relato diz que ele teria se afogado, se não fosse uma jovem
tê-lo encontrado e o reanimado com um pouco de mingau de arroz. Siddhartha logo
reconheceu que o ascetismo não era a resposta para o sofrimento. Ele entendeu
que a indulgência e o ascetismo eram dois extremos opostos e se convenceu de
que deveria haver outra solução entre os dois que lidaria de forma mais eficaz
com o sofrimento. Assim, iniciou uma jornada na qual buscou o “caminho do
meio”, através da meditação. Sua busca, dizem, levou-o a um lugar chamado Bodhi
Gaya, localizado atualmente em Bihar, na Índia, onde ele se assentou debaixo de
uma figueira, mais tarde conhecida como árvore Bodhi, e jurou não se levantar
dali até descobrir a verdade. Passados 49 dias de meditação, ele descobriu o
“caminho do meio” e alcançou a “iluminação” com a idade de 35 anos. A partir de
então, ele se tornou conhecido como “Buda, o Iluminado”.
CRENÇAS
BÁSICAS DO BUDISMO
O budismo procura
explicar por que nós sofremos e propõe meios de como suportar ou eliminar o
sofrimento. A “solução” que Buda “descobriu” se tornou mais do que apenas um
conjunto de crenças religiosas ou filosóficas. Com o tempo, veio a formar a
base de muitas cosmovisões asiáticas.
Dizem que Buda alcançou
a iluminação quando descobriu as Quatro Verdades Nobres e o Caminho Óctuplo. As
Quatro Verdades Nobres sustentam que a vida é sofrimento, que o sofrimento é
causado pelo apego ao desejo, que o sofrimento é superado, portanto, pela
eliminação do desejo; e que, finalmente, há um caminho a seguir para eliminar o
desejo. O Caminho Óctuplo, afirmou Buda, possui oito componentes: ter uma visão
correta, desenvolver a intenção correta, cultivar a fala correta, praticar a
ação correta, ter um estilo de vida correto, realizar esforço correto, ter
consciência plena correta e manter a concentração correta. Ele chamou essas
oito formas “corretas” de o “Caminho do Meio”, porque evita os extremos da indulgência
e do ascetismo.
Também, no coração do
budismo está a crença no karma. No Ocidente, o karma é visto frequentemente
como um acontecimento, bom ou mau, relacionado diretamente com as ações da
pessoa. Não faltam vídeos on-line de pessoas fazendo algo rude e imediatamente
tropeçando, caindo ou “colhendo a recompensa”. No budismo, porém, o karma é
muito mais que isso. Acredita-se que o karma seja uma lei natural, muito
parecida com a gravidade, que governa a maioria dos acontecimentos da vida.
Está intimamente ligado
à reencarnação, na qual os atos da pessoa acumulam méritos, bons ou maus, que
afetam tanto a vida presente como também o seu futuro. Nesse sistema de crença,
se a pessoa nasce rica e inteligente, é por causa de algum bom mérito recebido em
uma vida passada. Por outro lado, se alguém é pobre, deficiente ou pouco
inteligente, é o resultado natural das más escolhas feitas anteriormente.
Enquanto o karma, tecnicamente, afeta apenas a pessoa em questão, muitos
acreditam que possa afetar os outros também.
Essa crença no karma afeta em grande medida a cosmovisão da pessoa, porque afirma que qualquer coisa que acontece – boa ou má, quer mude completamente a vida ou seja insignificante – pode ser atribuída a um bom ou mau pensamento ou ação numa existência anterior.
FÉ
E ESTILO DE VIDA
Muitas práticas e
valores do budismo decorrem destes três conceitos: o apego ao desejo, o karma,
e as Quatro Verdades Nobres, juntamente com os Oito Caminhos Nobres – e eles
permeiam a vida do budista. Na Ásia, os budistas participam regularmente dos
rituais e festivais para obter méritos e os filhos dedicam seu tempo como
monges para obter méritos para si mesmos e para seus pais. No Ocidente, os adeptos
se esforçam por se manter conscientes de seus desejos e motivações, bem como
para encontrar maneiras de viver em paz com os outros e com o mundo natural.
Embora o objetivo final de um budista seja alcançar a iluminação (que leva a um estado de impermanência, que não é existência nem inexistência), as três grandes escolas do budismo têm ensinamentos ligeiramente diferentes sobre como isso acontece e quem pode alcançá-lo. No entanto, uma crença que os diferentes ramos têm em comum é o desejo da pessoa de melhorar o próprio estado nesta vida e, assim, melhorar a própria existência na próxima.
O
QUE OS ADVENTISTAS TÊM EM COMUM COM OS BUDISTAS
Embora seja difícil
encontrar outra religião cuja cosmovisão seja mais dessemelhante do adventismo,
os adventistas do sétimo dia ainda compartilham muito em comum com nossos
amigos e vizinhos budistas. Todos desejamos ver um mundo melhor, onde a dor e o
sofrimento sejam minimizados, se não erradicados. Todos desejamos viver uma
vida boa, que normalmente definimos como algo entre os extremos do ascetismo e
da indulgência. Queremos vencer os maus traços de caráter, como o egoísmo, a
raiva, a luxúria e, no lugar deles, demostrar generosidade, paciência e amor
pelos outros.
O que desejamos é levar
uma vida de amor e justiça.
Enquanto os budistas
creem que cada uma dessas coisas acontece pelo despertar do que é bom dentro de
si mesmo, os adventistas do sétimo dia acreditam que o bom caráter vem de se
submeter à vontade de Deus e permitir que Ele transforme o nosso coração pela
habitação do Seu Santo Espírito em nós. Enfim, os adventistas acreditam que a
solução final para o sofrimento é encontrada na volta de Cristo e em Sua
promessa de uma Terra renovada.
COMO
SER AMIGO DE UM BUDISTA E PERMANECER FIEL À FÉ ADVENTISTA
Ao fazer amizade com os
budistas, não tenha medo de se abrir e revelar no que você acredita. Mantenha a
sua honestidade e viva uma vida que demonstre o seu compromisso com Cristo.
Utilize o método de Cristo de se misturar com as pessoas, demonstrar simpatia e
ministrar às necessidades de seus amigos e colegas budistas como uma maneira de
promover a confiança.
E quando você ganhar a
confiança deles, ore para que Deus Se revele a eles, de maneira pessoal. Ore
por eles e com eles. E quando Deus os tocar, ajude-os a responder a Ele fazendo
uma curta oração de agradecimento, encoraje-os a partilhar sua experiência com
os amigos e se ofereça para ensinar a eles mais sobre esse Jesus que acabou de
responder à sua oração. Pergunte a Deus como Ele quer que você viva e ministre
às necessidades de seus amigos. Dedique algum tempo para ficar a sós e em
silêncio, a fim de ouvir a resposta que Ele vai lhe dar, e então, obedeça! Deus
não deseja nada mais do que ser parceiro daqueles que se dedicam a partilhar
Seu amor com aqueles que ainda não O conhecem.
Amy
Whitsett ASN pelo Atlantic Union College, Massachusetts,
EUA, é diretora associada do Centro de Missão Global para as Religiões do
Oriente Asiático. Depois de trabalhar 16 anos como plantadora de igrejas em
grande parte dos países budistas da Ásia, atualmente está estudando para obter
o mestrado em Liderança Global no Fuller Theological Seminary, Pasadena,
Califórnia, EUA. E-mail: whitsetta@gc.adventist.org.
FONTE: Revista Diálogo Universitário
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