MARXISMO: ADOTÁ-LO PRESSUPÕE ABSORVER O ATEÍSMO?
Ricardo André
No dia 30 de agosto de
2020, um grupo de cristãos adventistas, de diversas partes do Brasil, realizaram
virtualmente o I Encontro de Adventistas Progressistas “Marxismo, Política e
Fé: Encontros e Desencontros”. O evento teve como objetivo iniciar o processo
de discussão entre eles sobre o pensamento do filósofo alemão Karl Marx,
denominado de Marxismo, considerando as contradições e proximidade entre as
ideias dele e os valores cristãos.
O evento contou com a palestra
do Prof. Dr. Romero Junior Venâncio Silva, professor de Filosofia da Universidade
Federal de Sergipe, que discutiu, entre outras coisas, sobre sua “experiência
com a obra de Marx e dos marxistas sem ser ateu”. Os participantes ficaram
encantados com a palestra enriquecedora. Depois, seguiu-se um interessante
debate. Em um dado momento, um jovem marxista presente ao encontro (não era
adventista), meio surpreso ao ver cristãos discutirem honestamente o marxismo,
fez uma intervenção para comentar a respeito da natureza materialista do
marxismo, destacando a contradição de se crer num Deus que criou o universo com
o marxismo, que é, em essência, ateu.
Dois dias depois do
evento, ele trava o mesmo debate num grupo de Whatsapp, onde faz a interessante
e intrigante indagação: “Como religiosos conseguem assimilar uma teoria
materialista que nega a existência concreta de qualquer sobrenatural,
atribuindo essas como subprodutos das relações sociais de produção entre
homens? Um outro jovem marxista também presente ao encontro foi contundente, de
forma sarcástica sugere que a melhor forma de equacionar a questão é “deixar a
igreja”. Ele escreveu no chat: “Adventista progressista estudando marxismo?
Mais fácil deixar a igreja, né?”
Importante dizer que
esse debate é recorrente. Apesar de Marx, Engels, Lenin e todos os marxistas
que são referência para o debate ideológico se afirmarem materialistas, ateus,
a dúvida persiste entre os que lutam pelo socialismo e querem uma sociedade
justa e solidária, porém sem negar a existência de Deus. Então, é possível um
cristão adotar ideias marxistas sem negar a religião, sem “deixar a igreja”? Para
ser marxista precisa necessariamente ser ateu? O que Marx escreveu sobre a
religião? Defendia ele a supressão dela? Queremos refletir nesse artigo
exatamente sobre essas questões elencadas por esses dois jovens marxistas.
Marx
e a religião
Indubitavelmente, Karl
Marx era materialista, ou seja, para ele, não há nada além da matéria e da
energia; não há Deus (ou deuses) e não há ações sobrenaturais. Portanto era ateu.
Para ele, Deus e a religião não passavam de meras projeções humanas. Afirmou
que a religião havia sido inventada como uma forma de reagir contra o
sofrimento e a injustiça do mundo, os pobres e oprimidos tinham criado a
religião para imaginar que teriam uma vida melhor após a morte. Servindo como
uma forma de “ópio”, uma maneira de escapar da realidade. Portanto, para ele, o
ateísmo é um postulado evidente. Tanto é assim que ele
escreveu: “A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria
real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida,
o ânimo de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas
embrutecidos. Ela é o ópio do povo.” (“Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”,
ed. Boitempo, p. 145). Ele ainda vislumbrava a possibilidade do desaparecimento
do sentimento religioso com a eliminação da alienação, numa sociedade despojada
da exploração do homem pelo homem e livre do trabalho alienado.
Nesse aspecto,
marxistas e cristãos estão em campos opostos. Enquanto se percebe toda uma
ontologia que se encontra à base do marxismo, de que não há um Deus que criou o
mundo, os cristãos acreditam na existência de um Deus amoroso, que criou os
seres humanos e todas as coisas por meio do poder de Sua palavra (Gn 1:1; Jo
1:1-4).
Para o cristão não há,
é claro, nenhum argumento final e racional que possa provar, por si mesmo, a
existência de qualquer coisa no âmbito espiritual. Daí em diante, é a fé! Ele
deposita a sua confiança nas Sagradas Escrituras – não na mera observação
humana – como a expressão máxima da verdade. “Pela fé entendemos que o universo
foi formado pela palavra de Deus, de modo que o que se vê não foi feito do que
é visível” (Hebreus 11:3).
Quando a disciplina da
ciência se abre para algo mais do que aquilo que é meramente materialista,
então as respostas invisíveis para as principais questões começam realmente a
entrar no foco. Foi nestas palavras que o apóstolo Paulo escreveu: “Assim,
fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê
é transitório, mas o que não se vê é eterno” (2 Coríntios 4:18).
Podemos, então, provar
a existência de Deus? Não, somos incapazes de prová-la. Mas, também a ciência
não pode refutá-la. A questão de capital importância é: Para onde apontam as
evidências? Temos evidências suficientes para crer em Deus. O rei Davi
declarou: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das
suas mãos” (Sl 19:1, NVI). E o próprio Deus nos desafia: “Ergam os olhos e
olhem para as alturas. Quem criou tudo isso?” (Is 40:26, NVI). Se “os céus
declaram a glória de Deus e o firmamento proclama a obra das Suas mãos”, como
canta o salmista, então o estudo do Céu [no sentido espiritual], dos céus e da
natureza, iluminará a nossa compreensão do próprio Deus, de Seu caráter,
bondade e poder.
Por exemplo, nos
últimos 20 anos, cada vez mais evidências da astronomia, da astrofísica e de
diferentes campos da biologia sugerem fortemente que muitas estruturas
complexas no universo físico e biológico devem ter sido projetadas. A
complexidade do Universo e da vida, bem como a exata adequação do nosso Universo
para a vida ganhou admiração de cientistas e levou muitos deles a comentar que
ele parece ter sido projetado por um ser inteligente. O mundo também deve ter
sido planejado sabiamente para que a vida existisse. A variação de temperaturas
deve ser compatível com a vida. Por isso, a distância do Sol, a velocidade de
rotação e a composição da atmosfera devem estar em equilíbrio. Muitos outros
detalhes do mundo devem ter sido cuidadosamente projetados. Na verdade, a
sabedoria de Deus é revelada no que Ele criou.
A convicção de que Deus
é o Autor da criação e a crença na racionalidade de Deus levaram muitos
cientistas em séculos passados – e ainda levam muitos no presente – à cuidadosa
observação e experimentação, a fim de compreenderem a estrutura e o funcionamento
do mundo criado. A revista Diálogo
Universitário v. 7, Nº 3, de 1995, traz uma interessante matéria sobre
diversos cientistas do passado e do presente que foram e são cristãos, a
exemplo de Werner von Braun. Ele era “alemão, o engenheiro de foguetes, foi
diretor do Centro Marshall de Vôo Espacial na década de 60. No prefácio de um
livro ele diz: “Acho tão difícil compreender um cientista que não reconhece a
presença de uma razão superior atrás da existência do Universo como compreender
um teólogo que nega os avanços da ciência. E certamente não há razão científica
pela qual Deus não pode reter a mesma relevância em nosso mundo moderno que Ele
tinha antes de começarmos a perscrutar sua criação com telescópio, ciclotron e
veículos espaciais”. [...] Num livro recente, 60 cientistas de renome,
incluindo 24 que receberam o prêmio Nobel, responderam a perguntas sobre
ciência e Deus. Um deles é Arthur Schawlow, professor de física na Universidade
de Stanford, e detentor do prêmio Nobel em 1981. Ele diz: ‘Parece-me que quando
confrontado com as maravilhas da vida e do Universo, a gente precisa perguntar
por que e não apenas como. As únicas respostas possíveis são religiosas....
Acho necessidade de Deus no Universo e em minha própria vida’” (p. 8-10).
As descobertas na
natureza levam os ateus a concluírem que o acaso, os longos períodos de tempo e
a seleção natural são capazes de produzir qualquer coisa, ao passo que os
cristãos podem concluir que a causa final de tudo é o Deus Criador.
Em relação a fala de
Marx acerca da religião, para não se incorrer em erros de descontextualização
das afirmações, se faz mister conhecer o contexto político em que estava
inserido o jovem Marx para entender essa afirmação tão incisiva contra a
religião. À época, a religião na Alemanha estava a serviço do Estado. E a elite
dominante instrumentalizava a religião para conformar as pessoas (os dominados)
a diferentes formas de opressão política e/ou econômica. Os líderes religiosos
ensinavam os fiéis a se conformarem com a pobreza e a miséria, com aquela ordem
vigente, marcada pela exploração capitalista, impedindo desse modo que o povo
se organizasse para reivindicar melhores condições de vida, melhores salários.
Esse alinhamento político das igrejas cristãs com as classes socialmente
dominante levou Karl Marx e outros socialistas a considerarem a religião como
adversárias ideológicas dos trabalhadores. Por conta da sua condição de
instrumento de conformação (e por consequência, de sujeição), a religião foi,
então, metaforicamente caracterizada por Marx como um ópio, um mecanismo de
alienação dos dominados. Portanto, quando Marx disse que “a religião era o ópio
do povo”, ele se referia a essa religião criada pela elite social, alienante,
que levava (e leva) o povo à aceitação das desigualdades e à passividade diante
das injustiças. Penso que se as igrejas da Alemanha daquele período não
estivessem a serviço da burguesia e estivesse do lado dos oprimidos, talvez
Marx não teria formulado essa declaração.
Em seu artigo “A
religião é o ópio do povo”, publicado no Blog Ativismo Protestante,
o filósofo e poeta Felipe Catão torna mais clara essa frase de Marx e seus
desdobramentos, à luz de seus contextos histórico, social e político:
"O ópio, naquele
século, era um narcótico que a Companhia Britânica das Índias Orientais
contrabandeava às toneladas da Índia para a China, com a intenção de
contrabalancear o comércio entre o Reino Unido e a China. O interesse pelos
produtos chineses (chá, seda, porcelana) era enorme, ao passo que os chineses
pareciam se interessar por único produto – o ópio. A menção ao ópio é como uma
metáfora, pois o cerne da questão é a exploração dos mais pobres pelos mais
ricos – nesse caso, os chineses (mais pobres), o Reino Unido (mais ricos). Para
Marx, a religião servia para aliviar a vida dos explorados, que se apegavam a
ela como uma compensação (o sofrimento religioso compensa o sofrimento real).
Havendo um sociedade sem exploradores e explorados, a religião deixaria de
existir, segundo Marx. A proposta de Marx era para que a classe operária saísse
do seu entorpecimento e rompesse com o círculo de exploração do seu trabalho, e
que reivindicasse o que era seu de direito: o controle do seu trabalho e a
posse de seus frutos como propriedades legítimas; que abandonassem a felicidade
ilusória, proporcionada pela religião, e tomassem posse da felicidade real. E isso
somente poderia ser conquistado com a luta de classe e com a revolução. De
outro modo, os ricos e poderosos jamais iriam renunciar ao seu papel de
explorador. Colocando a frase (“a religião é o ópio do povo”) dentro do seu
contexto histórico-sócio-político, a crítica de Marx visava atingir as
religiões dominantes de então, que não só comungavam, mas colaboravam
diretamente com as classes dominantes e com os exploradores da classe
trabalhadora. Religiosos exaltavam e enalteciam a experiência religiosa como a
realização fundamental terrena do ser humano, negando a eles o direito à luta
de classes e a prática revolucionária, como que condenando a classe operária às
privações sem o direito de aspirar à vida digna.”
Duas análises são
relevantes a partir dessa concepção filosófica de Marx acerca da religião:
1)
Marx não odiava e nem defendia a perseguição a religião
Não obstante seu
ateísmo, Marx não defendia a perseguição a religião e tampouco aos religiosos.
Ao contrário, ele condenou e combateu, inclusive apoiando a luta dos judeus por
direitos civis e políticos, na Alemanha de sua época. É o que se depreende de
sua obra pouco conhecida pelo grande público “Sobre a Questão Judaica”, escrita em 1843 e publicada
em Paris no ano de 1844. Marx escreveu esse texto como um contraponto as duras
críticas que seu amigo Bruno Bauer fazia aos judeus na Alemanha, nas obras “A
questão judaica” e “A capacidade dos judeus e dos cristãos hodiernos para se
tornarem livres”. À época, os judeus haviam perdido seus
direitos políticos e civis.
Bauer, em seu livro,
afirma que os judeus da Alemanha só conseguiriam a emancipação política se eles
abrissem mão de sua religião. Ele aponta que o sofrimento dos judeus era culpa
deles mesmos, pois eles se negavam a renunciar ao judaísmo. Então, vem Marx,
através de “Sobre a Questão Judaica” e diz que essa posição de Bauer é
equivocada, que não se deveria perder tempo com a questão religiosa, mas com a
luta pela emancipação política. Sendo assim, a emancipação política não deve
libertar o homem de sua religião e sim lhe dar o direito e a liberdade à
religião. Dessa forma, a religião não é um obstáculo à emancipação dos judeus.
É evidente que, quando
Marx escreveu essa obra tinha apenas 25 anos de idade, e ainda não tinha
desenvolvido sua perspectiva revolucionária, mas estava a caminho. Todavia,
mesmo depois de desenvolvido as ideias do socialismo científico, em suas obras
posteriores não se vê ódio de Marx a religião, tampouco orientações no sentido
de perseguir os cristãos ou outros grupos religiosos, como muitos religiosos e
intelectuais reacionários propalam. Isso só mostra a má
intenção, no vale tudo para demonizar a esquerda. Portanto, nos países em que
se implementaram o sistema socialista, como na Rússia e nos países do Leste
Europeu, em que houve perseguição aos cristãos, foi sem sombra de dúvida,
equívocos cometidos por esses governos, destituídos de fundamento marxista.
Embora Marx visse a religião como “ópio do povo”, não está implícito aí a
destruição da religião e perseguição aos adeptos dela.
Ainda que Marx
equivocadamente previsse o desaparecimento da religião com o fim da exploração
do homem pelo homem, ou com a construção do socialismo, não estava com isso,
determinando que o Estado socialista eliminasse pela força a religião. Ainda
que Marx percebesse o uso da religião pela classe dominante para fazer as
pessoas a aceitarem a miséria, ele pregava a eliminação da dominação da classe
burguesa, não da religião. O entendimento dele era que, com o fim da
desigualdade social e da exploração capitalista o homem não sentiria mais
necessidade da religião no sentido de encontrar nela alento, pois a miséria
deixaria de existir. Ela ia desaparecer naturalmente. Portanto, a perseguição a
religião nas ditaduras burocráticas stalinistas da Rússia e do Leste Europeu no
século passado representou um crasso erro dos governos daqueles países. Não se
pode chama aquelas experiências de comunismo. Elas estavam a anos-luz do
comunismo idealizado por Marx.
2)
Adotar o marxismo como uma abordagem metodológica para entender o funcionamento
da sociedade capitalista não pressupõe adotar o ateísmo
Embora Marx tivesse uma
concepção negativa da religião, isso não significa a impossibilidade de um
cristão adotar o marxismo como método de análise da sociedade a fim de
compreendê-la. Como concepção filosófica que norteia setores do movimento
popular e social, em que muitos cristãos estão engajados, o marxismo não tem
dono. Ele não pertence somente aos marxistas ateus. É ciência e método,
portanto pode e deve ser estudado por todos, religiosos ou não, e não apenas
aos marxistas vinculados a uma visão de mundo materialista.
Retomando a questão que
o jovem marxista levantou: “Como religiosos conseguem assimilar uma teoria
materialista que nega a existência concreta de qualquer sobrenatural?” Diríamos
que, se se definir o marxismo apenas como um materialismo (abstrato e
metafísico) é impossível um cristão ser um marxista. É impossível essa assimilação. Mas, se se defini-lo como
uma filosofia política ou como uma filosofia
da práxis, do qual fala Gramsci, uma filosofia que visa o desenvolvimento das potencialidades humanas rumo a construção de uma nova sociedade, é possível um cristão ser um marxista. A
partir do momento que um cristão progressista enxerga a sociedade capitalista a
partir da concepção desenvolvida por Marx, está adotando o marxismo como
instrumento analítico, ainda que essa adesão seja limitada ou restrita, pois
não adere ao materialismo, que é inerente ao marxismo. Naturalmente, os
marxistas ortodoxos dirão que esse cristão não é marxista, uma vez que a
ontologia está na base do marxismo. Importante ressaltar que, o marxismo não se
reduz apenas ao aspecto ontológico, mas é também uma doutrina econômica, social
e política, cujos pressupostos são válidos e podem ser perfeitamente apreendidos
pelos cristãos.
Cabe aqui uma
importante fala do Prof. Dr. Venâncio Romero dita no Encontro de Adventistas
Progressistas: “A teoria do conhecimento marxista ela é ateia mesmo. É um fato
histórico. Agora em nenhum momento Marx disse que para me ler tem que ser ateu,
para ser socialista tem que ser ateu. [...] Agora isso não impede em momento
algum do marxismo ser o que eu chamo de mediação sócio-analítica para eu ler o
mundo. Entende agora? Veja, para professar minha fé eu tenho os evangelhos, eu
tenho a Bíblia. Para ler o mundo eu tenho a Bíblia e uma mediação sócio-analítica
chamada marxista. O marxismo é mediação sócio-analítica para ler o mundo, não é
para tirar a minha fé. Minha fé não deve nada ao marxismo. Eu não dependo do
marxismo para eu ter fé ou perder a fé. Quem depende do marxismo para ter fé ou
perder a fé é porque, de fato, nunca teve”.
Há muitos cristãos que
empregam o método marxista para compreender a história, as relações sociais,
bem como uma arma do pensamento e da ação indispensável na luta contra a
exploração capitalista e para ajudar na construção de uma sociedade mais justa,
uma vez que muitos deles são engajados em partidos de esquerda e/ou nos
movimentos sociais, sem necessariamente absorver o materialismo ou o ateísmo.
Há uma outra questão,
que decorre paralelamente desta, que queremos destacar: o fato do Marxismo ontologicamente
ser ateu, isso não significa a impossibilidade de diálogo entre os cristãos e
os marxistas a partir de pontos convergentes. Todo marxista quer uma sociedade
igualitária, justa, fraterna, socialista. Da mesma forma os cristãos politicamente
progressistas querem a mesma sociedade livre da exploração e da opressão. E, a
sociedade socialista deve ser laica e garantir a mais ampla liberdade de
opinião e de crença. Como disse o Prof. Dr. Romero Venâncio na palestra com os
cristãos adventistas, “um socialismo que massacre os cristãos não é
socialismo. O socialismo que persegue
cristãos falhou. [...] Um comunismo que não respeite a dimensão simbólica da
religião pra mim não é comunismo. É outra cosia. [...] Um comunismo de verdade
jamais será um perseguidor de cristãos, de cristãos não, de nenhuma religião
[...], porque, acima de tudo, o comunismo é laico. Eu defendo o comunismo
laico, não um comunismo ateu. Não tem sentido. Ateísmo de Estado, isso é um
absurdo! Ateísmo de Estado é como Teocracia. Eu estou fora! Teocracia também
não defendo. Estado religioso sou contra e como também sou contra o Estado
ateu. Isso não é compatível com a obra de Marx”. Nessa perspectiva, os marxistas ateus
não deveriam desenvolver uma atitude antirreligiosa, como comumente se observa.
Inclusive, alguns marxistas apontam diversas desvantagens nesta postura antirreligiosa,
entre elas o abismo colossal que há entre os marxistas e cristãos, quando
poderiam ser aliados no combate as injustiças e as desigualdades sociais.
Embora Marx tenha
negado a existência de Deus e a religião como forma de ligação com esse Deus,
reconhecemos a contribuição do marxismo, como método de análise, na produção de
conhecimento filosófico, histórico e sociológico na atualidade.
Indubitavelmente, Marx foi um pensador de máxima envergadura, brilhante em suas
análises e que revolucionou o pensamento filosófico, rompendo barreiras e
desvelando a forma de organização de nossa sociedade. O conjunto de suas
análises do modo de produção capitalista continuam válidas. Afinal, o sistema
capitalista permanece, e como consequência, permanece também ainda hoje a
exploração das camadas mais pobres pelas camadas mais ricas da sociedade. Suas
ideias continuam inspirando aqueles que acreditam que é possível construir um
mundo melhor, livre da exploração capitalista.
Todavia, como cristãos,
não podemos endossar todas as formas de pensar e escrever de Marx, ainda que a
essência de suas ideias seja boa e bem fundamentada cientificamente. A Bíblia Sagrada
não sugere censura. Ela recomenda o discernimento espiritual. É o que recomenda
o apóstolo Paulo: “Examinem tudo, fiquem
com o que é bom” (1Ts 5:21, NTLH). Ao encorajar o livre exame das coisas,
Paulo acrescenta um conselho: o de ficar com o que é bom. É exatamente o que os
cristãos progressistas fazem em relação ao marxismo, examinam seus postulados e
suas ideias. Aquilo que não é bom, por conflitar com sua cosmovisão, que é baseada
na Bíblia Sagrada, lançam-no fora. Porém, aquilo que é bom no marxismo abraçam,
sem, contudo, abandonar um ponto sequer da fé.
A
religião como criação divina
Diferentemente do que
pensava Marx a respeito da religião, as Sagradas Escrituras revelam que a
religião tem sua origem em Deus, o Criador. Em Eclesiastes 3:11, Salomão fala de forma enfática que “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo;
também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as
obras que Deus fez desde o princípio até ao fim”. Segundo o texto bíblico,
na criação, Deus colocou no coração do homem a eternidade, algo eterno, algo
maior do que tudo que pensamos ou fazemos ou planejamos. O que significa isso?
Isso quer dizer que, como Deus pôs no coração do homem o anseio pelo infinito,
logo as coisas finitas não podem em toda a sua plenitude preencher o coração do
homem. Isto é notório na sociedade como um todo. De acordo com as Sagradas
Escrituras, fomos feitos à imagem de Deus (Gn 1:26, 27). Logo, fomos dotados
por Deus de uma faculdade espiritual. Nascemos com o desejo nato de adorar
alguém ou a algo. Por isso, que em todas as civilizações antigas que temos
conhecimento possuem um traço em comum: a religião. Desde as comunidades mais
primitivas até as sociedades mais desenvolvidas, todas tinham religião, (e até
hoje as nações e regiões se fundam em princípios religiosos, mesmo que
minimamente) sejam elas cultos e divinizações dos elementos da natureza ou
religiões organizadas com deuses complexos. No nosso entendimento, isso
representa uma clara evidência de que o homem é um ser essencialmente
espiritual. Temos uma necessidade interna de nos relacionarmos com Deus,
implantada nele pelo próprio Deus. Se o homem consciente e persistentemente, não
cultivar esta profunda espiritualidade resultará num vazio do coração humano.
Indubitavelmente, uma
“insatisfação divina” permeia a experiência humana, o que nos leva a indagar se
existe alguma coisa capaz de satisfazer a busca do homem pela satisfação dos
desejos do seu coração. O ser humano está numa constante busca pela realização.
Há em nós uma sensação de incompletude. Isso é inegável. Esse fenômeno é um
fato conhecido e discutido desde o início da história da filosofia. Platão, um
dos grandes filósofos gregos da antiguidade, em um de seus diálogos (Górgias,
492b-d) compara os seres humanos a jarros que estão vazando. De algum modo,
estamos sempre incompletos. Podemos despejar coisas nos recipientes de nossa
vida, mas há algo que impede que o jarro fique cheio. Estamos sempre
parcialmente vazios e, por esse motivo, temos uma consciência profunda de falta
de completude e de felicidade.
Aristóteles, discípulo
de Platão, afirmou que “Todos os homens aspiram à vida feliz e à felicidade,
esta é uma coisa manifesta”. O fato a ser observado é que a felicidade e
satisfação pessoal é a grande aspiração do ser humano. Porém esse desejo não é
o problema, mas o fato dos homens buscarem nos lugares errados.
O avanço científico e
tecnológico não resolveu, nem resolverá jamais, o problema existencial do ser
humano – essa sensação de que sempre há algo faltando, mesmo depois de termos
concretizado nossos sonhos. Sempre queremos mais e queremos coisas diferentes.
Parece-nos então que nada que seja finito é capaz de satisfazer o profundo
anseio que sentimos dentro de nós. Muitos se matam, e muitos outros estão
sofrendo de depressão, stress, insônia, alcoolismo. Hoje há fobias de todos os
tipos. A ansiedade é um mal generalizado. Isso tudo claramente aponta para um
sentimento de vazio no ser humano.
“Nas profundezas da
alma humana se acha implantada a inquietação pelo futuro. Essa percepção do
infinito no tempo e no espaço produz insatisfação com a natureza transitória
das coisas desta vida. É o plano de Deus que o homem perceba que o atual mundo
material não constitui o centro de sua existência. Ele se acha ligado a dois
mundos: fisicamente a este mundo, mas mental, emocional e psicologicamente ao
mundo eterno” (Comentário Bíblico
Adventista do Sétimo Dia, v. 3, 1075).
Certa vez, Santo Agostinho
escreveu que cada um de nós tem dentro de si um espaço vazio deixado por Deus.
Você pode tentar preencher esse vazio com qualquer coisa que existe no mundo,
mas nunca vai conseguir, pois é imenso, infinito como Deus, e só Ele pode
preencher. Ele escreveu: “Criaste-nos para Ti, e nosso coração permanece
intranquilo até que encontre paz em Ti”.
Os seres humanos têm tentado de tudo, na ânsia de preencher esse vazio cavado por Deus. Diz C. S. Lewis: “O que Satanás pôs na cabeça de nossos primeiros pais foi a ideia de que eles poderiam ser como Deus, como se fossem independentes e tivessem vida em si próprios; que eles poderiam inventar algum tipo de felicidade sem Deus. E dessa tentativa infrutífera surgiu quase tudo na história humana – riqueza, pobreza, ambição, guerras, prostituição, classes, impérios, escravidão – a longa e terrível história do homem tentando achar outra coisa, menos Deus, para fazê-lo feliz. E por que isso nunca deu certo? É porque Deus nos criou, nos inventou, um como um fabricante inventa uma máquina. Se um veículo é fabricado para ser movido a óleo diesel, ele não vai funcionar direito com outro combustível. E Deus criou a máquina humana para se mover nEle. Ele é o combustível que nos faz agir, o alimento do qual precisamos para nos nutrir. Não há outro”.
A resposta para o vazio
não é encontrada em nós mesmos tampouco no ateísmo, porque como disse o
personagem do escritor russo de pequenas estórias, Fyodor Mikhaylovich
Dostoyevsky, Príncipe Mishkin, na obra O
Idiota: “O ateísmo não proclama nada”. O preenchimento do vazio existencial
não é encontrada no dinheiro. Podemos conquistar fortunas incalculáveis, e
ainda que fosse possível conquistar o mundo todo, restaria sempre a ânsia de
novas e maiores aquisições, nessa sede insaciável de preencher o vazio infinito
do coração. O magnata Rockfeller disse: "Juntei milhões, mas eles não me
trouxeram felicidade". Não é encontrada no poder. Alexandre, o Grande
chorava após derrubar seus inimigos e dizia desconsolado: "Não há mais
mundos para conquistar". Não é encontrada nos prazeres terrenos. O
escritor pornográfico Lord Byron disse antes de morrer: "Tudo que me restou
agora foram vermes, câncer e ressentimento". Por outro lado, Deus tem
preenchido milhões de pessoas no correr da História, entre as quais eu me
incluo.
Muitos povos achavam
que eram espertos demais para precisar de Deus. Pensavam que poderiam preencher
esse vazio infinito com poder, diversão, sexo ou malas cheias de dinheiro. Mas
nunca conseguiram.
Amigo, talvez você
esteja lutando com dúvidas a respeito da existência de Deus. Suas dúvidas são a
fonte de um continuo desejo de conhecer a Deus e estar em harmonia com Ele. Como
o homem na narrativa do evangelho clame: "Eu creio; ajuda-me a vencer
minha incredulidade!" (Marcos 9:24). Talvez você também sinta dentro de si
esse vazio. Não perca tempo e esforço tentando preenchê-lo com trabalho, estudo,
consumismo, filosofias, sexo, divertimentos, relacionamentos pessoais, viagens.
Você poderá conseguir distrair-se por algum tempo, mas quando a sua máquina
começar a engasgar e a tossir, por ter usado combustível errado, você vai ter
de parar e pensar que a única solução é nEle viver, se mover e existir (At
17:28).
Para além do “ópio” de Marx, nossa religação com Deus é a chave para o mistério dos mistérios, o significado da vida. Deus é o Criador da vida, por isso é Ele que dá sentido à vida. Deus nos criou para Seu louvor (Isaías 43:20-21). Ele nos formou de maneira especial, para mostrar Sua glória e Seu amor através de nós. Esse é o grande sentido da vida. A satisfação plena é produto da segurança absoluta e da paz interior que só Deus pode dar. Só um Deus infinito pode preencher, com o Seu amor, o espaço infinito do coração humano. E esta conquista espiritual está ao alcance de todos os que, reconhecendo a sua insuficiência, aceitam o presente que o Céu oferece – a vida eterna, através de Jesus Cristo: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6:23).
Ocorre que o Senhor não
invade nosso coração, Ele espera um convite para entrar e fazer moradas. Em Apocalipse
3:20 diz: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a
porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo”.
Quando detectamos o
vazio de nossa alma, tentamos preenchê-lo de todas as formas, mas somente somos
saciados quando Jesus entra em nosso coração. É Ele que quer saciar a sede de
nossa alma. Quando Ele entra em nosso coração nos sentimos supridos, saciados,
felizes, prontos para qualquer boa obra.
Quer as pessoas aceitem
ou não; todos precisam de Jesus. Jesus está batendo à porta do nosso coração;
se abrirmos, Ele entrará e equilibrará nossa alma e a paz que excede todo
entendimento invadirá nossa vida para sermos plenos nEle.
Caro amigo leitor, que
tal começar a buscar a Deus hoje? Que tal largarmos dessa vida miserável que o
mundo oferece, vida vazia e eu sei que uma vida longe de Deus é vazia, uma vida
de aparência e buscarmos aquilo que é eterno. Que adianta preservar uma vida
nessa terra, umas amizades, uns prazeres terrenos e perder a vida eterna?
Perder a herança que Deus nos deixou?
Não existe vida sem
Deus, não tem, não é viver com Deus ou viver sem Deus, é viver. Com Deus você
vive, sem Deus você não vive, simples. Ele é tudo o que você tem e precisa, sem
Ele você não tem nada.
Deus abençoe sua vida!
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