A DECISÃO DA HORA UNDÉCIMA: É POSSÍVEL?
Ricardo
André
Neste artigo queremos
refletir sobre a decisão que muitos fazem de aceitar a Jesus na “hora undécima”
da vida. Na parábola dos trabalhadores na vinha, registrada somente em Mateus
20:1-16, Jesus, representado pelo “dono da casa”, chama um grupo de
trabalhadores na “hora undécima” para trabalhar na vinha (v. 6). E eles aceitam
o chamado. Na contagem judaica do tempo, a “hora undécima”, era “por volta das 17 horas. Os homens que foram
trabalhar às 17 horas deveriam trabalhar durante um período curto até que
escurecesse [...]” (Comentário Bíblico
Adventista do Sétimo Dia, v. 5, p. 490). Em certo sentido, o Sol se apaga
diariamente para milhares de pessoas ao redor do mundo (Is 60:20). Cada vez que
morre um ente querido, tenha ele sido brilhante ou não, o Sol se põe nos
horizontes da família enlutada. E, muitos deixam para tomar sua decisão de
aceitar a Jesus justamente ao pôr do sol da sua vida. O grupo de trabalhadores
na parábola de Jesus que aceitaram o chamado na “hora undécima” representa
exatamente essas pessoas. É possível alguém tomar a decisão de aceitar a Jesus
na última hora da vida? Jesus aceita tal decisão? Vejamos.
Os quatro evangelhos
testificam que Jesus não foi crucificado sozinho. “Com ele crucificaram dois
ladrões, um à sua direita, e outro à sua esquerda” (Mc 15:27; Mt 27:38; Lc
23:33; Jo 19:17, 18). Por que Jesus foi pendurado entre ladrões? Não sabemos ao
certo. Mas, a escritora cristã Ellen G. White lança um lampejo de luz acerca
dessa questão ao afirmar que “isso foi feito por instrução dos sacerdotes e
principais. A posição de Jesus entre os ladrões indicava ser Ele o maior
criminoso dos três. Assim se cumpriu a escritura: ‘Foi contado com os
transgressores’ (Is 53:12)” (O Desejado
de Todas as Nações, p. 751). Os evangelhos não revelam os nomes tampouco
detalhes da vida daqueles ladrões que ladeavam Jesus. Segundo a tradição, o
nome do ladrão impenitente ou o “mau ladrão” era “Gestas”, e o ladrão
arrependido era “Dimas”, o “bom ladrão”. Sabe-se que estes eram companheiros de
Barrabás (Ibdem, p. 741). Sabe-se
também que os dois eram considerados bandidos perigosos, o que explica a crucificação,
já que as leis romanas reservava esta punição somente aos grandes criminosos e
aos escravos. Segundo Mt 27:44, a princípio ambos os ladrões que foram
crucificados com Cristo proferiram insultos contra ele. Os dois gritavam
palavras rudes, obscenas, concernente ao estilo de vida de Jesus. No meio
daquela mortal agonia, ambos blasfemavam dEle. Aquele criminoso endurecido
parecia resumir a atitude deles ao escarnecer dizendo: “Você não é o Cristo?
Salve-se a si mesmo e a nós” (Lc 23:39, NVI). Ele apoia a zombaria dos
príncipes e a lança contra o Salvador moribundo. Imediatamente o outro, que
estava extraordinariamente passando por uma transformação interior, o
repreende: “Você não teme a Deus, nem estando sob a mesma sentença? Nós estamos
sendo punidos com justiça, porque estamos recebendo o que os nossos atos
merecem. Mas este homem não cometeu nenhum mal” (Lc 23:40, 41, NVI).
Mas à medida que os
torturantes minutos passavam e o tempo escoava dolorosamente com lentidão, o
outro ladrão voltou seu coração para Jesus e arrependido de sua vida de crime se
entrega a Cristo. Amigo, você consegue visualizá-lo tentando chegar mais perto
de Jesus? Dá as costas ao mundo e a uma vida desperdiçada, ao escárnio da
multidão de espectadores.
As
causas do arrependimento do ladrão
O que teria levado esse
criminoso a se arrepender na “hora undécima” (última hora da sua vida) e a
clamar a Cristo, reconhecendo-O como Salvador, enquanto seu colega continuava
blasfemando contra Ele? Ellen G. White lança alguma luz acerca dessa questão,
ao escrever que ele “não era um criminoso endurecido; extraviara-se por más
companhias, mas era menos culpado que muitos dos que ali se achavam ao pé da
cruz, injuriando o Salvador. Vira e ouvira Jesus, e ficara convencido, por Seus
ensinos, mas dEle fora desviado pelos sacerdotes e príncipes” (Ibdem, p. 749). Porém, sua consciência
o perturbava. E à semelhança de muitos envolvidos em graves casos de culpa, ele
ultrapassou os limites cometendo pecados cada vez piores até que, finalmente,
arrastado pelos crime, foi preso e sentenciados à morte. Mas agora as coisas
estavam tomando seu devido lugar. A cena da sala do julgamento, a tentativa
feita por Pilatos para soltar a Jesus, as palavras daqueles que seguiam ao
longo do caminho até ao Gólgota. Tudo se ajustava a um modelo. Ele e seu
companheiro de crime estavam para findar sua carreira para sempre. Nada mais
havia para temer de qualquer ser humano.
Pendente da cruz, o
ladrão arrependido lembra-se de tudo o que ouvira de Jesus e, iluminado pelo
Espírito Santo, se convence que Cristo era o Filho de Deus. Agora chegara o
momento de decidir. Apesar da tremenda dor, dirigiu-se a Jesus. Ele sabia que
necessitava do Salvador. Com um fio de esperança em seu coração, faz ao
Salvador o comovente apelo: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu
Reino” (Lc 23:42, NVI). Esse pedido em tom enternecedor foi um “raio de
conforto” para Cristo, após sofrer tanta injúrias e zombarias (Ibdem, p. 749). Jesus morria ao seu
lado, mas Ele viria em Seu reino. Seria Rei! E o ladrão moribundo pediu para
ser parte desse reino.
E dos lábios feridos de
Cristo vem a promessa: “Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso” (Lc
23:43, NVI). “Quando Jesus garantiu ao
ladrão um lugar com Ele no “paraíso”, estava Se referindo às “muitas moradas”
da casa de Seu Pai e ao momento em que receberia os Seus ali (Jo 14:1-3)” (Comentário Bíblico Adventista do Sétimo
Dia, v. 5, p. 969). Jesus deu ênfase ao momento da Sua promessa. Ele queria
dizer: “Neste dia da minha humilhação, você revela fé na Minha exaltação. Neste
dia, quando todos os outros Me abandonam, você Me chama Salvador. Neste dia em
que você chegou ao limite da sua vida, quando você lança a sua alma impotente
sobre um Salvador moribundo, Eu lhe prometo. Hoje, declaro como mum decreto
real a partir da cruz, como se fosse de um trono: Você estará comigo no
Paraiso!”
Jesus sentiu que o
ladrão prestes a morrer havia tomado sua decisão para o tempo e a eternidade.
Ele podia não compreender tudo o que era possível saber sobre o Seu reino, mas
Jesus prometeu-lhe um lugar no paraíso por ocasião da ressurreição, quando Ele
voltar (1Co 15:20-23).
Enquanto os discípulos,
temerosos, haviam fugido, exclamando com desânimo: “E nós esperávamos que era
ele que ia trazer a redenção a Israel” (Lc 24:21, NVI), este homem rude e
cruel, de modo inesperado, manifestou sua fé no Filho de Deus, dele recebendo a
certeza da salvação eterna. Uma coroa o aguarda. Ela será dele quando Jesus
estabelecer o Seu reino. É este o triunfo da fé.
As
lições da experiência do ladrão arrependido
Hoje, podemos aprender
algumas relevantes lições com esse ladrão.
1) A graça de Cristo
pode salvar o mais vil pecador. Ninguém está além do
alcance da graça de Cristo. Ninguém está numa situação tão ruim que não possa
ser alcançado pelo evangelho. As Sagradas Escrituras dizem que somos
justificados pela fé em Jesus, ou seja, no momento em que nos arrependemos dos
nossos maus caminhos, todos os nossos pecados são perdoados (Rm 3:21-25; 5:1).
Isso é fantástico! Para muitos essa preciosa verdade do evangelho soa como um
absurdo, como um escândalo. É por isso que o apóstolo Paulo afirmou que “a
palavra da cruz” ou a mensagem do evangelho “é loucura para os que não se
perdem” (1 Co 1:18). Essa é a maravilhosa graça de Deus. Que bom que é assim,
pois todos somos pecadores e necessitados dessa misericórdia divina. É
confortante sabermos que apesar das nossas transgressões, Deus sempre dá uma
chance para nos arrependermos e buscarmos refúgio nEle. Na hora em que a
revelação de Deus entra dentro de nós, não mais nos importamos com o que vai
acontecer conosco nesse mundo, pois já fomos crucificados para este mundo
juntamente com Cristo (Gl 2:20). Não somos deste mundo, estamos apenas de
passagem por aqui. Temos que ter a certeza absoluta de que todas as nossas
dívidas já foram pagas na Cruz do calvário. A cruz simboliza a reconciliação de
Deus para conosco. É um novo e vivo caminho que se abre para todos, basta nos
arrependermos dos maus caminhos e confessarmos Jesus como nosso Salvador, só
isso! A obediência a Ele vem como consequência (Ef 2:8-10).
2) Não podemos escapar
das consequências temporais da vida de pecado.
Cristo lhe prometeu vida eterna, o que indica que os seus pecados foram
perdoados. Mas não o mandou descer da cruz. Os crimes pelos quais havia sido
condenado teriam de ser pagos. É como se Cristo lhe tivesse dito: “Olha, Dimas,
como você se arrependeu, Eu pago, na Minha cruz, as consequências eternas dos
seus crimes e pecados. Mas as consequências temporais, você terá de pagar, na
sua cruz!” Dimas, portanto, não ficou impune.
3) A salvação oferecida
por Cristo vale enquanto o coração bater. À semelhança do
“bom ladrão”, muitos aceitarão a Cristo e sua graça na “hora undécima” da sua
vida, quando o sol estiver se pondo, ou seja, na última hora da sua vida. Eles
são representados pelos trabalhadores que foram chamados na “hora undécima”
(17h00) pelo “dono de casa” (Jesus), da parábola dos trabalhadores na vinha. No
Céu teremos muitas surpresas. Uma delas, é justamente ver pessoas que
julgávamos que nunca entrariam no reino de Deus por terem vivido no lamaçal de
pecados, mas que nos últimos instantes de suas vidas se arrependeram deles e
clamaram a Jesus como Salvador. Pela graça de Deus, elas estarão lá. Podemos
ver com os olhos da imaginação Jesus, ainda hoje, inclinado sobre doentes, nos
instantes finais, atento ao mínimo sinal de aceitação. Apenas um dedo levantado
na direção do Céu, um olhar para Ele são suficientes para que Cristo entenda
que esses doentes terminais estão aceitando-O como seu Salvador pessoal.
Ainda que essas pessoas
sejam chamadas no final de suas vidas, elas são para Deus tão importantes
quanto aquelas que serviram na obra durante muitos anos. Devemos nos lembrar de
que lá encontraremos tanto o ladrão que se arrependeu prestes a morrer ao lado
de Jesus na cruz, como também Timóteo que trabalhou na obra desde a sua
infância (2Tm 3:15).
Caro amigo leitor, enquanto
há vida, há esperança. Contudo, procrastinar a decisão de se entregar a Cristo
para o derradeiro momento da vida é muito arriscado, pois para milhões de
pessoas a morte chegou subitamente e essa decisão não foi possível. É um erro
querer ser salvo nos mesmos termos do “bom ladrão”. Os mesmos princípios
básicos – a salvação pela fé mediante a graça – são válidos para todos. Mas
seria errado procurar ser salvo exatamente como o ladrão foi. Nós não estamos
morrendo numa cruz. Ele foi crucificado! Portanto, devemos nos volver a Ele
hoje. Jesus está perto para auxiliar-nos agora. Concede-nos perdão e poder para
viver por Ele em nossa vida de cada dia. Isso é absolutamente verdadeiro. Você
pode contar com isso.
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