Ricardo
André
Introdução
Na primeira metade do
ano de 1984, tornei-me Adventista do Sétimo Dia, depois de participar de uma
série de estudos bíblicos, num Evangelismo Público, realizado pela Igreja
Adventista da Cidade do Cabo de Santo Agostinho/PE. Convencido de que os
ensinos e crenças adventistas estavam em perfeita harmonia com as Sagradas
Escrituras, decidi me batizar no dia 17 de agosto de 1985, e fui logo integrado
ao Grupo do Bairro São Francisco. Era ainda uma criança com apenas 12 anos de
idade, mas com uma firme convicção de que estava tomando a melhor decisão da
minha vida, e de que Cristo estava conduzindo minha decisão. Aquele foi um dia
muito feliz para mim, que marcou indelevelmente minha vida. Esse ano (2020)
fará 35 anos que entreguei minha vida a Jesus através do batismo. Nunca me
arrependi da decisão que tomei naquele ano.
Ao atingir a
adolescência, mais precisamente aos 16 anos de idade, muitas dúvidas de
natureza social povoaram minha mente. Nasci e cresci num bairro periférico da
Cidade do Cabo de Santo Agostinho, onde a pobreza era marcante, centenas de
crianças e jovens viviam em situação de vulnerabilidades sociais. Ao perceber
essa realidade, comecei a me perguntar: Por que uns são ricos e outros são
pobres? Por que uns são bem alimentados e podem estudar até a universidade,
enquanto outros devem procurar emprego desde cedo? Por que existem
desigualdades sociais? É justo que uns poucos tenham tanto e muitos não tenham
nada? Por que existem ricos e pobres? Então, decidi buscar respostas para essas
e outras perguntas que todas as pessoas, mais cedo ou mais tarde, se
defrontarão com elas. Como cristão, eu já sabia pela Palavra de Deus que todas
as injustiças, discriminação e outras mazelas existentes nas sociedades tinham
sua raiz e origem no pecado. O pecado afeta toda a nossa existência, inclusive as relações sociais. Ele tornou o homem ambicioso e egoísta. Entretanto, complementarmente queria obter uma
explicação científica.
Comecei a frequentar
assiduamente a Biblioteca Pública da minha cidade para pesquisar nos livros as
respostas para minhas dúvidas. Foi aí que tive contato e aproximação com o
filósofo alemão Karl Marx. Além do Manifesto do Partido Comunista (obra de Marx
e Engels, publicada na Europa em 1848), li diversas outras obras de autores
marxistas, as quais me fizeram entender as causas das diferenças sociais
existentes na sociedade capitalista. Compreendi que o capitalismo é injusto e
irracional porque é fundado na “exploração do homem pelo homem”. E essa
exploração da classe trabalhadora (classe dominada) por parte da burguesia
(classe dominante) é o único meio desta lucrar. Nesse tipo de sociedade os
trabalhadores precisam se submeter à burguesia. Recebem um salário e, em troca,
sua capacidade de trabalhar fica à disposição do patrão. O patrão procura
explorar o máximo essa capacidade de trabalho. Desse modo, o valor do trabalho
realizado pelo operário acaba sendo maior do que o salário que recebe. Tudo o
que o proletário produz além do valor do seu salário é embolsado pelo patrão. O
valor da produção excedente é a origem do seu lucro. Marx chama essa diferença
de mais-valia. Compreendi que o fato dos trabalhadores não possuírem quase nada
está relacionada justamente a essa exploração capitalista. O produto do
trabalho de milhões de homens e mulheres vão de graça para a burguesia. O
capital acumulado é o resultado do trabalho não-pago. Dessa
maneira, trabalhadores e capitalistas estão em classes opostas: o ganho de um
representa a perda para o outro. Essa é, para a teoria marxista, a essência da
luta de classes (materialismo dialético): o capitalista ganha à medida que o trabalhador perde.
Sobre isso, Marx
afirmou: “Capital, por isso, não é apenas comando sobre trabalho, como dizia A.
Smith. É essencialmente comando sobre trabalho não pago. (…) O segredo da auto
expansão ou valorização do capital se reduz ao seu poder de dispor de uma
quantidade determinada de trabalho alheio não pago.”1.
Assim, para a teoria marxista a luta de classes seria “o motor da
história”. Portanto, o marxismo
percebe a luta de classes como meio para o fim dessa exploração, bem como para
instituição de uma sociedade onde os produtores seriam os detentores de sua
produção.
Compreendi ainda que o
capitalismo é explorador, desumano e irracional por causa da propriedade
privada. Como os burgueses são os detentores dos meios de produção (fábricas,
terras, bancos, empresas em geral), eles submetem milhões de trabalhadores. De
acordo com Marx, a única solução para acabar com a exploração é a destruição do
capitalismo pelos próprios trabalhadores, tomando para si os meios de produção
e o governo, suprimindo a burguesia e os seus meios de hegemonia e manutenção
do poder, que constituem os conjuntos chamados infraestrutura e superestrutura,
e construir uma nova sociedade, em que as terra e as empresas pertenceriam à
coletividade. Tudo seria de todos, e os frutos, distribuídos de acordo com o
trabalho de cada um. Ninguém teria condições de explorar os outros. Sendo,
então, uma sociedade sem classes, justa e igualitária. Ele chamou essa
sociedade de socialista.
Ao ser desnudado para
mim a contradição das relações capitalistas e suas mazelas, logo aderir as
ideias socialistas, também chamadas marxistas. A partir de então o marxismo passou
a ser para mim uma chave de leitura da realidade. Ao mesmo tempo que
compreendia o funcionamento da sociedade capitalista, descobria que havia
partidos políticos no Brasil de inspiração socialista, denominados de
“esquerda”, a exemplo do Partido dos Trabalhadores. Há mais de um século
o
marxismo passou a ser a principal expressão do pensamento da esquerda não
somente do Brasil, mas do mundo. E que haviam partidos de direita que defendiam
a permanência da ordem vigente, ou seja, o capitalismo e a desigualdade social
oriundo dele, chamados de “direita”, a exemplo do PFL (hoje DEM). Tal
compreensão foi determinante para que votasse pela primeira vez, aos 16 anos,
em Lula para Presidente, em 1989, primeira eleição presidencial após os 21 anos
de Ditadura Civil-Militar. De lá para cá nunca mais deixei de votar no PT e em outros
partidos de esquerda.
A pergunta que se impõe
é: como cristãos, podemos defender as ideias marxistas? Um cristão pode ser de
esquerda? O propósito deste artigo é promover essa reflexão a partir de minha
experiência pessoal e em alguns princípios da Palavra de Deus.
Ser
marxista não significa aceitar a totalidade das ideias preconizadas por Marx
Alguns colegas, que
enxergam um espectro marxista rondando o Brasil e esse espectro existiria há
muito tempo, se surpreendem ao saber que defendo algumas ideias marxistas sendo cristão. Sou assaz
criticado por alguns irmãos da minha comunidade religiosa por ser de esquerda.
Para eles, sou um “inconverso” contraditório. Asseveram taxativamente que não
dá para ser cristão e de esquerda e/ou marxista ao mesmo tempo por conta da natureza
ateísta do marxismo. Certa vez, num Grupo de Whatsapp, um pastor adventista me
perguntou num tom de reprovação como eu poderia defender um teoria que é, em
essência, contrária ao cristianismo. De fato, em virtude de possuírem
cosmovisões distintas, cristãos e marxistas muitas vezes estão situados em
campos opostos. Não foi por acaso que Karl Marx, no século XIX, se referiu à
religião, nos seguintes termos: “O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo”.2 Ele ainda vislumbrava a possibilidade do desaparecimento
do sentimento religioso com a eliminação da alienação, numa sociedade despojada
da exploração do homem pelo homem e livre do trabalho alienado.
Se faz mister conhecer
o contexto político em que estava inserido o jovem Marx para entender essa
afirmação tão incisiva contra a religião. À época, a religião na Alemanha
estava a serviço do Estado. E a elite dominante instrumentalizava a religião
para conformar as pessoas (os dominados) a diferentes formas de opressão
política e/ou econômica. Os líderes religiosos ensinavam os fiéis a se
conformarem com a pobreza, com aquela ordem vigente, marcada pela exploração
capitalista, impedindo desse modo que o povo se organizasse para reivindicar
melhores condições de vida, melhores salários. Esse alinhamento político das
igrejas cristãs com as classes socialmente dominante levou Karl Marx e outros
socialistas a considerarem a religião como adversárias ideológicas dos trabalhadores. Por conta da sua condição de instrumento de conformação (e por consequência, de
sujeição), a religião foi, então, metaforicamente caracterizada por Marx como
um ópio, um mecanismo de alienação dos dominados. Portanto, quando Marx disse que “a religião era o ópio do povo”, ele se referia a
essa religião criada pela elite social, alienante, que levava (e leva) o
povo à aceitação das desigualdades e à passividade diante das
injustiças. Penso que se as igrejas da
Alemanha daquele período não estivessem a serviço da burguesia e estivesse do
lado dos oprimidos, talvez Marx não teria formulado essa declaração.
"O ópio,
naquele século, era um narcótico que a Companhia Britânica das Índias Orientais
contrabandeava às toneladas da Índia para a China, com a intenção de
contrabalancear o comércio entre o Reino Unido e a China. O interesse pelos
produtos chineses (chá, seda, porcelana) era enorme, ao passo que os chineses
pareciam se interessar por único produto – o ópio. A menção ao ópio é como uma
metáfora, pois o cerne da questão é a exploração dos mais pobres pelos mais
ricos – nesse caso, os chineses (mais pobres), o Reino Unido (mais ricos). Para
Marx, a religião servia para aliviar a vida dos explorados, que se apegavam a
ela como uma compensação (o sofrimento religioso compensa o sofrimento real).
Havendo um sociedade sem exploradores e explorados, a religião deixaria de
existir, segundo Marx. A proposta de Marx era para que a classe operária saísse
do seu entorpecimento e rompesse com o círculo de exploração do seu trabalho, e
que reivindicasse o que era seu de direito: o controle do seu trabalho e a
posse de seus frutos como propriedades legítimas; que abandonassem a felicidade
ilusória, proporcionada pela religião, e tomassem posse da felicidade real. E
isso somente poderia ser conquistado com a luta de classe e com a revolução. De
outro modo, os ricos e poderosos jamais iriam renunciar ao seu papel de
explorador. Colocando a frase (“a religião é o ópio do povo”) dentro do seu
contexto histórico-sócio-político, a crítica de Marx visava atingir as
religiões dominantes de então, que não só comungavam, mas colaboravam
diretamente com as classes dominantes e com os exploradores da classe
trabalhadora. Religiosos exaltavam e enalteciam a experiência religiosa como a
realização fundamental terrena do ser humano, negando a eles o direito à luta
de classes e a prática revolucionária, como que condenando a classe operária às
privações sem o direito de aspirar à vida digna.”
Contudo, a concepção
negativa que Marx tinha da religião não significa a impossibilidade de um
cristão adotar o marxismo como método de análise da sociedade a fim de
compreendê-la tampouco a impossibilidade de diálogo entre os cristãos e os
marxistas a partir de pontos convergentes. Isso não significa necessariamente
abandonar a fé. Eu sou cristão e tenho simpatia por algumas ideias marxistas, e conheço inúmeros cristãos
adventistas e de outras denominações cristãs que também são de esquerda. E, não
entendemos desde sempre que não trocamos uma coisa pela outra. É importante
esclarecer que, ao dizer que sou marxista não quero dizer que tenho total
identidade com as ideias de Karl Marx. Como também os cristãos dizerem, hoje,
que são protestantes, não querem com isso dizer que adotam todo o conjunto de
crenças do fundador do protestantismo, o monge teólogo Martinho Lutero. Por
exemplo, ele era antissemita, desenvolveu um ódio descontrolado aos judeus,
defendeu até a morte deles. No seu livro “Sobre os Judeus e suas Mentiras”,
escrito em 1543, Lutero dedicou parágrafos horripilantes e indesculpáveis
a eles:
"Esses vermes envenenados e venenosos devem ser
recrutados para trabalhos forçados ou expulsos de uma vez por todas”.
“Temos culpa em não matá-los”.
“Queime suas sinagogas. Negue a eles o que disse
anteriormente. Force-os a trabalhar e trate-os com toda sorte de severidade …
são inúteis, devemos tratá-los como cachorros loucos, para não sermos parceiros
em suas blasfêmias e vícios, e para que não recebamos a ira de Deus sobre nós.
Eu estou fazendo a minha parte”.
“Resumindo, caros príncipes e nobres que têm judeus
em seus domínios, se este meu conselho não vos serve, encontrai solução melhor,
para que vós e nós possamos nos ver livres dessa insuportável carga infernal –
os judeus”.3
Perguntamos: como
cristãos, devemos endossar essas ideias de Lutero só porque somos protestantes?
É óbvio que não! É consenso entre todos os cristãos modernos que tais
declarações devem ser rejeitadas com veemência, uma vez que um dos valores
cristãos é o amor ao próximo. Paulo afirmou: “Não devam nada a ninguém, a não
ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a
lei” (Romanos 13:8, NVI). Aqueles que puseram em prática esse pensamento
antissemita de Lutero no passado cometeram atrocidades com os judeus. Há quem
diga que essas ideias influenciaram os alemães nazistas a matarem os mais de
seis milhões de judeus na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Não obstante o seu
antissemitismo, reconhecemos as contribuições vitais e decisivas que o
reformador do século XVI fez para o mundo cristão. Ele contribuiu para o
estabelecimento da liberdade de consciência e crença na Ocidente e resgatou
importantes ensinos bíblicos há muito rejeitados e espezinhados por Roma, como a
Salvação unicamente pela graça de Cristo, o sacerdócio de todo crente, o
princípio sola Scriptura, que elevou o papel das Escrituras à
condição de padrão único e fonte normativa da teologia, bem como devolveu a
Bíblia às mãos das pessoas comuns.
Ora, assim como ser
protestante não requer completa adesão a todas as ideias defendidas pelo monge
Lutero, ser marxista não significa aceitar acriticamente todas as ideias de
Karl Marx. Por exemplo, ele era materialista, ou seja, acreditava que não
existia nada além da matéria. Portanto, era ateu. Diferentemente de Marx,
acredito que há algo além da matéria, que há uma realidade transcendental.
Nele, há um Deus amoroso que habita no Céu, e que criou o mundo e os
vários seres vivos em seis dias, há alguns milhares de anos. Essa fé está
baseada em uma confiança na Bíblia Sagrada, revelação desse Deus maravilhoso, que se
relaciona com seus filhos.
Embora Marx tenha
negado a existência de Deus e a religião como forma de ligação com esse Deus,
reconhecemos a contribuição do marxismo, como método de análise, na produção
de
conhecimento filosófico, histórico e sociológico na atualidade. Indubitavelmente,
Marx foi um pensador de máxima envergadura, brilhante em suas análises e que
revolucionou o pensamento filosófico, rompendo barreiras e desvelando a forma
de organização de nossa sociedade. O conjunto de suas análises do modo de
produção capitalista continuam válidas. Afinal, o sistema capitalista
permanece, e como consequência, permanece também ainda hoje a exploração das
camadas mais pobres pelas camadas mais ricas da sociedade. Suas ideias
continuam inspirando aqueles que acreditam que é possível construir um mundo
melhor, livre da exploração capitalista.
Todavia, como cristãos,
não podemos endossar todas as formas de pensar e escrever de Marx, ainda que a
essência de suas ideias seja boa e bem fundamentada cientificamente. Cabe aqui
evocar uma interessante admoestação do apóstolo Paulo: “Examinem tudo, fiquem com o que é bom” (1Ts 5:21, NTLH). Foi
exatamente o que fiz em relação ao marxismo, examinei-o durante anos, desde a
minha adolescência. Aquilo que não era bom, por conflitar com minha cosmovisão,
que é baseada na Bíblia Sagrada, lancei-o fora. Porém, aquilo que é bom no
marxismo eu abracei, sem, contudo, abandonar um ponto sequer da fé.
Proximidade
entre os valores cristãos e os valores marxistas
O cristianismo, maior
expressão religiosa do mundo ocidental, surgiu antes do capitalismo, e “foi
fundad[o] sobre os ensinamentos e ministério de Jesus e fundamentada na longa
história das Escrituras hebraicas e de seus profetas”.4 Um dos
aspectos importantes da comunidade dos cristãos primitivos era que eles tinham
tudo em comum; vendiam suas propriedades e o dinheiro era distribuídos entre os
necessitados. É o que se depreende dos textos de Atos 2:42-47 e 4:32-37.
Portanto, o ideal da vida cristã é a partilha,
a comunhão. Este é o sentido da
comunidade, expressando a ideia de uma vida em comum-unidade com os outros. Não
cabia ali a propriedade privada, a exploração e a desigualdade social. Ao
estudarmos o Antigo Testamento descobrimos que esse era o ideal de Deus para
Israel. Após libertar os hebreus da escravidão egípcia, depois de 400 anos de
opressão, Deus queria estabelecer um novo tipo de sociedade com eles, que fosse
uma sociedade justa e sem opressão (Êx 22:21-23; 23:9). Para a realização desse
projeto Deus estabeleceu diversas leis e mandamentos. “Entre essas leis,
destacava-se a preocupação com os concidadãos nessa nova sociedade, bem como o
cuidado com os estrangeiros e os mais vulneráveis. Essas pessoas não deveriam
ser exploradas”5 Mas, infelizmente, cedo a nação israelita afastara-se
do ideal de Deus para ela. As estruturas econômicas e políticas foram
transformadas, tornando-se menos participativas levando à exclusão. Formaram-se
grupos sociais que enriqueceram a partir da exploração dos outros, provocando o
surgimento de pobres explorados e oprimidos.
No capítulo 1 do
profeta Isaías, podemos ver evidências do estado apóstata, rebelde e corrupto
de Israel, com somente uns poucos permanecendo fiéis. Os líderes do professo
povo de Deus, estavam tirando vantagem dessas classes desafortunadas e se
enriquecendo às suas custas. Era dever daqueles que amavam a Deus, corrigir
isso. Os opressores deveriam ser refreados, e os pobres, desafortunados e
oprimidos precisavam ser libertados. O Senhor chama Israel ao arrependimento e
a praticar obras dignas. Entre outras coisas Ele pede: “Aprendam a fazer o bem!
Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão,
defendam a causa da viúva” (Isaías 1:17). Se fizerem, o Senhor promete remissão
dos pecados e perdão.
Nesse contexto, ao
longo dos reinados de Israel e Judá, além do profeta Isaías, Deus enviou
diversos outros profetas para denunciar e advertir o pecado da injustiça contra
os oprimidos, bem como para lembrar aos líderes e ao povo suas
responsabilidades para com os excluídos. “Embora pareça que os israelitas não
conseguiram viver o projeto de uma sociedade justa e generosa, a comunidade da
igreja primitiva levou a sério a ordem de que não deveria haver pobres entre
eles (Dt 15:4). Uma das expressões práticas de sua fé foi compartilhar seus
recursos materiais, até mesmo vendendo terras doando o valor recebido (veja At
4:34-5:2) a fim de atender aos que não faziam parte daquela nova comunidade
[...]”.6
Sobre isso, a escritora
cristã norte-americana Ellen G. White escreveu: “Contra a indisfarçada
opressão, a flagrante injustiça, o luxo inusitado e extravagante, despudorados
banquetes e bebedeiras, a grosseira licenciosidade e deboche de seu tempo, os
profetas ergueram a voz; mas seus protestos foram vãos, em vão foi a denúncia
do pecado”.7
Como se vê, a primeira
comunidade cristã viveu o ideal de Jesus para ela, pautada nos valores da partilha e da comunhão. O ideal de uma sociedade onde o importante é o comum,
aquilo que é de todos, uma sociedade justa e sem opressão é o que exatamente
propõe os marxistas ou socialistas. Com isso, não estou afirmando que
Cristianismo e Socialismo representam a mesma coisa tampouco que o socialismo
seja o modelo bíblico para a humanidade, mas estou querendo dizer que ambos possuem
ideais ou valores que se entrelaçam, como o da partilha e da comunhão, o desejo
de construir uma sociedade justa e igualitária. Os ideais preconizados pela
teoria marxista e que se afirmam cada vez mais no mundo de hoje: justiça
social, liberdade, solidariedade, valorização do outro, atenção aos mais
fracos, entre outros, tem suas raízes numa cultura permeada pela mensagem
cristã. Não há como negar isso.
Portanto, eu não vejo
nenhuma contradição à minha opção cristã pretender uma sociedade que não se
funda na exploração de uma classe por outra, prática pecaminosa, inclusive
denunciada pelos antigos profetas hebreus. Ao contrário do que dizem muitos cristãos
direitistas de que um cristão não pode ser de esquerda ou marxista, que isso significa
negar a fé, ao defender uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária não me
afasta da “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Judas 3), uma vez
que toda a Bíblia revelam que essa era a experiência que Deus queria que Seu
povo vivenciasse. Acredito profundamente que uma pessoa, mesmo não sendo marxista, ler Marx desprovido
de preconceito, poderá sentir-se constrangido ao encontrar em seus
escritos mais de cristianismo do que em muitos escritores cristãos.
A internet está
saturada de textos e vídeos produzidos por pastores, padres e leigos militantes
da direita política, na inglória tentativa de provar, e ao mesmo tempo alertando
os crentes, a respeito da incompatibilidade entre o cristianismo e o
socialismo, descrevendo este último como algo diabólico. A pergunta que se impõe
é: Esses líderes religiosos já leram sobre o Marxismo na própria fonte ou só
reproduzem de terceiros? Provavelmente, a maioria de seus críticos nunca
reservou um tempo para ler uma linha de "O Capital" ou do “Manifesto
do Partido Comunista”. Mas, se ocupam em passar horas a fio assistindo aos
vídeos do astrólogo falido Olavo de Carvalho, ou lendo seu livro "O Mínimo
que você precisa saber para não ser um idiota." Não estou dizendo com isso
que todos temos a obrigação de ler todas as obras de Marx. Mas se formos
honestos, ao menos, procuraremos nos inteirar de algumas ideias antes de sair
por aí combatendo-as com frases prontas que ouvimos de terceiros.
Sem
querer desculpar e negar os diversos erros cometidos nos diversos países que
implantaram o socialismo, a verdade é que, quando esses religiosos se ocupam em
alertar os cristãos dos males do regime socialista - na concepção marxista,
eles incorrem no erro de achar que o capitalismo é um sistema totalmente
compatível com a ética cristã. Certa feita, li numa rede social que o
capitalismo era divino e contrapunha o diabólico socialismo. Isto é um equívoco
gritante. Existem muitas demandas do capitalismo que também se chocam com os
princípios morais que estão na Bíblia Sagrada. Sabemos que há também muita injustiça
do lado capitalista. O capitalismo, por ser um sistema que pertence a este
mundo corrompido, afetado pelo pecado, causa deturpações até mesmo dentro das
igrejas cristãs, notadamente as neopentecostais. A famigerada Teologia da
Prosperidade é fruto de uma mentalidade que coisifica e vende tudo, até mesmo
os princípios religiosos. Os adeptos dessa teologia ensinam os crentes a "determinar" as bênçãos de Deus para sua vida. Essas bênçãos são sempre em termos materiais como curas, dinheiro e aquisição de bens materiais, estimulando, desse modo, os fiéis a buscarem o lucro como finalidade da fé através do mercantilismo religioso. Nítida influência pecaminosa do capitalismo.
Se o marxismo é
anticristão em seu bojo por ser materialista (porém, no meu entendimento mais
justo e solidário), o pragmatismo capitalista também se torna uma antítese do
cristianismo ao desprezar os mandamentos divinos e buscar o lucro de maneira
autônoma, desassociado da justiça. O espírito que move este sistema é o da ganância, do egoísmo, da perda de laços de comunhão.
Muitos religiosos
conservadores ficarão chocados quando chegarem ao céu e descobrirem que Deus é
um socialista. Afinal, Ele não poderia ser um capitalista. A força funcional do
capitalismo é baseada na percepção da verdade do egoísmo humano, obtenha tudo o
que puder para si mesmo às custas dos outros. A força motriz do capitalismo é
maximizar os lucros às custas do trabalho. É uma doutrina econômica de
sobrevivência do mais apto que chegou aos seus dias de glória ao mesmo tempo
que o darwinismo e o darwinismo social. A força do capitalismo é que ele
capturou a verdade básica sobre a natureza do egoísmo humano, o centro do
pecado. O resultado disto é um contexto perverso que
perpetua a exclusão e a miséria entre milhões de pessoas no mundo enquanto alguns ricos burgueses esbanjam muito mais do
que precisam para viver. A liberdade econômica sem contrapeso ético, sem
corretivo social, é, portanto, também a liberdade conferida ao mais forte para
aniquilar o mais fraco, e a liberdade outorgada ao mais rico para explorar o
mais pobre. É a liberdade de uns que mata a liberdade de outros. O sistema
capitalista vem trabalhando há mais de um século para destruir a cordialidade
entre as pessoas, a solidariedade natural que fortalece o convívio, para
despertar o individualismo que se sobrepõe à qualquer partilha comum aos
afetos. Portanto, o modelo capitalista de sociedade premia e estimula o
comportamento individualista, utilitário e egoísta. Capitalismo e individualismo andam de mãos dadas. Este último introjeta em cada pessoa valores anticristãos, a exemplo da competição, a riqueza pessoal, o acúmulo de posses, fazendo com que a pessoa dê pouca importância para quem ficou para trás, excluída, para quem não conseguiu o "sucesso", a "vitória" no jogo; ela pensa somente no seu sucesso, tornando-a egoísta. Egoísta, a pessoa não pensa no esforço coletivo no sentido de conquistar direitos para todos. Influência satânica nesse
sistema.
Os capitalistas que se
“autodenominam cristãos” negam a vida em comunhão e pregam a acumulação de
riqueza a partir da exploração da maioria, a competição e o individualismo. Tal prática nega os princípios
elementares das Escrituras Sagradas. Diz-nos a Palavra de Deus: "Se vocês de fato obedecerem à lei real encontrada na Escritura que diz: "Ame o seu próximo como a si mesmo", estarão agindo corretamente" (Tg 2:8). Amar o próximo pressupõe, entre outras coisas, incorporar outros valores, pautados na tolerância, na solidariedade, no respeito mútuo, no trabalho coletivo e na cooperação entre as pessoas.
Sobre isso, Ellen G. White foi clara ao afirmar: “A Palavra de Deus não
sanciona nenhum plano que enriqueça uma classe pela opressão e o sofrimento de
outra”.8
Tiago 2:8Chega a ser cômico para não dizer trágico,
afirmar que o sistema capitalista é cristão.
Evidentemente, Ellen
White não estava se referindo diretamente ao sistema capitalista. O contexto sugere que ela
estava falando na obtenção de “lucros por meio das fraquezas” dos outros nas
transações comerciais, que segundo ela, constitui-se em transgressão “dos
princípios como dos preceitos da Palavra de Deus”. Entretanto, tal raciocínio se
aplica perfeitamente ao sistema capitalista, pois favorece o enriquecimento de
poucos (a classe dominante) a partir da exploração da força de trabalho de
muitos (classe trabalhadora). Então, Deus tampouco Sua Palavra sanciona o sistema capitalista.
Na fase inicial da
Revolução Industrial, na Inglaterra, meados do século XVIII, muita riqueza foi
produzida, porém, milhares e milhares de pessoas não tiveram acesso a ela.
Muito pelo contrário, viviam na pobreza extrema. Os trabalhadores eram
submetidos a condições desumanas de trabalho, com jornadas que podiam durar
mais de 15 horas, num ambiente insalubre e sem nenhuma assistência
previdencial. De acordo com as Sagradas Escrituras, opressão e exploração não
pode ser de Deus, mas contra Deus, como já demonstrado acima. Logo, chega a ser cômico, para não dizer trágico, asseverar que o capitalismo é cristão.
Ser
de esquerda sem perder o foco no vindouro reino eterno de Deus.
De acordo com a
cosmovisão bíblica, no fim da história deste mundo de pecado, Jesus virá outra
vez aqui. De fato, Ele prometeu que voltaria, e Sua Palavra não falha. Ele
disse: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não
fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei
outra vez, e vos tomarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós
também” (Jo 14:1-3). Veja, Jesus
prometeu levar-nos para o lugar que nos preparou nas mansões de Seu Pai. João
descreve nossa nova habitação: “Ouvi uma voz forte que vinha do trono, a qual
disse: — Agora a morada de Deus está entre os seres humanos! Deus vai morar com
eles, e eles serão os povos dele. O próprio Deus estará com eles e será o Deus
deles. Ele enxugará dos olhos deles todas as lágrimas. Não haverá mais morte,
nem tristeza, nem choro, nem dor. As coisas velhas já passaram” (Ap 21:3, 4,
NTLH). O profeta Daniel afirma que esse reino que Jesus trará será eterno (Dn
2:44).
Os cristãos de esquerda
ao apoiar determinado projeto político e participar de algum movimento social
que busca cidadania e justiça social, não perdem o foco no vindouro eterno
reino de Deus, não, como pensam muitos. Eles continuam confiante no cumprimento
da grande promessa de nosso Senhor Jesus e não negligenciam seu dever cristão. Contudo,
o cristão que aguarda o segundo advento de Cristo e, consequentemente, o fim da
era do pecado e o início de um mundo melhor, conforme prometido por Deus em sua
Palavra, como luz e sal da Terra (Mt 5:13-16), podem e devem dá sua
contribuição na construção de um mundo com mais justiça social e mais fraterno,
através das várias expressões do agir político – seja no sentido amplo, seja na
militância partidária ou num movimento social. Isso não compete com a
autoridade da Palavra de Deus, como querem alguns. Ao contrário, está em
harmonia com a Bíblia. Como já destacamos, no passado, movido pelo chamado de
Deus e pela compreensão de que Ele deseja a justiça, os profetas ousaram ser a
voz dos oprimidos. Deus ainda hoje pede que busquemos a justiça social e
lutemos contra a opressão e pelos direitos dos pobres e excluídos. Como
cristãos, devemos promover as mudanças sociais que refletem os valores e
ensinamentos de Jesus.
Como cidadãos,
devemos ajudar a construir um novo projeto de sociedade, onde a dignidade da
vida seja prioridade. Vida digna e justa é mais do que mera sobrevivência,
exige mudança e condições reais que garantam as aspirações básicas do ser
humano. A força da transformação está na organização e participação popular, um
dos grandes desafios para quem sonha um novo projeto de sociedade. Todavia,
entendemos ser importante ressaltar que uma sociedade livre completamente das
mazelas sociais não será resultado da ação dos homens, mas resultado da
intervenção divina, que se dará por ocasião da volta de Jesus, que trará um
Novo Céu e uma Nova Terra, “nos quais habita a justiça” (2Pe 3:13). No entanto,
enquanto Ele não vem podemos atuar no sentido de construir uma sociedade melhor
para nossos irmãos, mas sempre com os olhos para o Céu. Atuar na sociedade sem,
obviamente, deixar de buscar prioritariamente “as coisas lá do alto” (Cl 3:1).
Esse é o princípio.
A própria Igreja
Adventista do Sétimo Dia em um de suas declarações oficiais destaca que as
ações que visam reduzir a pobreza e promover a justiça na sociedade é uma
relevante “responsabilidade social cristã”, reconhecendo, desse modo, que
a fé possui uma dimensão social. Note o que diz a Declaração:
“Os adventistas [...]
creem que as ações para reduzir a pobreza e suas resultantes injustiças sejam
uma parte importante da responsabilidade social cristã. A Bíblia revela
claramente o interesse especial de Deus pelos pobres e Suas expectativas quanto
à maneira em que Seus seguidores devem auxiliar os incapazes de cuidar de si
mesmos. Todo ser humano carrega a imagem de Deus e é destinatário de Sua bênção
(Lc 6:20). Quando trabalhamos com os pobres, seguimos o exemplo e o ensino de
Jesus (Mt 25:35, 36). Como comunidade espiritual, os adventistas do sétimo dia
defendem a justiça para os pobres e abrem ‘a boca a favor do mudo’ (Pv 31:8) e
contra os que privam ‘os pobres de seus direitos’ (Is 10:2; NVI). Agimos de
acordo com Deus que mantém ‘o direito do necessitado’ (Sl 140:12)”.9
Ao inserir neste artigo
essa citação da Declaração da Igreja Adventista não queremos dizer que ela está
estimulando que seus membros participem de alguma partido político ou integrem-se
a algum movimento social. Longe disso! Mas, participar de conselhos municipais,
de ONGs, e mesmo apoiar ou militar num determinado partido de esquerda ou algum
movimento social que propõem mudanças sociais favorecedora dos mais pobres e
dos trabalhadores, indubitavelmente, é compatível com a orientação do referido documento.
Muitos adventistas que
tiveram a oportunidade de ler em sua lição da Escola Sabatina, em 2019, esse
trecho da Declaração Oficial da igreja, de pronto entenderam que “defender a
justiça para os pobres” refere-se exclusivamente a distribuição de cestas
básicas para as famílias necessitadas da própria igreja, bem como para os
pobres fora dela. Ledo engano! A distribuição de cestas básicas e outras ações
assistenciais têm seu valor no sentido de atender à necessidade imediata dos
pobres, mas não produzem real transformação nas condições de vida deles, não os
tiram da situação de pobreza. Para além do assistencialismo, promover a “justiça
para os pobres”, requer a participação efetiva dos cristãos comprometidos com
as transformações sociais, em instituições que possam ser instrumentos de
reivindicação dos seus direitos. São essas instituições ou movimentos
organizados que têm força não somente para reivindicar ao poder público os
direitos dos pobres e dos trabalhadores, mas também de propor a implementação
de políticas públicas que promovam a melhoria de vida deles.
Há uma interessante citação
da Lição da Escola Sabatina, 3º Trimestre de 2019, que, em certo sentido, anima
os cristãos adventistas a participarem de movimentos reivindicatórios:
“Às vezes os membros da
igreja evitam o envolvimento em protestos e na defesa de causas por medo de ser
vistos como muito políticos. Leia Jeremias 22:1-3, 13-17. Jeremias, outro
profeta envolvido na defesa de causas, intercedeu em favor dos oprimidos perante
os líderes do governo de sua época".10 Em seguida a Lição insere um
trecho do texto do Pastor Jean Paulsen, ex-presidente da Associação Geral dos
Adventistas do Sétimo Dia, o qual reproduzimos abaixo:
“Há uma grande
diferença entre procurar ser ouvido no discurso público e procurar exercer
poder político. Como igrejas e indivíduos, não só temos o direito, mas também a
obrigação de ser uma voz moral na sociedade, de falar com clareza e eloquência
sobre o que está relacionado aos nossos valores. Direitos humanos, liberdade
religiosa, saúde pública, pobreza e injustiça são algumas das áreas que temos a
responsabilidade dada por Deus de defender aqueles que não podem falar por si
mesmos”11
Desconstruindo
mitos
Muitos pastores e
padres alinhados a direita política no Brasil, volta e meia, pregam alertando
os cristãos a respeito do “perigo vermelho”, contra o marxismo, contra o “comunismo”, termo sempre
empregado por eles para confundir os fiéis, usando a velha e covarde arma de citar frases isoladas de sua
estrutura textual e fora de seu contexto. Principalmente com o
advento das redes sociais, os fiéis passaram a ser bombardeados com inúmeras
informações sobre a esquerda socialista vendidas como verdadeiras. Expressões
como “a esquerda comunista não respeita a liberdade religiosa, vai fechar as
igrejas” ou “a esquerda quer destruir a família”, repetidas
à exaustão, acabam por se tornar verdadeiros dogmas em muitas igrejas
evangélicas. Por conta disso, o PT e os outros partidos da esquerda passaram a
ser demonizados por muitos cristãos que se tornaram presas fáceis desse engodo.
Neste contexto, muitas vezes, ao defendermos políticas sociais, temos que
escutar de muitos cristãos que “isso é influência da praga do marxismo
cultural”, “ser de esquerda virou crime”, “a ditadura comunista estava sendo
implantada no Brasil pelo governo do PT” e coisas do tipo. Isso tornou-se uma
paranoia. Avaliar as seguintes situações, é importante para compreendermos que
isso não passa de mito e simplismo ideológico do discurso reacionário. Então
vamos lá!
1) A esquerda marxista
brasileira defende a liberdade religiosa
Particularmente,
acredito que a maior vantagem do marxismo, como teoria, é que ele é um
movimento crítico e, por isso, ele renasce com nova força da reflexão sobre
seus próprios erros e permite que continue sendo interpretado e experimentado
com maior rigor e eficácia. O marxismo é um pensamento em movimento, diferente
do positivismo que é estático e conservador. Hoje, muitos marxistas, não
obstante compreenderem que a religião continua sendo instrumentalizada pela
burguesia como ideologia a serviço da dominação, não acreditam no fim da religião,
mas defendem o respeito e o diálogo com os cristãos. Muitos marxistas mesmo
sendo ateu defendem a construção de uma sociedade socialista com liberdade de
expressão e de crença. Eles têm a convicção que qualquer partido que queira
representar os trabalhadores e o povo precisa ter uma atitude de profundo
respeito a essa religiosidade.
É importante ressaltar um
fato pouco conhecido pelos brasileiros. No Brasil a liberdade de religião se
consagrou na Constituição de 1946. Nela, o escritor baiano Jorge Amado,
deputado constituinte, pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi o autor da
proposta que estabeleceu a ampla liberdade de culto religioso no Brasil. Note
que foi um comunista que, a época da elaboração da Constituição de 1946,
apresentou a proposta constitucional que garantiu a liberdade religiosa no
Brasil. Até então, havia liberdade apenas à Igreja Católica Apostólica Romana.
Evangélicos, espíritas e afro-brasileiros sofriam discriminações, preconceitos
e violências. Dessa maneira, desde há muito os partidos de esquerda (pelo menos
a maioria) cultivam o respeito e o apoio à liberdade de culto. Não apenas com
palavras, mas com atos políticos concretos.
Atualmente, são
variados os episódios e momentos que evidenciam esse compromisso de marxistas
com liberdade de religião. Aliás, são inúmeros exemplos de diálogo e mesmo de
ações políticas e sociais conjuntas entre as bases de alguns partidos e
organizações e líderes de religiões diversas. Desse modo, cada vez mais cresce
o números de cristãos marxistas, que frequentam templos católicos, evangélicos,
espíritas ou terreiros afro-brasileiros.
2) A esquerda marxista
não defende o fim da família
A partir de uma
interpretação distorcida de fragmentos das obras de Marx e Engels, “A ideologia
Alemã” e “A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, diversos
líderes religiosos reacionários criaram um discurso falacioso de que os dois
filósofos alemães odiavam a família e pregavam a supressão dela. A verdade é
que Karl Marx nunca pregou o ódio à família, tampouco o fim dela.
Em 2016, O Dr. José
Luis Derisso escreveu um interessante artigo que responde com muita propriedade
essa questão, nos seguintes termos:
“Na
obra de Marx e Engels, propriedade, divisão do trabalho e família são pensados a
partir da dinâmica histórica. Em A Ideologia Alemã prenuncia-se a tese
posteriormente desenvolvida em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do
Estado, tese esta que sustenta que a família é um elemento dinâmico – notem que
apesar do título, em nenhuma passagem destas duas obras fala-se em origem ou
suposto fim da família, apenas que a mesma deriva das hordas animais;
contrariamente sustenta-se que a mesma assume formas distintas de acordo com o
nível de complexidade das relações sociais, atingindo a forma da família
monogâmica/patriarcal com a instituição da propriedade privada. Engels demonstra
que a evolução da família se relaciona e é determinada pelo desenvolvimento das
formas de propriedade, sendo que o declínio do matriarcado se associa ao surgimento
do rebanho como propriedade do chefe da família, fenômeno que se explica pelo fato
deste ter sua origem na atividade da caça que de acordo com a divisão do
trabalho nas sociedades primitivas competia ao macho. A utilização da expressão
“origem da família” no título da obra de Engels associasse à ideia de que a
família é um produto histórico-cultural e, portanto, dinâmica, diferente da
horda animal que a antecede. Isto fica evidente no fato de que Engels apresenta
uma sucessão de modelos de famílias historicamente constituídas, sem teorizar
sobre um suposto desaparecimento da instituição familiar, e muito menos que tal
desaparecimento seria um pressuposto para a destruição da propriedade privada e
implantação do comunismo”.12
Como se vê, Karl Marx
tinha o entendimento de que havia vários modelos históricos de instituições
familiares em distintas sociedades. Entretanto, os inimigos do marxismo sustentam,
de forma desonesta, que a teoria marxista está na base da conspiração contra a
família, com o objetivo nítido de enganar os incautos, a fim de arregimentá-los
no combate a esquerda. Sendo assim, passam a falsa ideia de que o marxismo quer
destruir a família em si, e não o patriarcalismo - mesmo porque para estes
religiosos a família patriarcal, a propriedade privada e a sociedade dividida
em classes de indivíduos desiguais constituem obras do Criador.
Particularmente, não
acredito na família patriarcal. Sinceramente, não acredito que tal modelo tenha
sido uma criação de Deus, mas humana. Ao fazer tal afirmação não quero dizer
que a “família” não tenha sido uma instituição divina. Longe disso! Diferentemente
de Marx e Engels, acredito profundamente que a família monogâmica foi uma
criação de Deus, porém, penso que o modelo de família patriarcal foi fruto de
relação sociocultural. Mas, o que é uma
“família patriarcal”? De acordo com o Dicionário
de Direito de Família e Sucessões, “é a família em que a autoridade e os
direitos sobre os bens e as pessoas concentram-se nas mãos do pai. Seu sentido,
além de uma patrilinearidade, é um sistema social político e jurídico que
vigorou no mundo ocidental até o século XX. Embora ainda persistam sinais de
patriarcalismo, ele perdeu sua força. [...] A partir da consideração do sujeito
de direito como sujeito de desejos, passou a ser inadmissível que mulher e
filhos fossem assujeitados ao poder e desejo de um patriarca. E, assim, a
família perdeu sua rígida hierarquia, despatrimonializou-se, ou seja, ela
deixou de ser essencialmente um núcleo econômico e de reprodução e passou a ser
o espaço do amor, do afeto e o locus de
formação e estruturação dos sujeitos”.
De acordo com a Dra. Sheila
de Castro Faria, no Brasil, no período colonial, esse modelo de família patriarcal,
compreendia uma família numerosa, composta não só do núcleo conjugal e de seus
filhos, mas incluindo um grande número de criados, parentes, aderentes,
agregados e escravos, submetidos todos ao poder absoluto do chefe de clã, que
era, ao mesmo tempo, marido, pai, patriarca.13 Nesse modelo o homem
(o patriarca) era tudo e a mulher era nada - posto que não tinha vontade
própria, nem tempo do qual dispor livremente. Dessa forma, o patriarca
constitui-se em um núcleo econômico e um núcleo de poder, cuja vontade era lei
para todos os demais membros da família. Esse modelo de família foi sendo
alterado ao longo dos anos, simplesmente deixou de existir na maior parte do
mundo moderno.
Novas configurações
familiares foram surgindo ao longo tempo no Brasil, bem como em outras partes
do mundo. E isso nada tem que ver com o Marxismo. Às vezes é simplesmente um movimento de direitos humanos ou um entendimento liberal de empoderamento, de dar voz às pessoas, que irritam os conservadores, que não são necessariamente do pensamento marxista. A maioria das famílias hoje
não é mais numerosa, o pai não exerce mais o poder absoluto. Sua autoridade é
compartilhada com a mulher; a mulher não é mais vista como propriedade do
homem, nem inferiorizada, mas vista como um ser igual ao homem, e que se
inseriu no mercado de trabalho, logo, o homem não é mais o único provedor. As
famílias hoje mão possuem escravos. Não vejo que essas mudanças culturais sejam
desvirtuamento do evangelho.
A escritora cristão Ellen G. White acreditava na igualdade entre o homem e a mulher. Enfatizou ela: “Quando os maridos exigem completa sujeição de suas esposas, declarando que a mulher não tem voz ativa ou vontade na família, mas deve mostrar inteira submissão, estão colocando suas esposas numa posição contrária à Escritura. Interpretando desta forma a Escritura, violam o desígnio do casamento. Esta interpretação é utilizada simplesmente para que possam exercer governo arbitrário, que não é sua prerrogativa. Mas lemos em continuação: "Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a Si mesmo se entregou por ela." Efés. 5:25. Por que devem os maridos se irritar contra suas esposas? Se o esposo lhe descobriu erros e abundância de faltas, irritação de espírito não remedia o mal”.14
Ademais, nos países que
implementaram o socialismo inspirados nas ideias de Marx, nenhum deles
destruíram a família. A centro-esquerda no Brasil assumiu o governo através do
PT, entre os anos de 2002-20015. Nunca houve uma ação do governo no sentido de
promover a desintegração da família. Portanto, não há razão nenhuma para se
acreditar nessa ideia estapafúrdia.
Conclusão
Concluo minha reflexão
retomando a questão levantada no início: “Pode um cristão ser de esquerda? Pastores
e padres direitistas com base na argumentação falaciosa classificada, na
filosofia, como falácia do falso espantalho, dirão que não. Porém, eu diria que
pode, sim! Até porque contribuir para a construção de uma sociedade sem classes
e sem desigualdades sociais, está coerente com o propósito cristão de que “todos
tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10:10). Incompatível mesmo com
o evangelho é um cristão capitalista que defende um sistema explorador e
excludente, que mantém na pobreza milhões de homens e mulheres.
Penso que se o cristão seguir
o princípio paulino de “examinar tudo e reter o que é bom”, não vejo nenhum
risco para a sua vida espiritual. Eu sou um exemplo claro dessa experiência.
Embora possuindo ideias marxistas (não 100% marxista), nunca abandonei minha fé em Deus nem em Sua
Revelação, a Bíblia Sagrada, como único critério para a fé e o viver cristão;
continuo aceitando integralmente as 28 crenças fundamentais dos Adventistas do
Sétimo Dia; continuo sendo um membro envolvido nas atividades da igreja e tendo
hábitos espirituais adquiridos desde a minha infância, como a frequência a
igreja, a leitura diária da Bíblia Sagrada e a prática diária da oração.
Nesse tempo de intensa
polarização política sobre ser de “esquerda” ou de “direita” prevalecente atualmente
na sociedade brasileira foi extrapolada para as igrejas cristãs. Muitos crentes
estão digladiando-se, brigando a respeito de pautas defendidas pela esquerda ou
pela direita. Penso que os cristãos não deveriam enveredarem-se por esse
caminho tortuoso. Isso só gera ódio, ressentimento e divisão entre o povo de Deus.
Isso não é bom para a vida espiritual dos que se envolvem em brigas políticas.
Acho até que um debate político respeitoso entre os cristãos é salutar.
É preciso que se
entenda que vivemos num país democrático, e que cada pessoa é livre para
escolher ser de “esquerda”, de “direita” ou de ser “nenhum nem outro”. Esses três
grupos presente nas igrejas precisam respeitarem-se mutuamente e ser tolerantes
com os que divergem deles. Agora, penso ser um erro ainda maior quando pastores
tornam-se figuras atuantes nas redes sociais, com uma forte militância contra a
esquerda e os evangélicos progressistas. Não há nada de errado em pastores terem
posições políticas, desde que resguardado o respeito ao legítimo pluralismo das
opções politico-partidárias das suas ovelhas. Como cidadãos, eles têm todo o
direito de terem suas convicções políticas de direita, mas precisam ser mais
reservados para não estimular a polarização entre os crentes e introduzir a
divisão nas igrejas que eles cuidam.
Cabe aqui destacar uma
relevante recomendação da escritora cristã Ellen G. White especificamente para
os pastores Adventistas: “Os mestres, na igreja ou na escola, que se distinguem
por seu zelo na política, devem ser destituídos sem demora de seu trabalho e
suas responsabilidades; pois o senhor não cooperará com eles. O dízimo não deve
ser empregado para pagar ninguém para discursar sobre questões políticas. Todo
mestre, ministro ou dirigente em nossas fileiras, que é agitado pelo desejo de
ventilar suas opiniões sobre questões políticas, deve-se converter pela crença
na verdade, ou renunciar à sua obra”.15
Ao eles se preocuparem em combater e
demonizar a esquerda e suas bandeiras como um inimigo a ser vencido, estão
fazendo o jogo sujo da direita conservadora, que não admite a ascensão social
dos pobres, que são contra toda e qualquer política pública que promova a
ascensão social das camadas populares.
Essa desnecessária combatividade
de alguns líderes religiosos ultraconservadores contra os partidos de esquerda,
acabam levando-os a perderem o rumo e o foco da missão que Jesus Cristo lhes
designou, que é ir ao mundo e proclamar as boas novas de salvação (Mt
28:18-20), que é ensinar as pessoas que Jesus as aceita e oferece o Seu perdão;
é anunciar que Jesus irá voltar em breve para
estabelecerá seu Reino de justiça e paz, que jamais terá fim, e conceder
a vida eterna aos que creram nEle (Jo 14:1-3; Dn 2:44; I Ts 4:16-18). Temos
vistos alguns pastores pentecostais, a exemplo de Silas Malafaia e Marcos
Feliciano, que por se ocuparem em fazer militância política contra partidos de
esquerda nas redes sociais, nos programas de televisão e nos púlpitos de suas
igrejas, têm perdido a credibilidade e o respeito entre uma parcela
significativa dos cristãos evangélicos no Brasil. Penso que o melhor que os
cristãos têm que fazer é pregar o “evangelho eterno” (Ap 14:6-12), sem fazer
referência ou mesmo comprar briga com partido A ou B ou com os movimentos
sociais.
Referência
1. MARX, Karl. O Capital, Livro 1, Vol. 2, p. 617.
2. MARX, Karl. “Crítica da Filosofia do Direito de
Hegel”. In: Temas de Ciências Humanas. Vol. 2. São Paulo, Editorial Grijalbo,
1977, p. 2).
4. Lição da Escola Sabatina, 3º Trim. 2019, ed. do Professor,
p. 111.
5. Ibidem, p. 22.
6. Ibidem, p. 111.
7. WHITE, Ellen G. Profetas e Reis. Tatuí, SP: CPB,
2007. p. 282.
8. ___________. A Ciência do Bom Viver, SP: CPB, 2004, p. 187.
9. Declaração Oficial da Igreja Adventista do Sétimo
Dia Sobre a Pobreza Mundial, 24 de junho de 2010. Citado em Lição da Es Escola
Sabatina, 3º Trim. 2019, ed. do Professor, p. 154.
10. Lição da Escola Sabatina, 3º Trimestre 2019, ed.
do Professor, p. 67.
11. Jan Paulsen, Serving Our World, Serving Our
Lord” [Servindo ao Nosso Mundo, Servindo ao Nosso Senhor], Adventist World,
Edição da Divisão Norte-Americana, maio de 2007, p. 9, 10)”. Citado em LES, 3º
Trim. 2019, ed. Professor, p. 67.
13. FARIA, Sheila de Castro. “Família”. In: VAINFAS,
Ronaldo (org.). Dicionário do Brasil colonial (1500-1808). Rio de Janeiro:
Objetiva, 2001, p. 216-362.
14.WHITE, Ellen G. O Lar Adventista, Tatuí, SP: CPB, 2005, p.116.
15. WHITE, Ellen G. Fundamentos da Educação Cristã. Tatuí, SP: CPB, 2007. p. 477.
Gostei muito do seu artigo, professor! Me esclareceu algumas dúvidas e questionamentos. Parabéns!
ResponderExcluirOlha ela! Querida Profa. Ieda Costa, a que admiro muito, obrigado por ter apreciado nosso texto! Feliz por ter ajudado a esclarecer algumas questões sobre a temática. Fique com Deus. Abraço afetuoso!!!
ResponderExcluirEu quero ver essa militância na China ou na Coreia do Norte. Fazer militância esquerdista em um país livre é fácil.
ResponderExcluirMarx: o ópio do povo = religião;
Stalin =genocídio = gulags = Lenin = Mao = genocida. Tudo farinha do mesmo saco. Ah, Jesus era ateu. Com uma ideologia (marxista) que tenta estinguir a religião, Deus é a criação da face desse mundo, ao bem vocês con e papo de cristianismo de esquerda. Fala sério! Vai falar de esquerdismo na Polônia, vai...
Eu quero ver essa militância cristã de esquerda na China ou na Coreia do Norte. Fazer militância cristã marxista em um país livre é fácil.
ResponderExcluirMarx: o ópio do povo = religião;
Stalin =genocídio = gulags = Lenin = Mao = genocida. Tudo farinha do mesmo saco. Ah, Jesus era ateu. Com uma ideologia (marxista) que tenta estinguir a religião, Deus é a criação da face desse mundo, ao bem vocês con e papo de cristianismo de esquerda. Fala sério! Vai falar de esquerdismo na Polônia, vai... (corrigido)