COMO SER PERFEITO NUM MUNDO CAÍDO
Ricardo
André
No Seu famoso Sermão da
Montanha Jesus disse aos Seus ouvintes e diz-nos hoje, imperativamente que
devemos ter a perfeição de Deus, o Pai. “Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o
Pai celestial de vocês" (Mateus 5:48, NVI). Note que Deus ordenou
perfeição. Sua vontade é que sejamos perfeito. A perfeição é um assunto muito
debatido pelos teólogos e difícil de compreender. É possível que alguns ao
lerem esse mandamento do Senhor estejam pensando: É impossível atender ao que
Deus requer de nós, que é a perfeição.
Mesmo numa análise
rápida e superficial, é fácil concluir que nós, seres humanos, por melhores que
sejam, não seremos perfeitos. As Sagradas Escrituras, em Romanos 3:23, diz: “Pois
todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:23, NVI).
Em face do pecado, tudo
que é humano é imperfeito. Faz parte da natureza humana a imperfeição. A
perfeição e a santidade absoluta deixaram de ser características inerentes,
desde que o ser humano caiu em pecado. Os pensamentos não são inerentemente
puros, as intenções nem sempre são as melhores e, como resultado, as atitudes,
as obras e as ações dos homens também não são perfeitas.
Mas, então, por que
Deus espera que sejamos perfeitos como Ele? Qual era a intenção de Jesus ao
recomendar que fôssemos “perfeitos”? Que é a perfeição? Como ter a mesma
perfeição de Deus? Todas estas perguntas e mais algumas buscaremos respostas na
Bíblia e no Espírito de Profecia.
O
Conceito bíblico
Antes de mais nada é
preciso que entendamos que se Jesus, imperativamente, disse que devemos ter a
perfeição do Pai, foi porque era possível. Deus, como um Pai amoroso e bondoso,
jamais pediria de Seus filhos alguma coisa impossível de ser feito. “A injunção
é: ‘Sede vós, pois, perfeito, como é perfeito o vosso Pai, que está nos Céus’.
Mt 5:48. Aqui Ele nos mostra que podemos ser tão perfeitos em nossa esfera
quanto Deus o é na Sua” (Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p.
455).
Na verdade, foi a
Igreja Católica Romana que desenvolveu, durante a Idade Medieval a falsa
interpretação de perfeição. Para ela perfeito significa absoluto, total, sem
defeito ou pecado. E foi justamente essa falsa interpretação medieval que
literalmente impeliu as pessoas, a exemplos dos monges, a tentativas monásticas
de vida, e influenciou a visão conceitual de perfeição de mundo.
O Minidicionário da
língua portuguesa de Aurélio, afirma que perfeição “é ausência de quaisquer
defeitos”.
Segundo o Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia,
a palavra “perfeito”, em Mateus 5:48, vem do grego teleios, e significa
“literalmente, ‘alguém que atingiu o alvo’, ou ‘completo’, de telos, ‘fim’, ‘cumprimento’, ‘conclusão’
ou ‘limite’. [...] uma pessoa ‘madura’ no sentido físico e intelectualmente (1Co
14:20), ‘homens amadurecidos’” (p. 354).
De acordo com o Dicionário Bíblico Adventista do Sétimo Dia,
perfeito no original hebraico tam ou tamim, significa “completo”, “certo”,
“pacífico”, “sensato”, “íntegro, “irrepreensível”; do grego teleios, “completo, “perfeito”,
completamente crescido”, “maduro”, “totalmente desenvolvido”, “que cumpriu seu
propósito” (p. 1060). Portanto, essa palavra não tem nada ver
com o conceito absoluto de perfeição ou impecabilidade desenvolvida pela Igreja
medieval.
De acordo com a
etmologia bíblica, as pessoas são teleios (perfeitas) quando são adultas ou
atingiram a estatura plena. Assim, um estudante que tem um conhecimento de
matemática é teleios (maduro ou perfeito) em comparação com o aprendiz que está
apenas começando.
A ideia básica dessa
palavra bíblica, e daquelas que estão intimamente relacionadas com ela, é que
todas as coisas tem um fim, um propósito, um alvo, ou um objetivo. Assim,
então, um homem será perfeito (teleios) se ele cumprir a finalidade para o qual
ele foi criado.
Precisamos, portanto,
perguntar para que fim ou propósito foram criados os seres humanos. A Bíblia
não nos deixa dúvida alguma nessa questão: “Façamos o homem à nossa imagem,
conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26). Os seres humanos deem ser semelhantes a
Deus no caráter. Por isso, é muito natural para Jesus reivindicar em Mateus
5:48 que os cristãos se tornem teleios (perfeitos ou maduros) em
amor, como o Pai no Céu. Afinal, “Deus é amor” (I Jo 4:8) Os cristãos devem
agir com Deus, e não como o Diabo.
“Logo, o ser humano é
perfeito aos olhos de Deus quando alcançou o grau de desenvolvimento esperado
dele em determinado momento. É um cristão maduro, completamente dedicado ao
Senhor, que, embora ainda tenha fraquezas a superar, prossegue rumo ao alvo da
soberana vocação de Deus em Cristo Jesus (Filipenses 3:12-15)” (Dicionário Bíblico Adventista do Sétimo
Dia, p. 1061).
A
Perfeição é um ato de Deus
A perfeição é
importante, é possível. Não precisamos esperar até chegar ao Céu, por um tipo
de perfeição. Deus prometeu perfeição de caráter - e esta deve ser desenvolvida
aqui. É um fato mais do que reconhecido que, por nós mesmos, somos incapazes de
ser santos e perfeitos. Nuca devemos esquecer que a perfeição é obra de Deus,
não nossa. Observe algumas evidências bíblicas:
“É Deus quem me reveste
de força e torna perfeito o meu caminho” (2 Samuel 22:33, NVI).
“Ele é o Deus que me
reveste de força e torna perfeito o meu caminho” (Salmos 18:32, NVI).
“O Deus de toda a graça,
que os chamou para a sua glória eterna em Cristo Jesus, depois de terem sofrido
durante pouco de tempo, os restaurará, os confirmará, lhes dará forças e os
porá sobre firmes alicerces” (1 Pedro 5:10, NVI).
“O Deus da paz, que
pelo sangue da aliança eterna trouxe de volta dentre os mortos a nosso Senhor
Jesus, o grande Pastor das ovelhas, os aperfeiçoe em todo o bem para fazerem a
vontade dele, e opere em nós o que lhe é agradável, mediante Jesus Cristo, a
quem seja a glória para todo o sempre. Amém” (Hebreus 13:20, 21, NVI).
“Perfeito” é algo que
pertence a Deus e que nos advém pelo contato com Ele – não como posse, mas como
dádiva. Nossa relação com Ele determina nossa participação nesse tipo de
inteireza ou perfeição. Em outras palavras, quando temos fé em Jesus e
reconhecemos nossa imperfeição, nos registros celestiais Deus substitui todas
as nossas dívidas pelo crédito da vida pura, justa e perfeita de Seu Filho. Ele
aceita a perfeição e a santidade de Jesus. Desse modo, somos feitos santos e perfeitos
(Gn 17:1).
Ellen G. White deixa
claro que a perfeição de caráter é fruto de nosso relacionamento com Deus,
quando afirma: “Cristo procura reproduzir-Se no coração dos homens”. Como
resultado, “recebendo o Espírito de Cristo - o espírito do amor abnegado e do
sacrifício por outrem - crescereis e produzireis fruto. As graças do Espírito
amadurecerão em vosso caráter. Vossa fé aumentará; vossas convicções
aprofundar-se-ão, vosso amor será mais perfeito. Mais e mais refletireis a
semelhança de Cristo em tudo que é puro, nobre e amável” (Parábolas de Jesus,
p. 67 e 68).
Ela ainda afirmou: “Por
meio da fé em Cristo, toda deficiência de caráter pode ser suprida, toda
contaminação removida, corrigida toda falta, e toda boa qualidade desenvolvida”
(Educação, p. 257 e 258).
À semelhança de Jesus
em Mateus 5, a definição de perfeição de caráter que Ellen White dá
centraliza-se no desenvolvimento do caráter de amor de nosso Deus. Esse ponto
de vista se aprofunda quando é comparado com a versão de Lucas para o Sermão
do Monte. Depois de fornecer essencialmente a mesma palestra de Mateus 5:43-47,
Lucas apresenta Jesus concluindo assim: “Sejam misericordiosos, assim como o Pai de
vocês é misericordioso" (Lucas 6:36, NVI). Assim, Tendo em mente
qual era o assunto em pauta, abordado por Jesus, fica fácil entendermos em que
sentido devemos ser perfeitos em relação ao nosso Pai celestial. Esta
maturidade espiritual tem a ver com a atitude de amor e misericórdia para com
os nossos amigos e inimigos. Atingir essa meta não é fácil e não se alcança em
um dia, mas é a luta de toda uma vida.
A
perfeição é um processo
A perfeição é um
processo que começa quando nascemos de novo, quando Cristo, através do Seu
sacrifício, imputa Sua justiça a cada um de nós, e continua incessantemente
através da eternidade. É como uma criança recém-nascida que inicia o
crescimento.
Lembro-me que no dia do
nascimento do meu filho, Martin Luther King, liguei logo cedo para a
maternidade. Quando a enfermeira atendeu fiz a pergunta:
- Meu filho nasceu
perfeito?
Ao que ela respondeu:
- Não!
Quando ela respondeu
“não”, tomei um susto! Em seguida ela completou:
- Ele nasceu sem os
dentes.
Ufa! Que alívio cheguei
a pensar que ele tinha nascido com algum defeito físico. Quando entendi a
brincadeira da enfermeira pus-me a ri. Mas, essa experiência me fez pensar e
compreender que a vida cristã é similar ao nascimento e o desenvolvimento de um
recém-nascido.
Ao nascer uma criança
observamos os lindos dedinhos, as mãos delicadas. São praticamente perfeitos.
Mas ainda não chegaram a um desenvolvimento completo. Haverá necessidade de
amadurecimento. Os olhos, os ossos, os órgãos passam por transformações. Os
músculos esticam, os dentes virão, o cabelo atingirá novas cores e formato.
Aquele corpo desajeitado é um tanto desengonçado vai adquirindo forma e beleza
até se transformar num adulto. Dizem que o homem atinge a maturidade física e
emocional aos 25 anos e a mulher lá pelos 22 anos.
Ali naquela criança, em
forma latente estão todas os ingredientes da perfeição, que serão desenvolvidos
até atingirem a perfeição. No livro Parábolas
de Jesus, Ellen G. White diz que “nossa vida pode ser perfeita em cada fase
de desenvolvimento; contudo haverá progresso contínuo, se o propósito de Deus
se cumprir em nós” (p. 65).
A
perfeição na experiência de Paulo
O apóstolo Paulo conta
sua própria experiência de perfeição e a sua experiência pode repetir-se em
cada cristão. Paulo fez um exame introspectivo! Olha para si mesmo! Qual é a
sua relação com Cristo Jesus? Será que já alcançou à plenitude da estatura do
Mestre? Em Filipenses 3:12 ele responde: “Não que já a tenha alcançado, ou que
seja perfeito”. Nos versículos 13 e 14 registrou na sua pastoral aos
filipenses, sua inquebrantável decisão, dizendo: “Esquecendo-me das coisas que
atrás ficam, e avançando [...] prossigo para o alvo”.
Paulo reconhece que a
vida cristã é uma vida de crescimento. O cristão tem que crescer “até que todos
alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade,
atingindo a medida da plenitude de Cristo” (Efésios 4:13, NVI).
A perfeição é um
caminho. Notamos nesta mensagem de Paulo um pouco
de contradição. Por exemplo, em Fp 3:12, ele se refere ao fato de não ter
alcançado a perfeição, ao passo que no capítulo 3:15 diz: “Por isso todos
quantos já somos perfeitos [...]”. Mas não se trata de uma contradição nem um
erro teológico. Para Paulo a perfeição não é um ponto final de chegada aqui
neste mundo, mas é um caminho. Nele,
vamos alcançando objetivos de perfeição e deixando-os para trás, para seguir em
busca de novos objetivos, até que cheguemos à meta final que inclui também a
perfeição física. Mediante nosso pedido de perdão por deslizes cometidos, a
justiça de Cristo é comunicada para manter nossa vida santa e perfeita. Isto é
um ato de fé da nossa parte, e de graça da parte de Deus. Essa é a dinâmica do
amor divino! Perfeitos são aqueles que não se desviam do caminho. Prosseguem
pela fé. Nunca saem do caminho. Que caminho? Jesus Cristo (Jo 14:6). Então, a
perfeição do cristão é a perfeição de Cristo, vivida pela fé. Como Cristo é o
único igual ao Pai, o crente que vive pela fé a perfeição de Cristo pode ser
perfeito como nosso Pai que está nos céus.
Ao mesmo tempo, devemos
lembrar-nos do seguinte: “Enquanto Satanás reinar, teremos de subjugar o
próprio eu, teremos obstáculos a vencer, e não há lugar de parada, nenhum ponto
a que possamos chegar e dizer que o atingimos plenamente” (Ellen G. White em Comentário
Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 7, p. 1056).
Querido leitor, Jesus
Cristo é quem nos concede forças para vencermos todos os obstáculos de nossa
vida. Ele é o nosso refúgio e nossa fortaleza. Está você disposto a se esforçar
não para ser perfeito, pois não podes, mas se esforçar para andar com Deus e
ser perfeito (Gn 17:1)? Então faça seu primeiro esforço aceitando que Ele seja
o seu Salvador pessoal, dizendo: andarei na Sua presença e como consequência
serei perfeito. Então se levante e comece desta caminhada rumo ao Céu e à vida
eterna com nosso amado Pai celestial.
Comentários
Postar um comentário