POR QUE OBEDECER?
por
Robert S . Folkenberg*
Reconciliando os
mandamentos com a cruz
Por que Deus exige
nossa obediência se, na verdade, somos salvos pela graça? Fiz-me esta pergunta
por muitos anos. Mas, poucos meses atrás, encontrei uma passagem bíblica que me
ajudou a juntar as peças desse enigma.
Antes, porém, quero dar
algumas explicações preliminares. Uma das primeiras perguntas que aprendemos a
responder, como adventistas do sétimo dia, é: "0 que é pecado?" A
resposta tradicional é: "Pecado é a transgressão da lei de Deus."
Você, provavelmente, conheça a resposta à seguinte pergunta: "Quem foi o
primeiro ser a pecar?" E você responde: "Satanás", ou mais precisamente,
"Lúcifer", o querubim cobridor, o ser de maior status entre todas as criaturas
do Universo.
Mais uma pergunta:
"Qual foi o grande pecado de Lúcifer?"
Isaías nos dá a
resposta: "Como caíste do Céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste
lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu
subirei ao Céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da
congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais
altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo" (Isa. 14:12-14).
É interessante notar
que essa passagem não identifica nenhum ato de Lúcifer que mostre que ele
transgrediu um mandamento específico da lei divina. Seu pecado consistiu em
ignorar a soberana autoridade de Deus. Ele escolheu, em seu coração, não ser "limitado"
pela autoridade divina. Disse a si mesmo: "Decidirei por mim mesmo! Se minhas
decisões coincidirem com a vontade de Deus, será muito bom; se não, elas ainda serão
minhas. Farei o que me apraz. Serei como o Altíssimo."
Mas não pode haver
senão um só Deus no Céu, uma só fonte de autoridade. Deus poderia ter destruído
Lúcifer num instante, mediante uma fantástica demonstração de poder e justiça.
Ao invés disso, porém, Ele expulsou Lúcifer juntamente com seus anjos. Cada um daqueles
anjos foi expulso por uma única razão: extremo individualismo. Cada um deles rejeitou
limitações pertinentes à conduta moral. Cada um decidiu ser seu próprio deus.
Lançados
no abismo
Com estas considerações
em mente, a história de Adão e Eva, relatada em Gênesis 3, toma-se mais compreensível.
Deus propiciou a nossos primeiros pais um lar extremamente belo. E disse:
"Este lar pertence a vocês; há, porém, uma árvore que não lhes pertence.
Não toquem nela. Não comam do seu fruto, porque no dia em que comerem,
morrerão."
Deus não lhes deu
nenhuma explicação além dessas palavras. 0 ponto fundamental que Deus colocou
perante eles foi submissão a Sua autoridade: "Não toquem na árvore."
Algumas exigências
divinas nas Escrituras apelam à nossa razão, ao passo que outras requerem nosso
reconhecimento da autoridade de Deus. Por exemplo: Deus proíbe que comamos
animais que se alimentam de carniça. Não precisamos ter muita acuidade mental
para concordar com a ordem divina de não comer restos de lixo!
Mas Deus também diz:
"Este dia, o sétimo [dia da semana, é o dia que santifiquei. Sim, ele tem
24 horas como qualquer outro dia, e durante esse dia a Terra girará em tomo do Sol
e em tomo de seu eixo. Mas este é o Meu dia. Não o profanem. Não tropecem nele.
Observem-no, porque é santo."
E a razão humana entra
em cena, inquirindo: "Por que não o dia anterior ou o seguinte?" Deus,
porém, diz: "Porque isto é o que espero de vocês. Este é Meu dia."
Quando Lúcifer se
aproximou de Eva no jardim, tinha apenas uma flecha em sua aljava. "Dê
apenas uma mordida", ele propôs.
As primeiras palavras
de Eva foram um modelo de obediência. "Respondeu-lhe a mulher: Do fruto
das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do
jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não
morrais" (Gên. 3:2 e 3). Uma boa resposta é citar as palavras de Deus como
base para obedecer.
A serpente, porém,
disse: " É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que
dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem
e do mal" (versos 4 e 5). Ele não citou outra autoridade; ele não apelou
para outro poder. Sua abordagem estriba-se numa evidente contradição entre a
autoridade de Deus e a negação da realidade da morte.
Eva jamais havia confrontado
a possibilidade de autoridades alternativas - diversidade de deuses. Tampouco
havia alimentado a ideia de que pudesse ser um deus, como a serpente estava propondo.
Como Eva resolveu seu
dilema? Ela se valeu dos recursos da razão que Deus lhe dera, para chegar à
conclusão de que Deus havia proibido. Notemos os três passos: Ela viu que a
árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar
entendimento (ver verso 6). Eva raciocinou e agiu com base em evidência empírica,
como os racionalistas de hoje fazem no campo da ciência, literatura, arte,
filosofia e até mesmo religião.
À semelhança de muitas
pessoas atualmente, Eva considerou apenas a evidência que excluía Deus. Eu pensava
que ela havia pecado quando comeu do fruto proibido. Mas ela pecou quando decidiu
agir fora do contexto da autoridade de Deus; quando decidiu agir com base em
fatores utilitaristas ou estéticos: bom para se comer, agradável aos olhos e
bom para aumentar o conhecimento. Ela pecou quando excluiu a autoridade divina,
a majestade soberana de Deus, como base para tomar a decisão e como fator
determinante do que é direito e verdadeiro. O comer do fruto foi a
manifestação, uma expressão do pecado de Eva
Ellen White observa que
o coração do pecado de Lúcifer fora também a rejeição da autoridade divina:
Satanás "jacta-se perante seus simpatizantes de que não se submete à
autoridade de Cristo" (Spiritual Gifts, vol. 3, pág. 37). O pecado é
basicamente rebelião, um desafio à soberania de Deus. Mas Sua autoridade não
foi anulada como ponto de referência. O reino de Deus não é uma democracia
parlamentarista forjada por nossas próprias opiniões e preferências. Isto jamais
foi assim e nunca será.
As escolhas de Adão e
Eva infectaram cada um de nós com um vírus fatal. Em nossa natureza reside um
desejo, uma ânsia, uma irresistível paixão de nos transformar em deuses e
exaltar a autoridade de nossas opiniões pessoais.
A motivação por trás do
darwinismo não é a ciência, mas o sepultamento da autoridade divina num charco
lodoso.
Semelhantemente, os
"eruditos religiosos" que aceitam as destrutivas premissas do método
crítico-histórico de interpretação da Bíblia, tentam eliminar o sobrenatural
nas Escrituras Sagradas e reduzir seus escritos a um mito forjado pelo homem.
Como seres humanos, não
estamos imunes à tentação de nos tomar deuses, conhecendo o bem e o mal. Deus,
porém, em Sua graça, não nos abandona onde estamos. Ele preparou o plano de salvação,
propiciou-nos a mensagem do evangelho e enviou o Espírito Santo para que pudéssemos
confrontar honestamente a questão de Sua autoridade tanto no Universo quanto em
nossa vida.
Três
razões para a obediência
Voltemos à nossa
pergunta inicial: Por que Deus nos oferece salvação pela graça, por meio da fé,
e depois pede que obedeçamos? Vejo apenas três opções:
Opção
1:
Deus pede que obedeçamos porque Ele Se impressiona com a nossa obediência. Mas
se sou mais digno da salvação por ser obediente, ou mais condenável por ser
rebelde, isto é legalismo - legalismo absoluto e inadmissível. Ou somos salvos
pela fé, ou não somos salvos por nenhum outro meio. Nossa salvação é inteiramente
pelos méritos de Jesus Cristo.
Opção
2:
Talvez Deus me peça para obedecer para que eu impressione meus vizinhos com o
poder de uma vida reta. Mas, então, nossa obediência não tem valor algum se
estivermos sós, onde ninguém nos possa ver.
Opçã
o 3:
Nós a encontramos em I João 2:3, que é o verso que me ajudou a juntar as peças
do enigma. "Ora, sabemos que O temos conhecido por isto: se guardamos os
Seus mandamentos."
Jesus nos diz:
"Tenho-vos amado com amor eterno. Dei-vos a salvação como um dom. Se Me aceitardes
como vosso Salvador, então vós, como expressão de amorável gratidão, deveis aceitar-Me
como vosso Senhor, como vosso Mestre, como a autoridade suprema em vossa vida.
E se Me aceitardes como Senhor, Eu virei a vós e mudarei o vosso coração de
pedra e vos darei um coração de carne. Escreverei Meus mandamentos em vosso
coração, e por Minha graça começareis a viver Meu estilo de vida."
Ellen White afirmou
isto de modo sucinto, quando escreveu: "Nesta vida devemos aprender a
submissão à vontade divina, ou não estaremos aptos a entrar no reino dos Céus"
(Australasian Union Conference Record, 12 de julho de 1899).
Como, porém, saberemos
que essa transação ocorreu verdadeiramente?
"Mediante a vossa
obediência, eis o segredo", diz Jesus." É fácil seres pecadores racionalizarem
a rebelião, chamando-Me de 'Senhor, Senhor' e em seguida não praticar as coisas
que digo. A obediência toma claro quase que instantaneamente o fato de que sois
submissos à Minha autoridade e vos prove evidência de que opero em vós tanto o querer
como o efetuar de acordo com Minha vontade. Vossa obediência será o sinal de
que vos haveis submetido voluntariamente à Minha benevolente autoridade."
Quando entendemos que
pecado não consiste em um comportamento visível ou a quebra de uma regra, começamos
a crescer como cristãos. Quando entendemos que cada tentação representa uma
escolha, não uma regra ou norma de vida, mas uma escolha a favor ou contra a
soberana autoridade de Jesus Cristo como Senhor de nossa vida, começamos a ver
a harmonia entre fé e obediência, onde antes só víamos conflito. Quando
captamos a verdade bíblica de que nossa obediência foi concebida como um sinal
do senhorio de Jesus Cristo em nossa vida e sinal de nossa expressão de amor a
Ele, chegamos a um abençoado estágio de compreensão.
Deste modo, somos
protegidos de cair em dois enganosos pontos de vista sobre o evangelho: 1) que
a justificação nos leva a uma soberania individual, em vez de submissão à
vontade de Deus; 2) que a justificação conduz a obras meritórias à medida que o
Espírito Santo nos habilita a obedecer à lei de Deus.
Ellen White nos
aconselha dizendo: "Se queres tomar-te um aluno na escola de Cristo, submete
tua vontade a Ele, colocando-te sob Sua disciplina, e serás capaz de caminhar
em Seus passos; e por viveres em constante ligação com Jesus, serás um canal de
luz a outros.... Submissão à autoridade de Cristo, que forma uma qualificação
essencial em Seus discípulos, não é somente oposto ao orgulho que se sente
ferido quando advertido e aconselhado, mas os que a têm decidem sujeitar-se uns
aos outros" (Olhando Para o Alto, pág. 355).
Obediência:
dom da graça
A estupenda notícia do evangelho significa ter
a alegre experiência de aceitar a Jesus Cristo como Salvador, de saber que nossos
nomes estão escritos no livro da vida, de estar certos de que nossas más ações
foram canceladas. Mas Deus sabia que nossa pecaminosa e egoísta natureza nos
leva a lançar mão de uma roleta espiritual, para conduzir o nome de Cristo
vivendo ainda em rebelião, para adorar nossas opiniões em vez de Sua vontade.
Assim, Ele estabeleceu o plano da salvação para que, ao sermos atraídos pelo
Espírito Santo, nosso coração seja quebrado pelo contraste entre a magnitude de
nosso pecado e Seu insondável amor. Assim, prostramo-nos perante Ele, exclamando:
"Meu Senhor e meu Deus", e unimos nosso coração a Ele, aceitando-0
não apenas como Salvador mas também como Senhor.
Quando procuramos fazer
Sua vontade, nós nos vemos em meio do conflito entre o bem e o mal, entre Sua
vontade e o nosso desejo de adorar nossas opiniões. Enfrentamos escolhas que
conflitam com nossos desejos pessoais. Para uma pessoa, é o sábado; para outra,
o dízimo; para outra, joias, bebida alcoólica, ou a atração do jogo. Os
problemas são diferentes, mas a batalha é a mesma para cada um de nós:
Sucumbiremos ao desejo de ser deuses, de ter opiniões soberanas?
"Sou um homem
sujeito à autoridade", disse o centurião romano ao expressar sua fé em
Jesus. E dos lábios de Jesus saiu o mais alto louvor por sua confissão:
"Nem mesmo em Israel achei fé como esta" (Mat. 8:5-13).
Você pode dizer a mesma
coisa hoje? É você uma pessoa sob a autoridade de Deus, a qual dirige sua vida
e a transforma pelo poder do Espírito? Por favor, não descarte este artigo até
que você o tenha entesourado no coração. Porque não há nenhum exagero em dizer
que essa é uma questão que envolve nosso destino eterno.
*Robert
S. Folkenberg, presidente da Associação Geral da
Igreja Adventista do Sétimo Dia.
FONTE:
Revista Adventista, Setembro 1998, p. 8-10.
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