O QUE OS ADVENTISTAS TÊM PARA COMPARTILHAR COM A COMUNIDADE CIENTÍFICA?
Ricardo
André
No período em que
estudava para obter minha graduação em História, a cada período solicitava ao
Departamento de História minha dispensa às aulas das sextas-feiras à noite, que
para nós, adventistas, já é sábado. A coordenação do curso, bem como meus
professores se esforçaram ao máximo para fazer os ajustes necessários, a fim de
que não perdesse as disciplinas daquele dia. Com isso, alguns professores e colegas
de turma algumas vezes me perguntavam sobre as crenças adventistas. Eu educadamente
oferecia algumas respostas, mas acabava ali. Haveria uma maneira melhor de
compartilhar minha fé?
Sou cristão adventista
desde os meus 11 anos de idade. Logo sou 100% criacionista. Acredito na
existência de um Deus amoroso que criou todas as coisas animadas e inanimadas
em nosso mundo em seis dias de 24 horas, e no sétimo dia descansou, abençoou e
santificou esse dia, instituindo-o como dia de descanso e adoração (Gn 2:1-4;
Êx 20:8-11). Continuo sendo criacionista. A Faculdade não mudou minha
cosmovisão. Trabalho nas escolas públicas de Lagarto como professor de
História. Nesta área, a imensa maioria dos historiadores são evolucionistas
ateístas. Convivo com colegas de minha área, bem como de outras áreas do
conhecimento, que acreditam no modelo evolucionista. Alguns deles são ateus,
agnósticos ou simplesmente não dão importância ao fato da existência ou não de
Deus. Já tivemos alguns momentos na sala de professores alguns diálogos sobre a
temática da origem da vida. Em todas essas ocasiões tentei mostrar, de forma
respeitosa, que a teoria criacionista dá sentido e dignidade a vida humana,
pois ela ensina que fomos criados a “imagem e semelhança” de Deus (Gn 1:26-28).
Logo, temos uma origem superior. Não evoluímos de seres inferiores. Não estamos
aqui como obra do acaso, mas viemos das mãos do Criador.
Todavia, confesso que
não possuo a disposição de fazer apologética. O objetivo de minha vida é
compartilhar Jesus, o cristianismo e a mensagem adventista. A seguir apresento
algumas de minhas ideias sobre como e o que compartilhar no meio acadêmico.
CUIDADO
COM AS ABORDAGENS DEFICIENTES NO COMPARTILHAR
Primeiramente, gostaria
de compartilhar como penso que a abordagem não deve ser feita. A imensa maioria
dos professores das universidades acreditam que a religião e a fé são
prejudiciais para a sociedade porque envenenam a mente fazendo com que dependam
de algo irreal, não verificável, anticientífico; suprimem o pensamento crítico
e são responsáveis por grande parte da violência no mundo. Ao procurar
conquistar essas pessoas hoje, somos tentados a utilizar a argumentação
incisiva, a ridicularização, a crítica ácida, a chacota da teoria
evolucionista. Tais abordagens contraproducentes contêm fortes argumentos que
condenam as ideias equivocadas e apresentam as características mais objetáveis
dos oponentes. Contudo, até os oponentes mais acirrados devem ser tratados com
respeito, deferência e amor.
Em 1 Pedro 3:15, 16, lemos: “Antes, santifiquem Cristo como Senhor em
seu coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que
pedir a razão da esperança que há em vocês. Contudo, façam isso com mansidão e
respeito, conservando boa consciência, de forma que os que falam maldosamente
contra o bom procedimento de vocês, porque estão em Cristo, fiquem envergonhados
de suas calúnias”. Embora devamos estar sempre preparados para explicar
o que e por que cremos, devemos fazê-lo com respeito e bondade. Portanto,
discuta as questões apresentadas com respeito. Enfatize o fato de que a
evolução, o ateísmo, o materialismo e outras ideologias são apenas hipóteses,
modelos ou paradigmas que não foram comprovados e que outras explicações são
possíveis.
Ellen G. White
aconselha nesse sentido:
“Na defesa da verdade,
devem-se tratar os mais cruéis adversários com respeito e deferência”
(Testemunhos Para a Igreja, v. 6, p. 122)
“Os grandes homens, os
homens cultos, podem melhor ser atingidos pela simplicidade de uma vida
piedosa, do que pelos argumentos incisivos que se possam acumular sobre eles. Causam-se
boas impressões quando a religião é cheia de vitalidade, de molde a promover
vida e progresso” (Evangelismo, p. 557).
“Falai a verdade em
tons e palavras de amor. Cristo Jesus será exaltado” (Ibdem, p. 576).
“Apresente-se a verdade
tal como é em Jesus, mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco
aqui, um pouco ali. Falai do amor de Deus com palavras de fácil compreensão. A
verdade bíblica apresentada com a humildade e o amor de Jesus exercerá
influência notável sobre muitas mentes. [...] Insisti sobre a necessidade da
piedade prática. Tornai-lhes patente que sois um cristão, desejando paz, e que
amais sua alma. Vejam eles que sois conscienciosos. Assim lhes granjeareis a
confiança; e haverá tempo suficiente para as doutrinas. Seja o coração
conquistado, o solo preparado, e depois semeai a semente, apresentando em amor
a verdade como é em Cristo” (Ibdem, p. 199-200).
A partir das
orientações de Ellen White, penso que a apologética não é a melhor abordagem
para atrair os da comunidade científica, ou seja, a de atacar a ciência; dizer
aos cientistas ou professores que eles não têm moral; proferir frases prontas;
ignorar suas ideias e entrar em discussão. Essas abordagens criam a imagem
negativa de que os cristãos são contra a ciência, quando na verdade não somos. É
importante que se diga que o pensamento religioso não é absolutamente contrário
aos métodos da ciência. Muitos dos grandes cientistas do mundo ocidental eram
cristãos que não só acreditavam em Jesus, mas também na criação. Galileu,
Blaise Pascal, Robert Boyle, Nicolas Steno, Isaac Newton e James C. Maxwell são
apenas alguns que fazem parte de centenas de nomes do passado e do presente que
deram ou estão dando grandes contribuições para a investigação científica, e
sem rejeitar a crença em Deus. A ciência se desenvolveu, ao longo de muitos séculos,
impulsionada por esses e outros cientistas que foram cristãos comprometidos. Milhares de cientistas no mundo acadêmico de
hoje são cristãos praticantes, mostrando, assim, que a prática de ambas,
pesquisa científica rigorosa e fé cristã, não são mutuamente exclusivas, mas de
reforço.
Como uma clara
demonstração de que os cristãos adventistas não são contra a ciência, a
escritora cristã norte-americana Ellen G. White, incentivava os cristãos a
“adquirir conhecimento das ciências” (Manuscript Releases, 21 v., 1981-1993).
Ela também incentivou aqueles que se preparavam para ser pastores a “primeiro
obter razoável grau de preparo mental” a fim de poder “enfrentar com êxito as
estranhas formas de erros religiosos e filosóficos associados, cuja exposição
requer conhecimento de verdades científicas, bem como escriturísticas”
(Obreiros Evangélicos, p. 81).
O termo compartilhar
envolve uma abordagem melhor que a apologética, pois não enfatiza o argumento. Compartilhar
não exige que se diga tudo. Por várias razões, Jesus pediu que o leproso curado
ficasse em silêncio (Mt 8:2-4). Depois da confissão de Pedro, Jesus recomendou que
os discípulos não dissessem nada, porque havia tanto “falso conceito do
Messias, que um anúncio público do Mesmo não lhes daria ideia exata de Seu
caráter e de Sua obra.” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p.
414). Os três discípulos que presenciaram a transfiguração de Cristo não
deveriam compartilhar a experiência com outros, porque “apenas despertaria o ridículo,
ou ociosa admiração” (Ibdem, p. 426). Deus não é mencionado no livro de Ester,
e ela não revelou sua origem judaica, mesmo assim, era fiel. Os valdenses
levavam bíblias consigo, secretamente, e compartilhavam o evangelho somente com
aqueles em quem confiavam (Ellen G. White, O Grande Conflito, p.70, 71).
O
MÉTODO DE JESUS É O MELHOR
Se o debate acirrado
para demonstrar as fraquezas e contradições das ideias dos evolucionistas
ateístas não é o melhor método para compartilhar a nossa fé, então, qual é o
melhor método? Podemos buscar em Deus a melhor maneira de compartilhar de nossa
fé em cada situação.
Ellen White afirmou: “Os
jovens pastores devem evitar debates, pois estes não aumentam a
espiritualidade, nem a humildade de espírito. Em alguns casos, talvez seja
necessário enfrentar um orgulhoso alardeador contra a verdade de Deus, num
debate franco; geralmente, porém, esses debates, sejam orais, sejam escritos,
resultam em mais dano do que bem” (Testemunhos Para a Igreja, v. 3, p. 213).
Ellen White ainda
afirmou que o resultado de um debate com violenta discussão “é um estado febril
de coisas. Faltam calma, ponderação e discernimento. Caso se deixe passar essa
agitação, ou haja reação por meio de procedimento indiscreto, o interesse nunca
mais poderá ser despertado. Os sentimentos e simpatias do povo foram
estimulados, mas a sua consciência não foi convencida, nem o coração
quebrantado e humilhado perante Deus” (Ibdem, p. 218).
C. S. Lewis afirmou: “Atraímos
as pessoas a Cristo não as fazendo desacreditar naquilo em que acreditam, de
maneira ruidosa, dizendo a elas quão erradas elas estão e quão certos nós
estamos, mas mostrando a elas uma luz tão bela que elas desejarão conhecer a
fonte dessa luz de todo coração. (“Christian
Apologetics”, em God in the Dock: Essays on Theology and Ethics, Walter Hooper,
ed.(Grand Rapids, Mich.: Eerdmans, 1970), p. 89-103, especialmente p. 92, 93 e
103.
Quando pregou em
Atenas, Paulo usou a lógica e a filosofia. “Considerando o tempo assim gasto, e
concluindo que seu ensino em Atenas fora pouco produtivo, decidiu seguir outro
plano de trabalho em Corinto, nos seus esforços para atrair a atenção dos
descuidados e indiferentes. Decidiu evitar discussões e argumentos elaborados e
nada se propor saber entre os coríntios, ‘senão a Jesus Cristo, e Este
crucificado’. Estava disposto a pregar-lhes, não com ‘palavras persuasivas de
sabedoria humana, mas com demonstração de Espírito e de poder’. 1 Coríntios 2:2
e 5” (Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, p. 244). Paulo lhes mostrou “um
caminho mais excelente”, com o maior deles sendo o amor (1 Coríntios 12:31;
13).
Pessoalmente, acredito
que os métodos usados por Jesus, conforme descritos em O Desejado de Todas as Nações, consistem no melhor guia para
compartilhar a nossa fé. No Sermão do Monte, Jesus “não atacou, todavia,
diretamente os erros do povo”, no entanto, “ensinou-lhes alguma coisa
infinitamente melhor do que haviam conhecidos” (p. 299). “Os homens podem
combater ou desafiar a nossa lógica, podem resistir a nossos apelos; mas a vida
de amor desinteressado é um argumento que não pode ser contradito” (p. 142). Na
Sua maneira de tratar com Tomé, “Jesus não esmagou Tomé com censuras, nem
entrou com ele em discussão. Revelou-Se ao duvidoso.” (p. 808).
A melhor maneira de
atrair os céticos para a luz da verdade, muito mais do que ter o melhor modelo
científico, ou provar que estamos certos e eles errados, é compartilhar da
melhor maneira a respeito de Cristo como Deus: um Deus poderoso que faz muito
mais do que os seres humanos podem explicar e um Deus bom, em quem podemos
confiar em face do mal. Podemos apresentar um Deus cuidadoso em face do mal,
uma comunidade segura, acolhedora e plena da graça diante do fracasso, e a
ciência em ação para tornar o mundo um lugar melhor. Os questionamentos virão
com base no estilo de vida. Se nossa vida for coerente com a fé que nós
professamos, isso irá convencer a muito no mundo acadêmico da existência de um
Deus amoroso.
Ellen White afirmou: “A última mensagem de graça a
ser dada ao mundo é uma revelação do caráter do amor divino.” (Parábolas de
Jesus, p. 415). Note que não é a “verdade teológica” dos “fanáticos
religiosos”, mas a “verdade genuína, segundo se manifesta na vida” (O Desejado
de Todas as Nações, p. 309).
Ellen G. White, num
único parágrafo, resume o que Jesus fazia para alcançar as pessoas e
conduzi-las à salvação: “Unicamente o método de Cristo trará
verdadeiro êxito no aproximar-se do povo. O Salvador misturava-Se com os homens
como uma pessoa que lhes desejava o bem. Manifestava simpatia por eles,
ministrava-lhes às necessidades e granjeava-lhes a confiança. Ordenava então:
“Segue-Me.” (A Ciência do Bom Viver, p. 143).
Vamos analisar isso um
pouco.
1) Jesus se misturava
com as pessoas como Alguém que lhes desejava o bem. (Ele estabelecia
relacionamentos).
2) Jesus tinha
compaixão pelas pessoas. (Ele criava vínculos).
3) Jesus ministrava-lhes
as necessidades. (Isso também estabelecia vínculos).
4). Quando Ele
combinava o primeiro, o segundo e o terceiro elementos, ganhava a confiança das
pessoas.
5) “ordenava então:
‘Segue-Me’” (para que se tornassem Seus discípulos).
O que vemos aqui é um
modelo integral (holístico) de trabalho de Jesus. Esse método de ministério
podem guiá-los ao trabalharem com as pessoas materialistas. Todos esses passos,
atuando juntos, trarão “verdadeiro êxito”.
Paulo chegou a dizer: “Embora
seja livre de todos, fiz-me escravo de todos, para ganhar o maior número
possível de pessoas” (1 Coríntios 9:19-23).
No evangelho eterno a
ser dado ao mundo (Apocalipse 14:6) está incluído o relato da mulher que lavou
os pés de Jesus (Mateus 26:6-13). A hora do juízo (Apocalipse 14:7) está
baseada na maneira como tratamos os menos afortunados entre nós (Mateus
25:31-47). Jesus usou o sábado para curar e está preocupado com o modo como as
pessoas são tratadas (Isaías 58). A mensagem de Elias faz parte da mensagem
final sobre os relacionamentos restaurados (Malaquias 4:5, 6).
Portanto, é através do
desenvolvimento de amizades saudáveis com os materialistas e os ajudando que
teremos oportunidades de apresentar a Jesus, o compassivo Salvador, a essas
pessoas, de refletir com elas a respeito do materialismo puro como algo insatisfatório,
sobre o Big Bang e a segunda lei da termodinâmica que apontam para um começo e
para “Alguém que deu origem a esse começo”; sobre a sintonia fina das
constantes físicas que parece indicar um Universo projetado para a vida. Falar
sobre o complexo projeto biológico que sugere a necessidade de um “Projetista”;
a respeito da consciência humana expressada no autoconhecimento e no
livre-arbítrio que implica uma “Consciência Maior”; refletir ainda a respeito dos
valores morais que regem a nossa sociedade que não podem ter surgido como
consequência da seleção natural aleatória, a partir da matéria e da energia;
sobre mundo real, complexo e cercado de informações, a estrutura exige um
Criador inteligente.
Os adventistas têm algo
a oferecer, e os métodos usados por Jesus funcionam!
Comentários
Postar um comentário