CONSTRUINDO O DIÁLOGO
Ganoune
Diop*
Como os adventistas se
relacionam com outras denominações cristãs e religiões mundiais, sem cair no
ecumenismo de crenças?
Conselho Mundial de
Igrejas (CMI), que neste mês [agosto] completa 70 anos, nasceu quando o mundo
ainda dava seus primeiros passos de recuperação após a Segunda Guerra Mundial.
Hoje, com cerca de 350 igrejas-membros, o CMI é uma das entidades ecumênicas
mais influentes.
Logo após a guerra, o
CMI se envolveu na ajuda aos imigrantes, refugiados e
pobres. Nas décadas seguintes, procurou assumir uma postura de mediação no
contexto da Guerra Fria e dos conflitos raciais na África do Sul. Inicialmente
formado por igrejas do Ocidente, nos anos 1960 conseguiu se aproximar das
tradições ortodoxas e de igrejas independentes.
Apesar de a Igreja
Católica Apostólica Romana não ser membro da entidade, em celebração ao
aniversário do CMI, o papa Francisco visitou a sede da instituição no dia 21 de
junho, em Genebra, na Suíça. Ao longo do ano, outras festividades têm sido
organizadas.
A Igreja Adventista do
Sétimo Dia não é membro do CMI, mas participa de suas reuniões como
observadora. Essa postura distinta de nossa denominação desperta dúvidas em
muitos adventistas. Diante desse impasse, vale apenas refletir sobre a posição
da igreja em relação ao movimento ecumênico e ao diálogo inter-religioso.
PONTOS
EM COMUM
Os adventistas do
sétimo dia ocupam uma posição privilegiada quanto ao relacionamento com pessoas
de outras denominações cristãs e religiões. Existem intersecções de valores que
podem funcionar como ponto de partida para diálogos e parcerias com o intuito
de melhorar as condições de vida de toda a família humana.
Por exemplo, os
adventistas adotaram a abstinência de bebidas alcoólicas, um ponto em comum com
os muçulmanos. Muitos adventistas se abstêm de comer carne, ponto em comum com
o hinduísmo e o budismo. A maioria dos adventistas evita as bebidas cafeinadas,
ponto em comum com os mórmons. Mesmo os adventistas que comem carne se abstêm
das que são consideradas imundas (Lv 11; Dt 14), ponto em comum com os judeus.
Em nível mais profundo,
embora as nuances de conteúdo devam ser levadas em consideração, a crença na
criação e na segunda vinda de Jesus à Terra, sugerida no nome “adventista do
sétimo dia”, é compartilhada por religiões que enfatizam a intervenção
escatológica divina para restaurar a justiça e a paz no mundo. Portanto, o
adventismo é uma ponte oportuna para a maioria das religiões, e sua mensagem
pode ecoar positivamente em vários contextos e culturas.
Há premissas
filosóficas que influenciam o compromisso dos adventistas de construir pontes
com pessoas de outras denominações, ou com ateus e agnósticos. Todas convergem
na convicção de que Jesus Cristo é o “Desejado de todas as nações”(Ageu 2:7-9,
ARC), isto é, Ele é o Deus que as pessoas desejam profundamente conhecer, ainda
que não estejam conscientes disso. Portanto, nosso diálogo é motivado pelo
sincero desejo de testemunhar de Cristo, conforme O compreendemos a partir das
escrituras.
Entendemos também que,
para dialogar, é preciso compreender o outro e ser compreendido por ele. Por
isso, os adventistas procuram genuinamente conhecer melhor as crenças, as
concepções de mundo e os valores de pessoas de outras religiões ou convicções,
em seus próprios termos, de acordo com sua própria visão de mundo.
Existem várias
declarações oficiais facilmente acessíveis que fornrcem diretrizes a respeito
de como os adventistas devem se relacionar com outras organizações religiosas.
O livro Declarações da Igreja (CPB, 2012), traz alguns posicionamentos
sobre o tema nas páginas 19-26, 133—138, 141-153.
Essas orientações giram
em torno de uma abordagem positiva para com outras religiões e a necessidade de
se garantir a liberdade de crença e autonomia para que todos possam testemunhar
em favor de suas convicções. Adota-se a mesma abordagem quando se trata de pessoas que não professam nenhuma
religião, adeptas de filosofias puramente seculares.
LIBERDADE
PARA A MISSÃO
A história das relações
entre religiões e ideologias concorrentes que levaram a inúmeras guerras,
confrontos, intimidações, abusos e violência em todas as suas formas torna
necessário delinear da maneira mais clara possível nossa compreensão sobre
outras religiões e a natureza do alcance de nosso testemunho a elas.
Um valor fundamental
promovido pelos adventistas no cenário mundial é a liberdade de escolha
religiosa. No adventismo, esse privilégio é considerado um direito humano.
Portanto, embora caracterizados por um senso de missão para com todos os grupos
de pessoas, os adventistas insistem na liberdade de cada indivíduo poder manter
suas convicções. Coerção, intimidação e manipulação da vulnerabilidade ou
ingenuidade das pessoas vão fundamentalmente contra nossas valores essenciais.
Além disso, a
honestidade quanto ao conteúdo de nossas crenças deve ser claramente expressa e
explicada àqueles a quem proclamamos a soberania de nosso Senhor e Salvador
Jesus Cristo, e com quem compartilhamos o evangelho eterno, para que possam
entender a natureza e a abrangência da aliança que são convidados a firmar.
Em essência, os
adventistas proclamam os fundamentos do evangelho bíblico para o mundo. Em
linhas gerais, essa narrativa se desenvolve da seguinte forma: A eterna
Divindade (Pai, Filho e Espírito Santo) criou o mundo com base no amor. Deus
também preparou um plano de redenção para salvar o mundo quando o mal se
infiltrou e prejudicou e prejudicou Suas criaturas e Sua criação. O Filho, a
eterna Palavra de Deus, que estava com Deus era Deus, encarnou-Se, viveu entre
nós para nos salvar e mostrar como viver. Ele nos ensinou a pensar, lidou com
as pessoas de uma forma que exemplificou como devemos nos relacionar com os
outros. Cristo morreu pelos nossos pecados, mas venceu a morte, o último
inimigo. Ele está vivo e tem as chaves da morte e do inferno (Ap 1:18).
Após Sua ascensão ao
Céu, Jesus desempenha a função de Sumo Sacerdote, intercedendo e preparando as
pessoas para viver em eterna comunhão com Deus. Ele virá como Rei dos Reis e
Senhor dos Senhores para inaugurar uma nova era de vida, liberdade, justiça e
paz. Todos esses temas estão contidos na expressão “reino de Deus”. Para
preparar Seus seguidores para o encontro escatológico cósmico, Deus enviou Seu
Espírito para habitar neles, transformá-los a ser Suas testemunhas, adorando-O
e servindo aos outros.
O evangelho pregado
pelos adventistas é integral e se concentra em todos os aspectos da existência
humana: espiritual, mental, emocional, físico, social e relacional. O
adventismo defende a dignidade de todo ser humano, independentemente de origem
étnica, cor, sexo ou status social. Seu persistente compromisso de aliviar o
sofrimento e melhorar a vida das pessoas em muitas partes do mundo é um sinal
claro de que a esperança está no centro de sua mensagem.
UNIDADE
SEM ECUMENISMO
Ao saber que a Igreja
Adventista está representada nas reuniões de organizações ecumênicas cristãs,
alguns perguntam como exatamente os adventistas veem a unidade cristã, o
diálogo inter-religioso e o ecumenismo. Outra dúvida recorrente está
relacionada à razão de optarmos por aceitar e manter apenas o status de
observadores e não de membros nas organizações ecumênicas cristãs, como o
Conselho Mundial de Igrejas.
A resposta é simples: é
legítimo que indivíduos e instituições de boa vontade se unam para salvar e
proteger pessoas e afirmar a importância e o caráter sagrado da vida. É
inclusive urgente que mais pessoas se associem para tornar este mundo um lugar melhor para todos os seres humanos,
contribuindo para melhorias na saúde, educação e no trabalho humanitário,
fazendo isso com toda a dignidade, liberdade, justiça, paz e fraternidade. No
cumprimento de sua missão, os adventistas procuram se misturar com essas outras
organizações cristãs.
Contudo, no que se
refere à sua posição em organizações cristãs globais, a Igreja Adventista do
Sétimo Dia tem ocupado o status de observadora nas reuniões e estado aberta à
cooperação com outras igrejas em áreas que não comprometem sua identidade,
missão e mensagem. A regra geral é não se tornar membro de qualquer corpo
ecumênico que diminua o impacto da distinta mensagem que o adventismo tem para
dar em relação à soberania de Deus, o Criador, ao sábado e à segunda vinda de
Cristo.
Para os adventistas, a
liberdade religiosa é o antídoto para o ecumenismo sincretista. É um chamado
para abraçar a verdade com a inalienável liberdade de consciência, de expressar
publicamente suas doutrinas, de convidar outros para compartilhar suas
convicções e se unir à sua comunidade de fé.
COMPREENSÃO
CORRETA
No âmbito das relações
inter-religioso e entre igrejas, um sutil conjunto de tópicos
inter-relacionados que necessita de muita clareza é a questão da unidade e do
ecumenismo. Às vezes, outras palavras como “colaboração”, “parceria” e “diálogo
inter-religioso” são trazidas às conversas como se tivessem o mesmo
significado.
A palavra “ecumenismo”,
por exemplo, é usada de maneira diferente em contexto variados. O termo pode se
referir à unidade entre as igrejas cristãs, mas as pessoas costumam usá-lo para
descrever um sentido geral de relações cordiais, diálogo ou parceria para um
projeto. Rotular qualquer parceria entre os cristãos como ecumenismo
doutrinário pode revelar falta de conhecimento, instrução e mesmo exagero.
Cada aspecto do
engajamento adventista com qualquer instituição, órgão ou organização, seja
eclesiástica ou política, desenvolve-se principalmente com base na razão para a
existência da igreja: ser “sal” e “luz” do mundo (Mt 5:13-17), trazendo
esperança para a humanidade enredada em todo tipo de maldade.
Para cumprir essa
missão, os adventistas seguem o método de Jesus, conforme sintetizado pela
pioneira Ellen White no livro A Ciência
do Bom Viver, p. 143. Ele serviu as pessoas, procurando alimentá-las e
curá-las sem esperar nada em troca. Cristo as fez saber e sentir que eram
livres para escolher seu futuro, com ou sem Ele. A liberdade de consciência é
importante para Jesus. Sem essa liberdade, nenhuma aliança é genuína. Isso
ocorre porque o amor não pode ser forçado.
RELAÇÕES
ENTRE IGREJAS
Apesar de não fazerem
parte das organizações ecumênicas que exigem adesão, os adventistas desfrutam
do status de convidados ou observadores nas reuniões. A cooperação com outras
denominações cristãs está de acordo com a visão que a Igreja Adventista tem dos
demais cristãs. Reconhecemos “todas as organizações que elevam Cristo perante
os homens como parte do plano divino de evangelização do mundo, e [...] têm
grande estima pelos homens e mulheres cristãos de outras denominações que estão
empenhados em ganhar almas para Cristo” (Declarações da Igreja, p. 152, 153).
Ellen White escreveu
também algumas vezes sobre a necessidade de cooperação entre as igrejas. A
respeito do debate público de sua época em torno de questões da temperança, ela
aconselhou que os adventistas se unissem às pessoas que defendiam a mesma causa
que eles (Testemunhos Para a Igreja, v. 6, p. 110). Em outra citação, ela
orientou os pastores adventistas a orar pelos líderes de outras denominações,
pois sobre esses homens, como “mensageiros de Cristo”, pesava grande
responsabilidade (p. 78).
PRINCÍPIO
MAIOR
Apesar de Deus sempre
ter desejado unir todas as famílias da Terra (Gn 12:1-3; Jo 17), a unidade não
é um valor supremo, nem superior ao da verdade. Na prática, a unidade genuína
só pode acontecer em torno da verdade de Deus revelada nas Escrituras. Por
isso, os dois princípios que influenciam as relações dos adventistas com outros
cristãos, conforme também ressaltados pela pioneira adventista Ellen White, são
a verdade e a liberdade religiosa (Atos dos Apóstolos, p. 68, 69).
A Igreja Adventista é
várias outras denominações que não se uniram aos corpos ecumênicos organizados
se opõem ao ecumenismo como doutrina ou como meio de fundir igrejas cristãs em
uma igreja mundial. Além disso, os adventistas e outros crentes não aderem a
alianças sincretistas que diminuem a importância e o peso da verdade,
especialmente quando as crenças de algumas igrejas não estão em harmonia com a
verdade revelada na Bíblia.
Em realidade, a unidade
doutrinária entre as igrejas cristãs é enganosa e inatingível, a menos que as
igrejas percam suas crenças distintivas e se unam a uma das tradições
religiosas, seja ela católica romana, ortodoxa oriental, anglicana, reformada,
evangélica, pentecostal, ou qualquer outra.
Embora considere outros
cristãos como irmãos e irmãs em Cristo, o princípio que levou a Igreja
Adventista a não ser membro de uma união de igrejas organizada foi a liberdade
religiosa. Essa liberdade implica o direito irrestrito de compartilhar as
convicções religiosas e de convidar outros a se unirem à própria tradição, sem
ser acusado de proselitistas. Assim, a principal preocupação dos adventistas é
a possibilidade de serem impedidos de compartilhar suas convicções com outros.
A liberdade de religião
ou crença é um inegociável dom de Deus que deve caracterizar a liberdade de
todo cristão ou comunidade cristã para compartilhar suas convicções e convidar
outros a se unirem à sua tradição. Obviamente, por causa da missão, os cristãos
podem se unir para testemunhar de Cristo ao mundo que necessita Dele com muita urgência.
*Ganoune
Diop
é diretor do departamento de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa da Igreja
Adventista e secretário-geral da Associação Internacional de Liberdade
Religiosa (Irla, em inglês)
FONTE: Revista
Adventista, Agostos 2018, p. 12-15.
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