A PRIMEIRA PEDRA
Ricardo
André
Na manhã do 8º dia da Festa
dos tabernáculos1, ocorreu um incrível incidente na vida de Jesus,
que está repleto de lições objetivas e espirituais para todos nós. Assim que os
primeiros raios do sol começam a desafiar a completa escuridão da noite
anterior, Jesus deixa o Monte das Oliveiras, deixando também para trás as
árvores que tinham sido o Seu refúgio durante a noite, e Se encaminha para o
templo (João 8:1, 2)2. É quando Ele está assentado num dos terraços
do templo, à luz ainda anêmica da manhã, falando de pérolas perdidas e filhos desgarrados,
que os judeus trouxeram, à presença de Jesus, uma mulher encontrada em
adultério e pediram-Lhe que sentenciasse o castigo que ela merecia. Ela é
colocada no meio dos Seus ouvintes, atraindo para si todos os olhares. “E
disseram a Jesus: "Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de
adultério” (João 8:4). Seus acusadores eram os representantes da Lei e da
Religião, os escribas e fariseus. Mas não se limitaram a mencionar o delito,
apressaram-se em indicar também a sentença legal: “Na Lei, Moisés nos ordena
apedrejar tais mulheres” (Verso 5).
Ali, em pé, cabeça
baixa, tremendo, sua beleza instiga a multidão a exterminá-la. Muitos desses
homens, não muito tempo antes, estiveram ávidos por seu corpo. Agora estão
sedentos por seu sangue. Ela fora pega no próprio ato. A lei diz que deve ser
apedrejada. Como Jesus irá julgá-la?
À primeira vista,
muitos de nós somos tentados a tomar posição favorável ao lado dos acusadores,
em nosso zelo por defender a moral e os bons costumes. Todavia, à medida que
nos detemos analisando este episódio na vida de Cristo, concluímos que aqueles
homens não passavam de acusadores vis, a serviço da hipocrisia. Senão, vejamos:
1) Eram injustos e
misóginos, pois prenderam a mulher e deixaram sem culpa o seu cúmplice –
responsável pela mesma transgressão. Influenciava-os um falso moralismo, que
tolera a imoralidade no homem e a condena na mulher. Aberração grosseira, o
emprego de dois peso e duas medidas para o mesmo delito.
2) Eram falsos, pois
acusaram como pretexto para encontrar em Jesus algo que O incriminasse diante
das autoridades. Se autorizasse o apedrejamento, iriam acusá-Lo aos romanos. Por
julgar sem ser juiz; e se a absolvesse da culpa, O acusariam aos judeus, como
transgressor da lei de Moisés. Quanta perversidade oculta sob o manto de um
falso moralismo!
Naquele momento, Jesus inclinou-se
e começou a escrever no chão. Escreve o quê? João não diz claramente. “Este é o
único relato em que se diz que Jesus escreveu algo. De fato, muita coisa tem
sido escrita sobre isso, mas nada do que Ele escreveu foi preservado. As
palavras que Ele escreveu na poeira do solo logo foram apagadas pela
movimentação de pessoas dentro do templo”3. A escritora cristã Ellen
G. White acredita que Cristo escreveu os pecados deles. Jesus havia escrito ao
mundo os pecados dos acusadores da mulher para que todos pudessem ler, da mesma
maneira que a haviam exposto perante o mundo. Diz ela: “Ali, traçados perante
eles, achavam-se os criminosos segredos de sua própria vida. O povo, olhando, reparou
na súbita mudança de expressão e adiantou-se, para descobrir o que estavam eles
olhando com tal espanto e vergonha. Com toda a sua professada reverência pela
lei, esses rabis, ao trazerem a acusação contra a mulher, estavam desatendendo
às exigências da mesma”4 Quando Seus acusadores não receberam
nenhuma resposta imediata vinda da parte dEle, continuaram instigando Jesus
para que tomasse uma posição... até que Ele fica literalmente em pé,
demonstrando que estava pronto a dar Seu veredito, tendo as mãos ainda sujas de
terra. Ele então solenemente decreta: “Se algum de vocês estiver sem
pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela" (Verso 7). A infeliz
pecadora, coberta de vergonha, em sua angústia, fechou os olhos, aguardando uma
saraivada de pedras.
Conforme a lei, as
testemunhas deviam ser os primeiros a atirarem pedras (Dt 17:7). Mas em vez de
julgarem a mulher, eles mesmos acharam-se julgados por Aquele que conhece os
nossos mais escondidos pensamentos e intenções. Nenhum deles podia afirmar
estar sem pecados. É possível que diante de Deus alguns deles fossem mais
culpados do que aquela mulher.
Sentindo-se
ridicularizados, “foram saindo, um de cada vez, começando com os mais velhos”.
A mulher pecadora ficou só, na presença de Jesus. Chega então o momento em que
ela deve morrer. Ela treme. As palavras de Jesus aos seus acusadores definem
claramente o único meio pelo qual ela poderia morrer. Somente um Ser sem pecado
deveria atirar a primeira pedra. Jesus é o único que possui tal qualificação. Então
ele pôs-Se em pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?"
Mulher. Até agora, ela permanece sem nome. Quando seus acusadores se referem a
ela como “esta mulher” que foi “surpreendida em adultério” (João 8:4), essa é
uma tentativa para diminuí-la, para desumanizá-la, definindo-a apenas por seu
passado, uma trama calculada para não permitir que o coração da multidão se
movesse e sentisse por ela qualquer simpatia. Usada desta forma, é uma palavra
que significava a desgraça dela e ressaltava a sua vergonha. Na boca de Jesus,
a palavra se transforma. Deixa de ser pejorativa para transformar-se em uma
promessa. A palavra reveste-se então do mais profundo sentimento de emoção e
respeito, reveladas na pergunta que Ele lhe faz: “Ninguém a condenou?" Ainda
não se atrevendo a manter qualquer esperança, plenamente consciente de sua
culpa diante da lei, ela fala por meio de um momento de silêncio que tem o peso
das pedras espalhadas a seus pés. “Ninguém, Senhor”, disse ela. E dos lábios de
Jesus ouviu as palavras permeadas de ternura e de misericórdia: “Eu também não
a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado" (Versos 9-11).
“Comoveu-se-lhe o
coração, e ela se atirou aos pés de Jesus, soluçando em seu reconhecido amor e
confessando com amargo pranto os seus pecados.
“Isto foi para ela o
início de uma nova vida, vida de pureza e paz, devotada ao serviço de Deus. No
reerguimento dessa alma caída, operou Jesus um milagre maior do que na cura da
mais grave enfermidade física; curou a moléstia espiritual que traz a morte
eterna. Essa arrependida mulher tornou-se um de Seus mais firmes seguidores.
Com abnegado amor e devoção, retribuiu-Lhe a perdoadora misericórdia.
“Em Seu ato de perdoar
a essa mulher e animá-la a viver vida melhor, resplandece na beleza da perfeita
Justiça o caráter de Jesus. Conquanto não use de paliativos com o pecado, nem
diminua o sentimento da culpa, procura não condenar, mas salvar. O mundo não
tinha senão desprezo e zombaria para essa transviada mulher; mas Jesus profere
palavras de conforto e esperança”.5
Incrível! Os escribas e
fariseus, sem o querer, concederam à mulher pecadora a maior de todas as
bênçãos. Levaram-na à presença do Único que salva o pecador da culpa e do poder
do pecado.
Considere como o único
Ser sem pecado Se recusou a destruir a vida de uma mulher pega com um homem que
não era seu marido. Atente para a Sua compaixão por ela, por estar sofrendo e
ferida em Sua presença pura. Quanto mais nós, que perdemos o senso da justiça,
não deveríamos largar as pedras que seguramos em nossas mãos, prontas para
punir os outros? Não deveríamos, muito mais, usar essas mãos para erguer os
outros do pó, onde a dor e os golpes da vida ali os colocaram? Não deveríamos
nós, muito mais, reconhecer claramente e cultivar sem reservas o espírito
dAquele que “é tardio em censurar, pronto a perceber o arrependimento, pronto a
perdoar, a animar, a pôr o que se extraviou na vereda da santidade e a nela
firmar-lhe os pés”?6
Caro amigo leitor, o
que Jesus fez por aquela trêmula mulher, Ele faz por cada um de nós. A Bíblia
revela a extensão do esquecimento perdoador de Cristo. Isaías exultou: “Lançaste
para trás de ti todos os meus pecados” (Isaías 38:17). De acordo com o profeta
Miquéias, Ele lança “todos os nossos pecados nas profundezas do mar” (Miquéias
7:19). “Como se fossem uma nuvem, varri para longe suas ofensas; como se fossem
a neblina da manhã, os seus pecados” (Isaías 44:22). Louvado seja Deus!
Referências:
1. Comentário Bíblico
Adventista, v. 5, p. 1093.
2. Todas as passagens
bíblicas foram extraídas da Nova Versão Internacional.
3. Ibdem, p. 1094.
4. Ellen G. White, O
Desejado de Todas as Nações (Tatuí – SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004), p.
461.
5. Ibdem, p. 462.
6. Ibdem.
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