O QUE ELES VIRAM EM SUA CASA?
Ricardo
André
Ao longo da história da
monarquia em Israel e Judá, diversos reis surgiram e reis caíram. De acordo com
as narrativas dos livros de Reis e Crônicas, alguns desses reis foram maus,
outros foram bons. As sagas dos reis são definidas pelo que eles fizeram em termos
de fidelidade a Deus, mantendo-se longe do paganismo e da idolatria, fazendo ou
não fazendo o que era reto aos olhos dEle.
Nesse desfile real, em
um momento importante na história moral de Israel e após seguidas falhas de
reis que agiram com maldade, um novo rei aparece em cena, Ezequias que é
descrito na Bíblia como alguém que “fez o que era reto perante o Senhor” (2 Rs
18:3). Ele foi um dos bons reis de Judá. Reinou por vinte e nove anos, de
716/715-687/686 AC. Era filho de Acaz, e nasceu em torno do ano de 751 a. C.,
morreu em 698, portanto aos 53 anos de idade.
O livro de 2 Reis
menciona grandes realizações de seu reinado: recuperou muito do território e
das riquezas que haviam sido perdidos e libertou Judá da tirania de potências
estrangeiras a quem pagavam tributos. Ainda mais significativo, Ezequias
restaurou a verdadeira adoração a Deus, destruindo os ídolos e os altares que
estavam espalhados pela nação. Ele também destruiu a serpente de bronze que
Moisés fizera no deserto (Números 21:8-9). Àquela altura, as pessoas estavam
queimando incenso e a adorando (2 Reis 18:04). Verdadeiramente, Ezequias
realizou grandes coisas e “houve grande alegria em Jerusalém” (2 Crônicas
30:26).
A
Primeira Grande Crise Enfrentada por Ezequias
Enquanto as coisas
estavam indo bem para o rei, um profeta entrou na história. Isaías teve acesso
ao rei, a quem visitava frequentemente com mensagens de Deus. Em uma ocasião,
por exemplo, Ezequias foi ao templo completamente perturbado porque os assírios
estavam marchando contra ele com um exército de 185 mil homens e ameaçavam
destruir Judá. Numa época tão perigosa, Ezequias voltou-se para o templo para
orar e esperar pela palavra de Deus, e a palavra veio por intermédio de Isaías.
Sua mensagem era simples e direta: “Não tenha medo” (2 Reis 19:6). Uma grande
crise pede um grande milagre, e assim foi! Deus tomou toda a situação em Suas
mãos e cumpriu prontamente Sua promessa de defender Jerusalém (2 Rs 19:35-37; 2
Cr 32:21 e 22; Is 37:36-38). No Final da história, o rei assírio, Senaqueribe,
não conseguiu entrar em Jerusalém. “Então, saiu o Anjo do Senhor e feriu no
arraial dos assírios a cento e oitenta e cinco mil” (Is 37:36).
“Se Senaqueribe tivesse
vencido Jerusalém, ele teria deportado a população de tal maneira que Judá
teria perdido sua identidade, como aconteceu a Israel do Norte. Então, sob
certo aspecto, não teria havido povo judeu de quem o Messias poderia nascer. A
história deles teria acabado ali mesmo. Mas Deus manteve viva a esperança” (Lição
da Escola Sabatina, 2º Trimestre de 2004, p. 83).
Deus ainda hoje opera
milagres em favor da Sua igreja. Ele opera milagres em nossa vida também.
A
Maior Prova de Ezequias
No ano de 701 AC,
Ezequias fou acometido de uma doença mortal. Dessa vez, a mensagem não era boa.
“Ponha em ordem a sua casa”, Isaías advertiu, “pois você vai morrer; não se
recuperará” (2 Reis 20:1). Ezequias começou a chorar como uma criança.
“Lembra-te, Senhor, como tenho Te servido com fidelidade e com devoção sincera.
Tenho feito o que Tu aprovas.” Como se Deus precisasse ser lembrado!
Incrivelmente, antes que Isaías tivesse deixado o pátio intermediário, Deus
respondeu a Ezequias: “Ouvi sua oração e vi suas lágrimas; Eu o curarei...
Acrescentarei quinze anos a sua vida” (v. 5-6).
Deus havia respondido,
mas Ezequias queria mais segurança: “Qual será o sinal de que o Senhor me
curará e de que de hoje a três dias subirei ao templo do Senhor?” Isaías
respondeu: “O sinal de que o Senhor vai cumprir o que prometeu é este: você
prefere que a sombra avance ou recue dez degraus na escadaria?” Embora Ezequias
estivesse doente, não era tolo. “É fácil a sombra avançar dez degraus”, disse o
rei a si mesmo. Então, pediu ao profeta para a sombra voltar dez degraus. Foi o
que aconteceu.
Deus ouviu a oração de
Ezequias, curando-o de sua enfermidade e lhe dando mais 15 anos de vida. Ele
recebeu uma bênção dupla: não só o prolongamento da vida, como também saber a
extensão deste prolongamento. Ele pôde se dedicar inteiramente aos seus
projetos, políticos e familiares, conhecendo de antemão o tempo que tinha para
tal. Ele teve uma vida normal e chegou, depois disto, a ter um filho, Manassés.
A resposta a Ezequias
não decorreu de suas virtudes, mas porque orou profundamente. Ele buscou
tão-somente a Deus. Ele confiou tão-somente em Deus. Ela derramou todo o seu
ser diante de Deus. Foi sua oração que o salvou. Sua vida reta fez com que
procedesse assim. Se fosse um ímpio, buscaria outros caminhos, reclamaria de
Deus. Deus ouve a nossa oração (Is 38: 5-7).
Caro amigo, Deus também
sabe das suas dores, das suas aflições, das suas ansiedades. Nada passa
despercebido diante dos olhos de Deus. Deus viu as lágrimas de seu filho
Ezequias. Deus vê as suas também!
O
Teste de Gratidão de Ezequias
A doença e a cura de
Ezequias se tornaram notícia de primeira página. Não poderia ser diferente!
Afinal, além da doença do rei, havia algo inédito e inexplicável: o milagre da
sombra retroceder. Até mesmo os reis das nações distantes ficaram
impressionados. Um deles, Merodaque-Baladã, rei de Babilônia, enviou emissários
com cartas e um presente. “Ezequias recebeu em audiência os mensageiros e
mostrou- lhes tudo o que havia em seus armazéns: a prata, o ouro, as
especiarias e o azeite finíssimo, o seu arsenal e tudo o que havia em seus
tesouros. Não houve nada em seu palácio ou em seu reino que Ezequias não lhes
mostrasse” (2 Rs 20:13). E os babilônios voltaram para casa com uma ótima
notícia, mas nem uma palavra sobre Aquele que é a razão das boas notícias.
Isaías retornou. “O que
esses homens disseram? De onde vieram?” “De uma terra distante”, Ezequias
respondeu, “da Babilônia”. “O que eles viram em seu palácio?”, perguntou
Isaías. “Viram tudo em meu palácio”, exclamou Ezequias. “Não há nada em meus
tesouros que eu não lhes tenha mostrado.”
Então disse Isaías a
Ezequias: “Ouça a palavra do Senhor: Um dia, tudo o que se encontra em seu
palácio, bem como tudo o que os seus antepassados acumularam até hoje, será
levado para a Babilônia. Nada restará, diz o Senhor. Alguns dos seus próprios
descendentes serão levados, e eles se tornarão eunucos no palácio do rei da
Babilônia” (versos 16-17).
A leitura da repreensão
profética provoca uma certa indignação. Por que Isaías não veio antecipadamente
para instruir Ezequias sobre a melhor forma de se relacionar com os babilônios?
Por que esperar até depois de terem ido embora? Isaías poderia ter dito:
“Ezequias, alguns babilônios estão chegando. Eu sei que às vezes você é
orgulhoso e um pouco arrogante, mas não vá mostrar seu tesouro, isso seria
muito perigoso!” Por que Isaías não o avisou?
A resposta é encontrada
em 2 Crônicas 32. Depois de relatar todas as grandes realizações do rei
Ezequias, começando no versículo 23, o cronista se refere à doença do rei e
relata que um milagre aconteceu, embora a natureza exata desse milagre não seja
especificada. Então, por que Isaías não avisou Ezequias sobre a visita? O
versículo 31 esclarece: “Mas quando os governantes da Babilônia
enviaram uma delegação para perguntar-lhe acerca do sinal miraculoso que havia
ocorrido no país, Deus o deixou, para prová-lo e para saber tudo o que havia em
seu coração.”
Os príncipes da
Babilônia vieram para saber mais sobre as obras maravilhosas de Deus, mas o rei
Ezequias lhes mostrou suas próprias obras, seu tesouro e suas realizações. Um
dos visitantes da Babilônia tomou notas cuidadosas. Os babilônios um dia
voltariam para se enriquecerem com os tesouros de Jerusalém!
Ezequias, em um momento
de orgulho pessoal, perdeu uma oportunidade única em sua vida. “A visita desses
mensageiros do governante de tão distante terra dava a Ezequias a oportunidade
de celebrar o Deus vivo. Quão fácil lhe teria sido falar-lhes de Deus, o
sustentador de todas as coisas criadas, por cujo favor sua própria vida tinha
sido poupada, quando todas as outras esperanças haviam desaparecido. Que
momentosas transformações poderiam ter ocorrido, caso esses pesquisadores da
verdade, vindos das planícies da Caldeia, fossem levados ao conhecimento da suprema
soberania do Deus vivo.” (Ellen G. White, Profetas e Reis, p. 344).
É curioso perceber que,
a maior prova de Ezequias não foi no campo de batalha, mas no leito da doença.
Sua recuperação miraculosa em resposta a uma oração desesperada o levou a
deixar de glorificar a Deus quando foi visitado pelos embaixadores de
Babilônia, que queriam ouvir sobre a maneira bondosa como Deus procedera com
ele. Ao contrário, Ezequias exibiu suas riquezas reais, perdendo assim uma
oportunidade dada por Deus para testemunhar sobre a salvação (I Rs 10:1-24).
Ezequias se arrependeu, mas o resultado do seu erro devastou a nação (Is 38,
39).
Ellen G. White afirma
que “a visita dos embaixadores a Ezequias foi um teste de sua gratidão e
devoção” (Profetas e Reis, p. 346). Infelizmente, Ezequias não passou no teste.
No auge de sua popularidade e poder, ele não viveu de acordo com os benefícios
que ele recebeu (II Crônicas 32:25). Isso é típico de atitudes das pessoas hoje
em dia. Eles logo se esquecem das abundantes misericórdias de Deus. Alguns
cristãos não vivem de forma diferente dos incrédulos. Muitas vezes também
enfrentamos adversidades e dificuldades, recebemos a intervenção de Deus para
nos ajudar a superá-los, e depois, de forma ingrata, esquecemos dEle, como fez
Ezequias e aqueles nove leprosos que foram curados e esqueceram de voltar para
agradecer a Jesus (Lc 17:11-19). Como Ezequias e esses nove leprosos, nós não
vivemos de acordo com os benefícios que recebemos de Deus.
Amigo, tudo o
que temos foi dado por Deus. Porém, hoje o problema se repete. A maioria
esquece que, se estamos vivos agora é apenas pela graça de Deus. Atribuem os
milagres silenciosos do Criador à sorte ou coincidência. É comum ouvirmos estas
frases: “Hoje por sorte não fui atropelado por um carro.” “Que sorte que meu
filho teve hoje, conseguiu um bom emprego.” Para nós, cristãos, não existe
“sorte”. O que acontece são milagres silenciosos de Deus! As Sagradas
Escrituras não dão base para a crença de que as coisas acontecem por acaso. O
próprio Jesus foi claro ao mencionar que nada acontece sem o conhecimento do
Pai, e Ele é tão preciso que “até os cabelos da cabeça estão contados” (Mt
10:30). Então, por que chamar de sorte as bênçãos de Deus e azar os desafios
que Ele nos permite enfrentar? Se “todas as coisas cooperam para o bem daqueles
que amam a Deus” (Rm 8:28), por que definir como azar o que acontece de negativo
e sorte o que ocorre de positivo quando todas são ações divinas para moldar o
caráter e proporcionar salvação?
A escritora cristã Ellen
G. White aprofundou essa visão, destacando que “frequentemente os homens oram e
lamentam por causa das perplexidades e obstáculos que os confrontam. Mas é
propósito de Deus que eles enfrentem perplexidades e obstáculos e, se
mantiverem firme até o fim o princípio de sua confiança […] terão êxito ao
lutar com perseverança contra dificuldades aparentemente insuperáveis, e com o
êxito virá maior alegria” (Olhando Para o Alto, p. 119). Ela vai mais longe: “A
aflição e adversidade podem causar tristeza, mas é a prosperidade que
representa maior perigo para a vida espiritual” (Profetas e Reis, p. 24). O que
parece perda pode se tornar ganho e o que parece ganho pode acabar em perda.
Ezequias viveu os seus
quinze anos de graça, mas perdeu a oportunidade de dar um grande testemunho de
sua fé e do seu Deus aos visitantes de Babilônia.
O que os outros veem em
sua casa? O que eles vão ver em sua vida? Será que eles vão ouvir uma ladainha
de suas realizações? Será que eles vão ver seus troféus e aquisições? Ou eles
vão ver o poder de Deus em transformar a vida? Como testemunhamos de Deus aos
outros? Falamos das bênçãos recebidas da parte de Deus, ou mostramos as
riquezas que Deus nos concedeu? Deus tem que ser a prioridade em nossa vida, e
devemos testemunhar de Suas bênçãos a todos os que nos cercam. Devemos
aproveitar todas as oportunidades que Deus coloca diante de nós. Temos sido uma
influência positiva na vida das pessoas que se associam a nós?
“(...) Se por nosso
exemplo ajudamos a outros no desenvolvimento de bons princípios, damos-lhes
capacidade para fazer o bem. Por seu turno eles exercem a mesma benéfica
influência sobre os outros. Assim centenas e milhares são ajudados pela nossa
influência por nós despercebida. O verdadeiro seguidor de Cristo fortalece os
bons propósitos de todos aqueles com quem entra em contato. Diante de um mundo
incrédulo e amante do pecado, ele revela o poder da graça de Deus e a perfeição
do Seu caráter” (Idem, p. 348).
Caro amigo leitor, que
a cada dia sejamos moldados pelo evangelho, para que nossa vida transformada
possa dar testemunho da mais radical mudança que ocorreu em nossas vidas. O
evangelho nos transforma em perdidos em salvos, e essa salvação vai produzindo
transformações visíveis às pessoas que nos rodeiam. Elas querem ver se a
certeza da salvação eterna, da nossa filiação com Deus irá impactar nossa forma
de viver aqui e agora.
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