DEUS ORDENOU A MORTE DE PESSOAS INOCENTES?
O livro de 2 Samuel 21 traz
uma história muito estranha. Os
israelitas fizeram uma aliança com os gibeonitas quatro séculos antes da época
de Davi de poupá-los. Não creio que Saul tenha se esquecido dessa aliança. Com
toda probabilidade ele deve ter se convencido de que ela tão “antiga” que já
não estava mais em vigor. Como ele estava enganado! Ele matou vários gibeonitas.
Sua atitude em relação aos gibeonitas provocou a fome em Israel tempos depois
da sua morte. Sobrou para Davi lidar com o problema criado por ele e endireitar
as coisas.
“O rei então mandou chamar os gibeonitas e falou com eles. (Os
gibeonitas não eram de origem israelita, mas remanescentes dos amorreus. Os
israelitas tinham feito com eles um acordo sob juramento; mas Saul, em seu zelo
por Israel e Judá, havia tentado exterminá-los). Davi perguntou aos gibeonitas:
"Que posso fazer por vocês? Como posso reparar o que foi feito, para que abençoem
a herança do Senhor? " Os gibeonitas responderam: "Não exigimos de
Saul ou de sua família prata ou ouro, nem queremos matar ninguém em
Israel". Davi perguntou: "O que querem que eu faça por vocês? ",
e eles responderam: "Quanto ao homem que quase nos exterminou e que
pretendia destruir-nos, para que não tivéssemos lugar em Israel, que sete
descendentes dele sejam executados perante o Senhor, em Gibeá de Saul, no monte
do Senhor". "Eu os entregarei a vocês", disse o rei. O rei
poupou Mefibosete, filho de Jônatas e neto de Saul, por causa do juramento
feito perante o Senhor entre Davi e Jônatas, filho de Saul. Mas o rei mandou
buscar Armoni e Mefibosete, dois filhos de Rispa, filha de Aiá, que ela teve
com Saul, e os cinco filhos de Merabe, filha de Saul, que ela teve com Adriel, filho
de Barzilai, de Meolá. Ele os entregou aos gibeonitas, que os executaram no
monte, perante o Senhor. Os sete foram mortos ao mesmo tempo, nos primeiros
dias da colheita de cevada” (2 Samuel 21:2-9, NVI).
Depois desse episódio,
diz a Bíblia que “Deus se tornou favorável para com a terra” (v. 14). Para os
ocidentais de mente pós-moderna é muito difícil entender tal relato. Ficamos
nos perguntando como e por que é necessário matar sete descendentes de Saul por
um erro cometido por ele no passado? Deus autorizou a morte desses sete
descendentes inocentes de Saul? Os filhos são castigados pelos erros dos seus
pais? Como entender esse relato bíblico?
Transcrevemos abaixo uma
resposta do Pastor Dr. Ozeas C. Moura:
“Para início de
conversa, deve-se deixar claro que nem tudo o que a Bíblia relata deve ser
visto como certo ou ordenado por Deus. Esse parece ser o caso da intrigante
história da morte por enforcamento de sete pessoas, todas descendentes do rei
Saul, nos dias do reinado de Davi.
“O que motivou a
execução dessas pessoas foi a tentativa de reverter uma seca de três anos
consecutivos que assolava Israel. Essa estiagem havia sido permitida por Deus
porque os israelitas não haviam cumprido o acordo de paz com os gibeonitas nos
dias do rei Saul (2 Sm 21:1). Vale lembrar que, nos tempos da conquista de
Canaã, Josué e seus comandados haviam jurado aos moradores da cidade de Gibeão
que eles não seriam mortos pelo engano praticado, mas que seriam poupados para
viver na condição de servos do povo de Deus (Js 9). Poré, o rei Saul, em seu
zelo nacionalista por Israel, perseguiu e procurou exterminar os gibeonitas,
quebrando assim o acordo (2Sm 21:2).
“Quando ouviu a queixa
dos sobreviventes gibeonitas contra o crime do rei Saul (que já havia morrido),
Davi procurou fazer reparação desse dano, perguntando-lhes como poderia ser
paga essa dívida (2Sm 21:2-4). Os gibeonitas pediram que familiares do rei Saul
fossem enforcados (21:5, 6). Davi então entregou-lhe sete descendentes do
falecido rei: dois filhos de uma concubina de saul e cinco netos, filhos de
Merabe, uma das filhas de Saul (21:8). Essas sete pessoas foram enforcadas
pelos gibeonitas, por causa do erro do seu antepassado, como reparação pelo
dano sofrido (21:9).
“O ponto é que não há
nenhum texto bíblico indicando que davi tenha consultado a Deus sobre como
resolver aquela situação injusta. Visto que Deus não aprova sacrifícios humanos
(Lv 20:1-5; 2Cr 28:3; 33:6) nem a morte de inocente em lugar de culpados (Ez
18:20), se Davi houvesse perguntado a Deus como agir naquela situação, com
certeza Ele haveria indicado outra maneira de se fazer justiça aos gibeonitas.
“Essa história mostra
que Davi contrariou orientações divinas estabelecidas e que nem o pedido dos
gibeonitas nem a atitude de Davi resultaram de uma consulta a Deus. Ou seja,
Ele não foi o responsável pela morte dos sete descendentes de Saul. Em vez de
ter perguntado para os gibeonitas (2Sm 21:3), Davi deveria ter recorrido a Deus
para saber como reparar aquele erro de Saul (Comentário Bíblico Adventista, v.
2, p. 762).
“essa história termina
de maneira ainda mais surpreendente: depois que Davi sepultou os ossos dos sete
enforcados, além dos de Saul e de Jônatas, “Deus De mostrou favorável para com
a terra” (v. 14), mandando chuva novamente (v. 10). Então, teria Ele aprovado o
pedido dos gibeonitas e a atitude de Davi? A resposta é não. Deus abençoou seu
povo com chuva não por causa de um ato contrário às Suas orientações, mas em
razão do interesse de Davi de fazer justiça aos gibeonitas. ‘Talvez Deus avalie
um ato pela sinceridade do coração que o originou, embora condene o ato em si’
(Comentário Bíblico Adventista, v. 2, p. 764).
“A grande lição dessa
estranha história é: em qualquer circunstância, deve-se perguntar a Deus, por
meio do estudo da Bíblia e da oração, o que Ele deseja que façamos. Agir de
modo diferente pode acarretar sofrimento, até mesmo para pessoas inocentes”
FONTE: Revista
Adventista, novembro de 2017, p. 22.
Comentários
Postar um comentário