AS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ E A PRÁTICA DESTRUTIVA DE OSTRACIZAR OS MEMBROS DA FAMILIA QUE ABANDONAM A RELIGIÃO
Ricardo
André
As Testemunhas de Jeová
possuem uma política, que diríamos assaz destrutiva, que é a de ostracizar os
membros da família que deixam sua religião. O “ostracismo” é a proibição de
toda comunicação desnecessárias com ex membros da religião. É dito às
Testemunhas que evitem os “desassociados” (expulsos por algum erro) ou
simplesmente se afastarem. Mesmo aqueles jovens que foram criados como
testemunhas de Jeová, mas que nunca foram batizados e os que simplesmente saem
da religião, mas que não cometeram pecado algum são ostracizados pelos parentes
Testemunhas de Jeová.
É ensinado que os
desassociados certamente morrerão no Armagedon. As Testemunhas que os verem na
rua, não poderão dar sequer um "oi". Espera-se que os filhos, filhas,
mães e pais cortem o contato, enquanto só fazendo exceções em casos de
emergência e negócios familiares. Nesse sentido, filhos são desprezados e
evitados pelos seus pais, irmãos e tios ou outros parentes Testemunhas de
Jeová. Inacreditavelmente, os próprios pais cortam relações com seus filhos
simplesmente por eles não seguirem a mesma religião ou por abandonarem-na,
levando-os ao isolamento, e, em casos extremos, até a pensamentos suicidas.
A verdade é que esta prática tem causado
traumas na vida de muitas famílias desfeitas. Como é o caso da jovem Victoria
Summer, ex- testemunha de Jeová, que foi abandonada pelos seus familiares. “A
falta de amor é tão grande por parte de seus pais, adeptos dessa denominação
religiosa, que nem presenciaram o nascimento e nem mesmo acompanham o
crescimento da neta que tem apenas um ano de idade. Devido ao isolamento por
parte de seus familiares, Victoria Sammers resolveu levar um buquê de flores e
um cartaz com uma mensagem a seus pais na entrada da Congregação que
frequentam. Nesse protesto ela chama a atenção das pessoas para as práticas
preconceituosas e discriminatórias que ex-adeptos sofrem por deixarem de ser
Testemunhas de Jeová. Com certeza, uma maneira de denunciar uma prática que
leva a destruição de lares e famílias e que as Testemunhas de Jeová escondem do
grande público. Não existe saída honrosa dessa denominação religiosa que
insiste com essa política desamorosa e que condena a morte social milhares de
pessoas no mundo todo” (http://extestemunhasdejeova.blogspot.com.br/2014/09/abandonada-pela-familia-por-deixar-de.html).
No JW.ORG (Site Oficial
das TJ), a Organização nega essa prática: “Nós não evitamos Testemunhas de
Jeová batizadas que pararam de participar na pregação ou até de se associar
conosco. Na verdade, nós procuramos contatar essas pessoas e reavivar seu
interesse pelas coisas de Deus” (https://www.jw.org/pt/testemunhas-de-jeova/perguntas-frequentes/ex-membros/).
Apesar de algumas frases depois da declaração acima, a Torre de Vigia admite:
“Aqueles que formalmente dizem que não querem mais ser parte da organização
também são evitados,” eles não estão a ser completamente honestos. O resultado
de você simplesmente “afastar-se” ou “formalmente dizer” que não quer fazer
parte da organização, é o mesmo — ou seja, ostracismo.
Embora as Testemunhas
de Jeová negue, na prática o que vemos são ex-testemunhas de Jeová sendo
rejeitadas pelas próprias famílias. O Site da BBC Brasil no dia 31 de julho
deste ano publicou uma importante matéria que trouxe à baila essa questão,
inclusive com depoimentos de ex-testemunhas de Jeová que sofreram o ostracismo
de seus entes queridos e amigos. (http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40780269).
Como se vê, não é fácil
desligar-se dessa organização religiosa. Os que corajosamente decidem abandonar
a religião sofrem essa pressão da família e dos antigos amigos TJ. Eles sofrem
uma dor emocional intensa causada pelo ostracismo imposto pela organização.
Tal política do
ostracismo é amplamente incentivados pelo Corpo Governante das Testemunhas de
Jeová, através de suas literaturas, notadamente a Sentinela. Considere as
citações seguintes da literatura oficial da Torre de Vigia:
“Os pais dela haviam
sido desassociados. Ela não o foi, mas dissociou-se voluntariamente por
escrever à congregação uma carta retirando-se dela…Ela se mudou, mas anos
depois voltou e verificou que as Testemunhas locais não conversavam com ela…Tal
rejeição é apropriada também para com todo aquele que repudia a congregação…Os
cristãos, por evitarem também aqueles que deliberadamente se dissociaram, são
protegidos contra possíveis conceitos críticos, destituídos de apreço, e mesmo
apóstatas…Pense também em como se sentiam os irmãos, as irmãs ou os avós do
transgressor. Todavia, colocarem a lealdade ao seu justo Deus à frente da
afeição familiar podia salvar-lhes a vida” (A Sentinela, 15 de Abril, 1988,
págs. 26-28).
“Isso talvez resulte
numa provação para os cristãos quando o cônjuge, o filho, o pai, a mãe, ou
outro parente próximo é desassociado ou se dissocia da congregação (…) Esses
princípios aplicam-se tanto para os que foram desassociados como para os que se
dissociaram (…) Assim, evitamos também o convívio social com quem foi expulso.
Isso significa que não vamos com ele a piqueniques, festas, jogos, compras, ao
cinema, nem tomamos refeições com ele, quer em casa quer num restaurante (…) quando
o desassociado ou dissociado é um parente que vive fora do círculo familiar
imediato e fora do lar (…) poderá ser possível ter quase nenhum contato com tal
parente” (Nosso Ministério do Reino, Agosto 2002, p. 3, 4).
“E todos sabemos de
experiência no decorrer dos anos que um simples “Oi” dito a alguém pode ser o
primeiro passo para uma conversa ou mesmo para amizade. Queremos dar este
primeiro passo com alguém desassociado?” (A Sentinela, 15 de Dezembro, 1981, p.
20).
Como se “rejeitar” o
ex-membro não fosse suficiente, a Torre de Vigia também admoestou os seus
seguidores a “odiar” com “ódio piedoso” todas as ex-Testemunhas de Jeová:
“Mais do que isso,
queremos odiar aqueles que voluntariamente se mostram odiadores de Jeová e
odiadores do que é bom…Nós os odiamos, não no sentido de querer prejudicá-los
ou de desejar-lhes o mal, mas, no sentido de evitá-los assim como evitaríamos
veneno ou uma cobra venenosa, porque eles podem envenenar-nos, em sentido
espiritual” (A Sentinela, 15 de Dezembro, 1980, p. 8).
“O ódio piedoso é uma
proteção poderosa contra a transgressão, assim como o amor piedoso torna um
prazer fazer o que é correto (…) Estamos fazendo isso? (…) Os apóstatas estão
incluídos entre os que mostram seu ódio por Jeová por se revoltarem contra ele.
A apostasia é, na realidade, uma rebelião contra Jeová. (…) Outros afirmam crer
na Bíblia, mas rejeitam a organização de Jeová e tentam ativamente obstaculizar
a sua obra. (…) o cristão precisa odiar (no sentido bíblico da palavra) os que
se agarraram inseparavelmente à maldade.” (A Sentinela, 1 de Outubro, 1993, p.
19).
O
ostracismo é uma prática que tem sustentação bíblica?
A pergunta de capital
importância é: Será que a Bíblia apoia a prática das Testemunhas de Jeová de
ostracismo? Não! Absolutamente!
A pergunta que fazemos
é: O que Jesus espera do relacionamento entre seus seguidores? A resposta é
simples: Que vivamos o amor que ele nos ensinou. A política destrutiva das
Testemunhas de Jeová de ostracizar seus ex-membros nega frontalmente esse
princípio estabelecido por Jesus Cristo. Ele disse que os Seus verdadeiros
seguidores seriam reconhecidos pelo “amor” que eles tivessem entre si, e que o
padrão desse amor foi estabelecido por Jesus, no Calvário: "Um novo mandamento lhes
dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos
outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem
uns aos outros" (João 13:34,35, NVI). Porém, esse amor não é
vivido na teoria, mas na prática. João exortou: Filhinhos, não amemos de
palavra nem de boca, mas em ação e em verdade (1 Jo 3:18). O que caracteriza o
verdadeiro discípulo não é o falar, mas o praticar o amor. O respeito com o
semelhante, o atendimento ao pobre necessitado, o perdão mútuo e a ajuda
recíproca são algumas maneiras práticas de demonstrar o amor recíproco.
Ao praticarem o
ostracismo com seus próprios entes queridos que abandonaram a crença, as
Testemunhas de Jeová, caem no erro de acreditar que somente as regras aceitas
pela religião estão corretas, excluindo, julgando e sendo injustas com qualquer
um fora disso. Assim, se esquecem do básico: Amar a Deus acima de todas as coisas
e ao próximo como a si mesmo (Mateus 22:36-40).
De fato, a Bíblia
permita o ato de expulsar um cristão da afiliação da igreja se tiver
comportamento imoral: “Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor
Jesus, estando eu com vocês em espírito, estando presente também o poder de
nosso Senhor Jesus Cristo, entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo
seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor” (1 Coríntios
5:4,5). Todavia, esta disciplina deve ser administrada com humildade e com o
coração cheio de amor e da simpatia de Cristo para o bem do destino eterno do
crente pecador:
“Irmãos, se alguém for
surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais deverão restaurá-lo
com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado”
(Gálatas 6:1, NVI).
“Aceitem o que é fraco
na fé, sem discutir assuntos controvertidos” (Romanos 14:1, NVI).
Na Igreja Cristã
Primitiva a disciplina não era feita do modo escarnecedor, “odioso”, que os
anciãos das Testemunhas de Jeová interrogam espiritualmente os seguidores
“fracos” para forçar a confissão de atos que eles possam considerar ofensas
passíveis de desassociação e obrigar os amigos e parentes Testemunhas de Jeová
a “ostracizá-los”, por cortar completamente toda a comunicação desnecessária
com eles.
Deveria a política do
“ostracismo” ser considerada uma forma “amorosa” de disciplina espiritual? Lemos na Bíblia que a disciplina espiritual é
sempre para ser acompanhada por tentativas amorosas de reconciliação:
"Se o seu irmão
pecar contra você, vá e, a sós com ele, mostre-lhe o erro. Se ele o ouvir, você
ganhou seu irmão. Mas se ele não o ouvir, leve consigo mais um ou dois outros,
de modo que ‘qualquer acusação seja confirmada pelo depoimento de duas ou três
testemunhas’. Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar
a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano” (Mateus 18:15-17,
NVI).
A punição que lhe foi
imposta pela maioria é suficiente. Agora, pelo contrário, vocês devem perdoar-lhe
e consolá-lo, para que ele não seja dominado por excessiva tristeza. Portanto,
eu lhes recomendo que reafirmem o amor que têm por ele” (2 Coríntios 2:6-8,
NVI).
As linhas de
comunicação são para ser mantidas abertas em todas as situações:
“Irmãos, em nome do
nosso Senhor Jesus Cristo nós lhes ordenamos que se afastem de todo irmão que
vive ociosamente e não conforme a tradição que receberam de nós”.
Se
alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, marquem-no e não se
associem com ele, para que se sinta envergonhado; contudo, NÃO O CONSIDEREM
COMO INIMIGO, MAS CHAMEM A ATENÇÃO DELE COMO IRMÃO” (2 Tessalonicenses 3:6,
14,15, NVI). Note que a
exortação de Paulo é de que os que recebem a disciplina não deve ser
considerado inimigo. E o pecador arrependido deve ser recebido de volta
imediatamente sem um longo período de avaliação de desempenho (Lucas
15:18-23).
Embora a “associação”
com um “irmão” expulso seja limitada (2 Tessalonicenses 3:6, 14; 1 Coríntios
5:11), eles são autorizados a falar com ele e a “admoestá-lo” a se converter do
seu caminho pecaminoso. Não há nenhuma indicação em nenhum destes textos de que
apenas os “anciãos” estão autorizados a comunicar com “irmãos” expulsos. Ao
invés de isolar o crente errante, deve-se manter sempre o canal de comunicação,
para falar-lhe em tom que apele para o bom-senso, lembrando as palavras de
Tiago 5:19-20: “Meus irmãos, se algum entre vós se desviar da verdade, e alguém o
converter, sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado
salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados.”
Verdade é, que não
existe nenhuma ordem nas Escrituras para ostracizar aqueles que abandonam a fé
cristã (1 João 2:19). Enquanto que aqueles que causam divisões (Romanos 16:17)
ou promovem falsas doutrinas (Tito 3:10) devem ser vigiados e “rejeitados” se
não se arrependerem depois de terem sido avisados, não existe nenhuma ordem
para parar de se comunicar com ex-crentes. Os membros expulsos devem sempre ser
“amados,” não “odiados” (Lucas 6:27-37).
Que o Deus da verdade
ilumine todos as testemunhas de Jeová sinceras a perceber o grande erro que
comentem ao ostracizar seus entes queridos que resolveram abandonar as crenças
do Jeovismo. As Testemunhas precisam entender que a religião não deve ser usada
para dividir as pessoas com a intolerância, muito menos os membros de uma
família, mas para aproximar as pessoas. A religião precisa ser a mais poderosa
força para a liberdade na sociedade.
Mais amor menos
intolerância!
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