É PECADO PERGUNTAR A DEUS O “PORQUÊ” DO SOFRIMENTO?
Ricardo
André
Ellen Dias é uma cristã
adventista fervorosa e feliz. No ano de 2008, dois acontecimentos trágicos atingiram sua
família. Seu filho de que amava muito faleceu f vítima de um acidente automobilístico. 28
dias depois, seu marido morre também de um infarto fulminante, causando-lhe um
duro golpe e intenso sofrimento. Seu mundo desabou. Pensa nisto quase todos os
dias. É como se fosse um pesadelo. Não obstante, procura levar uma vida cristã
com esperança e certeza nas promessas divinas. Orou constantemente durante algum
tempo, pedindo que Deus lhe mostrasse a resposta ou razão para isso. Muitas
vezes perguntou: Será que Deus tinha um propósito ou motivo para permitir que
isso houvesse acontecido?
Nem sempre estamos
preparados para enfrentar perdas e reverses na vida e, quando acontecem, logo
surge a pergunta: “Por que, Senhor? Por que comigo?” Às vezes, essa é a
pergunta mais dolorosa. Na verdade, nunca estamos preparados para as provações.
Foi o que aconteceu também com Jó. Ele perdeu seus bens materiais. Seus nove
filhos foram-se para sempre quando um furacão derrubou sua casa matando-os (Jó
1:13-19). Como se não bastasse, foi acometido de uma grave doença caracterizada
por temores, úlceras (Jó 2:7 e 8). Ele não estava preparado para tanta
desgraças de uma só vez. E quem estaria? Em alguns momentos, um homem vigoroso
transformara-se num grande sofredor, incapaz de explicar por quê. Entre seus
vários “porquês”, um deles foi: “(...) Por que me tornaste teu alvo? Acaso
tornei-me um fardo para ti?” (Jó 7:20).
“Jó não teve
oportunidade de recuperar o equilíbrio entre um golpe e outro. A intensidade
das tragédias foi acentuada pelo implacável ritmo dos acontecimentos. Dentro de
poucos minutos o mundo dele desabou” (Comentário Bíblico Adventista, vol. 3, p.
558).
Jó não sabia o que
sabemos hoje por meio das Escrituras Sagradas: ele foi posto como espetáculo
diante do Universo para refutar as acusações de Satanás de que ele servia a
Deus por interesse e que Deus era injusto. Essa acusação depreciava o caráter
de Deus e o de Jó. Mesmo perdendo tudo o que tinha, Jó continuou sendo fiel a
Deus. Finalmente, Deus mostrou a Jó que Ele pode transformar provações em
bênçãos.
Quando o Senhor
dialogou com Jó, o patriarca sentiu sua pequenez diante do Criador e ficou
satisfeito. Então, Deus o orientou a interceder pelos amigos em oração.
Enquanto orava, diz a Bíblia, “mudou o Senhor a sorte de Jó” (42:10), curando-o
e devolvendo-lhe em dobro tudo quanto possuía anteriormente.
O livro de Jó trata de
um dos assuntos mais difíceis na experiência humana: como entender e lidar com
o sofrimento. É um livro rico e cativante que todos os servos de Deus precisam
estudar. Um dia, mais cedo ou mais tarde, ele será útil na sua vida. Neste
artigo, vamos considerar algumas lições claras e importantes salientadas nesse
livro.
Pessoas
boas podem sofrer
Talvez o ponto
principal do livro é o simples fato que pessoas fiéis a Deus ainda sofrem nesta
vida. O primeiro versículo do livro já define, do ponto de vista de Deus (veja,
também, Jó 1:8) o caráter de Jó: "Havia um homem na terra de Uz, cujo
nome era Jó; homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do
mal." Enquanto entendemos que o sofrimento entrou no mundo por
causa do pecado (Gênesis 3:16-19), aprendemos em vários trechos bíblicos que a
dor e a tristeza atingem as pessoas boas e dedicadas. Jó, um homem íntegro,
sofreu imensamente. Paulo, um servo dedicado ao Senhor, sofreu muito mais do
que a grande maioria dos ímpios (2 Coríntios 11:23-27). Mesmo quando ele pediu
a Deus, querendo alívio de algum problema, Deus recusou seu pedido (2 Coríntios
12:7-9). Mas, não devemos estranhar com isso, pois o próprio Filho de Deus
sofreu na carne (Hebreus 2:9-10,18). Os que servem a ele sofrem, também.
O
diabo quer nos derrubar com nosso sofrimento
O propósito de Satanás
fica bem claro nos primeiros dois capítulos de Jó. Ele vê o sofrimento como uma
grande oportunidade para derrubar a fé dos servos de Deus. Ele aceitou o
desafio de tentar destruir a fé de um dos homens mais idôneos do mundo. Depois,
ele foi tão ousado que desafiou o próprio Jesus, usando todas as tentações
imagináveis para o vencer (Mateus 4:1-11). O diabo entende muito sobre a
natureza humana. Ele sabe que pessoas que servem a Deus fielmente quando tudo
vai bem na vida podem ser tentadas por meio de alguma calamidade pessoal.
Problemas financeiros, a morte de um ente querido, alguma doença grave - tais
sofrimentos na vida são, frequentemente, o motivo de abandonar a Cristo.
Enquanto a mulher de Jó não prevaleceu na vida do próprio marido, o conselho
dela (Jó 2:9) vem derrubando a fé de muitas outras pessoas que enfrentam
dificuldades na vida.
Amigos
nem sempre ajudam
Três amigos de Jó
ficaram sabendo de seu sofrimento, "e combinaram ir juntamente condoer-se
dele e consolá-lo" (Jó 2:11). Mas as palavras deles não ajudaram.
Ofereceram explicações baseadas nas opiniões deles, e não na verdade que vem de
Deus. Onde Deus não tinha falado, eles ousaram de falar. O resultado não foi
consolo e ajuda, e sim perturbação e desânimo. A mesma coisa acontece hoje.
Quando alguém sofre de um problema de saúde, outras pessoas tendem falar sobre
algum caso triste de alguém que teve a mesma doença e morreu, ou de que é a
vontade de Deus. Quando uma pessoa amada morre, muitas pessoas procuram
confortar a família com palavras insensatas e até mentirosas. É melhor falar
umas poucas palavras com compaixão do que falar muito e entristecer a pessoa
mais ainda. Os que se acham envoltos em pesar necessitam de alguém que lhes
segure a mão e ouça suas exclamações de dor. Quando sofremos perda, é melhor
procurar conselho na palavra de Deus e da boca de pessoas que a conhecem e que
vivem segundo a vontade do Senhor.
Deus
não explica tudo
Quando sofremos, é
natural perguntar: "Por quê?". Jó fez isso (Jó 3:24). Habacuque fez a
mesma coisa (Habacuque 1:3). Milhões de outras pessoas têm feito a mesma
pergunta. Deus não explicou a Jó o “porquê” das coisas que lhe aconteceram.
Provavelmente, Jó nunca ficou sabendo que fora o centro das atenções do
Universo, ao ser disputado por Deus e por Satanás na luta entre o bem e o mal.
Pelo menos, a Bíblia Sagrada não diz nada a respeito. Porém, isso não é o mais
importante. O mais importante é que, em meio a todas as tribulações, Jó não
abandonou a fé e não se rebelou contra Deus. Assim como Jó não sabia a fonte de
seu sofrimento (capítulos 1 e 2 contam a história para nós, mas ele não sabia
de tudo que estava acontecendo entre Deus e Satanás), às vezes, nós não temos
noção da fonte das nossas dificuldades. É interessante e importante observar
que Deus não responde a todas as nossas perguntas. Pode ler o livro de Jó do
começo ao fim, e não encontrará uma resposta completa de Deus à pergunta do
sofredor. Durante a boa parte da história, Deus deixou Jó e seus amigos a
ponderar o problema. Quando o Senhor falou no fim do livro, ele não explicou o
porquê.
A partir do capítulo
38, Deus afirma que o homem, como mera criatura, não é capaz de entender muitas
das coisas de Deus, e não é digno de questionar a sabedoria divina. Jó entendeu
a correção de Deus, e respondeu humildemente: "Sou indigno; que te
responderia eu? Ponho a mão na minha boca. Uma vez falei e não replicarei,
aliás, duas vezes, porém não prosseguirei" (Jó 40:4-5). Jó pediu
desculpas a Deus por ter duvidado da justiça e da bondade do Criador: "Na
verdade, falei do que não entendia; coisas maravilhosas demais para mim, coisas
que eu não conhecia. (...) Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na
cinza" (Jó 42:3,6).
Embora o sofrimento de
Pessoas inocentes não seja explicado cabalmente, “a história de Jó mostrara que o
sofrimento é infligido por Satanás, mas Deus predomina sobre ele para fins
misericordiosos” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 471).
Depois
do sofrimento, vêm as bênçãos
O sofrimento desta vida
é temporário. O sofrimento de Jó foi intenso, mas não durou para sempre. É bem
provável que ele lembrou, durante o resto da vida, daquelas experiências
doloridas. Mas a crise passou, e a vida continuou. Deus restaurou as posses dele
em porções dobradas. A mesma coisa acontece conosco. Enfrentamos alguns dias
muito difíceis, mas as tempestades passam e a vida continua. Vivendo na época
da nova aliança de Cristo, nós temos uma grande vantagem. Temos uma esperança
bem definida de uma recompensa eterna no céu (Hebreus 11:13-16,39-40; 12:1-3;
13:14). Qualquer sofrimento é pequeno quando o colocamos no contexto da
eternidade.
Fiéis
no sofrimento
Nós vamos sofrer nesta
vida. Pessoas que dizem que os filhos de Deus não sofrem são falsos mestres que
ou não conhecem ou não aceitam a palavra do Senhor. Jó perdeu tudo. Jeremias
foi preso. João Batista foi decapitado. Jesus foi crucificado. Estêvão foi
apedrejado. Paulo sofreu naufrágio e prisões. Você, também, vai sofrer. Os
problemas da vida não sugerem falta de fé, e não são provas de algum terrível
pecado na sua vida. Às vezes, as provações vêm como disciplina de Deus (Hebreus
12:6-13); às vezes, não. Mas sempre são oportunidades para crescer (Tiago
1:2-4), e convites para adorar a Deus (Tiago 5:13; Jó 1:20).
É errado perguntar por
que Deus permite o sofrimento? Alguns temem que fazer essa pergunta signifique
falta de fé ou de respeito para com Deus. Ao ler a Bíblia, porém, você verá que
pessoas fiéis e tementes a Deus também faziam perguntas assim. Por exemplo, o
profeta Habacuque perguntou a Deus: “Por que me fazes ver a injustiça, e
contemplar a maldade? A destruição e a violência estão diante de mim; há luta e
conflito por todo lado” (Habacuque 1:3). Jesus também perguntou ao Pai:
“Por
que Me desamparaste” Portanto, não é pecado perguntar sobre o “porquê”
das coisas. Para nós, o mais importante não é o “porquê”, mas o “para que”.
Qual é o propósito que Deus tem em vista ao permitir que certas coisas nos
aconteçam? Que lição devo aprender através de minha experiência?
Caro amigo leitor, não
podemos esquecer de que Deus é capaz de transformar a maldição em bênção, o
aparente fracasso em vitória.
Comentários
Postar um comentário