A PARÁBOLA DO RICO E LÁZARO PROVA A EXISTÊNCIA DO INFERNO, PURGATÓRIO OU IMORTALIDADE DA ALMA?
Ricardo
André
Das parábolas
apresentadas por Cristo, a conhecida como do rico e Lázaro, relatada no
evangelho de Lucas 16:19-31 parece ser a que mais dificuldade apresenta de ser
entendida. Em virtude de certas expressões nela usadas, consideram alguns que
Jesus teria ensinado um estado de consciência após a morte, ou seja, que, ao
morrerem, uns vão para o Céu, outros para o Purgatório, outros para o inferno,
tendo assim defendido a teoria imortalista da alma. No entanto, essa estória
não serve para provar a imortalidade da alma ou a existência do inferno e
purgatório porque os elementos não se harmonizam uma vez que se trata de uma
parábola.
Pode-se perguntar
então: Qual foi a lição que Cristo pretendia com esta aparentemente tão
complicada ilustração?
Cristo
se utilizou de uma crença popular para ilustrar verdades Bíblicas
Primeiramente devemos considerar que o texto
em lide é uma parábola, onde os fatos e ideias populares da época foram usados
para ilustrar verdades bíblicas. Cristo ensinava por parábolas para facilitar a
compreensão (Mc. 4:33).
Devido à má intenção de
alguns ouvintes (fariseus e escribas), Cristo usou esse método para alcançar os
sinceros, impossibilitando àqueles de O perseguirem prejudicando a mensagem
(Mc. 4:11 e 12).
As parábolas, como um
método de ensino, já eram usadas no Antigo Testamento (IISm. 12:1-13) e não
eram interpretadas literalmente, pois as árvores não falam (Jz. 9:8-20).
Destarte, aceitar uma literalidade na parábola estudada seria crer que da
Cidade Santa nós veremos os ímpios queimando eternamente,[1] e poderíamos até
conversar com eles (Lc. 16:23 e 24).
Não
se pode fundamentar crenças em Parábolas ou em Expressões Alegóricas
Outro ponto é que
doutrinas não devem ser baseadas em parábolas, pois se trata de recurso
didático para chamar a atenção para um ponto específico.
Neste caso advertir os
fariseus avarentos (Luc 16:14) e ensinar que os ricos não são preferidos pelos
céus. Se as parábolas pudessem se tomadas no seu sentido literal, então, seria
válido afirmar que metade dos crentes se salvarão e a outra metade não, segundo
a parábola das Dez Virgens (Mt. 13:33).
E ainda: se usarmos parábolas
e seus detalhes para provar doutrinas teríamos que dizer que Deus não tem boa
vontade para atender nossas preces como no caso da viúva importuna (ou do juiz
iníquo) que faz parte da mesma seção de parábolas (Lc 18:1-8) ou que Jesus
ensinou a ser desonesto como na parábola do administrador infiel (Luc l6:1-9).
Todas têm uma lição: a do juiz é perseverar em oração e a do administrador
infiel é usar nossos bens fielmente para a obra de Deus ou seja, ser fiel no
pouco e depois receber a vida eterna.
Na realidade, Jesus se
aproveitou de elementos conhecidos de Seu tempo, e nós temos que ter isso em
mente. Ele falava para uma classe nobre, os fariseus (Lc. 16:19), que dominava
a plebe (v. 20 e 21). Do mesmo modo que para nós alguns mitos são comuns
(mula-sem-cabeça, saci pererê), algumas crenças dos ouvintes serviram de ilustração.
Uma delas é o “hades” (inferno, v. 23), que acreditavam ser um lugar divido em
dois compartimentos, um para os justos e outro de tormento para os ímpios.
Neste lugar, mesmo separados, eles conversavam entre si. [2]
Outra crença está
baseada no termo hebraico transliterado para o grego “geena”. Esta palavra veio
do vocábulo “Vale de Hinon”, um lugar onde era oferecido sacrifícios humanos a
deuses estranhos (IICr. 28:3). Depois disso, o vale se tornou um depósito de
lixo, a sudeste de Jerusalém.
Ali o fogo ardia
constantemente, não só com detritos, mas também com cadáveres de indigentes e
criminosos.[3] Neste ínterim, quando Cristo descreve o tormento do rico, os
ouvintes logo captaram a mensagem que Ele queria transmitir (Lc. 16:23).
A palavra espírito não
é usada no relato e seria de se esperar seu uso se se tratasse de ida para o
purgatório ou o inferno.
A palavra purgatório
não aparece no relato e note que uma vez nas chamas o rico não tem uma
"segunda chance" como ensina a doutrina do purgatório.
A parábola não apenas
deixa de usar referências que possam indicar corpos imateriais como também
descreve o pobre e o rico como corpos físico. Segundo entendemos, com base na
teoria imortalista platônica,, alma não tem forma. É algo incorpóreo, sem forma
física.
Órgãos como olhos,
dedos e língua, portanto, não fazem parte de sua composição, pois são partes do
corpo. Ora, na parábola em questão, o rico “levantou os olhos e viu ao longe a
Abraão e Lázaro no seu seio” (Luc. 16:23). E pediu que o patriarca mandasse a
Lázaro molhar o dedo em água e lhe refrescar a língua (verso 24). Dessa forma,
a teoria imortalista não tem respaldo nesta parábola.
O rico quando morre não
está realmente no inferno mas na sepultura como diz o texto (grego hades = lugar
do morto, sepultura) não diz também purgatório. Tanto prova é que para voltar
ao mundo, segundo a própria parábola, seria necessário não uma "viagem"
ou aparição mas somente pela ressurreição, isto é, levantar dos mortos e corpo
físico outra vez (v.31).
Surgem outras questões:
pode a separação entre os salvos e perdidos ser tão próxima que podem conversar
uns com os outros? Essa ideia não combina com a doutrina geral da Bíblia.
A Bíblia ensina que
após a morte a recompensa dos salvos só será dada após a ressurreição e sem ela
todos os que morreram em Cristo e que não foram ressuscitados estariam
perdidos. (ICor.15:16-18). Isso somente ocorrerá quando Jesus voltar (I Tess.
4:13-17).
Portanto, deve-se usar
essa estória como ela realmente é: uma parábola que têm uma mensagem principal
e que não deve ser tomada em todos os seus detalhes. Querer tirar daí a
existência do purgatório é querer forçar o texto a dizer o que não diz e exigir
de parábola significado nos detalhes o que não é seu (da parábola) objetivo
fornecer.
As
Lições da Parábola
Com estas
considerações, estamos aptos a compreender as lições contidas na parábola.
Sabemos que os ímpios serão queimados (v. 24), e é relevante notar que cada um
deles sofrerá à proporção de seus pecados (Mt. 16:28; Ap. 20:12): “alguns
são destruídos em um momento, enquanto outros sofrem muitos dias” [4].
A segunda lição é que a
sorte final dos justos será diferente, eles serão recompensados (v.25).
Aprendemos também que depois da morte não é possível mudar essa condição (v.
26).
Outra lição é mostrar a
Bíblia como a única guia neste mundo, não sendo ela suplantada nem por uma
possível comunicação com os mortos, ou até mesmo uma ressurreição especial (vs.
27 a 31).
Cristo queria ensinar
que nós temos uma oportunidade de escolha, e ela deve ser feita em vida,
seguindo o testemunho das Escrituras. O objetivo não era relatar o que acontece
após a morte, mas enfatizar a seriedade da vida; este era o desafio proposto
aos ouvintes.
Um dia a porta da graça
da vida de cada um nós se fechará. Escreveu Ellen G. White: “é
agora evidente a todos que o salário do pecado não é a nobre independência e
vida eterna, mas a escuridão, ruína e morte. Os ímpios veem o que perderam em
virtude de sua vida de rebeldia” [5].
Caro amigo leitor, qual é a sua decisão? Aceitarás a Jesus como teu Salvador e Senhor, e gozar a eternidade com Deus; ou ser indiferente as provisões de Deus para a sua salvação, e ser destruído para sempre? A
escolha é sua.
Referências:
[1] Samuele Bacchiocchi,
Imortalidade ou Ressurreição? A
Biblical
Study on Human Nature and Destiny (Berrien Springs,
MI: Biblical Perspectives, 1997), 173 e 174.
[2] A. B. Christianini,
Subtlezas do Erro, 1a. ed. (Santo André, SP: Casa Publicadora Brasileira,
1981), 257.
[3] Pedro Apolinário,
Explicação de Textos Difíceis da Bíblia,
4a. ed. (São Paulo, SP:
Seminário Latino Americano de Teologia, 1990), 138 a 140.
[4] Ellen G. White, O
Grande Conflito, 36a. ed. (Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira,
1988), 673.
[5] White, 668.
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