QUANDO DEUS NÃO FAZ SENTIDO
Amin
A. Rodor
E, passando os
mercadores midianitas, os irmãos de José o alçaram, e o tiraram da cisterna, e
o venderam por vinte siclos de prata aos ismaelitas; estes levaram José ao
Egito. Gênesis 37:28
Alguma vez você já se
sentiu injustiçado, enganado, em amargura e revolta, e para sua surpresa os
reveses sofreram uma mudança? Já passou pela experiência em que tudo parecia
perdido, mas novas circunstâncias mostraram outra leitura, e os desacertos foram
revertidos em seu benefício? Você teve algum plano que deu errado e, em meio às
vidraças partidas, foi possível compreender que precisamente o que era visto
como perda tornou-se ganho? Para aqueles que estão nas mãos de Deus, buscando
sinceramente viver conforme Sua soberana vontade, não há coincidências. Os
“golpes do acaso” tornam-se pela ação divina coobreiros de Deus para executar
Seus desígnios. Os cristãos têm uma palavra para isso: providência.
O histórico Catecismo
de Heidelberg descreve a providência divina de maneira bastante determinista:
“Pelo Seu permanente e infalível poder, Deus sustenta Céus, Terra e todas as
criaturas, e assim os governa de tal forma que, cara ou coroa, chuva ou seca,
anos de fartura ou períodos de fome, saúde ou doença, prosperidade ou pobreza,
todas as coisas de fato nos vêm não por acaso, mas das mãos paternas.”
A história de José é
uma das mais claras demonstrações da providência divina em ação. Lançado num
poço pelo ódio obstinado de seus irmãos, ele é providencialmente salvo pela
intervenção de Rúben, seu irmão mais velho. Aos 17 anos, é vendido a beduínos
que surgem no momento exato. No Egito, ele é providencialmente vendido a um
alto oficial de Faraó. Por sua integridade, contudo, é lançado na prisão. O
presente e futuro não poderiam parecer mais escuros. Nenhuma perspectiva. A
história parecia terminar ali. Indefeso em terra estranha!
Entretanto, quando o
drama é visto em seu alcance mais longo, as linhas que parecem pontas soltas,
sem qualquer relacionamento ou propósito, começam a tomar forma. Os eventos
absurdos começam a seguir direção inesperada. Interpretando o sonho de Faraó,
José torna-se o segundo homem do Egito. Como fica claro mais tarde, é
precisamente sua intervenção que salva da morte por fome o povo que Deus
escolhera como depositário de Seus planos. Não por sorte ou acaso, as peças do
quebra-cabeça se encaixaram afinal. O bordado apenas estava sendo visto pelo
avesso.
VINTE
ANOS DEPOIS…
O arremate da história
de José é de extraordinária beleza. Seus irmãos nem de longe poderiam fazer a
conexão entre o irmão que eles haviam vendido e esse poderoso príncipe de
autoridade ilimitada no Egito. Deus, não as escolhas humanas, havia levado José
até onde ele estava. Aparentemente Deus estivera indiferente quando os irmãos o
jogaram num poço, quando estrangeiros o venderam como escravo, quando as
mentiras da Sra. Potifar acrescentaram novos sofrimentos às suas desgraças e o
colocaram na prisão.
Mas cada fato nessa
lista de eventos tinha leitura diferente das aparências. Precisamente os
acontecimentos que pareciam golpes cegos do acaso levavam sua vida para mais
perto da realização do propósito divino. Três vezes, na narrativa, José indica
sua percepção da providência divina: “Não foram vocês, mas Deus.” Afinal, não
foi a inveja de seus irmãos o fator decisivo. Eles foram atores menores. O
principal ator do drama é o Altíssimo. Cada detalhe da história é utilizado nas
malhas de um propósito superior, invisível e incompreensível aos olhos humanos.
Nisso não há nada de
determinismo nem “carma” inescapável. A providência divina é vocabulário
exclusivo das Escrituras cristãs. Note, Deus não tem qualquer sociedade com o
mal. Quando as pessoas pecam, as falhas são exclusivamente suas. A parcialidade
de Jacó foi seu pecado. Deus não forçou os irmãos de José a invejá-lo. Deus não
é culpado pela licenciosidade da Sra. Potifar. Ele não foi responsável pela
ingratidão do copeiro. Mas, sem que fosse culpado ou causador de tais males, de
uma maneira misteriosa, nos conselhos de Sua providência, o Todo-poderoso não é
tomado de surpresa. Seus planos não são frustrados pelo pecado ou a fraqueza
humana. Em todos os pecados contra José, Deus pacientemente trabalha em favor
dele, para a glória final de Seus propósitos.
É a compreensão da
providência divina que capacita José a elevar-se acima de qualquer sentimento
de vingança, revanche ou revolta. Se ele tivesse se tornado amargo, desafiador
ou cínico, teria perdido a percepção das novas possibilidades. Tal compreensão
também o torna humilde e grato, atribuindo a Deus todo o êxito de sua vida.
José “lembrou-se dos sonhos” (Gn 42:9, ARC). Deus também nos deu um sonho
glorioso: reinar com Cristo, afinal. E nada, a não ser nós mesmos, poderá
frustrar esse sonho.
FONTE: Encontros com
Deus [MD 2014], pp. 329 e 330.
Comentários
Postar um comentário