A TEORIA DA EVOLUÇÃO É CIENTÍFICA?
Leonard
Brand
A teoria da evolução é
científica? A busca por uma resposta envolve cosmovisões, dados e a sua
interpretação, bem como outras questões. A resposta simples é “sim, é científica”,
mas antes de tentarmos compreender o que isso significa, é preciso perguntar o
que torna qualquer teoria científica.
Ciência
e religião
A ciência é um processo
de busca por respostas.1 Uma ideia pode ser considerada científica se puder ser
estudada com a utilização do método científico. Se temos uma ideia e queremos
saber se ela é correta, várias abordagens podem nos ajudar a encontrar uma
resposta.
Primeiramente, podemos
usar nossa capacidade de raciocínio para decidir se acreditamos que a ideia
seja verdadeira. Nós também podemos pedir a Deus para nos dizer se é
verdadeira. Esta abordagem, pedir a Deus ou procurar uma resposta na Bíblia, é
uma abordagem religiosa. Finalmente, podemos pensar sobre as observações ou
experiências que podem ajudar a determinar se a ideia é correta. Essa abordagem
é característica da ciência. Vamos comparar as três abordagens.
Se nós apenas pensamos
sobre algo, como sabemos que a nossa conclusão é correta? Precisamos comparar
nossos pensamentos a algum tipo de padrão.
Se não temos esse
padrão, nosso pensamento é apenas um palpite. Se quisermos saber quantos dentes
tem um cavalo, será mais útil pensar em quantos dentes um cavalo deve ter ou
abrir a boca de um cavalo e contá-los? Poderíamos perguntar para Deus ou
pesquisar na Bíblia a resposta à pergunta sobre o número de dentes do cavalo. O
problema é que a Bíblia não nos foi dada para responder a perguntas como essas.
Podemos facilmente responder a tais questões por nós mesmos, visto que elas não
têm nenhum significado espiritual. A Bíblia nos foi dada para responder a
outros tipos de questões. Vamos considerá-las brevemente. Quanto à questão de
quantos dentes tem um cavalo, não é mais útil abrir a boca de um cavalo e
contá-los? Se fizermos isso, estamos usando a ciência para responder à
pergunta.
O método científico
pode ser descrito mediante a seguinte sequência de eventos. Um cientista tem
uma ideia, chamada de hipótese, e depois pensa nas observações e experiências
que irão testar a hipótese. As observações são feitas, as experiências são
realizadas e os resultados podem indicar que a hipótese é falsa ou que pode ser
aceita como verdadeira. Outro resultado possível é que a resposta ainda não
esteja clara, e diferentes observações e experiências terão que ser projetadas
para melhor testar a hipótese. De uma coisa podemos ter certeza: a ciência não
irá nos fornecer uma evidência absoluta ou uma refutação total. Podemos pensar
que temos provas, mas é sempre possível que novas evidências venham mudar o
resultado. A ciência apresenta provas definitivas apenas em comerciais de TV!
Às vezes, digo a meus
alunos de ciências que metade do que estou ensinando é falso. No entanto, vamos
ter que esperar por novas descobertas científicas que nos mostrem a metade que
está errada! Há alguns anos, as evidências científicas indicaram que havia dez
espécies de esquilos na Califórnia, mas novas evidências mostraram a existência
de treze espécies. Em genética molecular, o seguinte conceito foi referido como
um dogma central: cada gene em nossos cromossomos direciona a produção de uma única
proteína. No entanto, as novas descobertas demonstram que o processo é significativamente
mais complexo. A lista de tais mudanças no conhecimento científico é
interminável. A ciência faz muitas descobertas significativas, mas em seu constante
progresso continua nos mostrando que muitas coisas que antes eram óbvias são
realmente incorretas. Nós simplesmente não tínhamos provas suficientes no
momento para perceber que nossa interpretação não era correta.
Existem algumas
questões às quais, devido à sua própria natureza, o estudo científico não pode
nos oferecer uma resposta. Elas não podem ser testadas, não importa quanta
pesquisa seja feita. Por exemplo, quando Jesus viveu na Terra, Ele realmente
realizou milagres? Tente criar um experimento para testar essa ideia, e você
vai descobrir que isso sim plesmente não pode ser feito. Jesus veio a esta Terra
há muito tempo, e nós não estávamos lá. Alguns de nós temos certeza absoluta de
que Ele realmente realizou milagres, mas essa crença não pode ser provada pela
ciência. Há mais vida e mais conhecimento do que apenas ciência. A ciência é
uma excelente maneira de descobrir muitas coisas, mas é importante reconhecer
os limites de quais questões a ciência pode responder para nós.
Evolução
Diante dessa visão da
ciência, vamos voltar à nossa pergunta sobre a teoria da evolução. Para
oferecer uma resposta que não seja superficial, é preciso considerar o significado
da palavra evolução. Uma definição básica de evolução biológica é a mudança
através do tempo. Animais e plantas mudam à medida que seu sistema genético
permite sua adaptação a diferentes condições ambientais. Há complexidades no
processo que não precisamos tratar aqui,2 mas a parte essencial da definição é
a mudança que ocorre em populações de organismos à medida que o tempo passa.
Um exemplo simples é o
bico dos tentilhões das ilhas Galápagos. O clima mudou ao longo de um período
de vários anos, resultando em mudanças na oferta de alimento aos tentilhões. Os
indivíduos com tamanhos de bico que não permitiam que a comida se encaixasse
bem tinham menos chances de sobrevivência, e o tamanho médio dos bicos de tentilhões
mudou para acomodar o alimento disponível. Então, como o clima voltou à sua
condição anterior, o alimento disponível também mudou e o tamanho médio dos
bicos dos tentilhões voltou ao que era antes da mudança do clima.3 Este é um
exemplo de microevolução, alteração dentro de uma espécie, que geralmente
ocorre através de mutações e seleção natural.
Outro exemplo acontece
o tempo todo em lugares como hospitais. Por décadas, estamos utilizando
antibióticos para matar as bactérias, mas algumas bactérias individuais
permanecem após o antibiótico matar todas as outras bactérias. O resultado é a
existência de grupos de bactérias imunes a nossos tratamentos, e, assim, muito
difíceis de controlar. Isso também é microevolução. A microevolução na realidade
não faz novos tipos de animais, ela só permite que as espécies de animais ou
plantas se adaptem às novas condições ambientais.
A teoria da evolução
inclui outro conceito – a evolução de todas as formas de vida através de longos
períodos de tempo, a partir de um ancestral comum. Esta parte da evolução diz
que os sapos, os pardais, os vermes, os repolhos, as palmeiras, as lagostas e
os cientistas são o resultado da evolução. Eles evoluíram ao longo do tempo a
partir de um ancestral comum unicelular. Nós simplesmente nos referiremos a
isso como descendência de um ancestral comum.
Essas ideias sobre a
evolução podem ser estudadas pelos métodos da ciência?4 Sim, definitivamente
elas podem. Muitos cientistas realizam pesquisas sobre a microevolução,
observando como criaturas mudam à medida que muda o ambiente. Eles usam
observações e experiências para testar hipóteses sobre essas mudanças. Eles
estão estudando os processos que podem ser observados e documentados. E sobre
as mudanças maiores ao longo do tempo, como a descendência a partir de
ancestrais comuns? Pode isso ser estudado com os métodos científicos? Sim, os
cientistas usam vários tipos de evidências para desenvolver e testar hipóteses
sobre a evolução de ancestrais comuns.
Ambos os tipos de
evolução são científicos no sentido de que eles podem ser estudados com os
métodos da ciência. No entanto, existe uma diferença entre eles. Pelo menos
parte do processo de microevolução pode ser observada, mas a origem de
diferentes tipos de animais a partir de ancestrais comuns em um passado
distante não pode ser observada. A pesquisa sobre a origem comum faz uso de
evidências científicas, mas a interpretação da evidência é muito mais dependente
de pressupostos. A suposição mais importante, que geralmente é aceita pelos
cientistas, afirma que nunca houve nenhum milagre nem quaisquer atos sobrenaturais
em toda a história. Em outras palavras, tudo na natureza pode ser explicado
pelas leis naturais que foram descobertas. Esse é o pressuposto do naturalismo,
a visão de mundo que não aceita a possibilidade de criação ou projeto
inteligente. Sempre que essa suposição for feita, os cientistas interpretarão
as evidências de acordo com a teoria da origem comum através da evolução. A evidência
pode ser interpretada de várias maneiras, mas na cosmovisão naturalista, as
únicas interpretações aceitas serão aquelas baseadas na descendência de todos
os organismos de um ancestral comum através da evolução.
Muitos de nós queremos
saber não apenas se a teoria da evolução é científica, mas também se ela é ou
não verdadeira. Às vezes, o termo científico é usado de uma maneira que implica
que se algo não é científico, não é verdadeiro. Uma vez que os milagres de
Jesus não podem ser testados pela ciência, eles não seriam verdadeiros? Isso
não é uma conclusão razoável. A ciência não pode mostrar que os milagres de
Jesus aconteceram, nem pode comprovar que não ocorreram. A ciência simplesmente
não tem nada a dizer sobre isso.
O que esse fato nos diz
sobre a evolução? Pode o pressuposto do naturalismo ser testado pelos métodos
da ciência? Se pudesse, deixaria de ser uma suposição. A suposição de que não
houve atos sobrenaturais envolvidos na origem das formas de vida (isto é, sem
criação) é uma crença sobre o passado. Essa crença não pode ser testada por
observações ou experimentos. Por essa razão, o pressuposto é uma escolha arbitrária
filosófica, e não uma escolha que se apoia na ciência. Há considerável evidência
que reivindica apoiar a evolução ao longo de milhões de anos, mas diferentes
cosmovisões podem levar a diferentes interpretações de evidência. A diferença
está nas interpretações e nas hipóteses das quais essas interpretações dependem.
A ciência pode fornecer evidências que nos fazem pensar sobre o assunto, mas
não pode nos mostrar como entender a evidência.
Nós experimentamos
alguma dificuldade em explicar certas evidências em biologia e geologia de
acordo com uma visão bíblica da criação. No entanto, também há muitos tipos de
provas que são difíceis de conciliar com a teoria de milhões de anos de
evolução. Uma vez que não estávamos lá e não temos todas as evidências, e a ciência
não tem respostas definitivas para as origens, é aconselhável procurar as respostas
de Deus para essas perguntas.5
Para ilustrar essa
diferença de cosmovisões e as interpretações resultantes, considere o seguinte
exemplo: os vermes e os cientistas têm os mesmos processos bioquímicos que
ocorrem nas células de seus corpos. Os cientistas naturalistas acham que isso
indica que eles evoluíram a partir de um mesmo ancestral comum, mas também pode
significar que o mesmo Criador projetou ambos, usando o mesmo mecanismo
bioquímico para manter a vida em suas células. A diferença entre essas duas
interpretações, evolução ou criação, não pode ser testada pelos métodos da
ciência, porque elas são baseadas em suposições sobre o que aconteceu no passado.
No estudo de
microevolução, nós frequentemente podemos “abrir a boca do cavalo e contar os
dentes”. Mas quando perguntamos se nós evoluímos a partir de bactérias e
vermes, estamos fazendo uma pergunta sobre história antiga, quando nenhum
cientista estava lá para “abrir a boca do cavalo”. Então, podemos perguntar a
Deus a resposta. Nesse caso, trata-se de uma questão espiritual significativa,
abordada pela Bíblia. A única outra opção para responder à questão é de
natureza filosófica: podemos pensar sobre a evidência limitada que temos e concluir,
por nós mesmos, que o pressuposto do naturalismo está correto. Será esta uma
abordagem satisfatória? Será que Deus obedece a essa suposição, ou será que Ele
está espantado com a nossa ingenuidade?
Meu sobrenome é Brand.
Meu pai pediu a um especialista em estudo genealógico para investigar nossa ancestralidade.
Ele traçou nossa história ligando-a a algumas famílias de destaque na Inglaterra.
O problema foi que o perito partiu de um falso pressuposto – a suposição de que
o sobrenome tenha sido usado de forma consistente através do tempo. O que ele
não sabia era que o avô Brandt, um camponês alemão, nomeou sua primeira
meia-dúzia da prole como “Brandt”, mas nas certidões de nascimento da última
meia-dúzia foi registrado o sobrenome “Brand”. Chegar a uma correta
interpretação genealógica das origens, nesse caso, depende de saber que a história
do nome foi mudada por uma escolha inteligente. (Presumo que foi inteligente,
mas ninguém sabe por que ele fez isso. E,
de fato, havia uma dúzia de filhos!) O nosso nome não fora sujeito às típicas
leis que regem a descendência de nomes de família. Assim, é na ciência. Se a
escolha inteligente ou a criação esteve envolvida na origem dos grupos de animais
e plantas, a ciência não irá reconhecê-la se os cientistas que investigam essa
ideia dependerem de uma suposição falsa sobre as origens.
Conclusão
É científica a teoria
da evolução? Sim, é científica no sentido de que ela pode ser estudada pelos
métodos da ciência. Isso significa que é verdadeira? Será que seu status como
uma teoria científica a torna um fato demonstrado? Muitos livros escritos por
cientistas corajosamente afirmam que a evolução é um fato, assim como a
gravidade. No entanto, essas alegações não são realistas para alguém que possui
uma compreensão adequada do método científico. Áreas específicas da evolução,
especialmente a microevolução, estão bem documentadas e parecem essencialmente
verdadeiras, embora ainda possa haver muito a aprender antes de entender
corretamente até mesmo a microevolução. Essa incerteza não é exclusiva ao
estudo da evolução. Em toda a ciência, a descoberta de novos fenômenos continua
aperfeiçoando ou corrigindo ideias científicas.
Outras áreas da
evolução, como as afirmações sobre a história antiga e a origem de formas de
vida, estão em uma categoria diferente. A ciência pode estudar essas
reivindicações e formular hipóteses, mas essas hipóteses nunca podem ser
rigorosamente testadas pela ciência. Nós
não estávamos lá, e nossas interpretações do passado antigo são tão boas como
as nossas hipóteses. As afirmações não são científicas, se por “científicas”, queremos
dizer que elas demonstram serem verdadeiras. Esse não é realmente o significado
do termo “científico”.
Eu sugiro que o nível
de confiança que qualquer pessoa tem na verdade da história evolutiva (isto é,
a descendência comum compartilhada por todos os organismos) reflete diretamente
o grau de confiança que ela tem de que a ciência é o caminho certo para
encontrar a verdade em qualquer assunto, e/ou a confiança que tem no
pressuposto do naturalismo. Nossa confiança no fato de que Deus revelou-Se a
nós por meio de Sua Palavra, a Bíblia, e apresentou a verdadeira história da
vida na Terra é a base de nossa cosmovisão cristã. Assim, para muitos de nós, a
Palavra de Deus é um guia confiável para a compreensão da história antiga. Deus
estava lá quando a vida foi criada, e nós não estávamos. No caso das origens,
Ele “contou os dentes do cavalo” e deu-nos a resposta. A Bíblia aborda o tema
das origens, porque é importante para nós sabermos de onde viemos, porque
estamos aqui e para onde estamos indo.
A questão “Eu conheço
Jesus?” pode não parecer muito científica, e para alguns pode não ser
considerada relevante em relação a nossa decisão sobre a evolução. Contudo, eu
afirmo que é a pergunta mais importante de todas. Damos nós mais crédito para
as interpretações contemporâneas científicas do que para a Palavra de Deus, ou
conhecemos Jesus suficientemente bem para ter confiança em Sua comunicação
conosco através da Bíblia?
Leonard
Brand (Ph.D. em biologia evolutiva, Universidade Cornell)
é diretor do Departamento Terra e Ciências Biológicas, e professor de Biologia
e Paleontologia na Universidade de Loma Linda, Loma Linda, Califórnia, EUA Este
artigo apareceu pela primeira vez como um ensaio em Understanding Creation:
Answers to Questions on Faith and Science, eds. L. James Gibson e Humberto M.
Rasi (Nampa, Idaho: Pacific Press. Assn, 2011). Usado com permissão.
REFERÊNCIAS
1.BRAND, L. Faith, reason and earth history: a paradigm
of earth and biological origins by intelligent design. 2a ed. Berrien Springs,
MI: Andrews University Press, 2009.
2. Ibid.; BRAND, L. Beginnings: are science and
scripture partners in the search for origins? Nampa, ID: Pacific Press, 2006.
3. GRANT, P. A. Ecology and evolution of darwin’s finches.
Princeton, NJ: Princeton University Press, 1999.
4. BRAND (2006, 2009); RATZSCH, D. Science and its
limits: the natural sciences in Christian perspective. Downers Grove, IL:
InterVarsity Press, 2000; MORELAND, J. P. Christianity and the nature of
science. Grand Rapids, MI: Baker Books, 1989.
5. BRAND (2006, 2009); MEYER, S. C. Signature in the
cell DNA and the evidence for intelligent design. New York: HarperCollins, 2009;
ROTH, A. A. Origins: linking science and scripture. Hagerstown, MD: Review and
Herald, 1998; SNELLING, A. A. Earth’s catastrophic past: geology, creation and
the flood. v. 1 e 2. Dallas, TX: Institute for Creation Research,
2009
FONTE: Revista Diálogo
Universitário, Vol. 21, págs. 19-21.
Versão Digital: http://dialogue.adventist.org/numbers/24.1_Port.pdf
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