DÉBORA: A MULHER ADVENTISTA CONDENADA PELO STF A 14 ANOS DE PRISÃO. PENA JUSTA?


DÉBORA: A MULHER ADVENTISTA CONDENADA PELO STF A 14 ANOS DE PRISÃO. PENA JUSTA?

Ricardo André

A semana passada o ministro do STF, Alexandre de Moraes, condenou Débora Rodrigues dos Santos, cabeleireira e membro da Igreja adventista do Sétimo Dia, da cidade de Paulínia (SP), a 14 anos de prisão, inicialmente em regime fechado. Ela tornou-se conhecida por ter pichado a frase "Perdeu, mané" de batom vermelho na estátua "A Justiça", localizada em frente ao prédio do STF. A pichação aconteceu durante a manifestação golpista do 08/01 de 2023. A expressão faz referência a uma fala do ministro Roberto Barroso, quando foi importunado por bolsonaristas em Nova Iorque, em novembro de 2022. 

Desde que o voto do relator foi divulgado, comentários de "tudo isso por pichar uma estátua com batom?" ecoam nas mídias sociais pelos bolsonaristas, cujo objetivo é desviar o foco dos verdadeiros crimes cometidos por essa senhora. Embora o caso tenha gerado apoio entre bolsonaristas, que argumentam que Débora deveria ser liberada por não cometer um crime grave e por apenas usar “um batom vermelho como arma”, o episódio continua a gerar grande controvérsia. Por ela ser membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, muitos adventistas, inclusive pastores, saíram em defesa de Débora, a exemplo do teólogo Rodrigo Silva, que na última segunda-feira (24/03), postou no seu perfil do Instagram um vídeo, em que afirma, entre outras coisas, que “Debora, a mãe de família, mãe de dois filhos que foi condenada por pichar uma estátua em Brasília”. À semelhança dos bolsonaristas, Rodrigo Silva tenta vender a ideia de que Débora Rodrigues foi condenada só por ter escrito “perdeu, mané” de batom na estátua. Contudo, tal narrativa não passa de um engodo.

É imprescindível dizer aqui, que Débora não foi condenada só por pichação! A verdade é que a PGR apresentou denúncia contra Débora em julho do ano passado, e imputou à ela os crimes de associação criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio da União, além de deterioração de patrimônio tombado. Todos crimes previstos no Código Penal Brasileiro.

Nesse sentido, é preciso dizer ainda que o objeto danificado é um detalhe, perto do envolvimento amplo da mulher com o pacto pelo desmonte do Estado Democrático de Direito. O verdadeiro desvario dos que estiveram no 08 de janeiro de 2023, "dia da Infâmia", levados a crer que estariam acobertados pelo manto da verdade.

Segundo o ministro Alexandre de Moraes, relator do processo, Débora aderiu, desde o final das eleições de 2022, a movimentos que negavam a legitimidade do processo eleitoral. Participou de acampamentos diante de quartéis, onde se pregava insistentemente uma intervenção militar, apoiou publicamente a ruptura da ordem constitucional e, no dia 8 de janeiro de 2023, integrou o grupo que invadiu e depredou as sedes dos Três Poderes, em Brasília. A Polícia Federal mostrou no curso das investigações que Débora compreendia perfeitamente o caráter criminoso das ações em que estava se envolvendo, e que ela apagou todo o histórico de provas que guardava em seu celular no período entre os dias que precederam sua ida a Brasília  e as semanas posteriores ao 8 de janeiro de 2023. Não podemos aceitar que esses tipos de ações sejam minimizados. A defesa da democracia precisa ser firme e constante!

Logo, a frase na estátua foi a assinatura final de uma narrativa golpista escrita ao longo de meses. Portanto, a pena proposta a Débora Rodrigues dos Santos, ainda em julgamento, não responde à cor do batom, mas ao conteúdo político do gesto. Não se pune a frase, mas a tentativa de rasgar com ela o pacto constitucional. Logo, sua pena é justa.

Rodrigo Silva e sua posição político-ideológica

Chamou-nos a atenção a legenda no vídeo supracitado do Rodrigo Silva. Ele escreveu que seu pronunciamento “não se trata de um posicionamento político, muito menos ideológico”. Tal fala representa uma tentativa de passar para seus “seguidores” uma imagem de neutralidade política. Todavia, neutro Silva não é. Por mais que ele se esforce para vender a imagem de neutralidade, algumas de suas postagens nas redes sociais não negam que ele é alinhado a direita política. O próprio fato dele tentar, de forma desonesta, reduzir os crimes da Débora a pichação da estátua da Justiça, claramente minimizando as ações criminosas dela, revela sua posição política de direita, uma vez que esse é um discurso dos bolsonaristas nas redes sociais.

Portanto, o discurso da pseudo neutralidade dele não convence a pessoas como nós que pensamos e que sabemos fazer análise de discurso.

Ademais, perguntamos ao doutor Silva: Qual das nossas atitudes e ações não trazem uma carga ideológica subjacente? Na verdade, não existe neutralidade ideológica. Nas palavras do mestre Paulo Freire, “toda neutralidade afirmada é uma opção escondida”. Portanto, quem defende a “neutralidade ideológica" está do lado dominante da sociedade e é contra o lado oprimido e dominado. Tentar evitar ideologias é impossível. Nossa sociedade se organiza através de ideologias. A partir do momento que pensamos, concebemos ou falamos a respeito de algo, esse algo já está sendo pensado, concebido e falado através de alguma ideologia. Não temos como fugir disso.

Como teólogo influencer, o Rodrigo Silva deveria fazer a defesa do ensino bíblico de que os cristãos devem respeitar as leis do país. O Senhor Jesus Cristo instruiu: ‘Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus, o que é de Deus’ (Mateus 22:21). Portanto, quando vivemos as leis do nosso país somos um exemplo para as pessoas ao nosso redor e demostramos o nosso respeito pelos governantes (Rm 13:1-3, 5). Débora falhou em seu testemunho cristão ao participar de um movimento golpista, que atentou contra a Constituição Federal. Participar de movimentos, cujo objetivo é abolir o Estado Democrático de Direito é crime grave em nosso país. Silva errou em não aproveitar o episódio para instruir sobre isso seus “seguidores” no vídeo postado por ele.

O Dr. Silva ainda enfatiza que a Débora estava arrependida pelo que fez. Se realmente ela se arrependeu pelos crimes que cometeu isso é muito positivo, é louvável, e poderá ter impacto na redução da pena. Porém, o fato dela ter se arrependido não exime sua responsabilidade criminal. Terá que pagar pelos erros crassos cometidos. Quem comete um crime deve ser punido de acordo com a lei, que define o crime e as penas aplicáveis. Se ela não quisesse sofrer a pena da prisão não deixaria seu marido e filhos em casa para ir a Brasília e juntar-se a outras pessoas fanatizadas para destruir o patrimônio público e pedir intervenção militar.

Que esse episódio da Débora sirva de lição para todos os cristãos a não cometerem esses erros tão graves. Afinal, aprender com os erros é o grande objetivo para não tornar a repeti-los. E a primeira lição a aprender é evitar o envolvimento com grupos extremistas perigosos, aliançados com as igrejas cristãs, cujos líderes para defender os chamados valores cristãos e da família pregam o ódio, a intolerância, o preconceito generalizado, o desrespeito ao outro que pensa ou vive de modo diferente daquele que julgam ser o correto. Mais não somente isso, possuem um plano político para tomada de poder no Brasil. A estratégia política evangélica, especialmente de algumas igrejas neopentocostais para dominar o país é denominado de “Teologia do Domínio” ou “dominionismo”, desenvolvida primeiro nos Estados Unidos, e depois importada para o Brasil. E é essa estratégia de “guerra santa” que explica a entrada em campo de centenas de pastores e milhares de evangélicos na extrema-direita. Ideias completamente contrárias aos princípios bíblicos.

Até porque não há nenhuma orientação nas Sagradas Escrituras no sentido de que os cristãos devem exercer o domínio político no mundo. A instrução bíblica é de que devemos ser uma influência positiva no mundo, ser testemunhas fiéis. A grande comissão que Jesus nos deu não consiste em criar nações teocráticas nem dominar essas nações, mas atuar nelas e parecer com Jesus, sendo luz e sal nesse mundo que vai de mal a pior (Mt 5:14-16; 2 Tm 3:13). "Sem uma viva fé em Cristo como Salvador pessoal", escreveu Ellen G. White, "é impossível fazer com que nossa influência seja sentida em um mundo cético. Nao podemos dar a outros aquilo que nós mesmos não  possuímos. É proporcionalmente à nossa própria própria devoção e consagração a Cristo, que exercemos uma influência para benefício e erguimento da humanidade" (O Maior Discurso de Cristo, p. 36). A Palavra de Deus ensina nitidamente que o reino eterno de Deus será estabelecido na Terra, mas não será estabelecido por voto, nem por revolução, nem por golpe de estado, mas pela intervenção do próprio Deus (Dn 2:44).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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