MAIS DO QUE UM SÍMBOLO
A pessoa e a obra de Cristo manifestas no Antigo Testamento
Karl
Boskamp*
“Toda a Escritura é
inspirada por Deus” (2Tm 3:16). Esse versículo resume um princípio de interpretação
denominado Tota Scriptura, que destaca o valor de todos os livros que integram as
Sagradas Escrituras e refuta a ideia de conceder graus de inspiração entre eles
ou de estabelecer um “canon” dentro do Canon. Toda a Bíblia, e não somente uma
parte dela, é inspirada por Deus. Esse preceito, juntamente com o da Sola
Scriptura, sempre esteve no centro do desenvolvimento doutrinário adventista, e
constitui uma premissa indispensável para a correta compreensão do Texto
Sagrado.1
Apesar disso, nem
sempre é fácil integrá-lo à práxis da vida cristã. Há um problema que ressurge de
vez em quando: Que utilidade tem o Antigo Testamento (AT) para os cristãos?
Uma
visão distorcida
Certa vez, um grupo de
jovens me mostrou uma Bíblia. Percebi que ela era mais fina do que as que eu
conhecia, não porque suas letras fossem menores, mas simplesmente porque era
uma versão incompleta. Continha somente o Novo Testamento (NT) e o livro de
Salmos. Muitos cristãos defendem que apenas o NT é suficiente para pregar o evangelho
e apresentar a doutrina cristã. Consideram o AT ultrapassado, abolido e têm
pouco interesse em examinar suas páginas. Assim, abrem mão dele. O problema se
agrava ainda mais quando se aceita certa dicotomia entre as descrições de Deus presentes
em ambos os Testamentos. Em um deles, um Senhor irado e justiceiro. No outro,
um Pai amoroso e perdoador. No segundo século depois de Cristo, um cristão de
origem grega já havia enfatizado essa distinção. Marcião rejeitou todo o AT e
os livros do NT que se vinculavam mais diretamente a este. Tirar o AT da Bíblia
é uma postura radical, porém, não é a única maneira na qual se manifesta o
problema.
Quando aceitei a fé
cristã, com minha mãe, lembro-me de como ela se esforçava todos os anos para
fazer seu ano bíblico. No entanto, logo desanimava após chegar ao livro de
Levítico ou, no melhor dos casos, ao primeiro livro de Crônicas. A luta que
minha mãe enfrentava é a mesma que muitos cristãos experimentam atualmente.
Eles aceitam o AT como Palavra de Deus, mas acham-no complicado e enfadonho.
Para resolver esse problema, recorrem a uma leitura seletiva, ou seja, leem somente
aquilo que julgam agradável ou interessante.
Trabalhei por algum
tempo no Ministério Jovem. Certa ocasião, alguém fez a proposta de um novo
modelo de ano bíblico para os estudantes em nossas escolas. Era uma versão
resumida e, o “promotor”, ao fazer o lançamento do projeto, enfatizou que os
alunos certamente iriam apreciar, pois, todas as partes maçantes da Bíblia haviam
sido tiradas!
A leitura seletiva das
Escrituras não é uma proposta de todo errada. Ela é uma excelente opção para
quem está começando a estudar a Bíblia. O problema é quando isso se prolonga
por toda a vida, e piora quando se torna normativo.
A partir dessas
considerações, nota-se a dificuldade que muitos cristãos enfrentam em relação
ao AT. No entanto, sua compreensão é fundamental para a doutrina e a missão da
igreja.
A
hermenêutica de Jesus
Ao longo do Seu
ministério, Cristo constantemente dirigiu Seus ouvintes às verdades expostas no
AT. Respondeu às tentações com um “está escrito”, e aproveitou cada
oportunidade para recordar algo do que estava na Bíblia Hebraica. Contudo, não
Se limitou somente a isso. Ele declarou que era o cumprimento das Escrituras,
de modo que elas davam testemunho Dele (Jo 5:39). Foi devido a essa regra hermenêutica
que Jesus pôde dizer um sábado, na sinagoga, após ler Isaías 61:1 e 2: “Hoje,
se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4:21). Do mesmo modo, assegurou
com convicção que Abraão viu o Seu dia (Jo 8:56) e que Moisés escreveu a
respeito Dele (Jo 5:46, 47). Após toda a consternação sofrida na cruz, Jesus
disse a dois discípulos no caminho para Emaús: “Porventura, não convinha que o
Cristo padecesse e entrasse na Sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo
por todos os profetas, expunha-lhes o que a Seu respeito constava em todas as Escrituras”
(Lc 24:26, 27, grifos acrescentados). Em outra ocasião, voltou a reiterar: “São
estas as palavras que Eu vos falei, estando ainda convosco: importava que se
cumprisse tudo o que de Mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos
Salmos” (Lc 24:44, grifos acrescentados). Ambas as referências aludem à totalidade
do AT, tal como havia sido preservado no canon judaico.2
Desse modo, é possível
afirmar que o AT possui muitos símbolos e profecias que revelam antecipadamente
a vida e obra de Jesus. No entanto, Cristo não aparece no AT somente como uma
figura ou promessa de alguém que viria à Terra.
Mais
do que um símbolo
A preexistência de
Jesus é um ensinamento básico da doutrina cristã.3 Entretanto, em
determinadas ocasiões, parece que tal ensino foi compreendido como
se fosse uma mera abstração teológica, e que essa preexistência situava o
Filho de Deus no Céu, separado da realidade humana, aguardando o momento para entrar na
história somente a partir de Seu nascimento. Nada é mais distante da realidade!
Quando Paulo falou da
peregrinação de Israel no deserto, afirmou que os israelitas “bebiam de uma
pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo” (1Co 10:4). Pedro
declarou que aos profetas foram revelados pormenores da vida de Jesus, pois o
próprio “Espírito de Cristo, neles estava” (1Pe 1:10-12).
“Em todas estas
revelações da presença divina, a glória de Deus se manifestava por meio de
Cristo. Não somente por ocasião do advento do Salvador, mas através de todos os
séculos após a queda e promessa de redenção, ‘Deus estava em Cristo
reconciliando consigo o mundo’ (2Co 5:19). Cristo era o fundamento e centro do
sistema sacrifical, tanto da era patriarcal como da judaica. Desde o pecado de
nossos primeiros pais, não tem havido comunicação direta entre Deus e o homem.
O Pai entregou o mundo nas mãos de Cristo, para que por Sua obra mediadora
remisse o homem, e reivindicasse a autoridade e santidade da lei de Deus.”4
“Desde o pecado de
Adão, a raça humana estivera destituída da comunhão direta com Deus. A
comunicação entre o Céu e a Terra era feita por meio de Cristo; mas agora que Jesus
viera ‘em semelhança da carne do pecado’ (Rm 8:3), o próprio Pai falou. Antes,
Ele tinha Se comunicado com a humanidade por intermédio de Cristo; agora
fazia-o em Cristo.”5
“Todo raio de luz
divina que já atingiu o nosso mundo decaído, foi comunicado por meio de Cristo.
É Ele que tem falado por intermédio de todos os que, em todos os tempos, têm
declarado a Palavra de Deus ao homem. Toda a excelência manifestada nas maiores
e mais nobres almas da Terra, era reflexo Dele.”6
Essas citações rompem
com qualquer dicotomia entre o Deus do AT e o do NT, lei e graça, antigo e novo
pacto. Desde que o ser humano caiu em pecado, foi Cristo, a segunda pessoa da
Divindade, quem Se ofereceu como mediador entre Deus, o Pai, e a humanidade
condenada. A mesma voz que ensinou por meio de parábolas junto ao mar da Galileia,
é a voz que falou “muitas vezes e de muitas maneiras” por intermédio dos profetas
que escreveram os livros do AT. Jesus esteve constantemente ativo e presente na
história de Seu povo. Muitos puderam contemplá-Lo visivelmente como o Anjo do
Senhor, 7 Miguel ou outra teofania. Cada vez que estudamos o AT
temos a possibilidade de escutar a mesma voz terna do nosso
Salvador. Podemos compreender como Ele cuidou do Seu povo ao longo de
todas as épocas, valorizar a santidade da Sua lei, a gravidade do
pecado e o enorme preço que custou nossa salvação.
Os 66 livros que
compõem a Bíblia chegaram às nossas mãos manchados com o sangue dos profetas,
apóstolos e mártires que durante séculos entregaram sua vida para registrar e
preservar aquilo que temos herdado. Deus, em Sua providência, deixou-nos esse
legado escrito como um registro fidedigno de Sua verdade. Temos a sagrada
responsabilidade de esquadrinhar “todas” as Escrituras, já que nelas encontramos
a única salvaguarda para os tempos difíceis que ainda virão. A compreensão de
toda verdade revelada na Palavra de Deus requer esforço e dedicação, mas,
principalmente, a iluminação do Espírito Santo.
Portanto, o AT e o NT
são duas janelas que mostram duas perspectivas diferentes da mesma paisagem: Cristo
e Sua obra.
*Karl
Boskamp, formado em Teologia (UAP), é professor na
Universidad Adventista del Plata
Referências
1. Richard M. Davidson,
“Interpretación bíblica”, Tratado de Teología Adventista Del Sétimo Día (ACES,
2009), p. 68-79; Frank M. Hasel, “Presuposiciones en la interpretación de las Sagradas
Escrituras”, Entender las Sagradas Escrituras, ed. George W. Reid (ACES, 2010),
p. 33-57.
2. Divisões do canon
hebraico: Torah (Lei), Nebi’im (Profetas) e Ketubim (Escritos). O livro de
Salmos era o primeiro e principal da terceira seção, por isso nomeava toda ela.
3. Mq 5:2; Jo 1:1;
8:58; Cl 1:15-17.
4. Ellen G. White,
Patriarcas e Profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 366.
5. Ellen G. White, O
Desejado de Todas as Nações (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p.
116.
6. Ellen G. White,
Educação (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2016), p. 73.
7. Vários comentaristas
têm identificado esse Ser como o Cristo pré encarnado (Gn 18; 32:24, 30; Êx 3;
23:20, 21; 32:34; 33:14; Js 5:13-15; Jz 13; Dn 3:25; 10:1-9; Zc 3:1,2; Ml 3:1).
FONTE:
Revista Ministério, Jul-Ago 2017, p. 23-25.
Comentários
Postar um comentário