DESFECHO INESPERADO
Bruno de Azevedo Lourenço
O
que fez do adventismo o maior movimento protestante doutrinariamente unificado
ao redor do mundo
“Nossas expectativas
foram elevadas e esperamos pela vinda de nosso Senhor até que o relógio apontou
meia-noite. O dia se passou, e nosso desapontamento se tornou uma certeza.
Nossas maiores esperanças e expectativas foram destroçadas e um espírito
deprimente tomou conta de nós como nunca antes. Parecia que a perda de todos os
amigos terrenos não poderia se comparar com essa dor. Nós choramos e choramos
até o dia amanhecer” (Review and Herald, 23/6/1921, p. 4-5). Foi assim que
Hiram Edson definiu a tristeza daquele grupo. Sermões e mais sermões sobre a
segunda vinda de Cristo haviam sido proferidos. O 22 de outubro de 1844 havia
chegado, mas o dia terminou e Ele não veio.
Um grupo que passou por
um desapontamento tão grande como esse simplesmente poderia enfraquecer até a
completa extinção. No entanto, a menor porção daquele pesaroso movimento
perseverou e tornou-se uma igreja com mais de 20 milhões de membros. Qual foi o
segredo para um desfecho tão inesperado? Embora pareça não fazer sentido à
primeira vista, a mensagem do sábado estudada por José Bates, a doutrina do
santuário e as três mensagens angélicas tiveram um papel primordial nesse
processo.
Reerguendo-se
Logo após o grande
desapontamento, a grande maioria dos mais de 200 mil mileritas abandonou a fé
ou continuou estudando para marcar novas datas para o retorno de Cristo. Porém,
um pequeno grupo enxugou as lágrimas e retornou para as Escrituras a fim de
entender o que de fato aconteceu e para buscar mais revelações divinas. A
descoberta da centralidade da doutrina do santuário em correlação às três
mensagens angélicas de Apocalipse 14 foi uma das principais chaves para o
próximo passo. Inicialmente, eles criam que o cumprimento da mensagem do
primeiro anjo teve início em 1798 com a pregação da volta de Jesus (Ap 14:6-7).
Por sua vez, relacionavam a segunda mensagem a 1844, com a proclamação do
Clamor da Meia-Noite e o chamado para sair de Babilônia (14:8). E acreditavam
que a terceira mensagem enfatizava a santidade e validade dos mandamentos de
Deus (14:9-12).
Em 1845, muitas pessoas
começaram a guardar o sábado devido à influência dos batistas do sétimo dia.
Pouco tempo depois, José Bates começou a pregar mais enfaticamente sobre a
importância desse dia, afirmando que este mandamento precisaria ser restaurado
para que então Jesus pudesse retornar (Gerard P. Damsteegt, Foundations of the
Seventh-day Adventist Message and Mission [Grand Rapids: Eerdmans, 1977], p.
136-142). A princípio Ellen G. White não entendeu o motivo de enfatizar tanto o
quarto mandamento em relação aos outros nove (Testemunhos Para a Igreja [Tatuí,
SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), v. 1, p. 72, 73). Mas, depois de ter
acesso a um folheto escrito por Bates em 1846, Ellen e Tiago White aceitaram
esta verdade. O trio, então, começou a pregar com maior ênfase sobre a
santidade do sábado. Naquele momento, Deus usou José Bates para protagonizar
uma das mais cruciais descobertas da história da Igreja Adventista do Sétimo
Dia.
Bates teve um insight
enquanto dedicava-se a um estudo mais profundo a respeito do significado da
terceira mensagem angélica: o sábado estava inteiramente ligado à mensagem do
terceiro anjo. “Abriu-se, então, o santuário de Deus, que se acha no céu, e foi
vista a arca da Aliança no seu santuário, e sobrevieram relâmpagos, vozes, trovões,
terremoto e grande saraivada” (Apocalipse 11:19). Ele percebeu que os Dez
Mandamentos tinham um papel especial naquele período e, assim, conectou o
sétimo dia com a mensagem do terceiro anjo. Alguns meses depois, Ellen White
teve uma visão em que Deus a levou para um passeio no santuário celestial.
Quando o véu que havia entre os dois compartimentos foi levantado, ela
contemplou a Arca do Concerto. Dentro da arca ela reparou num detalhe
interessante: “Vi os Dez Mandamentos nelas [nas tábuas] escritos com o dedo de
Deus. […] Mas o quarto, o mandamento do sábado, brilhava mais que os outros;
pois o sábado foi separado para ser guardado em honra do santo nome de Deus. O
santo sábado tinha aparência gloriosa – um halo de glória o circundava. Vi que
o mandamento do sábado não fora pregado na cruz. Se tivesse sido, os outros
nove mandamentos também o teriam, e estaríamos na liberdade de transgredi-los a
todos, bem como o quarto mandamento. Vi que Deus não havia mudado o sábado,
pois Ele jamais muda” (Ellen G. White, Primeiros Escritos [Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira, 1991], p. 32-33).
A sugestão de Bates de
conectar os três temas foi confirmada com a visão de Ellen White. Logo, a
última mensagem de exortação e salvação deveria incluir a restauração do sábado
como o dia genuíno de descanso, o único mandamento esquecido pela grande
maioria dos cristãos.
A conexão entre o
sábado, o santuário e as três mensagens angélicas deu a eles uma identidade
profética. Logo após o grande desapontamento profetizado em Apocalipse 10:8-10,
Jesus afirma que eles ainda precisariam profetizar “a respeito de muitos povos,
nações, línguas e reis” (v. 11). As mesmas palavras são usadas para introduzir
as três mensagens angélicas em Apocalipse 14:6-12, deixando claro o que Ele esperava
deles. Ademais, as palavras usadas pelo primeiro anjo em sua mensagem para
adorar “aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas” também
não são novas nas Escrituras. “Essa linguagem faz uma alusão inequívoca ao
mandamento do SÁBADO, com referência à CRIAÇÃO (Êx 20:8-11), indicando,
portanto, que o sétimo dia tem relevância especial na proclamação do evangelho
no tempo do fim. […] As admoestações a ‘temer’ e ‘adorar’ neste versículo se
encaixam diretamente no contexto imediato mais amplo de guardar os mandamentos
de Deus (ver Ap 12:17; 14:12), com referências óbvias ao decálogo” (Bíblia de
Estudo Andrews, p. 1667; nota sobre Apocalipse 14:7).
Os pioneiros
adventistas do sétimo dia não criam nestes preceitos apenas porque eles estavam
embasados na Bíblia e, por isso, deveriam ser pregados. Ia muito além disso.
Eles encontraram a si mesmos naquela profecia. Perceberam Deus delegando a eles
a missão de espalhar uma mensagem específica à sua geração. Inicialmente, a
crença de José Bates na santidade do sétimo dia apresentada em seu livro The
Seventh-day Sabbath: A Perpetual Sign refletia essencialmente o que os batistas
do sétimo dia criam: que o sábado era o dia correto a ser guardado e que o dia
de guarda nunca deveria ter sido mudado. Porém, a crença nesse dia foi
fortalecida pela mensagem profética de que Deus restauraria este selo entre Ele
e Seu povo. Tiago White declarou: “Nossa experiência adventista passada,
presente posição e trabalho futuro estão demarcados em Apocalipse 14 da forma
mais clara que a pena profética poderia escrever” (James White to Brother
Bowles, 8 de novembro de 1849 [Silver Spring, MD: Ellen G. White Estate]). A
identidade profética resultou em urgência de pregar aquela mensagem ao mundo.
Um espírito missionário envolveu seu coração, e daquele momento em diante
nenhuma barreira seria grande demais para aquele valente grupo. O pequeno grupo
passou por um grande desapontamento, mas agora estava revigorado para espalhar
o evangelho a todo o mundo.
Missão
urgente
A diferença que esta
identidade profética e chamado à pregação provocou no movimento adventista do
sétimo dia se torna mais clara quando comparada a outros grupos similares
daquele período. Os batistas do sétimo dia tiveram um crescimento de
aproximadamente 6 mil membros na década de 1840 para 50 mil na década de 2010,
e estão representados em 22 países. Por outro lado, de acordo com o primeiro
censo realizado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, o número de membros
adventistas totalizava 3,5 mil em 1863. Em 2020, este número já se aproximava
de 22 milhões de adventistas, espalhados por 213 dos 235 países e regiões do
mundo reconhecidos pela ONU.
Como Clyde Hewitt
afirmou: “O menor dos braços do grupo milerita [Adventistas do Sétimo Dia e
Cristãos do Advento] foi o que se tornaria de longe o maior” (George R. Knight,
If I Were The Devil [Hagerstown, MD: Review and Herald, 2010], p. 142). A
diferença no crescimento entre essas denominações foi a compreensão profética
desta mensagem como parte de um plano maior, com um chamado urgente a que fosse
pregada por todo o mundo. O adventismo sabatista compreendeu que a guarda do
sábado não era um meio para a salvação, mas era parte de uma identidade
profética a ser compartilhada com “muitos povos, nações, línguas e reis”
(Apocalipse 10:11; veja também Mateus 28:18-20; Apocalipse 5:9-10; 7:9).
O adventismo do sétimo
dia é o maior movimento protestante doutrinariamente unificado ao redor do
mundo. Por quê? Porque cremos que Deus tem uma mensagem profética a ser pregada
e que ninguém está pregando. Esta mensagem deu ao Seu povo liberalidade ao doar
seu dinheiro e sua própria vida em favor da pregação do evangelho. Como membros
e herdeiros de tão grande legado, precisamos levar avante esta mensagem que nos
conferiu uma identidade e uma missão. Devemos ir e pregar a “cada nação, e
tribo, e língua, e povo” (Apocalipse 14:6). A missão está em nosso DNA, e esse
foi claramente o segredo para o crescimento do adventismo no mundo. Agora a
tocha da verdade está em nossas mãos e podemos ouvir uma voz do Céu apelando
direta e claramente: Pregue! Pregue!
*BRUNO
DE AZEVEDO LOURENÇO, mestre em Divindade pela Universidade
Andrews, é pastor na Igreja Adventista Highland View, em Hagerstown, Maryland
(EUA)
FONTE: Revista Adventista
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