COMO SE DESENVOLVEU A SEPARAÇÃO ENTRE JUDAÍSMO E CRISTIANISMO
Por Sérgio Monteiro*
Entenda
a questão histórica e teológica que explica esta separação e como isso chegou
até os tempos atuais na realidade do cristianismo.
Segundo artigo da série
sobre cristianismo e judaísmo aponta como esta cisão se deu ao longo da
história.
O primeiro século da
era cristã terminou com discussões de identidade e o início de relações
atribuladas entre cristãos e judeus. Um fato importante, contudo, é que os
primeiros ainda eram judeus, cujas doutrinas e crenças estavam ainda dentro do
pano de fundo judaico geral, conhecido naqueles tempos.
Ao sairmos desse
século, não podemos deixar de notar que a identidade judaica fluida foi deixada
para trás, após a quase destruição do judaísmo no ano 70. A necessidade de
fixação de uma identidade que não fosse demasiadamente aberta e ampla, foi uma
decisão tomada pelos principais partidos sobreviventes, fariseus E cristãos.
Nesse processo, as diferenças passaram a pesar muito mais do que as similitudes
e essas foram se acentuando cada vez mais nos séculos seguintes e migrando da
periferia para o centro.
Mudanças
profundas no segundo século
Junte-se a este quadro
as pressões políticas. Tanto exercidas sobre o judaísmo nos dois primeiros
séculos, quanto sobre o cristianismo, até a época do compromisso. Então a
unidade na diversidade se transforma na diversidade da diferença, como veremos
nas partes seguintes dessa série.
O período iniciado no segundo século marca o aprofundamento das diferenças entre judeus e cristãos, até o ponto da ruptura ocorrida por volta do século IV. Não era possível mais se manter a unidade tênue do primeiro século e cada atitude do grupo contrário era marcada como uma ação de afastamento.
Por um lado, judeus
acentuavam o afastamento da Torá por parte do cristianismo, denunciando-o como
apostasia. Por outro lado, o cristianismo acusava o judaísmo de deicídio,
causado pelo afastamento da Torá, e aceitação de tradições de seus rabinos. Em
suma, em um adiantamento das recíprocas excomunhões entre cristianismo do
oriente e do ocidente. Judeus e cristãos se acusavam virtualmente do mesmo:
apostasia.
Sobrevivência
Apesar disso, havia um
interesse mais humano e terrestre nas crises do segundo século: sobrevivência.
Observando a dinâmica das relações entre judeus, cristãos e o império Romano,
não é difícil concluir que, de alguma forma, ambos viam no fim do outro a sua
salvaguarda.
De fato, no primeiro
século, quando Nero acusou os cristãos do incêndio em Roma, rapidamente os
judeus trataram de declarar que a fé cristã nada tinha de judaica. Igualmente,
na tentativa de manter-se como religio licita, o judaísmo, novamente, declara-se
apartado do cristianismo.
Os cristãos, por sua
vez, durante as revoltas de 66-70 EC, sob Vespasiano e Tito e 132-135 sob
Adriano, também se declararam não participantes do meio judaico, nem de suas
rebeliões. De certa maneira, portanto, as relações de judeus e cristãos com o
estado moldaram as relações entre eles. E não apenas em Roma, mas em cada
estado no qual coexistiram.
Nos séculos seguintes
encontramos a mesma dinâmica de acusações mútuas em Constantinopla (séculos III
e IV), Veneza (séculos X e XI) e Alemanha (séculos XVI e XVII), com o
cristianismo utilizando o poder estatal para impor ao judaísmo derrotas em
supostos debates teológicos, além de desterro para seus líderes.
Da perspectiva
teológica, foi com Justino que o antissemitismo se acentuou. A partir de suas
leituras e de suas apologias, criou-se a ideia de protocristãos que eram
constituídos pelos grandes homens da Bíblia Hebraica, cristianizados, enquanto
a designação de judeus ficou reservada para os homens maus da história de
Israel, como os adoradores do bezerro de ouro, os profetas de Baal, etc.
Dessa forma, o judaísmo
passou a ser teologicamente esvaziado de significado, e sua existência vista
apenas como uma mera ponte para a realidade maior da Igreja. Essa foi a posição dominante no pensamento
cristão durante o período de dominação católica, mas não deixou de existir com
o surgimento do protestantismo.
Reformadores
e o tema
De fato, quase nada
mudou para as relações judaico-cristãs com a chegada da Reforma. Se, por um
lado, os reformadores lançaram bendita luz sobre temas das Escrituras
escurecidos pelas trevas da Idade Escura, essa luz não atingiu a compreensão do
papel e posição de Israel.
John Huss atacou
fortemente os judeus por não aceitarem se converter ao cristianismo. Martinho Lutero, o campeão da Reforma,
enxergava os judeus como “mentirosos” e responsáveis pela morte de Jesus. Ele
escreveu três obras amargas contra os judeus: Sobre os judeus e suas mentiras,
Von Shem hamphoras e Warning against Jews. Nessas obras, Lutero apregoa que os
judeus deveriam ser mortos, desterrados e que eram equivalentes ao próprio
demônio.
Já Calvino mantinha a
ideia de que os judeus de seu tempo não possuíam piedade e eram uma nação
rejeitada por Deus. Em seu Response to Questions and Objections of a Certain
Jew, ele argumentou que os judeus não sabiam sequer ler. E muitas vezes torciam
suas próprias Escrituras. A influência
desses reformadores, dentre outros, pode ser sentida ainda em nossos dias, com
o pesado legado antissemita com seu linguajar de substituição, ainda existente
em muito da teologia cristã.
Conclusão
Em linhas apressadas,
vimos o desenvolvimento da separação entre cristãos e judeus. E descobrimos que
não é um fenômeno que pode ser localizado em um ponto temporal único, mas em um
processo que passou pelo acirramento das animosidades entre essas duas fés que
possuem relação de origem e originada. As relações políticas e a busca por
identidade exerceram influência sensível no aprofundamento dessa crise que
iniciando no final do primeiro século, acentuou-se nos séculos seguintes e de
forma incrível, atingiu os nossos dias, passando viva e fortalecida pelo tempo
dos reformadores.
Na última parte dessa
série, queremos refletir sobre como a Igreja Adventista do Sétimo Dia no século
21 se encaixa nessa linha. Estamos do lado do antissemitismo ou judaizantes
modernos? Ou nenhum e nem outro, mas uma terceira e bíblica via? Como podemos
alinhar a perspectiva missiológica e eclesiástica da Igreja Adventista com sua
ênfase no remanescente com uma posição antissemita. Ou com uma posição
dispensacionalista que enxerga a Igreja como um parêntesis no plano de Deus que
se cumpriria finalmente com Israel?
*Sérgio
Monteiro é teólogo, capelão e membro do Instituto de Estudos
Judaicos Feodor Meyer, membro da Adventist Theological Society, International
Association for the Old Testament Studies e Associação dos Biblistas
Brasileiros.
FONTE: Notícias Adventistas
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