AS ORIGENS DA SEPARAÇÃO DO CRISTIANISMO E JUDAÍSMO
Por Sérgio Monteiro*
Como
historicamente as correntes do cristianismo e judaísmo conviveram, inclusive
dentro daquilo que pode ser lido nos textos do Novo Testamento?
Há aspectos importantes
a serem compreendidos historicamente na relação entre cristianismo e judaísmo.
Ao contrário do que
muitos podem pensar, o antissemitismo não é um fenômeno moderno, surgido do
nazismo. Não é nem mesmo uma criação do
século 19. De fato, o antissemitismo existe já desde muito tempo. Pode ser
encontrado de forma mais ou menos explícita desde a partir do segundo século da
era cristã. É representativa dessa
posição a declaração de Ignácio de Antioquia, em sua carta aos Magnésios 10:1,
segundo a qual “são monstros os que falam de Jesus, ao mesmo tempo que praticam
o judaísmo.”
O objetivo desse artigo
não é expor de forma completa e aprofundada as raízes do antissemitismo, muito
menos todos os fatores e variáveis que podem ser identificadas na gênese e no
processo de desenvolvimento do antissemitismo, mas apresentar uma síntese dessa
filosofia com o intuito de entender seu impacto nas relações entre cristianismo
e Judaísmo e na leitura das Escrituras no cristianismo.
As
origens
O primeiro aspecto a
ser muito bem esclarecido e jamais esquecido é que o período neotestamentário
não pode ser visto como contendo o embrião do antissemitismo. Isso porque, ao
contrário do senso comum, o Novo Testamento não pode ser lido através de lentes
de uma constante dissensão e descontinuidade entre o judaísmo e a Bíblia
Hebraica e a igreja cristã e sua Bíblia. Essa é uma leitura carregada de
perspectiva externa, estranha ao próprio texto, como veremos adiante.
Apesar disso, o
primeiro século da Era Comum já apresenta evidências de discussões identitárias
tanto cristãs quanto judaicas, cujas consequências serão, ao final, um
afastamento definitivo entre a fé judaica e a fé cristã. Não é que a fé cristã
não fosse vista como judaica ou mesmo que ela não se entendesse judaica.
Cristianismo
e judaísmo juntos
O testemunho histórico
do Novo Testamento demonstra que o cristianismo era percebido e se percebia
como parte do judaísmo. Não é à toa que, em Atos 24:5, o mesmo termo utilizado
para descrever os fariseus no capítulo 26 é utilizado para a seita dos
nazarenos, da qual Paulo era o principal líder.
Essa era a conformação do judaísmo naquele tempo. Não existia um único
judaísmo (como hoje tampouco há), mas algumas seitas (heireisis – o termo grego
cuja origem significa escolha), que conviviam de forma não muito harmônica, mas
tolerante. Inclusive com discussões constantes, diferenças e maior ou menor
influência frente ao povo e sua relação com a religião e a tradição dos pais.
Assim, temos desde os liberais saduceus até os estritos essênios, passando
pelos fariseus, e, também cristãos e zelotes.
É nesse contexto de
convivência de múltiplas ideias e no fértil terreno das esperanças múltiplas
que surge o judaísmo nazareno, ou o cristianismo. E não estamos falando aqui do
advento de Jesus, mas da sistematização da comunidade de seus seguidores, que
refletiam sobre seus ensinos e como estes se relacionavam com os ensinos que
eles mesmos haviam recebido pela tradição dos pais ou de seus mestres judeus.
Como se relacionariam
agora com seus congêneres, uma vez que adotavam a recente e “novidadeira”
doutrina de Jesus o Nazareno, transmitida por seus mais próximos discípulos?
Como poderiam seguir, dentro do judaísmo, crendo que este Jesus cumpria as
profecias messiânicas, enquanto seus líderes e vizinhos afirmavam que não ele
era um falso Messias? Por outro lado, perguntas semelhantes eram feitas por
seus compatriotas judeus, oprimidos pelos romanos, ansiosos pela liberdade que
o Rei Messias traria.
Invasão
romana
Essas perguntas
dirigiram os esforços de organização e crescimento de ambos os partidos ou
seitas sobreviventes à invasão romana no ano 70 EC: os fariseus e os do
Caminho. É verdade que ainda encontramos rastros dos saduceus, essênios (há
mesmo dúvidas quanto a se eles existiram de fato ou não) e outras seitas
menores. Por outro lado, não resta dúvidas de que aquilo que conhecemos como
judaísmo, nos séculos posteriores, é uma reminiscência dos fariseus (veja Jacob
Neusner e Bruce Childon, no livro Quest of Historical Pharisees).
As tradições sobre os
fariseus após o ano 70 EC, mostram que os fariseus buscaram sistematizar o
pensamento judaico de maneira a manter uma linha que os ligasse às tradições
anteriores. Ainda que permitindo certa liberdade, mas com profundo interesse na
preservação dos aspectos legais e tradicionais de sua fé. É por isso que, por volta
do ano 90, foi convocado o segundo “concílio” de Jamnia, com um dos objetivos
sendo o de definir as bases de sua doutrina.
Por outro lado, a seita
da Caminho não demonstrou interesse algum em abandonar o judaísmo. Ao
contrário, os documentos legados, que estão no Novo Testamento, demonstram uma
grande aproximação com a comunidade judaica em geral, mas com os fariseus em
particular. Paulo, anteriormente Shaul, não poucas vezes se declara fariseu
(Atos 23; Romanos 11; etc.) e as interações marcantes e descritas na literatura
histórica indicam que o lugar de culto da comunidade ainda era a sinagoga.
Discussões
de identidade
É por isso que os
rabinos em suas sinagogas incluíram, entre suas orações, uma maldição contra os
minim (hereges), que não se restringia aos cristãos, mas que certamente os
incluía. Através dessa maldição, os hereges eram detectados nas sinagogas e
expulsos. A própria maldição, no entanto, como acentuou de forma precisa Pieter
Willem van der Horst (The Birkat ha-minim in Recent Research, em The Expository
Times, 1994, p.367), sempre se referiu a judeus, o que indica de forma precisa
que havendo separação e dissensão, os do Caminho ainda era vistos como judeus.
Hereges, mas judeus.
E assim terminou o
primeiro século, com discussões de identidade e o início de relações
atribuladas entre cristãos e judeus. É um fato, contudo, que os primeiros ainda
eram judeus, cujas doutrinas e crenças estavam ainda dentro do pano de fundo
judaico geral, conhecido naqueles tempos.
Ao sairmos desse
século, não podemos deixar de notar que a identidade judaica fluida foi deixada
para trás, após a quase destruição do judaísmo no ano 70. A necessidade de
fixação de uma identidade que não fosse demasiadamente aberta e ampla, foi uma
decisão tomada pelos principais partidos sobreviventes, fariseus e cristãos.
Nesse processo, as diferenças passaram a pesar muito mais do que as similitudes
e essas foram se acentuando cada vez mais nos séculos seguintes e migrando da
periferia para o centro. Junte-se a este quadro, as pressões políticas tanto
sobre o judaísmo nos dois primeiros séculos, quanto sobre o cristianismo até a
época do compromisso e a unidade na diversidade se transforma na diversidade da
diferença, como veremos nas partes seguintes dessa série. Mais do que não
sermos antissemitas, precisamos entender que a graça alcança a todos.
*Sérgio
Monteiro é teólogo, capelão e membro do Instituto de Estudos
Judaicos Feodor Meyer, membro da Adventist Theological Society, International
Association for the Old Testament Studies e Associação dos Biblistas
Brasileiros.
FONTE:
Notícias Adventistas
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