A FUNÇÃO DO DOM DE LÍNGUAS E A TRADIÇÃO ADVENTISTA
Rodrigo F. Rodrigues*
A
TRADIÇÃO ADVENTISTA
Tradicionalmente, a
interpretação adventista tem afirmado que: (1) o dom de línguas teria sido dado
com a função de ser, em si mesmo, um instrumento de comunicação do evangelho;
(2) a primeira vez que o dom de línguas teria acontecido explicitamente para
possibilitar a transmissão do evangelho, na “modalidade conversação”, entre um
pregador do evangelho e um ouvinte estrangeiro que não compreendia o vernáculo
do pregador, alega-se que foi o evento de Pentecostes, narrado em Atos capítulo
2. Esse texto é tradicionalmente tomado como “a” prova bíblica para essas
afirmações.1
Curiosamente, não há um
único versículo do Novo Testamento que apoie tais afirmações, nem mesmo
implicitamente! No relato do Novo Testamento, jamais houve pregação “em
línguas”. Jamais houve conversação “em línguas”.
ATOS
2
O texto de Atos 2:11
informa ao leitor qual foi, precisamente, o real conteúdo que os estrangeiros
ouviram da boca dos discípulos após receberem o dom: “as grandezas de Deus”
(gr.: ta megaleia tou theou). Ou seja, assim como Cornélio em Atos 10, os discípulos
engrandeceram a Deus empregando as línguas maternas dos diversos estrangeiros
presentes.
Não é possível,
textualmente, confundir o ato de “engrandecer” a Deus, com o ato de “proclamar”
o evangelho. O Livro dos Salmos abundantemente nos informa que “engrandecer a
Deus” significa falar diretamente a Deus (e não às pessoas), reconhecendo e
descrevendo Seus atributos e Suas obras. Trata-se de “oração” (falar a Deus) e
não de “conversação” (falar aos homens).
O próprio Livro de Atos
deixa claro que o único dentre os discípulos que pregou/proferiu o sermão aos
estrangeiros e aos habitantes de Jerusalém presentes no evento do Pentecostes
foi Pedro (Atos 2:14–41)! Além disso, tão logo Pedro pronunciou seu único
sermão a aos habitantes de Jerusalém e aos estrangeiros, a multidão não apenas
demonstrou ter entendido (Atos 2:37), mas também, grande parte dela aceitou o
apelo de Pedro. (Atos 2:38,41).
Por que bastou um único
sermão? A razão é que, no primeiro século, o “mundo greco-romano” usava o grego
como sua língua predominante. Consequentemente, independentemente de qual fosse
a língua materna de um indivíduo nascido naquele “mundo”, dificilmente ele
desconheceria o grego. Era a língua comum, a língua do comércio.2 Se
Pedro sabia, inclusive, escrever em grego, é razoável supor que, assim como
seus contemporâneos, soubesse falar o grego comum entendido pelos estrangeiros
visitantes.
O fato dos discípulos
engrandecerem a Deus (orarem) no meio da multidão, assim como a confusão feita
por Eli ao ver Ana, mãe de Samuel, quando orava (“falava sozinha”) no templo (1
Samuel 1:13–14), os discípulos, igualmente, foram, equivocadamente, tachados de
“embriagados” pelos espectadores (Atos 2:13–14). Caso os discípulos estivessem
“conversando fluentemente” nas diversas línguas de seus interlocutores (em vez
de “falando sozinhos”), é de se supor que não haveria nenhuma razão para
causarem a impressão de embriaguez aos expectadores.
ATOS
10
Os eventos descritos em
Atos 10 são os seguintes: (a) Pedro prega a Cornélio; (b) Cornélio fala em
línguas assim como o fizeram os discípulos no dia de Pentecostes.
Em Atos 10:46 é
empregada a mesma construção grega, adaptada, tal como em Atos 2:11, para dizer
que Cornélio, ao receber o dom de língua, passou a “engrandecer Deus”
(megalunóntôn tòn theón).
Fica mais do que
evidente que, quem pregou, não falou em línguas; e, quem falou em línguas, não
pregou. Comprova-se, desse modo, que a função do dom de línguas: (1) não era a
de transmitir o conteúdo do evangelho; (2) tal dom não “funcionava” na
“modalidade conversação”.
ATOS
19
Em Atos 19: (a) Paulo
interpela e instrui algumas pessoas sobre o Espírito e as batiza; (b) as
pessoas batizadas falam em línguas (e não Paulo, o pregador!).
Mais uma vez: o dom não
foi usado como instrumento para comunicar o conteúdo do evangelho e,
claramente, não foi empregado para “conversação” entre pessoas que não falassem
a mesma língua.
1
CORÍNTIOS 14
O capítulo 14 de 1
Coríntios discorre sobre o dom de línguas em plena harmonia com os eventos
mencionados do Livro de Atos. Paulo afirma que: “quem fala em língua não fala a
homens, mas a Deus” (14:2).3 No decorrer desse capítulo, ele repete
algumas vezes a expressão: “orar em línguas” (p.ex.: v.14), mas jamais disse:
“aquele que prega em línguas”; muito menos: “aquele que dialoga em línguas”.
O ato de um ser humano,
movido por um dom do Espírito, falar a outro ser humano (“conversação”),
conforme 1Cor 14:3, é dom de “profecia”, e não dom de “línguas”.
Em 1º Cor 14:22, Paulo
explica que a função do dom de línguas é ser “sinal” para os descrentes. Ele
não poderia ter sido mais direto e, ao mesmo tempo, tão claro.
O
SIGNIFICADO DE “SINAL” (gr. sêmeion).
O Evangelho de João fez
um uso abundante da palavra sinal e, por isso, é um excelente exemplo de como
um “sinal” foi empregado na relação com os indivíduos que ainda eram, em alguma
medida, descrentes.
O milagre da
transformação da “água em vinho”, por exemplo, foi, explicitamente,
classificado como “sinal” e destinado a estimular a fé de quem ainda, em certa
medida, não cria.
Textualmente é dito:
“Assim deu Jesus início aos seus sinais […] e os seus discípulos creram nele”
(João 2:11).
Da mesma forma, curas,
multiplicação de pães, expulsão de demônios, purificação de leprosos etc.
foram, textualmente, classificados como “sinais” e, regularmente, destinados a
estimular a “credulidade” em Cristo e em seus ensinos.
Os sinais não se
destinavam a incrédulos rebeldes (cf. João 12:39); não substituíam a pregação;
nem jamais foram, em si mesmos, instrumentos de transmissão do conteúdo do
evangelho; todavia, foram empregados como auxiliares do pregador e destinado às
pessoas de fé claudicante.
IMPLICAÇÕES
INTERPRETATIVAS
O uso de um “sinal”
destinado à pessoa que ainda não era, propriamente, um crente em Cristo, foi,
precisamente, a função do dom de línguas tal como consta no relato de Atos 2.
O “sinal” serviu para
chamar a atenção para os discípulos e, na sequência, oportunizou a Pedro não
somente a explicar aquilo que estava acontecendo, mas principalmente,
possibilitou a ele que pregasse às pessoas atentas e instigadas pela
sobrenaturalidade do dom de línguas.
De igual maneira,
conforme o relato de Atos 10, o dom de línguas serviu de “sinal” para que a
Igreja cresse em um ponto fundamental do Evangelho: após a cruz, não havia mais
qualquer distinção entre judeus e gentios quanto à pertença ao “povo eleito”.
Ambos poderiam receber o Espírito Santo sem qualquer discriminação étnica. O
“sinal” foi decisivo para corrigir uma crença distorcida.
Em Atos 19, o “sinal”
serviu para as próprias pessoas rebatizadas que, até então, jamais souberam da
existência do Espírito, mas agora, pudessem experienciar, por si mesmas, o
quanto o Espírito era uma dádiva divina real e efetiva. Aqueles rebatizados,
evidentemente, passaram a crer em um artigo de fé no qual ainda não criam.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
O emprego do dom de
línguas com a função de mero “sinal” para os (relativamente) descrentes é um
conceito sem grande complexidade e de fácil verificação, muito embora ainda
seja contraditado e distorcido pela interpretação adventista tradicional.
O equívoco de que o dom
de línguas tenha sido dado para, em si mesmo, ser um instrumento de pregação do
evangelho a estrangeiros, e, empregado na “modalidade conversação”, predomina
na literatura tradicional adventista, como já dito, comentários exegéticos,
recente lição da Escola Sabatina sobre o Livro de Atos; em estudos bíblicos
evangelísticos; bem como em artigos, monografias acadêmicas e diversas outras
obras.4
É possível supor duas
razões principais para uma leitura, evidentemente, incorreta, ainda exercer tanta
influência na exposição adventista sobre o tema.
Uma primeira razão,
subjacente e anterior a todas as demais posteriores, possivelmente deva-se ao
fato de E.G.W. ter feito tal “leitura tradicional” diversas vezes,
particularmente, em seu livro também intitulado: “Atos dos Apóstolos”.5 Para
um exemplo brasileiro dessa realidade, menciona-se o artigo do professor Ozeas
Caldas Moura.6 Nesse texto, muito embora o autor se proponha a
apresentar o resultado de uma exata interpretação bíblica sobre o dom de línguas,
não apenas se poia primariamente em citações da mencionada obra de E.G.W., mas
ainda, em vez de identificar qual a real função do dom de línguas no texto
bíblico “analisado”, a conclusão de seu texto quase que somente sintetiza e
extrai os conceitos do texto de E.G.W. sobre tal assunto. A exegese bíblica
(extrair aquilo que o texto bíblico quis dizer), não aconteceu. É possível
notar a mesma dependência conceitual de E.G.W. perpassando a influente obra
sobre o “dom de línguas” escrita Gerhard F. Hasel, particularmente, em sua
“análise” de 1 Cor 14,7 ainda que ele não faça citações explícitas
de textos dela.
Por óbvio, o problema
não está em citar E.G.W., mas em ignorar o real significado do texto bíblico,
substituí-lo por narrativas peculiares de E.G.W. e, ainda assim, entregar ao
leitor um resultado de pretensa exegese bíblica.
Uma segunda possível
razão, parece ser o fato de o pentecostalismo ter usado o tema do dom de
línguas como uma de suas expressões distintivas (glossolalia). Os textos adventistas
citados neste presente artigo, apenas a título de exemplo, bem como dezenas de
outros não mencionados,8 em geral, buscam evidenciar que a
glossolalia pentecostal não está amparada no ensino do Novo Testamento. Na
perseguição desse objetivo, porém, uma série de imprecisões foram sendo
praticadas e acabaram por se cristalizar. Dentre as imprecisões está o equívoco
sobre qual era a função do dom de línguas no Novo Testamento, tal como foi
exposto acima.
Este autor está
convencido de ser exegeticamente possível demonstrar o contrário daquilo que a
tradição pentecostal afirma sobre os significados dos vocábulos que,
igualmente, significam “língua” no Novo Testamento (“glossa” versus
“dialektos”), sem, todavia, precisar recorrer a nenhum tipo de equívoco ou
estratagema que não reflita a honesta pesquisa bíblica.
*Rodrigo
F. Rodrigues é bacharel teologia pelo UNASP-EC
(2009); Mestre em teologia bíblica pela PUC-Rio (2013). 2014–2019 atuou como
professor de ensino religioso e como pastor distrital no campo da Associação
Sul Paranaense. Atualmente, dedica-se integralmente aos estudos.
Notas
[1] Vagner Kuhn,
produziu um pertinente capítulo de livro, intitulado “O dom de línguas na
missão: implicações para a Igreja Adventista” (obra organizada por: Reinaldo W.
Siqueira e Alberto R. Timm. Pneumatologia: Pessoa e Obra do Espírito Santo.
Engenheiro Coelho, SP.: Unaspress, 2017, pp.609-630). Nesse texto, o autor traz
a informação de que desde 1930 até aproximadamente 2017, havia cerca de 70
artigos sobre o tema “dom de línguas” publicados no Brasil por escritores
adventistas na Revista Adventista. Dentre esses, pode-se destacar, devido à
quantidade de artigos, o professor Pedro Apolinário e o Pr. Arnaldo
Christianini. Entre as publicações brasileiras mais ou menos recentes, mas que
mantêm precisamente a mesma interpretação tradicional quanto à função do dom de
línguas, vale mencionar o professor Ozeas Caldas Moura (“O dom de línguas”,
Revista Adventista, set. 2007, p.16). Na esteira desses escritores, ainda que
possua outro foco, destaca-se, também, uma parte da obra de Vanderlei Dorneles,
Cristãos em Busca do Êxtase: para compreender a Nova Liturgia e o Papel da
Música na Adoração contemporânea (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2003)
particularmente, pp. 206-225. Em língua inglesa, apesar de haver uma pequena
variação de interpretações ao tratar, particularmente de 1ºCor 14, houve uma
grande influência exercida a favor da intepretação tradicional a partir da
publicação da obra do eminente exegeta adventista Gerhard F. Hasel analisando academicamente
o tema (Speaking in Tongues: Biblical Speaking in Tongues and Contemporary
Glossolalia. Berrien Springs, MI: Adventist Theological Society Publications,
1991). Ainda segundo Vagner Khun (“O dom de línguas na missão”, pp. 614-615)
“Devido à reputação acadêmica de Hasel e sua influência sobre os líderes da
igreja, seu estudo acabou determinando, em muito, a maneira de se interpretar o
dom de falar em línguas (glossolalia) na Igreja Adventista em geral”. A
interpretação tradicional também se verifica em produções de cunho
evangelísticos, em recente lição da Escola Sabatina etc.
[2] Cf. Justos L.
Gonzalez. Uma História do Pensamento Cristão. Vol. 1. São Paulo, SP: Editora
Cultura Cristã, 2004, p. 40.
[3] Neste ponto, é
válido ressaltar que dentre os princípios mais elementares da lógica, está a
“não contradição”. Isso implica que uma coisa não pode ser e, ao mesmo tempo e
no mesmo sentido, não ser. Ao lado disso, percebe-se que Paulo está em plena
harmonia com todos os relatos do NT ao afirmar que quem fala em línguas não
fala aos homens, mas a Deus. Ora, pregar o evangelho a alguém é,
necessariamente, falar aos homens, e não a Deus. Logo, quem recebe o dom de
línguas não prega o evangelho por meio de tal dom. Consequentemente, ensinar
que o dom de línguas tem a função de possibilitar a um homem pregar a outro,
além de erro exegético grosseiro, contradiz frontalmente o ensino de Paulo em
1Cor 14. Para manter esse ensino sem contradizer o texto bíblico, seria
necessário, primeiro, reescrever algumas porções suas.
[4] Para uma ampla
bibliografia sobre o assunto, recomenda-se as referências bibliográficas sobre
o tema indicadas no texto já mencionado de Vagner Kuhn, O dom de línguas na
missão, pp.609–630.
[5] Apenas como
exemplo, segundo E. G. White, precisamente por causa do recebimento do dom de
línguas, os apóstolos “podiam proclamar as verdades do evangelho em toda parte,
falando com perfeição a língua daqueles por quem trabalhavam” (“Atos dos
Apóstolos”. Ellen G. White Estate, Inc. 2007, p 21. versão eBook. Grifo
acrescentado.). Sobre a função do dom de línguas recebido pelos batizados
mencionados em Atos 19, ela diz que, por causa do dom de línguas, eles “estavam
habilitados a trabalhar como missionários em Éfeso e circunvizinhanças, e
também a sair para proclamar o evangelho na Ásia Menor”. (“Atos dos Apóstolos”.
Ellen G. White Estate, Inc. 2007, p 157. versão eBook. Grifo acrescentado).
Obviamente que a tarefa de fazer exegese do texto bíblico é do exegeta, e não
de E.G.W. Esta escritora sempre enfatizou que a Bíblia é sua única intérprete,
e não seus escritos. Desse modo, E.G.W. não pode ser responsabilizada pela
imperícia e negligência de biblistas adventistas.
[6] Cf. Ozeas Caldas
Moura, “O dom de línguas” Revista Adventista, set. 2007, p.16.
7 Cf. Gerhard F. Hasel,
“Speaking in Tongues”.
8 Cf. Vagner Kuhn, O
dom de línguas na missão, pp.609–630.
Fonte: Estudos Adventistas
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