ABIGAIL, UMA MULHER INTELIGENTE QUE PROMOVEU A CULTURA DA PAZ
Ricardo André
Queremos neste artigo
meditar sobre um episódio marcante na vida de uma mulher fantástica, de nome
Abigail, que viveu nos tempos do Antigo Testamento. Embora
tivesse casada com um homem perverso, era cheia do Espírito de Deus. Ela soube
lidar com circunstâncias muito difíceis com muita sabedoria e humildade. Ela é,
indubitavelmente, uma pessoa que deve ser imitada. Sua história está registrada
no livro de 1 Samuel 25. Nela,
encontramos relevantes lições para nós que vivemos no século XXI. Tais lições com
certeza nos ajudarão nas mais diversas situações da nossa vida.
Nabal,
um rico perverso
Davi e seus homens
estavam fugindo de Saul. Enquanto se refugiaram no deserto de Parã, eles se
encontraram com os pastores e os animais de um rico proprietário chamado Nabal.
Em vez de se aproveitarem dos animais, Davi e seus homens protegeram os
pastores e animais. Finalmente, chegou a primavera. Nos tempos bíblicos, comumente
esse era o tempo da tosquia das ovelha. As 3.000 ovelhas de Nabal produziam
bastante lã, muito provavelmente a maior fonte de sua renda. Esse período de
prosperidade financeira produzia um espírito festivo no ar, e Nabal deveria
estar de bom humor e feliz. Sabendo disso, Davi enviou dez de seus homens para
pedir uma doação de alimento, em reconhecimento de sua parte na proteção do
rebanho de Nabal durante o inverno.
Contudo, em resposta à
mensagem cortês de congratulações de Davi, e seu pedido de provisões, Nabal
insolentemente sugeriu que Davi era um inútil que não merecia bondade, muito
menos uma recompensa. Ele afirmou: “Quem é esse tal de Davi?, perguntou-lhes
Nabal. Quem esse filho de Jessé pensa que é? Hoje em dia, há muitos servos que
fogem de seus senhores. Devo pegar meu pão, minha água e a carne dos animais
que abati para meus tosquiadores e entregar a um bando que vem não se sabe de
onde?” (1Sm 25:10-11). Com essas palavras, Nabal deixou muito nítido que
pensava ser Davi um ninguém. Em sua mente Davi era tão insignificante que não
valia a pena perguntar de onde vinha nem o que fazia.
Ao negar provisões a
Davi e enviar os dez homens de Davi de mãos vazias Nabal estava, deveras,
confirmando o significado de seu nome, que é “tolo” e “sem juízo” (Comentário Bíblico Adventista, v. 2, p. 617).
O tolo e mesquinho avarento Nabal, não somente recusou partilhar sua fartura,
mas ainda insultou os mensageiros de Davi. Os servos de Nabal reconheceram que
seu senhor era “um homem tão cruel que ninguém consegu[ia] conversar com ele”
(1Sm 25:17, NVT).
Quando Davi ouviu o
relato, se sentiu profundamente ofendido, sua pressão sanguínea se elevou ao
chamejante ponto de vingança. Ele e 400 de seus homens mais capazes partiram
imediatamente para eliminar Nabal e toda a sua população de servos do sexo
masculino (1Sm 25:13).
Abigail, inteligente pacificadora
No meio dessa irascível
cena entrou uma mulher de grande encanto, cujas palavras e procedimento calmos
salvaram sua casa de destruição certa e guardaram o futuro rei de manchar
temerariamente as mãos com sangue inocente. As Sagradas Escrituras dizem que
Abigail era uma mulher “inteligente e bonita” (1Sm 25:3), e seus atrativos
evidenciavam-se em sua alma porque ela havia escolhido a paz. Me impressiona a
Bíblia, que fora escrita numa cultura que inferiorizava a mulher, destacar a
capacidade intelectual de Abigail. Ela destaca que Abigail era “inteligente e
bonita”, exatamente nessa ordem. Isso é assaz importante. É como quisesse dizer
que a mulher deve ser valorizada não pelo seu corpo, como é comum hoje na
cultura ocidental, mas pela sua capacidade intelectual.
Essa qualidade de
Abigail me faz pensar sobre a posição da mulher em nossa sociedade atual. Ora,
se a mulher tem a mesma capacidade intelectual do homem, ela pode e deve ocupar
os mesmos espaços historicamente ocupados por eles, inclusive ocupando cargos
de direção em empresas. Já vemos isso hoje, mas os indicadores divulgados pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em março de 2018, mostram que o
caminho a ser percorrido para a igualdade de gênero permanece longo e tortuoso.
Embora representem pouco mais da metade (51,7%) dos trabalhadores brasileiros,
somente 37,8% delas estão em cargos gerenciais existentes no Brasil. No que se
refere a remuneração, apesar da melhora nos últimos anos, uma mulher ainda
recebia 76,5% do rendimento dos homens em 2016.
Voltemos a Abigail. Ela
só não se deu bem no amor. Não sabemos ao certo como ela pode casar com um
brutamonte cruel e mesquinho, como Nabal. Provavelmente seu casamento com Nabal
tenha sido arranjado, como era comum nos tempos bíblicos, e em muitas partes do
mundo hoje. E então ela não teve escolha a esse respeito.
Uma das mais difíceis
de todas as relações humanas é apaziguar a ira. As palavras podem ser muito
incitantes. Às vezes parece impossível desviar as pessoas que estão obcecadas
pela ira e inclinadas à vingança. Todavia, Abigail fez exatamente isto.
Ao ser informada por um
servo do tratamento mau do seu marido dispensado a Davi, Abigail ficou
preocupada com a sua casa e com os seus. Ela sabia que dessa vez Nabal havia
ido longe demais e colocado em risco a vida dele, a vida dela, da família e de
todos os servos. Sem contar nada para seu marido, imediatamente preparou um
banquete para Davi e seus homens e foi se encontrar com o guerreiro e seu
bando. Note que, ao invés de atear fogo sobre a confusão, ela joga água. Quando
encontrou-se com Davi, prostrou-se diante dele e se dirigiu a ele como se já
fosse rei. “Eu, tua serva, não vi os rapazes que meu senhor enviou” (v. 25).
Por
outras palavras, tentava dizer: “Se eu os tivesse visto, tentaria usar a minha
influência para evitar este problema”.
“Nada tendo de ostentação ou orgulho, antes
cheia da sabedoria e amor de Deus, Abigail revelou a força de sua devoção para
com sua casa, e esclareceu a Davi que o procedimento indelicado de seu marido
de nenhuma maneira fora premeditado contra ele como uma afronta pessoal, mas
que tinha simplesmente sido a explosão de uma natureza infeliz e egoística” (Ellen
G. White, Patriarcas e Profetas, p. 666).
O seu apelo, baseado no
caráter de Deus e no Seu soberano poder, deixou Davi desarmado. Uma das mais
reveladoras características dessa culta e refinada mulher estava em não
pretender nenhum mérito por arrazoar calmamente com Davi procurando desviá-lo
de seu desejo de vingança. Ao contrário, deu a Deus todo o louvor e glória.
Davi aceitou a reprovação com louvor a Deus pelo sábio conselho de Abigail. “Bendito
seja o Senhor, o Deus de Israel, que hoje a enviou ao meu encontro. Seja você
abençoada pelo seu bom senso e por evitar que eu hoje derrame sangue e me vingue
com minhas próprias mãos. De outro modo, juro pelo nome do Senhor, o Deus de
Israel, que evitou que eu lhe fizesse mal, se você não tivesse vindo depressa
encontrar-me, nem um só do sexo masculino pertencente a Nabal teria sido deixado
vivo ao romper do dia". Então Davi aceitou o que ela havia lhe trazido e
disse: "Vá para sua casa em paz. Ouvi o que você disse e atenderei o seu
pedido" (1Sm 25:32-35). Em lugar de ser impaciente e manter o rancor, permitiu
que as palavras calmas e respeitosas de Abigail influenciassem seu coração.
“De manhã, quando Nabal
estava sóbrio, sua mulher lhe contou todas essas coisas; ele sofreu um ataque e
ficou paralisado como uma pedra. Cerca de dez dias depois, o Senhor feriu a
Nabal, e ele morreu” (1Sm 25:37,38). A princípio Abigail escondeu de Nabal,
sobre como as coisas se resolveram com Davi. A intenção era boa, o resultado
por sua vez, não foi bom para seu marido.
Quando ela contou, ele
ficou tão estressado que provavelmente tenha tido um Acidente Vascular Cerebral
(AVC), porque a Bíblia afirma que ele “ficou paralisado como uma pedra”. Ao
saber disso, Davi louva a Deus e pede Abigail em casamento, ela diz: Sim! (v.
39-42). Daí em diante vai viver uma novidade de vida. Deus, em sua infinita
bondade lhe concede um recomeço. De uma mulher casada
com um homem tolo e mau, ela se tornou a esposa do rei Davi. E eu fico a pensar
em como tudo mudou para ela, e sobre a forma inteligente e sábia com a qual ela
venceu sua crise.
As
lições da vida de Abigail
A experiência de
Abigail de lidar com dois homens difíceis ilustra como a beleza interior da
personalidade, impregnada da graça e atmosfera do Céu, pode intervir em circunstâncias
difíceis e influenciar outros para o bem. Nos nossos dias há muitas pessoas que
promovem a discórdia, confusão, o ódio e a violência. Já pensou se Abigail
fosse uma mulher insensata e incendiária, teria incentivado Nabal a “tomar
satisfações” com Davi. O resultado seria o de muitas vidas inocentes
desperdiçadas. Ellen G. White compara sua piedade com o “perfume de uma flor,
[que] exalava de seu rosto, de suas palavras e ações, sem que disso ela se
apercebesse” (Idem, p. 667). Como
cristãos, somos chamados por Jesus a rodear-nos a nós mesmos e aos outros com a
inspiração edificante que vem das flores. E podemos fazer isso sendo bondosos,
piedosos e pacificadores. Em nossos relacionamentos interpessoais no lar, na
escola, na Faculdade, em nossa vizinhança, na igreja ou em qualquer meio social em que estivermos inseridos, quando houver atritos e tensões, não
precisamos alimentar a violência. Devemos iniciar um ciclo de paz e vida. Não
façamos guerra em nossa casa ou em nosso ambiente de trabalho.
Vivemos num mundo
dividido, com muros, cercas, polarização política, classes sociais, raças,
culturas e riquezas, que nos separam uns dos outros. E, é justamente nesse
mundo dividido, impregnado pelo ódio, que somos chamados a sermos
pacificadores. “Felizes os que promovem a paz, pois serão chamados filhos de Deus”
(Mt 5:9), disse Jesus. Vejam como esse texto na Nova Tradução na Linguagem de Hoje ficou com expressões bem mais
abarcantes e eternas: “Felizes as pessoas que trabalham pela paz, pois Deus as
tratará como seus filhos”. Segundo Jesus, os pacificadores são mais felizes, pois
verão o Deus da paz e viverão no eterno reino da paz. Portanto, façamos a paz
com nosso semelhante! O teólogo William Barclay disse que “em cada homem há uma
tensão; cada homem é uma guerra civil em marcha”.
Caro(a) amigo(a)
leitor(a), a única maneira de qualquer um dentre nós se tornar um verdadeiro
pacificador como Abigail consiste em termos a paz de Deus em nosso interior,
aquela que advém quando, como disse Paulo: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo
vive em mim” (Gl 2:20). Não quer você abrir seu “coração” para que Cristo entre
e viva em você, e promova mudanças radicais em sua vida? Faça isso agora!
Deus te abençoe ricamente!
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