A CENTRALIDADE DE CRISTO E A INTERPRETAÇÃO DE APOCALIPSE 17
Por
Clacir Virmes Júnior e João Renato Alves da Silva
O
que simbolizam os montes e reis de Apocalipse 17? E qual a importância de se
entender o capítulo em seu contexto e em uma visão mais ampla?
Um dos maiores desafios
na interpretação das profecias bíblicas está relacionado a Apocalipse 17:9 a
11:
“Aqui está o sentido,
que tem sabedoria: as sete cabeças são sete montes, nos quais a mulher está
sentada. São também sete reis, dos quais caíram cinco, um existe, e o outro
ainda não chegou; e, quando chegar, tem de durar pouco. E a besta, que era e
não é, também é ele, o oitavo rei, e procede dos sete, e caminha para a
destruição”.
Devido à complexidade
dos símbolos aqui descritos, têm surgido interpretações polêmicas sobre essa
passagem. Algumas controvérsias têm confundido os interessados em encontrar uma
explicação do texto fundamentada nas Escrituras.
Atualmente, não há uma
interpretação definitiva sobre o texto. Contudo, por meio de um exame cuidadoso
da Bíblia, sabemos o que os símbolos dessa profecia não podem significar e,
assim, temos condições de descartar as interpretações alarmistas e equivocadas
aplicando uma hermenêutica correta à profecia.
Neste artigo temos três
objetivos. Em primeiro lugar, mostrar a inconsistência e descartar uma
interpretação de Apocalipse 17 que insiste em se perpetuar em alguns setores do
adventismo. Depois, mostrar as opções interpretativas para o capítulo na
compreensão de teólogos adventistas estudiosos do tema. Por fim, apresentar
qual deve ser o foco principal no estudo dessa profecia, em particular, e do
livro do Apocalipse, independente- mente das discussões relacionadas à
interpretação de suas partes mais enigmáticas.
Tabela
com interpretações proféticas de Apocalipse 17. Parte 1. Adaptação da Revista
Ministério Jul-Set/2019
Tabela
com interpretações proféticas de Apocalipse 17. Parte 1. Adaptação da Revista
Ministério Jul-Set/2019
A
teoria dos sete papas
Tem circulado no meio
adventista uma interpretação de Apocalipse 17 conhecida como “teoria dos sete
papas”. Ela propõe que as sete cabeças da besta escarlate sejam as sete colinas
de Roma, pelas quais a cidade é famosa. Essa suposição também propõe que, a
partir do estabeleci- mento do Estado do Vaticano, mediante o Tratado de
Latrão, assegurou-se à Igreja Católica independência, autoridade civil e
política, dando início, assim, ao tempo do fim, à cura da ferida mortal e ao
retorno do papado como poder político.
A teoria sugere que, a
partir de 1929, surgiriam sete pontífices que governariam sucessivamente até a
segunda vinda de Cristo. Logo, Bento XVI seria o sétimo papa eleito, que
deveria durar pouco tempo, e seu sucessor, Francisco, o oitavo, que governaria
até o fim.
Avaliando essa explicação
à luz do historicismo se verifica que a teoria faz uma espécie de fusão entre
os métodos de interpretação historicista e futurista, inclinando-se mais em
direção a uma exposição sensacionalista e dispensacionalista do que propriamente
bíblica. O que encontramos na “teoria dos sete papas” é um problema
hermenêutico sério. As Escrituras apontam para o historicismo como o método
bíblico para a interpretação das profecias. Esse método foi utilizado pelo
próprio Cristo e pelos profetas bíblicos, que viam o cumprimento das profecias
ao longo da história e não somente com foco em um tempo futuro (Daniel 2:31-45;
9:2; Mateus 17:12, 13; 24:15;
Marcos 1:2-4; 13:14; Lucas 21:20; 24:27).
A profecia de
Apocalipse 17 descreve uma meretriz montada em uma besta escarlate com sete
cabeças e dez chifres (Apocalipse 17:7), sendo essas sete cabeças também sete
montes e sete reis (Apocalipse 17:9). Os setes montes, onde a mulher está
assentada, não podem ser vistos como as sete colinas de Roma, pois a
palavra grega para “monte” é óros que
significa “monte ou montanha”, e não colina.
Biblicamente, “monte” é
símbolo de reinos e impérios (Salmo 48:2; Isaías 2:2,3; Jeremias 17:3; 31:23;
Ezequiel 17:22,23; 36:1-5; Daniel 2:34,35; Zacarias 4:7). Kenneth Strand explica que, quando
“procuramos pelo uso escriturístico do vocábulo ‘montanha’ nos casos em que a
palavra é empregada como um símbolo […] nunca encontramos ‘montanha’ usada para
simbolizar um monarca ou governante individual. Em vez disso, a encontramos
sendo usada como símbolo para uma nação ou império.”
Portanto, “sete
cabeças”, “sete montes” e “sete reis” são termos intercambiáveis que simbolizam
as mesmas entidades, isto é, impérios/reinos. Tomando como base o método
historicista e a perspectiva temporal do profeta João, no primeiro século d.C.,
cinco desses impérios/reinos já haviam caído, um existia, e o outro ainda
estava por vir (Apocalipse 17:10).
A “teoria dos sete
papas” aponta para Bento XVI como o sétimo pelo fato de ele ter renunciado e
seu pontificado ter durado pouco (quase 8 anos). Contudo, essa interpretação
ignora o tempo de pontificado ainda menor de João Paulo I, que durou apenas 34
dias, em 1978. A ideia de que o sétimo rei (Roma papal) deveria durar “pouco
tempo” (Apocalipse 17:10) vem do termo grego olígon que, segundo Vanderlei
Dorneles, “pode ser entendido da perspectiva da garantia da vitória dos fiéis
de Deus alcançada na cruz e não do ponto de vista do tempo cronológico”.8 Assim, a expressão “pouco tempo” teria uma
conotação mais qualitativa do que quantitativa. Por exemplo, ela é usada em
Apocalipse 12:12, texto onde é declarado que, após a cruz, o diabo sabia que
“pouco tempo” (olígon kairón) lhe restava. Entretanto, para se referir ao
período após os mil anos, quando Satanás será solto por “pouco tempo”, o
profeta usou a expressão mikrón krónon (Apocalipse 20:3), indicando um período
de tempo quantitativamente curto.
Interpretações
historicistas
Uma vez que a “teoria dos
sete papas” é exegética e historicamente incompatível com o texto bíblico,
quais outras alternativas temos para explicar Apocalipse 17? O quadro acima
apresenta as principais interpretações adventistas. Podemos verificar algumas
diferenças de opinião entre os autores com respeito à identificação dos oito
reis/montes/cabeças. Contudo, todos eles estão de acordo com o método
historicista de interpretação profética.
É possível visualizar
três grandes divisões no quadro. Temos uma interpretação pioneira postulada por
Uriah Smith e, depois, o surgimento de uma interpretação fortemente ligada à
compreensão de que a visão de Apocalipse 17 tem como foco o tempo do fim e,
portanto, descreve a cura da ferida mortal da besta do mar de Apocalipse 13.
Assim, C. Mervyn
Maxwell, Hans K. LaRondelle e Jacques Doukhan iniciam a identificação das
cabeças/montes/reis com o Império Babilônico e, consequentemente, excluem Egito
e Assíria de sua interpretação. A última divisão são os intérpretes
contemporâneos que entendem que a explicação deve ter como referência o tempo
do profeta João. No entanto, o que une todos esses intérpretes é que as
cabeças/ montes/reis são reinos consecutivos, seja iniciando por Babilônia ou
pelo Egito.
É visível que a
interpretação de Uriah Smith destoa das demais, uma vez que ele identificou os
símbolos como as formas de governo romano ao longo da história. Essa sugestão
parece ser compatível com o método historicista, uma vez que ela é
caracterizada pelo cumprimento dos símbolos proféticos ao longo do tempo.
Entretanto, ela não é a melhor maneira de interpretar essa profecia.
A interpretação
historicista que identifica as cabeças da besta como “reinos” é mais
biblicamente consistente do que a interpretação que apela para as formas de
governo romano. Isso porque a Bíblia sistematicamente identifica reinos
específicos, e não formas de governo, em suas profecias.
Na época de João, os
cinco primeiros reinos/poderes já haviam passado. O profeta viveu no tempo do
sexto rei (Roma imperial). Portanto, o sétimo e o oitavo se encontravam ainda
no futuro, a partir de sua perspectiva histórica. Praticamente todos os
estudiosos citados no quadro compreendem o sétimo rei como sendo Roma papal,
exceto Uriah Smith. Para ele, o sétimo rei não deveria ser Roma papal, pois
esse continuou por muito mais tempo que os anteriores juntos. Depois de Roma
imperial, para Smith, houve um governo que durou 60 anos em Roma, sob o título
de Exarca de Ravena.
Analisando os quadros
acima, parece claro que os autores divergem entre si mais acentuadamente quanto
à interpretação do oitavo rei. Essas diferenças na interpretação profética
podem ser explicadas considerando que o aparecimento do oitavo rei é um evento
escatológico que ainda não se cumpriu. No momento em que as profecias descritas
em
Apocalipse 15:1 a 18:24
começarem a se cumprir, compreenderemos de maneira plena o significado de
Apocalipse 17.
O
centro da profecia
Embora muito estudo
tenha sido dedicado à identificação da besta escarlate de Apocalipse 17,
corremos perigo de perder o foco se a análise desse capítulo se encerrar
simplesmente com a informação de quem são os poderes representados pela
profecia.
O Apocalipse começa com
a declaração: “Revelação de Jesus Cristo” (Apocalipse 1:1). Ele é tanto o
conteúdo quanto a fonte das revelações de todo o livro. Assim, apesar de seu
conteúdo relevante quanto aos eventos futuros, Apocalipse 17 foi dado para que tivéssemos
segurança em Jesus em meio aos acontecimentos finais. Apocalipse 17:12 a 14
descreve de maneira concisa o desfecho da batalha do Armagedom (Apocalipse
16:12-16), tema ampliado na descrição da vinda de Jesus em Apocalipse 19:11 a
21.
Conforme proposto por
Ranko Stefanovic, Apocalipse 16:19 é uma passagem-trampolim que encerra a série
das sete pragas e introduz o juízo sobre a Babilônia mística dos últimos dias.
Portanto, Apocalipse 17 e 18 apresentam uma explicação de como acontecerá a
punição de Babilônia.
As descrições da
meretriz e da besta de Apocalipse 17 não foram dadas para deslumbrar o
estudante da profecia, mas para mostrar o verdadeiro caráter e a impotência
dessas entidades diante do Salvador. Primeiro, o anjo informou a João que a
meretriz será julgada (Apocalipse 17:1). Ela é retratada como um poder
perseguidor (Apocalipse 17:6). Além disso, a besta é um poder que se opõe a
Deus. João a descreveu como uma paródia/contrafação (comparar Apocaipse 1:4, 8
com 17:8). Mas essa descrição é irônica: a besta parece ser, mas não é. Por
fim, os reis da Terra se unem à besta e à meretriz para guerrear contra o
Cordeiro, mas Ele as vence, porque é verdadeiramente “o Senhor dos senhores e
Rei dos reis” (Apocalipse 17:14).
Assim, o foco central
de Apocalipse 15 a 18:24 não está no dragão, na besta de sete cabeças e dez
chifres, na meretriz embriagada, no falso profeta nem nos três espíritos
imundos semelhantes a rãs (Apocalipse 16:13; 17:6, 7), mas em Jesus Cristo.
Ele é o grande
Vencedor. Por causa de Seu sacrifício, Ele vencerá os poderes contra os quais
Seus súditos não têm a mínima chance de vitória. Apocalipse 17:14 deixa claro
que é do Cordeiro a vitória sobre o sistema político-religioso opressor e
rebelde dos últimos dias. Os “chamados, escolhidos e fiéis” vencem unicamente
porque estão “com Ele” (em grego, met’ autou). A chave para a vitória do povo
de Deus nos dias em que uma coalizão político- religiosa tentará enganar o
mundo é estar com o Cordeiro. Nas palavras de Hans K. LaRondelle, “Apocalipse
17 deve ser considerado uma das mais importantes visões de encorajamento para o
povo de Deus no tempo do fim”.
Conclusão
Conforme a instrução do
anjo, a interpretação dos símbolos de Apocalipse 17 requer “mente sábia”
(Apocalipse 17:1, versão NVI). A “teoria dos sete papas” tira o foco de Cristo
e o coloca sobre os poderes terrenos, criando agitação e alarmismo
incompatíveis com a fé bíblica. Apesar de haver divergências entre os
intérpretes adventistas sobre a identificação do sétimo e oitavo rei/monte/cabeça
da profecia, permanece o fato de que eles se valem do método historicista de
interpretação profética para compreender a mensagem de Deus.
Qualquer interpretação
de Apocalipse 17 que não se centralize em Jesus nem em Sua Palavra erra o alvo.
Uma compreensão equivocada da profecia pode levar as pessoas a se concentrarem
nos tempos difíceis que se aproximam e não no Cordeiro que já nos assegurou a
vitória final. Precisamos colocar Cristo de volta ao centro da interpretação
profética, para que a profecia cumpra seu papel de consolar e animar os santos
nos últimos momentos da história terrestre.
Referências:
1. José Carlos Ramos, A Mensagem de Deus: Como
entender as profecias bíblicas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2012),
p. 18-36.
2. Jon Paulien,
Parousia 4 (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2016), p. 11 79; Reimar Vetne,
ibid., p. 81-120.
3. Johannes P. Louw e Eugene A. Nida,
Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on semantic domains (Nova
York: United Bible Societies, 1996).
4. Kenneth A. Strand,
“The seven heads: Do they represent Roman emperors?”, Symposium on Revelation:
Exegetical and general studies, DARCOM, (Silver Spring, MD: Biblical Research
Institute, 1992), v. 7 , p. 186.
5. Francis Nichol
(ed.), Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora
Brasileira, 2011-2014), v. 7, p. 796.
6. Vanderlei Dorneles,
“O oitavo império”, Ministério, mai/jun 2013, p. 29; Ranko Stefanovic, “A besta
de sete cabeças”, Ministério, mar/abr 2014, p. 24.
7. John-Peter Pham,
Heirs of the Fisherman: Behind the scenes of papal death and succession (Nova
York, Oxford University Press, 2004), p. 188.
8. Dorneles, “O oitavo
império”, p. 29.
9. Usamos aqui o mesmo
método comparativo utilizado por Ángel Manuel Rodriguez, “As sete trombetas do
Apocalipse”, Ministério, mai/jun 2012, p. 17-20.
10. Uriah Smith,
Thoughts, Critical and Practical, on the Book of Daniel and the Revelation:
Being and exposition, text by text, of these importante portions of the Holy
Scriptures (Battle Creek, MI: Review and Herald, 1882), p. 747-753.
11. C. Mervyn Maxwell,
Uma Nova Era Segundo as Profecias do Apocalipse, 3ª ed. (Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira, 2002), p. 490-498.
12. Hans K. LaRondelle,
How to Understand the End- Time Prophecies of the Bible: A Biblical-contextual
approach (Bradenton: First Impressions, 2007), 274-288.
13. Jacques B. Doukhan,
Secrets of Revelation: The Apocalypse through Hebrew eyes (Hagerstown, MD:
Review and Herald, 2002), p. 160-165.
14. Ekkehardt Mueller,
“A besta de Apocalipse 17: Uma sugestão”, Parousia 4 (2005), p. 31-41.
15. Jon Paulien,
Armageddon at the Door: An insider’s guide to the book of Revelation
(Hagerstown, MD: Review and Herald, 2008), p. 204-223.
16. Ranko Stefanovic,
Revelation of Jesus Christ: A commentary on the book of Revelation, 2ª ed.
(Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2009), p. 511-531; O Apocalipse
de João: Desvendando o último livro da Bíblia (Tatuí, SP: Casa Publicadora
Brasileira, 2018), p. 97-104.
17. Dorneles, “O oitavo
império”, p. 27-30; “O oitavo império: Novas hipóteses para os símbolos de
Apocalipse 17”, Kerygma 9 (2) (2013), p. 27-44.
18. Stefanovic,
Revelation of Jesus Christ, p. 511.
19. LaRondelle, How to
Understand the End-Time Prophecies of the Bible, p. 285.
Clacir
Virmes Júnior, doutorando em Teologia, é professor da
Faculdade Adventista da Bahia.
João
Renato Alves da Silva, pós-graduando em Teologia Bíblica, é
pastor em Cuiabá, Mato Grosso.
Este artigo foi
originalmente publicado na edição da Revista Ministério (Julho-Setembro/2019).
Comentários
Postar um comentário