RECAPITULANDO NOSSAS CRENÇAS FUNDAMENTAIS: RESUMOS DA GRANDE NARRATIVA BÍBLICA
Elias
Brasil de Souza*
A
história do adventismo e as Crenças Fundamentais estão intimamente ligadas. O
desenvolvimento das 28 Crenças Fundamentais refletem o nascimento, a missão e o
crescimento da igreja através de sua inspiradora história desde 1844.
As 28 Crenças
Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia (CF)1 expressam a unidade da
Igreja mundial em torno dos principais ensinamentos bíblicos e nos relembra
que, como adventistas, temos uma história para contar – a história de Deus e de
nosso relacionamento com Ele, em Jesus Cristo. Cada crença apresenta uma
declaração concisa sobre um determinado aspecto do plano de Deus para a
salvação e aponta o nosso lugar nesse plano.
Entretanto, essas
declarações de crença não são um fim em si mesmas. Elas nos conduzem à Bíblia
que, como a “infalível revelação da vontade [de Deus]”, transmite
essencialmente “o conhecimento necessário para a salvação”, constitui “o padrão
de caráter, a prova da experiência, o revelador definitivo de doutrinas”, e
contém “o registro fidedigno dos atos de Deus na História.”2
Este artigo traz como
argumento que as 28 Crenças Fundamentais do adventismo são como resumos da
grande narrativa bíblica e, desse modo, mostra que somente a Bíblia apresenta
respostas coerentes e confiáveis para questões centrais da vida, como: Qual é o principal fundamento da realidade?
Quem somos nós? O que está errado e qual é a solução? Como devemos viver? Para
onde vamos?
De acordo com a Bíblia,
Deus Se mantém como a base da realidade e, portanto, provê o fundamento no qual
os seres humanos podem existir e dar sentido à sua vida. É verdadeiramente
significativo que nossa primeira declaração de crença afirme a convicção
bíblica de que Deus fala a nós de tal maneira que aqueles cuja mente é
iluminada pelo Espírito Santo conseguem entender a revelação que Deus faz de Si
mesmo nas Santas Escrituras. Ao contrário do pensamento extra- bíblico que
retrata a Divindade como incapaz ou não disposta a se comunicar com os
habitantes da Terra, a Bíblia afirma que Deus, que é um Deus pessoal, pode e
realmente revela o Seu caráter, Seus atos, Sua vontade e planos para o ser
humano em Sua Palavra escrita.
Desse modo, a
compreensão da Bíblia como a revelação de Deus apresenta o fundamento para
todas as outras declarações de crença que se seguem, iniciando com as próximas
quatro que conduzem à compreensão bíblica de Deus. Nós aceitamos o ensinamento
bíblico de um Deus que existe em uma unidade de três Pessoas co-eternas: Pai,
Filho e Espírito Santo. Embora alguns tenham negado a realidade ou a utilidade
da declaração bíblica de um Deus triúno, esse ensinamento bíblico sobre a
natureza da Divindade não pode deixar de ser enfatizado.
Por exemplo: “Somente
um Deus que é triúno pode ser um Deus pessoal e, portanto, um Deus de amor. O
amor humano não pode refletir a natureza de Deus, a menos que Deus seja uma
trindade de pessoas que vivam em união e comunhão. Uma mônada solitária não pode
amar e, como não pode amar, também não pode ser uma pessoa. E se Deus não fosse
um Deus pessoal, também não poderíamos ser – e se não fôssemos pessoas, não
poderíamos amar.”3 Portanto, mais do que um conceito teológico, o ensinamento
bíblico sobre a Trindade apresenta os fundamentos para a nossa compreensão de
Deus, para o nosso relacionamento com Ele e a fé nEle. A partir dessa
compreensão, emanam todos os demais aspectos do plano da salvação e da vida
cristã. Assim, a convicção bíblica absoluta de que Deus nos ama não somente dá
significado à nossa vida aqui e agora – ela também fundamenta a nossa
experiência de fé em uma vida eterna com Deus no mundo porvir.
De extrema importância
para os cristãos adventistas do sétimo dia é o conceito da criação. Com relação
a isso, a narrativa bíblica fica em flagrante contraste com a cosmologia
moderna que concebe o cosmos como um sistema autogerador, vindo a produzir seus
processos biofísicos e astronômicos sem qualquer causa fora de si mesmo.4
Segundo as Escrituras,
Deus criou o mundo em seis dias literais e descansou no sétimo dia (Gênesis
2:1-3). Deus criou o homem e a mulher como a obra- prima de Sua atividade
criadora (Gênesis 1:26-28; 2:7). Entretanto, os seres humanos não existem para
si mesmos, mas vivem em relacionamento uns com os outros – para compartilhar a
Terra com outras criaturas e exercer seu cuidado como mordomos responsáveis
sobre toda a criação. Os seres humanos são a imagem de Deus introduzida no
mundo. Como tal, devem representar Deus para a ordem criada. É nisso que reside
o valor e a dignidade dos seres humanos, e a base fundamental para os direitos
humanos. De todos os seres criados, é dito que apenas os humanos foram criados
à imagem de Deus. Por outro lado, quando comparamos o poder e a grandeza do
Deus criador e as dimensões cósmicas da realidade, vem-nos à lembrança: “Que é
o homem, para que com ele Te importes? E o filho do homem, para que com ele Te
preocupes?” (Salmo 8:4).
Na verdade, somos
criaturas muito frágeis. Viemos do pó e ao pó retornaremos. E, ao contrário das
opiniões não bíblicas sobre a humanidade, não fomos criados com uma alma
imortal, mas como uma unidade holística de corpo, mente e espírito, e
dependemos de Deus para a vida, respiração e tudo o mais. Essa compreensão da natureza
humana é essencial em relação a algumas doutrinas bíblicas, como a do juízo
investigativo e a ressurreição. (Na verdade, a suposição de que a alma da
pessoa vai para o Céu após a morte torna o juízo investigativo e a ressureição
dos mortos desnecessários, para não dizer sem sentido.)
Ao mesmo tempo, porém,
nos lembramos de que: “Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais e
o coroaste de glória e de honra. Tu o fizeste dominar sobre as obras das Tuas
mãos; sob os seus pés tudo puseste” (Salmo 8:5, 6).
Então, afinal, quem
somos nós? Com base em uma perspectiva secular, conforme Pascal observou, os
seres humanos são incorruptos ou incuráveis. Mas a boa coisa é que: “A religião
cristã sozinha foi capaz de curar esses dois vícios, não por excluir um por
meio do outro, de acordo com a sabedoria do mundo, mas excluindo ambos segundo
a simplicidade do evangelho, pois ele ensina os justos e os eleva até mesmo a
uma participação na própria Divindade; que, neste estado sublime, eles ainda
carregam a fonte de toda a corrupção que os torna sujeitos ao erro, à miséria,
à morte e ao pecado durante toda a sua vida, e proclama aos mais ímpios que
eles podem receber a graça de seu Redentor.”5
Em comparação com o
Criador e as dimensões cósmicas da realidade criada, os seres humanos são menos
que nada, isto é, são pó (Jó 10:9) No entanto, por terem sido criados à imagem
de Deus, a Quem nem mesmo o pecado pode obliterar, os seres humanos são a obra-
prima da criação de Deus e o alvo supremo de Seu plano redentor (João 3:16).
Por mais que apreciemos
a vida, sabemos que há alguma coisa fundamentalmente errada com a realidade,
quando a vivenciamos. O horroroso espectro do mal paira por todo lado. Os seres
humanos, às vezes, fazem coisas terríveis aos seus semelhantes, a outras
criaturas e ao próprio meio ambiente. Ao relatar que aconteceu algo errado com
a boa criação de Deus, as Escrituras revelam a realidade do pecado. Um conflito
cósmico se iniciou no Céu, na própria sede de governo do Deus do Universo. (Isaías
14:12-15; Ezequiel 28:12- 19). Uma das mais elevadas criaturas se rebelou
contra Deus e, ao ser expulsa do Céu, foi bem-sucedida ao trazer o pecado para
o nosso planeta. Assim, o conflito que iniciou no Céu, se espalhou por toda a
Terra e provocou grande devastação em toda a criação de Deus.
Nossos primeiros pais
violaram as ordens de Deus no Éden e fizeram com que o pecado afetasse Sua
criação. Desde então, uma batalha cósmica se seguiu entre Deus e as forças do
mal. Entretanto, “na plenitude dos tempos” (Gálatas 4:4), Deus enviou Seu Filho
Jesus para reverter o pecado de Adão e Eva (Romanos 5). Foi isto que Jesus
disse a Nicodemos naquela memorável conversa na calada da noite: “Porque Deus
tanto amou o mundo que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo o que nEle crer
não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Por meio de Seu sacrifício na
cruz, Jesus fez a provisão para o perdão de cada um de nós, pois somente Aquele
que é totalmente Deus poderia fazer a expiação por nossos pecados. Mas Ele também,
“tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público”,
tornando conhecidos os resultados do mal diante do Universo (Colossenses 2:14,
15). Assim, embora a entrada do pecado tenha causado danos à criação de Deus e
trazido tanto sofrimento às Suas criaturas, ao aceitarmos a Jesus, somos
restaurados à completa comunhão com Deus enquanto aguardamos o tempo em que
toda a criação será redimida do pecado e de suas consequências.
É interessante notar
que mais de um terço das nossas Crenças Fundamentais dizem respeito a como
devemos proceder em nossa vida, à luz da narrativa bíblica.
Assim, somos lembrados
de que Cristo nos garantiu a vitória sobre as forças do mal. Elas nos
apresentam também algumas perspectivas em relação à igreja, ao remanescente,
aos dons espirituais, à força permanente da lei de Deus, à mordomia, estilo de
vida e família.
Vale lembrar que, nos
tempos antigos, o sucesso de uma pessoa estava ligado ao de sua família ou
aldeia, ou aos seus sócios. As pessoas encontravam significado para sua vida na
comunidade.
A nossa época, por sua
vez, é marcada por um individualismo quase patológico. Nossa competitividade
pelo sucesso pessoal tem a tendência de nos tornar indiferentes ao papel
espiritual da igreja e da família.
Temos a inclinação de
assumir que nossas escolhas pessoais são algo que pertence exclusivamente a
nós, e ao mesmo tempo nos esquecemos de que nossas palavras, convicções e
estilo de vida exercem o seu impacto sobre aqueles que estão ao nosso redor.
Esse conjunto de declarações nos faz lembrar de como devemos viver, não somente
como cristãos, individualmente, mas também como membros do corpo de Cristo.
Na verdade, nós não
existimos apenas como indivíduos, mas como parte de uma comunidade de crentes.
A experiência da
salvação não deve ficar confinada à vida particular de cada um, pois é algo que
deve ser apreciado e compartilhado com a comunidade de crentes, onde as pessoas
alcançam todo o seu potencial em união com Cristo e no serviço para Ele. Em
outras palavras, somos chamados para ser discípulos de Jesus e viver um estilo
de vida baseado no amor e no serviço aos outros. Desse modo, vivemos um estilo
de vida alternativo, comprometidos em seguir a Jesus e imitá-Lo em nosso
relacionamento com o nosso próximo. Embora estejamos vivendo neste mundo,
aguardamos ansiosamente a concretização futura do eterno reino de Deus no mundo
vindouro.
A futura inutilização
do Universo, predita pela cosmologia científica6, encontra sua contrapartida na
experiência pessoal e social da desesperança galopante que grassa a sociedade
moderna. Entretanto, diante de um cenário de desespero e sem significado como
esse, a história bíblica culmina em um futuro de esperança para o Cosmos e para
a humanidade. Essa esperança, deve-se salientar, está fundamentada na Divindade
(Provérbios 23:18; Salmo 39:8). As Escrituras nos asseguram que a realidade
atual, do mal e do sofrimento, dará lugar a uma nova criação. As Crenças
Fundamentais 21 a 28 apresentam claros resumos dessa história maravilhosa:
Cristo está no santuário celestial ministrando em nosso favor e está
providenciando tudo de que necessitamos (Hebreus 8:1, 2); Jesus virá em breve
para levar Seu povo ao lugar que Ele preparou (João 14:1-3); a morte será
tragada pela vitória (1 Coríntios 15:54); no Céu, após a Segunda Vinda, os
salvos passarão por um tempo de reflexão e juízo (Apocalipse 20); e,
finalmente, Deus fará a Terra toda nova outra vez (Apocalipse 21:1) Portanto,
pela graça e poder de Deus, podemos resistir às impressões de abandono e
sentimentos de desespero.
Essa esperança, segundo
as Escrituras, serve como “uma âncora da alma” (Hebreus 6:19). Até que o reino
venha em sua plenitude, podemos viver nessa esperança e fazer com que nossa
vida seja significativa neste mundo.
Sabemos que a nossa
história não terminará em morte ou com a destruição do Cosmos. Nossa história
culminará na ressurreição para a vida eterna a todos os que crerem e no
estabelecimento do novo Céu e da Nova Terra.
CONCLUSÃO
As 28 Crenças
Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia nos lembram de que estamos
unidos em nossa compreensão da Bíblia. Em verdade, o fato de podermos nos
considerar parte da história bíblica permite confrontarmos a aparente
desesperança da condição humana. Podemos nos sentir encorajados com a promessa
de que “nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o
futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra
coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus,
nosso Senhor” (Romanos 8:38, 39). Portanto, podemos esperar pelo futuro com
alegre expectativa, porque o melhor ainda está para vir.
Ellen White expressou
com rara beleza essa consumação final:
“O
grande conflito terminou. Pecado e pecadores não mais existem. O Universo
inteiro está purificado. Uma única palpitação de harmonioso júbilo vibra por
toda a vasta criação. Daquele que tudo criou emanam vida, luz e alegria por
todos os domínios do espaço infinito. Desde o minúsculo átomo até ao maior dos mundos,
todas as coisas, animadas e inanimadas, em sua serena beleza e perfeito gozo,
declaram que Deus é amor.”7
*Elias Brasil de Souza
PhD pelo Seminário Teológico Adventista do Sétimo Dia da Universidade Andrews,
Berrien Springs, EUA, é diretor do Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação
Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, em Silver Spring, Maryland, EUA.
Citação
Recomendada
Elias Brasil de Souza,
“Recapitulando Mossas Crenças fundamentais: Resumos da grande Narrativa
Bíblica” 31:1 (2019): 9-13
NOTAS
E REFERÊNCIAS
1. Ver
https://www.adventist.org/en/beliefs/. Ver também Seventh- day Adventist Church
Manual, Revisado em 2015, Atualizado em 2016 (Silver Spring, Md.: Secretariat,
General Conference of Seventh-day Adventists, 2016), p. 162-172.
2. Crença Fundamental
1.
3. Robert Letham, “God
Is Love”, Tabletalk Magazine (Maio de 2004, p. 9).
4. Ver Roy R. Gould,
Universe in Creation: A New Understanding of the Big Bang and the Emergence of
Life (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2018). Ver tambémo Stephen
Hawking, Brief Answers to the Big Questions (New York: Bantam Books, 2018).
5. Blaise Pascal,
Blaise Pascal: Thoughts, Letters, and Minor Works, Part 48 Harvard Classics,
Charles W. Eliot, ed. (New York: P. F. Collier & Son, 1910), p. 149.
6. De acordo com o
modelo cosmológico padrão, a história cósmica teve início com o Big Bang, há
cerca de 13,8 bilhões de anos e, dentro de mais alguns milhões de anos poderá
acabar tanto como uma batata frita ou será destruída por congelamento. Ver
Jonghyung Kim, “Cosmic Hope in a Scientific Age: Christian Eschatology in
Dialogue with Scientific Cosmology” (Ph.D. diss., Graduate Theological Union,
2011); John Davis Jefferson, “Cosmic Endgame: Theological Reflections on Recent
Scientific Speculations on the Ultimate Fate of the Universe,” Science &
Christian Belief 11: 1 (1999) p. 15-27: https://www.scienceandchristianbelief.org/serve_
pdf_free.php?filename=SCB+11-1+Davis.pdf.
7. Ellen G. White, O
Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993), p. 678.
Comentários
Postar um comentário