PROPAGANDA FALSA
Silmar
Cristo*
Que
a dieta mediterrânea faz bem para o coração é um fato. Duvidoso é concluir que
o segredo dela é o consumo moderado de vinho
Nas últimas duas
décadas sobraram pesquisas científicas que apontaram a chamada dieta do
Mediterrâneo como um modelo de cardápio saudável. De carona nessa onda, o
consumo diário de uma taça de vinho foi alardeado por muitos como elemento
importante nesse menu e um fator na prevenção de doenças coronárias.
Assim que foram
revelados os primeiros resultados desses estudos, médicos, nutricionistas e
outros profissionais da saúde se animaram com os supostos benefícios do vinho e
recomendaram seu consumo em quantidades moderadas. Para mim, esse fato é um
exemplo clássico do poder que o capital tem de formar opiniões e mudar
comportamentos a partir da visibilidade que a mídia oferece para pesquisas
acadêmicas tendenciosas.
Lamentavelmente, muitos
cristãos foram levados por essa retórica e passaram a consumir álcool como
medida para a proteção do coração. Alguns chegaram até a citar textos bíblicos
para apoiar seu novo hábito. Resultado: conclusões científicas duvidosas
acabaram levando alguns a uma postura teológica equivocada (para entender por
que essa interpretação carece de melhor base bíblica, leia a seção “Boa
Pergunta” de março).
Os vinicultores da
Califórnia (EUA) viram no interesse pela dieta do Mediterrâneo uma oportunidade
sem precedentes para mudar a imagem pública do vinho, que se havia desgastado
nas décadas de 1980 e meados de 1990 por causa da ampla conscientização nos
Estados Unidos sobre os efeitos negativos do álcool.
Ao levar a dieta
mediterrânea para o laboratório, basicamente, os pesquisadores deveriam
responder à seguinte pergunta: por que a população que vive próximo ao mar
Mediterrâneo come mais gordura do que os norte-americanos, mas tem menor índice
de doenças cardiovasculares? Ignorando fatores importantíssimos de hábitos
alimentares dessas comunidades, vários cientistas concluíram que a diferença
estava no resveratrol, antioxidante presente no vinho.
No entanto, o que não
podia ser ignorado foi esquecido: a diferença significativa entre o estilo de
vida das duas populações. O povo do Mediterrâneo, por exemplo, consome cinco
vezes mais frutas e verduras, três vezes mais nozes e mais cereais integrais
do que os norte-americanos. Além de comerem de modo mais saudável, fazem do
almoço sua principal refeição diária, enquanto a população dos Estados Unidos
sobrecarrega o jantar com um cardápio gorduroso. Por fim, o povo do
Mediterrâneo é cinco vezes mais ativo do que os norte-americanos.
Portanto, parece claro
que, independentemente do consumo de vinho, o estilo de vida mediterrâneo é o
grande fator para que a dieta dessa região seja associada à prevenção de
doenças cardiovasculares. E, para quem deseja os benefícios do antioxidante
resveratrol, a boa notícia é que essa substância pode ser encontrada no suco de
uva integral com melhor biodisponibilidade do que no vinho, sem o inconveniente
dos prejuízos do álcool. Tim-tim!
*SILMAR
CRISTO é médico, consultor e autor de vários livros sobre
saúde e qualidade de vida.
(Texto publicado
originalmente na edição de maio de 2016 da Revista Adventista)
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