OS CICLOS ECONÔNICOS E A PROFECIA
Timothy
Aka*
A
Convergência de ciclos proféticos e econômicos aponta para o fim dos tempos
Onde estamos no
cronograma profético? Será que alguém realmente sabe? Mesmo estudantes
dedicados da Bíblia e das profecias continuam a pesquisar. Existe uma lacuna na
compreensão dos adventistas sobre os eventos entre 1844 e a promulgação das
leis dominicais, dois marcos importantes no caminho para a segunda vinda de
Cristo. Em meio a todas as perguntas, Deus não deseja que sejamos apanhados de
surpresa (1 Ts 5:4). No entanto, a questão permanece: como podemos saber que
estamos chegando ao fim?
Há uma moldura
conceitual que pode nos ajudar a preencher a lacuna entre 1844 e os eventos
finais. Um elemento no estudo dos acontecimentos proféticos que tem sido
amplamente ignorado é a economia. O tema do dinheiro é frequentemente
encontrado na Bíblia, e as finanças mundiais se entrelaçam com a profecia tanto
do passado quanto do futuro. Com a política econômica dominando os processos de
decisão da maioria dos governos de hoje, seu impacto não pode ser esquecido na
avaliação de eventos geopolíticos, ação militar, legislação e até mesmo da
religião. O dinheiro exerce uma influência real e direta em nossa vida.
Analisando o mundo das
finanças, conseguimos ter uma visão melhor de onde estamos no fluxo de eventos
proféticos. Um estudo dos ciclos econômicos pode nos ajudar a relacionar os
acontecimentos proféticos do passado, a turbulência financeira de hoje e os
conflitos que estão para explodir. A convergência da economia e da profecia
pode nos ajudar a responder à pergunta: “Onde estamos no cronograma?” Esse pode
ser o fio para nos ajudar a unir muitas partes de nossa compreensão profética.
O
ciclo de Kondratieff e 1844
Na década de 1920, um
jovem economista russo chamado Nikolai Kondratieff estudou os ciclos econômicos
de longo prazo. Enquanto os ciclo econômico típico abrande de 3 a 5 anos,
incluindo crescimento, estagnação e recessão, Kondratieff observou que há
ciclos econômicos mais longos, que abrangem de 50 a 70 anos. Esses ciclos,
assim como a versão mais curta, passam pelo crescimento, a estagnação e o
declínio, mas não são fenômenos regionais, e sim de alcance global.
Finalmente, esses
ciclos foram caracterizados como estações. Primeiro, há a primavera econômica e
então o verão, quando as economias do mundo crescem bem. Essa fase é seguida
por um período de estagnação, descrito como outono econômico. Finalmente, vem o
inverno econômico, que tipicamente inclui crises devido às dívidas, quebras do
mercado de ações, depressões, guerras mundiais e mudanças de regime nos
governos.
Em 1938, Kondratieff
foi executado por Stálin pelo fato de suas ideias serem opostas às teorias
comunistas. Após sua morte, outros continuaram o trabalho de Kondratieff sobre
esses ciclos econômicos longos. Hoje tais ciclos são chamados de ciclos de
Kondratieff ou ciclos longos. O gráfico mostra os quatro ciclos econômicos
que ocorreram desde o fim do século 18, indicando o ano em que cada um desses
ciclos terminou e um novo começou.
Naturalmente, como
adventistas, nossa atenção é logo atraída para a data de 1844, que assinala um
evento muito significativo no início do nosso movimento. O ano de 1844
representa o fim do primeiro ciclo cheio do século 19. O período de cerca de
1837 a 1844 foi considerado um inverno econômico. Houve profunda depressão,
guerras e turbulência política. Uriah Smith, em seu livro sobre Daniel e
Apocalipse, indicou que em 1840 o regime otomano chegou ao fim, de acordo com a
profecia.
Nesse ambiente,
Guilherme Miller começou a pregar que a segunda vinda de Jesus estava próxima.
Podemos inferir que a triste condição do mundo, incluindo a turbulência
financeira, abriu caminho para o sucesso de Miller. É claro que o poder do
Espírito Santo era a verdadeira fonte de seu êxito, mas poderíamos dizer que as
sementes haviam sido plantadas em solo fértil. As pessoas estavam mais
receptivas às mensagens espirituais e a um apelo ao arrependimento. Assim, no
fim da profecia das 2.300 tardes e manhãs, em 1844, um dos ciclos longos de
Kondratieff chegou ao seu termo.
A
Revolução Francesa e a Profecia dos 1.260 dias
Vamos considerar o
início do primeiro ciclo, em 1789. O maior evento que ocorreu naquele ano foi o
começo da revolução Francesa. Mais uma vez, esse evento foi precipitado pelas
terríveis condições econômicas da classe camponesa, que se revoltou contra a
aristocracia. Como resultado da Revolução Francesa, o Papa Pio Vi foi preso e
exilado por Berthier, general de Napoleão. Esse ciclo também chegou ao fim com
o cumprimento de outra importante profecia de tempo: os 1.260 dias de Daniel.
Em 1776, durante o
inverno econômico que conduziu a Revolução Francesa, foi assinada a Declaração
de Independência dos estados Unidos “Nenhum imposto sem representação” foi o
grito do povo norte-americano que lutava sob a opressão financeira imperial
britânica. O Exército Continental se envolveu em uma guerra com o exército
britânico, a qual terminou com a assinatura do tratado de Paris em 1783. Assim,
outra grande profecia, a ascensão da besta de Apocalipse 13, foi cumprida
durante esse inverno econômico. O fim de cada um desses ciclos econômicos e
eventos históricos significativos corresponderam ao cumprimento de grandes
profecias. Vamos conferir o novo ciclo para ver se esse padrão continuou.
O ciclo seguinte de
Kondratieff terminou por volta de 1896, após uma longa e prolongada recessão
econômica de mais de 20 anos. Em meio a esse mal-estar econômico, a igreja teve
sua “experiência de 1888”. A pregação sobre a justificação pela fé devia ser
acompanhada pelo derramamento da chuva serôdia. Em Mensagens Escolhidas (v. 1,
p. 363), Ellen White declarou: “O alto clamor do terceiro anjo já começou”.
Deus estava atuando para capacitar sua igreja a fim de terminar a obra. Mas a
igreja não estava preparada para receber essa bênção especial.
O
Pânico de 1873
A análise dos eventos
que deram início ao inverno de Kondratieff das décadas de 1870 a 1890 pode ser
esclarecedor para os adventistas hoje. Esse ciclo começou com o pânico de 1873,
um colapso dos mercados financeiros que originou a “longa depressão”. Esse
período durou mais de cinco anos e é o mais longo registrado, superando a
grande depressão da década de 1930.
Mesmo depois que a depressão terminou, com frequência a nação entrou em recessão
nos anos 20 seguintes.
No período pós-guerra
civil americana, foi feito um tremendo esforço de reconstrução nacional. Uma
das “novas tecnologias” promissoras foi a ferrovia. Pensava-se que a estrada de
ferro pudesse cruzar o país para ajudar a transportar pessoas e bens,
promovendo o crescimento econômico. A oportunidade parecia atraente, levando
muitos a investir pesadamente na construção da rede ferroviária. Esperava-se
que a ferrovia trouxesse prosperidade à nova nação. Porém, assim como o
investimento em ações de empresas com base na internet levaram á crise de 2000,
e a bolha imobiliária levou à grande crise financeira de 2008, a promessa de
prosperidade desapareceu à medida que a bolha explodiu, deixando um rastro de
dívidas impagáveis e sonhos desfeitos.
O pânico de 1873
começou quando J. Cooke e Co, uma instituição bancária que investiu pesadamente
em ferrovias, não conseguiu pagar sua dívida e faliu. Isso desencadeou uma
crise financeira, pois os depositantes, temendo perder seu dinheiro, iniciaram
uma corrida aos bancos para retirar os recursos. Os mercados de ações caíram e
o sistema bancário ficou fechado por dez dias. A situação foi semelhante ao que
ocorreu em 2008, quando o banco de investimento Lehman Brothers declarou
falência. No entanto, ao contrário de hoje, no fim dos anos 1800 não havia
nenhuma Reserva Federal dos Estados Unidos para socorrer as instituições
financeiras. A recuperação foi lenta e dolorosa.
Ainda em 1873, um grupo
de mulheres se reuniu para compartilhar a preocupação com o declínio moral na
América. Vícios como a bebida alcoólica, prostituição e jogos de azar, bem como
outros crimes, estavam aumentando. Elas formaram a União Feminina de Temperança
Cristã, num esforço para devolver ao país seus valores cristãos. Em 1876, elas
buscaram o apoio de um jovem senador dos Estados Unidos chamado William Blair.
Juntos, procuraram promulgar uma lei para fechar salões e bares. Tiveram algum
sucesso, mas a moralidade da nação não melhorou.
Em 1888, Blair iniciou
um novo esquema para lidar com a baixa condição espiritual da América. Ele
levou ao Senado um projeto de lei que propunha um dia comum de adoração para
todos os cidadãos. Uma “lei dominical” deveria determinar um dia para adoração!
O senador voltou-se para a União Feminina de Temperança Cristã, entre outros, em
busca de assinaturas em uma petição para esse fim. Quinze milhões de
assinaturas foram coletadas, ou seja, cerca de metade da população dos Estados
Unidos na época!
Muitos adventistas
estão familiarizados com esse evento. A Igreja Adventista, ainda relativamente
jovem como denominação na época, se opôs a esse projeto de lei e enviou um de
seus ministros, Alonzo T. Jones, para uma audiência no Senado. Ele foi
preparado especialmente por Deus para atender a essa emergência, pois o Senado
lhe concedeu memória fotográfica e capacidade para recitar, de memória,
passagens de livros de direito. Como premissa para seus argumentos, ele usou o
texto da Bíblia que diz: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é
de Deus” (Mt 22:21), e obteve êxito em sua batalha contra esse projeto de lei.
A ameaça da lei
dominical declinou. E o mesmo ocorreu com a oportunidade de a igreja receber a
bênção prometida do Espírito Santo. Na década seguinte, os reavivamentos foram
recebidos com corações frios, orgulho e egoísmo, e o Espírito de Deus foi
repetidamente rejeitado. O segundo ciclo de Kondratieff do século 19, concluído
em 1896, manteve a promessa de outra profecia a ser cumprida, o esperado
retorno de Cristo. Mas a igreja não estava pronta para receber a chuva serôdia,
e o ciclo findou sem a realização dessa esperança. Embora esse ciclo tenha
terminado em oportunidades perdidas, podemos nos beneficiar da experiência da
igreja daquela época. Podemos reconhecer os padrões que ocorreram e compará-los
às condições de hoje.
O
que poderia ter sido
Em 1903, Ellen White
recebeu uma visão na qual observou a igreja submissa ao poder do Espírito Santo
e unida sob um espírito de amor e perdão. Infelizmente, era apenas uma visão do
que poderia ter acontecido na assembleia da Associação Geral de 1901. Com
tristeza, Ellen White escreveu o artigo “O que poderia ter sido” lamentando
essa oportunidade perdida. Além disso, ela publicou vários outros artigos na Review and Herald recordando o fracasso
de Israel em entrar na Terra Prometida. Seu sentimento foi de que parecia tarde
demais para o Senhor voltar.
Ao examinar o ciclo
seguinte de Kondratieff, começando em 1896 e terminando em 1945, podemos ver as
razões da tristeza se Ellen White. Durante esse ciclo, o planeta foi testemunha
de um terrível derramamento de sangue diferente de qualquer coisa ocorrida. A
Primeira Guerra Mundial, A Revolução Russa, a Segunda Guerra Mundial, o
Holocausto, a bomba atômica, a revolução chinesa, a Guerra da Coreia e muitos
outros conflitos marcaram essa era. Grande parte da população mundial ficou
trancada atrás de fronteiras hostis ao cristianismo. A perda de vida foi
insuportável, e as guerras e tensões internacionais também criaram um ambiente
hostil à difusão do evangelho. Talvez essa fosse a razão para a grande tristeza
revelada no artigo “O que poderia ter sido”. Enquanto os três longos ciclos
anteriores terminaram em grandes eventos proféticos, esse ciclo terminou em
1945, sem a oportunidade de finalizar a pregação do evangelho.
O
Inverno de Kondratieff
Isso nos leva ao ciclo
atual. O fim da Segunda Guerra Mundial deu início a uma era de prosperidade sem
precedentes. Enquanto o Plano Marshall ajudou a reconstruir as economias de
guerra, os Estados Unidos se beneficiaram de seu dinamismo econômico. A
primavera e o verão de Kondratieff floresceram durante 30 anos, dando à luz a
burguesia da classe média americana. Porém, enquanto os Estados Unidos
desfrutavam da riqueza durante os governos Reagan e Clinton, o ciclo de
Kondrafieff mudou silenciosamente para o outono. As economias começaram a
estacionar. O nível da dívida teve um crescimento acentuado. No ano 2000, o
estouro da bolha tecnológica inaugurou o inverno de Kondratieff, e ainda hoje
estamos experimentando seus efeitos.
As previsões para o fim
desse ciclo são por volta do ano 2020. Se esse padrão for mantido, as condições
do mundo declinarão rapidamente. Podemos ver muitas ameaças e desafios
convergentes hoje, fazendo com que a previsão pareça bastante plausível. As tensões
políticas estão aumentando em várias partes do mundo. As notícias estão cheias
de histórias de terrorismo e crises dos refugiados políticos. Os mercados de
ações também podem ter fortes instabilidades. Mas dessa vez os bancos centrais
não tem munição para socorrer as empresas. Os estágios finais de um severo
inverno de Kondratieff parecem estar sobre nós.
Os
trabalhadores são poucos
O ponto crítico para os
adventistas hoje, no entanto, não é que estamos em um inverno de Kondratieff,
mas sim que a história nos mostra que esses invernos econômicos são realmente
tempos de colheita para Deus. É o momento em que as pessoas estão prontas para
ouvir uma mensagem de esperança, sensíveis à compaixão e à graça. É o tempo em
que a colheita é abundante. Poderia esse “inverno” ser uma oportunidade para
terminar a grande comissão que nos foi dada por Jesus? O próprio Cristo
lamentou que a colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos (Mt 9:37).
Infelizmente, parece que isso não mudou. A igreja cristã se encontra em estado
de mornidão e indiferença. Ela desconhece sua verdadeira condição e não percebe
os eventos ao seu redor. Não tem muita motivação para aproveitar as
oportunidades.
Assim, a colheita
amadurece, e Deus espera pacientemente que Seu povo se mobilize para recolher o
fruto das sementes plantadas há dois mil anos a um preço tão alto. O que deus
deve fazer, à medida que o tempo se torna curto? Será que Ele simplesmente
espera que os trabalhadores se levantem? Vai esperar pacientemente à porta e
bater até que ouçamos Sua voz? Ou será que as batidas se tornarão mais
insistentes e intensas para despertar seus trabalhadores por trás dessas
portas? “Eu repreendo e disciplino a
quantos amo”, diz a Laodiceia (Ap 3:19). Evidências sugerem que a repreensão e
o castigo de Deus muitas vezes assumem a forma de uma crise financeira.
Ao considerarmos a
evidência dos ciclos econômicos de Kondratieff e a história profética que os
adventistas conhecem muito bem, vemos como somos afortunados e quanto é grande a
responsabilidade que está diante de nós. Não devemos usar a ideia dos ciclos
econômicos para marcar datas e especular sobre a volta de Jesus, mas podemos
usar os acontecimentos para motivar um despertamento.
O apóstolo Paulo
escreveu: “Irmãos, relativamente aos tempos e às épocas, não há necessidade de
que eu vos escreva; pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o Dia
do Senhor vem como ladrão de noite. Quando andarem dizendo: Paz e segurança,
eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à que
está para dar à luz; e de nenhum modo escaparão. Mas vós, irmãos, não estais em
trevas, para que esse Dia como ladrão vos apanhe de surpresa; porquanto vós
todos sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite, nem das
trevas. Assim, pois, não durmamos como os demais; pelo contrário, vigiemos e
sejamos sóbrios” (1 Ts 5:1-6).
Você consegue ler os
sinais ao seu redor?
*Timothy
Aka é
tesoureiro associado mundial da Igreja Adventista, em Silver Spring (EUA)
FONTE: Revista
Adventista, abril de 2017, p. 36-39
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