ENTRE ATAQUES E OPORTUNIDADES
Márcio
Tonetti
Crescimento de Ben
Carson nas pesquisas coloca a igreja em evidência, mas a torna suscetível a
críticas e rótulos
O crescimento nas
pesquisas de intenção de voto do pré-candidato Ben Carson tem naturalmente
ampliado sua exposição na mídia. Isso passou a acontecer de maneira mais
significativa depois de um levantamento conjunto feito pela rede de televisão
CBS e pelo jornal The New York Times, que mostrou, pela primeira vez desde
meados de julho, que o neurocirurgião estava ameaçando a liderança do
bilionário Donald Trump na corrida pela indicação do candidato republicano para
a eleição presidencial norte-americana de 2016. No levantamento divulgado no
dia 15 de setembro, ambos apareceram praticamente empatados: Carson, com 23%, e
Trump, com 27%.
Mas não vem ao caso as
chances de o médico adventista chegar a ser o candidato pelo Partido
Republicano. O ponto em questão é o quanto a popularidade dele tem feito com
que a igreja também seja exposta de forma positiva ou negativa – especialmente
por se tratar da realidade norte-americana, onde a religião de um candidato vem
naturalmente à tona. Esse fato coloca uma grande responsabilidade nas mãos de
Ben Carson, enquanto “representante”, embora não oficialmente, da denominação
(leia aqui a posição oficial da igreja sobre a política partidária e os
candidatos adventistas).
Uma das abordagens mais
recentes sobre as crenças religiosas do pré-candidato foi publicada no dia 20
de setembro na versão on-line da revista Newsweek. Conforme destacou o site do
periódico, “a ascensão de Carson nas pesquisas enquanto ele busca a nomeação
presidencial republicana tem estimulado o interesse pela igreja que moldou
grande parte de sua vida. Se ele continuar a ganhar impulso, os americanos
serão obrigados a fazer perguntas sobre os adventistas do sétimo dia, assim
como eles fizeram sobre a fé mórmon de Mitt Romney e, em outro momento, sobre o
catolicismo de John F. Kennedy”, diz o texto.
A mídia americana está
fazendo um raio X tanto de Carson quanto da religião que ele professa. No caso
da Newsweek, a reportagem intitulada “Dr. Ben Carson’s Life Story Rests on a
Deep Adventist Faith” (“A história da vida do Dr. Ben Carson repousa sobre uma
profunda fé adventista”) fala não só a respeito da experiência religiosa dele,
mas também traz um histórico sobre o surgimento do adventismo no século 19 e
sua visão de futuro.
“Ao contrário dos
milenaristas no século 19, os adventistas têm compromisso com a permanência
através da construção de instituições estáveis, como as universidades. Ainda
assim, eles acreditam que o retorno de Cristo é iminente e que ele não vai ser
secreto”, observam os autores da reportagem ao tratar sobre até que ponto a
religião de Carson poderia determinar os rumos da política nos Estados Unidos.
A revista mencionou
também algumas práticas dos adventistas, a exemplo do regime alimentar
saudável. “A igreja exorta os membros a evitar substâncias que alteram a mente
e estimula a ‘ingestão de legumes, grãos integrais, nozes, frutas e legumes,
juntamente com uma fonte de vitamina B12’”, observam Jack Martinez e Matthew
Cooper, autores da publicação.
Outro aspecto citado
pela Newsweek foi a relação de Ben Carson com a guarda do sábado. “[Ellen]
White escreveu sobre a necessidade de restaurar a pureza bíblica através do reforço
da observância de certos mandamentos, especialmente o sábado. É por isso que os
adventistas guardam o sábado no sétimo dia, em vez de no domingo. Na Bíblia
hebraica original, o sábado é o ‘sétimo dia’”, diz o texto. Na matéria, Ben
Carson defende que o dia de adoração “é o sábado” e que “ele foi posteriormente
alterado pelo homem”. O periódico chegou a publicar um vídeo do YouTube em que
Carson fala em uma igreja sobre a lei dominical.
A propósito, a mídia
tem pinçado algumas crenças de Ben Carson para criar polêmica. A perspectiva
bíblica da criação tem sido um dos principais alvos dos críticos. A matéria da
Newsweek chama a atenção para o fato de que Carson defende “a superioridade do
criacionismo sobre a teoria da evolução”. Consultado pela reportagem, David
Holland, professor da Escola de Divindade de Harvard, argumenta que “alguns
estudiosos veem o adventismo e Ellen White, em particular, como uma fonte
inicial para a ascensão do criacionismo e do fundamentalismo na América”.
“White foi uma das primeiras escritoras a apresentar uma justificativa
pseudo-geológica para a ‘Terra jovem’, a crença de que a Terra tem apenas 6.000
anos de idade”, acrescenta Holland, que disse estar escrevendo a biografia da
escritora norte-americana e de Mary Baker Eddy, fundadora da Ciência Cristã.
Nesta
semana, a revista britânica The Week também conferiu atenção ao assunto ao
publicar o artigo “How is Ben Carson both so incredibly smart and so
spectacularly stupid?” (“Como Ben Carson é tão incrivelmente inteligente e tão
espetacularmente estúpido?”). Ácido nas palavras, Paul Waldman faz duras
críticas ao fato de Carson rejeitar a teoria da evolução. “Carson é um homem
inegavelmente inteligente. Você não consegue ser um dos mais renomados neurocirurgiões
do mundo sem a capacidade de compreender sistemas complexos, avaliar as provas,
separar o plausível do implausível e integrar fragmentos díspares de dados em
um todo coerente. E, ainda assim, ele pensa que a teoria da evolução não é
apenas um grande embuste, mas um engano literalmente entregue a nós do
inferno”, questiona. “Perdoe-me pelo meu tom de desprezo”, acrescenta o autor
do artigo, “mas é o que realmente acredita Carson”.
Assim, a imagem de
Carson na mídia começa a ser associada com a de um fundamentalista cristão.
Isso fica claro em outro trecho do artigo da The Week, onde Paul Waldman
afirma: “Há milhões e milhões de pessoas no mundo que acreditam fervorosamente
em um poder divino, mas que também reconhecem a verdade da evolução. A Igreja
Católica, por exemplo, é bastante clara que não há nada de incompatível entre
sua teologia e a evolução. […] Nada sobre a crença em Deus impede de
compreender e aceitar o que gerações de cientistas descobriram sobre a história
da vida na Terra.”
Com um discurso
politicamente incorreto para alguns, Ben Carson deve continuar convivendo com
os ataques de adversários políticos, bem como com as críticas e rótulos da
imprensa. Quanto, no final das contas, essa exposição na mídia vai ser mais
negativa do que positiva para a igreja, ainda é cedo para arriscar prognósticos
pessimistas ou otimistas.
MÁRCIO
TONETTI é editor associado da Revista Adventista
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