POR QUE CRISTO AINDA NÃO VEIO?
Carlos
A. Steger
O movimento adventista
surgiu com a expectativa da iminente vinda de Cristo e, mesmo depois do
desapontamento de 1844, seus pioneiros continuaram aguardando esse evento.
Partilhando fervorosamente dessa esperança 1 foi que, em 1851, Ellen G. White
escreveu: “Vi que o tempo para Jesus permanecer no lugar santíssimo estava
quase terminado e esse tempo podia durar apenas um pouquinho mais; que o tempo
disponível que temos deve ser gasto em examinar a Bíblia, que nos julgará no
último dia.” 2
Entretanto, não tendo
vindo Jesus, passadas três décadas, ela foi acusada de ter feito uma declaração
falsa. Em resposta, ela argumentou que essa acusação também poderia ter sido
feita a Cristo e aos apóstolos, que também chamaram a atenção para a urgência
do tempo: “… o tempo é curto” (1Co 7:29). “Vai alta a noite e vem chegando o
dia” (Rm 13:12). 3
Obviamente, eles não
estavam enganados. “Os anjos de Deus em suas mensagens aos homens, apresentam o
tempo como muito breve. Assim ele me tem sido sempre apresentado. É verdade que
o tempo tem prosseguido mais do que esperávamos nos primeiros tempos desta
mensagem. Nosso Salvador não apareceu tão depressa como esperávamos. Falhou,
porém, a palavra do Senhor? Nunca! Devemos lembrar que as promessas e ameaças
de Deus são igualmente condicionais.”4 A demora da segunda vinda acontece
porque os filhos de Deus têm falhado em cumprir essas condições. 5
Missão
inconclusa
O Senhor deu a Seu povo
uma missão a ser cumprida, antes de Sua vinda, ou seja, proclamar as mensagens
dos três anjos (Ap 14), pregando o evangelho eterno, chamando a atenção do
mundo para o santuário celestial e o ministério intercessor de Cristo e
restaurando a observância do verdadeiro dia de repouso. “Houvessem os adventistas,
depois da grande decepção de 1844, ficado firmes na fé, e seguido avante em
união no caminho aberto pela providência de Deus, recebendo a mensagem do
terceiro anjo e proclamando-a ao mundo… ,a obra se haveria completado, e Cristo
teria vindo antes para receber Seu povo para lhe dar o galardão.” 6 Em vez
disso, muitos crentes vacilaram na fé e se tornaram oponentes da verdade. Mas,
“não era a vontade de Deus que a vinda de Cristo fosse assim retardada” 7
Ellen White comparou a
demora da vinda de Jesus com a postergação da entrada dos israelitas em Canaã.
Não era plano de Deus que vagueassem 40 anos no deserto; porém, por causa da
falta de fé, retardaram a entrada na terra prometida (Hb 3:19). “Por quarenta
anos a incredulidade, murmurações e rebelião excluíram o antigo Israel da terra
de Canaã. Os mesmos pecados têm retardado a entrada do moderno Israel na Canaã
celeste. Em nenhum dos casos as promessas de Deus estiveram em falta. É a
incredulidade, o mundanismo, a falta de consagração e a contenda entre o
professo povo do Senhor que nos têm conservado neste mundo de pecado e dor por
tantos anos.” 8
Para os israelitas,
Deus era culpado pela longa peregrinação. Semelhantemente, os cristãos
laodiceanos correm o perigo de lançar a culpa em Deus pela demora da segunda
vinda. “Talvez tenhamos de permanecer muitos anos mais neste mundo por causa de
insubordinação, como aconteceu com os filhos de Israel; mas por amor de Cristo,
Seu povo não deve acrescentar pecado a pecado, responsabilizando Deus pela
consequência de seu procedimento errado.” 9
Espera
misericordiosa
Por outro lado, não é
por indiferença ou esquecimento que o Senhor ainda não veio. É por misericórdia
que Ele retarda Sua vinda (2Pe 3:9). “A longa noite de tristeza é árdua, mas a
manhã é adiada em misericórdia, porque se o Mestre viesse, muitos seriam
achados desprevenidos. A recusa de Deus em permitir que Seu povo pereça tem
sido a razão de tão longa demora.” 10 E mais: “Cristo aguarda com fremente
desejo a manifestação de Si mesmo em Sua igreja. Quando o caráter de Cristo se
reproduzir perfeitamente em Seu povo, então Ele virá para reclamá-lo como Seu.”
11 Em suma, ainda não estamos preparados para ir ao Céu com Jesus.
Esse preparo inclui
algo mais que o desenvolvimento de um caráter semelhante ao de Cristo. Envolve
ajuda para que outros também se preparem. Desenvolvimento do caráter cristão e
pregação do evangelho andam de mãos dadas; são dois aspectos de uma realidade.
“O objetivo da vida cristã é a frutificação – a reprodução do caráter de Cristo
no crente, para que Se possa reproduzir em outros.” 12
Assim como Deus tem
misericórdia de Seu povo, também é compassivo para com os descrentes. “Jesus
retarda a Sua vinda, para que pecadores possam ter oportunidade de ouvir a
advertência, e encontrar nEle refúgio antes que a ira de Deus seja derramada.”
13 E a nós foi confiada a tarefa de advertir o mundo. “Dando o evangelho ao
mundo, está em nosso poder apressar a volta de nosso Senhor. Não nos cabe
apenas aguardar, mas apressar o dia de Deus. Houvesse a igreja de Cristo feito
a obra que lhe era designada, como Ele ordenou, o mundo inteiro haveria sido
antes advertido, e o Senhor Jesus teria vindo à Terra em poder e grande
glória.” 14
A espera pode nos
parecer muito longa e difícil de ser suportada. Porém, “quando, com os remidos,
estivermos em pé sobre o mar de vidro, com harpas de ouro e coroas de glória,
tendo à nossa frente a imensurável eternidade, então veremos como foi curto o
período de provação e espera”. 15
Ele
vem
A verdade é que,
independentemente de quanto tempo tenhamos que esperar, é certo que Jesus virá,
pois Ele mesmo prometeu (Jo 14:3; Ap 22:20). Por isso, Ellen G. White manteve
sempre viva a esperança no indubitável regresso de Jesus à Terra. Jamais perdeu
a confiança nem ficou impaciente; não dependia de data específica. Ela estava
certa de que o Senhor não falha (Hb 10:37). Em uma carta, escrita em 1888, ela
disse: “Ainda que desiludida, nossa fé não tem vacilado nem temos nos voltado à
perdição. A demora é aparente porque, no tempo designado, nosso Senhor virá; e
nós, se formos fiéis, exclamaremos: ‘Eis que Este é o nosso Deus, em quem
esperávamos, e Ele nos salvará’”. 16
O mais importante não é
saber as razões pelas quais Cristo ainda não veio, mas estar preparados para
recebê-Lo. Nosso maior perigo não é deixar de crer na vinda de Jesus, mas
pensar: “Meu senhor demora-se” (Mt 24:48). Essa é uma atitude que nos leva ao
egoísmo e ao mundanismo, fazendo-nos adiar nosso preparo e mantendo-nos
adormecidos numa falsa segurança, indiferentes aos interesses eternos.
“Todo o que pretende
ser um servo de Deus é convidado a realizar Seu serviço como se cada dia fosse
o último.” 17 “Bem-aventurado aquele servo a quem seu senhor, quando vier,
achar fazendo assim” (Mt 24:46).
Referências:
1 Ellen G. White,
Eventos Finais, p. 36, 37.
2 __________, Primeiros
Escritos, p. 58.
3 __________, Mensagens
Escolhidas, v. 1, p. 67.
4 Ibid.
5 Ellen G. White,
Maranata: O Senhor Vem! (MM, 1977), p. 53.
6 __________, Mensagens
Escolhidas, v. 1, p. 68.
7 Ibid.
8 Ibid., p. 69.
9 Ellen G. White, Evangelismo, p. 696.
10 Ibid., p. 694.
11 Ellen G. White,
Parábolas de Jesus, p. 69.
12 Ibid., p. 67.
13 Ellen G. White, O
Grande Conflito, p. 458.
14 __________, O
Desejado de Todas as Nações, p. 633, 634.
15 __________, Eventos
Finais, p. 42.
16 __________,
Manuscript Releases, v. 10, p. 270.
17 __________,
Maranata: O Senhor Vem!, p. 106.
Carlos A. Steger –
Professor no Seminário Teológico da Universidade del Plata, Argentina. Texto
publicado na Revista Ministério de Jan/Fev-2012.
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