O DOM DE LÍNGUAS: UMA CUIDADOSA EXEGESE BÍBLICA
William
H. Albach
“A respeito dos dons
espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes” – 1 Cor. 12:1.
A prática das assim
chamadas manifestações de “línguas estranhas” no cristianismo, não só está em
aumento, mas expande-se à partir dos círculos dos outrora humildes pentecostais
no rumo do seio dos luteranos, episcopais, católicos e outras denominações
mais. O movimento do século XX está se infiltrando por toda parte e trazendo
consigo confusão, dúvidas, contendas e discórdia. Grande parte da cristandade aguarda perdida, no
que se refere a que medidas tomar com respeito ao movimento, esperando, junto
com Gamaliel (Atos 5: 38, 39), que não
seja de Deus e que, por isso, fracasse ao final. Em minha opinião, essa não é a
solução do problema. O que se necessita é um esforço diligente para instruir os
cristãos sobre o assunto a fim de que estejam capacitados a enfrentá-lo com
sabedoria e entendimento.
Há mais de trinta anos,
quando era um seminarista, passei um feriado em Chicago. Estando aborrecido,
saí a caminhar naquela tarde em busca de algo excitante. Encontrei-o a menos de
dois quarteirões de onde me hospedava—numa antiga sinagoga judaica, usada então
por um grupo de pentecostais. Havia um culto em andamento e a curiosidade me
fez entrar. O auditório de tamanho considerável abrigava um grupo disperso.
Sobre a plataforma estava o pregador sentado. Tomei posição de observador junto
ao balcão. Não havia ordem no culto. O pregador pregava ou orava num tom de voz
alto e monótono. Outro começava a cantar um hino bem ritmado e o restante da
congregação o acompanhava. Aplaudiam e batiam com os pés no chão. Os períodos
ruidosos eram interrompidos às vezes por absoluto silêncio. Já estava ali por
uma meia hora quando, interrompendo um dos períodos de silêncio, levantou-se
uma mulher falando com sons ininteligíveis.
Aquela foi minha introdução ao dom de línguas. Embora nesse tempo eu
fosse bastante jovem, pareceu-me que todo o culto havia sido manipulado para
ressaltar as emoções e o que eu havia testemunhado não era um dom do Espírito
de Deus, mas uma intoxicação emocional ou de histeria.
John L. Sherrill, em
seu livro They Speak in Other Languages [Falam em outras línguas], relata a sua
investigação do movimento de línguas. Como jornalista, conduz uma investigação
bem minuciosa do movimento, aparentemente livre de preconceitos. Descreve sua primeira
experiência num culto pentecostal, e, apesar do fato de que sua experiência se
deu em Nova York, não era difícil convencer-me de que ele teria assistido ao
mesmo culto que eu. Contudo, experiências
posteriores com os pentecostais e outros grupos reavivalistas me
convenceram de que todos empregam as
mesmas técnicas; jogando com as emoções até que a pessoa débil, ou
espontaneamente, se rende às manifestações de intoxicação emocional ou de
histeria. Não quero parecer desrespeitoso para com a mulher cristã ou o
feminismo em geral quando digo que outra evidência disso se acha também no fato de que as mulheres têm um
papel destacado nesse movimento, e são mais prontas a responderem a essas
técnicas do que os homens. As mulheres simplesmente se inclinam mais do que os
homens às emoções.
Histórico
do Fenômeno Em Sua Versão Moderna
O movimento de falar em
línguas do século XX teve seu começo no princípio do século, quando no ano de
1900 Charles F. Parham, um jovem ministro metodista, sentiu que havia algo mau
em sua vida espiritual e se dispôs a buscar uma solução para o seu problema
espiritual. Reuniu uma comunidade de cerca de quarenta “estudantes da
Bíblia”—homens, mulheres e crianças—numa mansão abandonada em Topeka, estado de
Kansas, EUA. Ele sabia que direção os seus estudos deviam tomar e finalmente o
grupo chegou à conclusão de que necessitavam do “batismo do Espírito”,
manifestado no dom de línguas. Na véspera do ano novo, para 1900, o grupo de reuniu e orou desde o
crepúsculo até a tarde pedindo o dom de línguas, mas em vão. No final, uma
jovem mulher se lembrou que no livro de Atos, em duas ocasiões (e Sherrill diz
“freqüentemente”), o dom de línguas seguia-se à imposição de mãos. Segundo
Sherrill, ele pediu a Parham que lhe impusesse as mãos sobre ela enquanto orava
pedindo pelo dom. E enquanto ele o fazia, imediatamente ela começou a falar
numa língua desconhecida.
Sempre que Sherrill
informa em detalhes o que sucede no momento em que a pessoa recebe o dom surgem características
comuns: (1) A pessoa não está satisfeita com sua vida espiritual, (2) sua busca
de satisfação espiritual a leva ao livro de Atos, (3) convence-se de que a
solução para o seu problema é o batismo do Espírito, manifestado através do dom
de línguas, (4) ora durante horas intermináveis pelo dom, (5) fala com
articulações extáticas, ininteligíveis, mesmo para si própria. Muito mais se
pode dizer acerca disso, mas notemos simplesmente em outros termos só os
denominadores comuns: o dom parece ser de mais fácil acesso aos que se acham
perturbados espiritualmente, emocionalmente abalados, esgotados física e
emocionalmente, ou que são especialmente espontâneos à sugestão, auto-sugestão
ou auto-hipnose. Notemos, além disso, que eles diagnosticam invariavelmente sua
própria enfermidade espiritual, prescrevem o remédio para sua cura e
bombardeiam o trono de Deus com orações até que Ele se dê por vencido e lhes
conceda o que insistem em obter.
Concede realmente o
Espírito Santo a habilidade de falar em línguas
desconhecidas às pessoas? Não podemos negar que a princípio o Espírito
concedeu tal dom aos discípulos no primeiro Pentecoste cristão, levando-os a
falar em línguas desconhecidas para si próprios, contudo inteligíveis aos
estrangeiros reunidos na cidade de Jerusalém. Não podemos negar que mesmo hoje
seja possível que o Espírito conceda esse mesmo dom. Mas não li nem ouvi prova
convincente alguma de que hoje em dia o Espírito conceda o dom de línguas. Oh,
sim, ouvi e li muitos relatos estranhos de pessoas que contam de suas
experiências pessoais, ou de pessoas que relatam de segunda mão a história das
experiências que outros reivindicam ter
vivenciado. Por exemplo, John Sherrill narra o
caso de certo homem que tendo recebido o dom, se apressou à rua e falou numa
língua desconhecida a um estrangeiro. O estrangeiro respondeu em uma língua
desconhecida—desconhecida para o homem do dom—e finalmente perguntou ao que lhe
falava como conseguia falar em polonês de modo tão perfeito, sem poder
entendê-lo por si mesmo.
Também se registra
outra história de outro homem que, recebendo o aludido dom, fala em língua
desconhecida a uma menina num parque e recebe a informação de que se acha
falando em árabe antigo. Mas, invariavelmente, os dois ou três testemunhos pelos
quais se pode estabelecer a veracidade de tais histórias não estão disponíveis;
a identidade do polonês e da garota no parque não são dadas a conhecer. Os
esforços de Sherrill por registrar a ação de falar em línguas e a reprodução
dessas gravações perante especialistas em linguística não revelaram língua
conhecida alguma m muitas horas de gravação.
O
Pentecoste Original
O acontecimento
escriturístico da manifestação de falar em línguas de maior documentação
detalhada é a dos discípulos no primeiro Pentecoste cristão. Eles testificaram
de Jesus Cristo, nosso Salvador, em línguas desconhecidas a fim de que as pessoas de idioma estrangeiro
na cidade pudessem conhecer as obras
maravilhosas de Deus em Jesus para a salvação do mundo. Hoje em dia, não se
fala mais o dom de línguas como um veículo de comunicação do evangelho para os
que não podem entender nossa própria língua, mas como de um dom especial divino
que dá ao orador a segurança espiritual e emocional de que recebeu o dom do
Espírito—uma experiência puramente subjetiva e emocional. Pelo menos em sua
história original, os pentecostais insistiam em que, quando usado em público, o
dom de línguas era acompanhado do dom de interpretação—dom especial que algum
outro recebia capacitando-o a interpretar o que era dito na língua
desconhecida. Sherrill anota em sua investigação que viu isso suceder, mas
observa ao mesmo tempo que não existia
relação entre a quantidade de palavras faladas pelo orador e a quantidade de
palavras pronunciadas pelo intérprete em sua tradução. Além disso, assinala, a
interpretação vem sempre envolvida em palavras e fraseologia da versão bíblica
“King James”.
Os que falam em línguas
afirmam que a Bíblia menciona frequentemente o dom de línguas, especialmente no
livro de Atos. No que toca ao livro de Atos, isso não é mencionado com frequência.
Adicionalmente ao relato do primeiro Pentecoste cristão, é mencionado
especificamente duas vezes: (1) Na história da conversão de Cornélio; e os que
haviam vindo com Pedro estavam surpresos porque, segundo Atos 10:46, “os ouviam
falando em línguas e engrandecendo a
Deus”. (2) Por ocasião da chegada de Paulo a Éfeso, onde encontrou discípulos
que não sabiam nada sobre o Espírito Santo, tendo sido batizados apenas no
batismo de João. Ali Paulo lhes falou de Jesus, e a seguir nos é dito em Atos
19:5, 6: “Eles, tendo ouvido isto, foram batizados em o nome do Senhor Jesus.
E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e tanto
falavam em línguas como profetizavam”. Notamos que em ambas as passagens a implicação é de que as línguas faladas não
eram alocuções extáticas, mas, à semelhança do primeiro Pentecoste cristão,
línguas conhecidas; porque nos é dito que naquele momento os que falavam
estavam “engrandecendo a Deus”; no outro texto se diz que “profetizavam”.
O
Problema em Corinto
Para obter luz a
respeito do movimento de línguas, devemos volver-nos à mais pormenorizada declaração que há na
Bíblia no que tange a esse tema, a saber—1 Coríntios 12, 13 e 14. Esta é a
seção que mais citam os pentecostais em favor do movimento; contudo,
estranhamente esses trechos não foram escritos
para apoiar o dom de línguas, mas para colocar o dom de línguas, como
empregado naquele tempo, em seu devido lugar e perspectiva propícios. Paulo
estava escrevendo a uma congregação com problemas, respondendo-lhes uma carta
na qual haviam indagado a respeito de alguns problemas, entre os quais se
achava o dom de línguas. Está bastante claro que naquela ocasião, tal como
hoje, o dom de línguas se havia transformado num elemento que causava muita
divisão na igreja de Corinto. Os que o possuíam, não só se sentiam superiores,
como ainda pretendiam assim ser aos que não possuíam tal dom. Naquela época,
como hoje, havia disputa, dissensão e aparente desamor quando se tratava do
assunto—desamor de ambos os lados, mas que afetava especialmente os que
supunham haver recebido o Espírito Santo em seus corações e vidas. É ao
responder a uma pergunta específica sobre o tema que Paulo escreve: “não quero,
irmãos, que sejais ignorantes sobre os dons espirituais”. Agora, destaquemos
somente aqueles pontos salientes dessa seção.
Quem recebeu o Espírito
Santo? Paulo declara: “. . . ninguém pode dizer: Senhor Jesus! senão pelo
Espírito Santo” (12:3). Noutras palavras, todo o que crê em Jesus como Senhor e
Salvador pode estar seguro de que foi batizado no Espírito. Não necessita de
qualquer manifestação especial da presença do Espírito em sua vida. E esta é
uma das coisas tristes do movimento pentecostal. Não só fomenta uma comunidade cristã dividida
em duas classes (os que têm o dom, e os que não o têm), como ainda levanta a
dúvida de ser ou não cristão verdadeiro, na mente de muitos dos que não possuem
o dom.
Paulo depois assinala
que há uma variedade de dons do Espírito, todos dados pelo mesmo Espírito
(12:4-11) e que estes são concedidos para o bem comum (12:7). Ele enumera esses
dons do Espírito, como segue: (1) a palavra da sabedoria, (2) a palavra da
ciência, (3) a fé, (4) os dons de cura, (5) a operação de milagres, (6) a
profecia, (7) o discernimento de espíritos, (8) a variedade de línguas e (9) a interpretação de línguas. Note-se que
entre os nove dons, o falar em línguas e a interpretação de línguas são
enumeradas ao final e como os menores dentre todos. Não posso crer que essa
haja sido uma enumeração acidental por parte de Paulo, porque mais adiante, em
outra declaração sua, no capítulo 12, verso 28, Paulo começa a lista de dons em
outra fraseologia: “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente apóstolos,
em segundo lugar profetas, em terceiro lugar mestres, depois operadores de
milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.
Porventura são todos apóstolos? Ou todos profetas? São todos mestres? ou operadores
de milagres? Têm todos dons de curar? Falam todos em outras línguas?
Interpretam-nas todos?” Em resumo, creio que Paulo trata de diminuir com muito
tato o dom de línguas entre todos os dons que o Espírito concede. Ele o diminui
mediante o uso de débil louvor.
Na próxima seção de 1
Coríntios 12 Paulo emprega sua ilustração da igreja como corpo de Cristo, no
qual cada membro, com seu dom particular dado pelo Espírito, contribui para o
bem-estar de todo o corpo. Sendo tratado geralmente fora de seu contexto,
meramente como uma descrição dos membros da igreja que trabalham juntos em
Cristo, esta passagem, quando utilizada em seu contexto, revela algo do
problema que os coríntios experimentaram e, além do problema que se experimenta
em congregações modernas ao entrar nelas o movimento das línguas. Sintetizando
esta seção, Paulo diz que é propósito do olho ver, do ouvido ouvir, da língua
falar, etc. Se todos os membros do corpo tivessem a mesma função, então o
próprio corpo não poderia funcionar. Portanto, o olho não pode menosprezar o pé
por este não poder ver, nem deve a língua gloriar-se sobre o nariz, por este
não poder falar. Deus, declara Paulo, construiu o corpo sabiamente “. . . para
que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual
cuidado, em favor uns dos outros” (12:25). Contudo, achamos no movimento de
falar línguas uma tendência por parte do elemento pentecostal de menosprezar
como cristãos incompletos os que não possuem o dom, se pensam serem superiores
a todos os demais, e que o seu dom é o mais importante do corpo de Cristo. Essa
atitude, talvez mais do que qualquer outra coisa no movimento de línguas, é
responsável pela oposição emocional e rejeição do movimento por parte dos que
não têm o dom. Paulo não tem essa elevada opinião do dom de línguas. Após
enumerar pela segunda vez os dons do Espírito com o dom de línguas ao final da
lista, conclui o capítulo dizendo: “Entretanto, procurai, com zelo, os melhores
dons” (12:31).
Com isto Paulo embarca
em seu maravilhoso capítulo sobre o amor—amor
tão aparentemente ausente na situação de Corinto—um dos três dons
maiores de Deus (fé, esperança e amor), o maior dos três. Aqui devemos comentar
que não podemos fazer outra coisa senão orar para que todos os cristãos possam
inquietar-se com a condição espiritual e que procurem uma melhoria da
mesma. Não podemos omitir o comentário
de que a cura do problema espiritual é conhecida e que não é o dom de línguas,
mas o amor. Também não podemos evitar ter que dizer que não são os inquietos
espirituais os que prescrevem obter de Deus o dom de línguas como remédio, mas
que se deve buscar de Deus um aumento de amor para com Ele e com o semelhante
mediante o poder interior do Espírito de Deus.
Edificando
a Igreja
É em 1 Coríntios que
Paulo faz sua declaração mais significativa a respeito do tema do dom de
línguas: “Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas
principalmente que profetizeis” (verso 1),--não que tenhais o dom de línguas,
mas que profetizeis—que tenhais a habilidade de ensinar, exortar, admoestar,
consolar e edificar uns aos outros em vosso amor e fé cristãos. “Pois quem fala
em outra língua, não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende,
e em espírito fala em mistérios. Mas o que profetiza, fala aos homens,
edificando, exortando e consolando. O que fala em outra língua a si mesmo se
edifica, mas o que profetiza edifica a igreja. Eu quisera que vós todos
falásseis em outras línguas; muito mais, porém, que profetizásseis; pois quem
profetiza é superior ao que fala em outras línguas, salvo se as interpretar
para que a igreja receba edificação”. Os
pentecostais encontram aqui uma motivação para falar em línguas, mas ignoram o
fato de que Paulo considera superior o dom de profetizar. Encontro aqui o
apóstolo Paulo falando sutilmente para diminuir uma prática da congregação
coríntia que não é comum à igreja cristã, mas adotada em Corinto à partir das
misteriosas religiões helenistas.
Em que contribui o dom
de línguas para o reino de Cristo? Os que têm o dom lhes dirão quão
maravilhosamente os faz sentir-se; como aumentou as dimensões de sua vida
espiritual. Sim, lhes concede zelo evangelístico—para propagar sua forma
pentecostal de religião. Conduze-os a esquadrinhar as Escrituras—para delas
filtrar o que, segundo seus pressupostos, lhes apoia o seu interesse pelo dom
de línguas. O zelo evangelístico e o amor pelo estudo bíblico, de forma adequada e bem empregados,
são coisas que deveríamos desejar ver mais e mais entre os cristãos. Então
estariam menos propensos a se deixarem levar por todo erro passageiro e névoa
religiosa, como se dá com o movimento de línguas.
Em que contribui o
falar em línguas para a igreja? Paulo declara:
Agora, porém, irmãos,
se eu for ter convosco falando em outras línguas, em que vos aproveitarei, se
vos não falar por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de
doutrina? É assim que instrumentos inanimados, como a flauta, ou a cítara,
quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá que se
toca na flauta, ou cítara? Pois também se a trombeta der som incerto, quem se
preparará para a batalha? Assim vós, se, com a língua, não disserdes palavra
compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis no ar. Há sem
dúvida, muitos tipos de vozes no mundo, nenhum deles, contudo, sem sentido. Se
eu, pois, ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que
fala; e ele, estrangeiro para mim. Assim também vós, visto que desejais dons
espirituais, procurai progredir, para a edificação da igreja (versos 6-12).
Dificilmente se faz
necessário comentar mais do que isto, exceto para assinalar que Paulo
estabelece que nosso propósito em tudo o que façamos no corpo de Cristo, ou na igreja,
deve ser para a sua edificação, a salvação daqueles que ainda não receberam o
evangelho, a edificação da fé, do conhecimento,
do amor e das vidas dos que foram trazidos à comunhão da igreja mediante
o poder do Espírito e a pregação do evangelho.
Crescei!
A próxima seção de 1
Coríntios 14 contém palavras citadas frequentemente pelos pentecostais. Paulo
diz: “Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós”.
Percebe-se que Paulo falava em línguas. Contudo, ele não diz que pronunciava
alocuções extáticas, como se dá com os pentecostais. Como homem educado e
grande viajante, não duvido que Paulo pudesse dizer isso literalmente
referindo-se a línguas conhecidas do mundo nos quais estava versado. Mas
concedamos que ele falava línguas no sentido pentecostal. Então atentemos às
palavras do contexto:
Pelo que, o que fala em
outra língua, ore para que a possa interpretar.
Porque se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a
minha mente fica infrutífera. Que farei, pois? Orarei como espírito, mas também
orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente. E
se tu bendisseres apenas em espírito, como dirá o indouto o amém depois da tua
ação de graças? Visto que não entende o que dizes; porque tu de fato dás bem as
graças, mas o outro não é edificado. Dou graças a Deus, porque falo em outras
línguas mais do que todos vós. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras
com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra
língua (versos 13-19).
Os pentecostais pensam
ter alcançado a maturidade espiritual ao adquirirem o dom de línguas. Isso os
torna superiores às crianças espirituais que ainda não receberam o dom. Como
avalia Paulo o dom com relação à maturidade espiritual? Ele prossegue dizendo:
“Irmãos, não sejais meninos no juízo; na
malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos” (v.
20). Isto é uma repreensão! Ele se dirige aos que falam em línguas de Corinto:
Estão se comportando como crianças! Cresçam! E deixou a mesma coisa implícita
em 1 Cor.13:11: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino,
pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas de próprias
de menino”.
Paulo prossegue
explicando o propósito do dom de línguas na igreja cristã primitiva, assim como
no primeiro Pentecoste cristão:
Na lei está escrito:
Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos,
e nem assim me ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas constituem um
sinal, não para os crentes, mas para os
incrédulos; mas a profecia não é para os incrédulos, e, sim, para os que creem.
Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em
outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão
porventura, que estais loucos? Porém, se todos profetizarem, e entrar algum
incrédulo ou indouto, é ele por todos convencido, e por todos julgado;
tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a
face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está de fato no meio de
vós (versos 21-25).
Os defensores do falar
em línguas empregam a profecia de Isaías 28:11 como uma antecipação da prática
da glossolalia—o que, porém, não corresponde aos fatos. A ênfase nessa passagem
recai sobre o pensamento de que todo o falar em língua ininteligível não
converterá a ninguém: “. . . mas não quiseram ouvir”. Como foram escritas
originalmente, as palavras não são outra coisa senão um pronunciamento de juízo
sobre Israel. O povo de Israel não dava
ouvidos aos profetas enviados por Deus. E Deus trouxe invasões e opressores
estrangeiros sobre a nação. Contudo, nem mesmo esses que falavam em línguas
estranhas persuadiram Israel a que ouvisse os preceitos de Deus.
No primeiro Pentecoste
cristão, os que falavam em línguas desconhecidas para eles próprios converteram
3.000 à fé no Senhor Jesus. Mas as línguas faladas eram conhecidas para os
estrangeiros reunidos em Jerusalém. E o poder convertedor não residia no fato
de que os discípulos falavam em línguas estranhas para eles próprios, mas no
fato de que proclamavam a obra maravilhosa de
Deus mediante o Senhor Jesus Cristo para a redenção do mundo do pecado e
da maldição eterna. Falar numa enunciação ininteligível só pode antagonizar o
incrédulo e em nada contribui para o crescimento espiritual do crente. Os
crentes se beneficiam, e os incrédulos se convertem, mediante o dom da
profecia, que proclama o Senhor Jesus Cristo como a única esperança do mundo
para a salvação.
Do modo como praticado
em Corinto, o dom de línguas era uma prática
confusa e perturbadora, porque os que reivindicavam possuir o dom,
aparentemente competiam entre si
mostrando o seu dom em público. Aqueles que reivindicavam os dons “inferiores” também se encontravam
aparentemente envolvidos nesta questão de demonstrá-los. É por isso que Paulo
continua declarando:
Que fazer, pois,
irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro doutrina, este traz revelação,
aquele outro língua, e ainda outro interpretação. Seja tudo feito para
edificação. No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que
dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas,
não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com
Deus. Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem.
Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro.
Porque todos podereis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem
consolados. Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas;
porque Deus não é de confusão; e, sim,
de paz (versos 26-33).
Notamos anteriormente
que as mulheres haviam desempenhado um papel destacado no movimento de línguas;
que elas deixam levar-se mais facilmente por suas emoções, sendo mais prontas a
responder às técnicas dos que promovem o dom de línguas. Em todo caso que
conheço pessoalmente, é a mulher que levou o esposo e/ou seu lar ao movimento
de línguas, e ela tem sido a primeira em receber o dom. Também este era
aparentemente o caso em Corinto. É no contexto da declaração da questão das
línguas que Paulo fala as palavras que durante muito tempo têm sido usadas fora
do contexto para opor-se ao direito da mulher desempenhar um ofício na igreja.
Numa sociedade menos liberal que a nossa, quando as mulheres eram pouco mais do
que bens e serviçais dos varões da espécie, as mulheres de Corinto
aparentemente encontraram no dom de línguas
uma oportunidade para impor-se e mostrar que podiam sobrepujar os
homens—pelo menos em questões religiosas
e espirituais. E Paulo diz nesse contexto: “Como em todas as igrejas dos
santos, conservem-se as mulheres caladas nas igrejas” (versos 33, 34).
Observações
Finais
As observações finais do capítulo e da seção
incluem estas palavras: “Portanto, meus irmãos, procurai com zelo o dom de
profetizar, e não proibais o falar em outras línguas. Tudo, porém, seja feito
com decência e ordem” (vs. 39, 40). Posso entender o conselho de Paulo na
situação dos coríntios. A objeção
implacável e proibição de falar em línguas sob as circunstâncias de Corinto
poderiam ter agravado a situação e endurecido a atitude dos que falavam em
línguas.
Recordo-me daqueles
dias antigos quando o sul dos Estados Unidos estava repleto de pequenos grupos de “santidade”,
conhecidos como os santos rodopiantes, os santos choradores, os santos risonhos
e os santos aplaudidores. Qualquer coisa que o grupo particular considerasse
como evidência do batismo do Espírito Santo ou de “obter maior religiosidade”
era a manifestação que se via em seu reavivamento. Conseguir maior
religiosidade ou receber o Espírito Santo fazia com que os santos rodopiantes
girassem sobre o solo, que os santos choradores chorassem, que os santos
risonhos rissem e que os santos aplaudidores aplaudissem. E onde quer que o
falar em línguas fosse considerado uma manifestação do Espírito Santo e evidência necessária de
que uma pessoa é cristã integral, haverá quem fale em línguas.
Quisera que todos
aprendêssemos com os que se desviaram pela tangente nisso. Muitos começaram preocupando-se com
sua apatia espiritual, indiferença e frieza—e esta é uma preocupação de que
todos deveríamos compartilhar; porque certamente não estamos acesos no
Espírito, nossas vidas não irradiam o amor,
o interesse e a dedicação a Deus e a nosso próximo no grau que deveriam.
Os pentecostais buscam erroneamente a solução de seus problemas no dom de
línguas. Oram pelo dom de línguas para sua segurança pessoal de salvação.
Devíamos orar para que essa segurança de salvação—que possuímos só e
exclusivamente pela fé que Deus nos concede no Senhor Jesus Cristo—nos possua
de tal forma mediante o poder do Espírito, que produza em nós todos os
maravilhosos frutos do Espírito: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria,
paz, longanimidade, benignidade,
bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gál. 5:22, 23). O interesse
deles é promover, fazer proselitismo e
infiltrar em todas as partes o seu erro pentecostal. Nosso interesse, porém,
deve ser o de propagar, fazer proselitismo e infiltrar no mundo inteiro o
precioso evangelho de salvação mediante o sangue expiatório de nosso Senhor.
Amém.
[Transcrito de
Pregonero de Justicia, Vol. 4, no. 5, pp. 4-23.]
Comentários
adicionais:
Além da excelente
análise contextual e dos aspectos exegéticos muito precisos abordados pelos
autores acima, há outras considerações adicionais que podem enriquecer o exame
da matéria.
Fica claro de uma
leitura cuidadosa dos capítulos 12 a 14 de 1 Coríntios que o problema abordado
por Paulo tinha que ver com comunicação eficaz. O uso de língua estranha, se
não comunicasse devidamente, não seria de nenhum valor, como o apóstolo deixa
claro, especialmente nos versos 6-11, 21-24.
Contudo, os
pentecostais têm por base um texto, realmente fundamental para o seu entendimento da prática de “falar
em línguas”, o qual merece uma exegese mais profunda. É o velho problema do
“texto fora do contexto que vira um pretexto”: 1 Cor. 14:2 –“Pois quem fala em
outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em
espírito fala mistérios”.
Inicialmente é bom
esclarecer que a maioria dos pentecostais entende que a experiência dos
apóstolos em Atos 2, quando falaram em línguas que foram entendidas pelas
várias pessoas de diferentes etnias no dia de Pentecoste, foi algo único,
inigualável, irrepetível, e que a experiência de “falar em línguas” que adotam
é a de 1 Coríntios 14, especialmente o vs. 2, que se trataria de “língua dos
anjos” (numa referência um tanto forçada de 1 Coríntios 13:1)—uma língua
espiritual, misteriosa, manifesta como dom especial de Deus e prova de que o
que a pronuncia foi “batizado no Espírito”. É mais provável neste texto que ele indique que não a falaria
(“ainda que eu fale. . .).
Como dissemos no artigo
“Para Entender Justificação Pela Fé” (no. 42 de nosso “Catálogo” de temas):
O dom do Espírito é o
selo, o juramento e a garantia de que fomos justificados (Efé. 1:13, 14; Rom. 8:14-16). Isto contradiz a
noção de que o
Espírito é concedido como uma “segunda bênção” posterior e superior à justificação, que produz manifestações
sobrenaturais como garantia de que o indivíduo não só confirma, mas aprimora sua
aceitação diante de Deus. O evento glorioso da imputação da justiça,
baseada na experiência de Cristo, jamais pode ser superado por quaisquer
experiências que o homem desfrute, mesmo as de caráter religioso.
Estaria Paulo em 1 Cor.
14:2 falando de alguém que “em espírito fala em mistérios”, ou seja, fala numa
língua incompreensível aos ouvidos humanos, mas essencialmente espiritual,
elevada, que revela uma ligação especial e muito espiritual com Deus por parte
de quem a emite? Noutras palavras, esta passagem é tida como por si só
justificando toda a contradição evidente da prática pentecostal com as claras
instruções no restante do capitulo de como NÃO se deve empregar o dom de falar
em línguas estranhas no culto congregacional, como nos vs. 23-28.
Há várias posições a
respeito deste texto de interpretação aparentemente difícil. Alguns entendem
que Paulo está realmente dizendo que os que falam em línguas, sem que haja
intérprete (fato comum no meio carismático), se edificam sozinhos pela simples
dotação individual de um poder espiritual que o fenômeno de origem divina lhes
propicia. Todavia, tudo indica que Paulo está falando em termos hipotéticos,
sendo até irônico. Ele quer dizer que de nada valeria a pessoa falar numa
língua misteriosa se não for entendida, pois estaria falando consigo mesma ou
com Deus, por Ele entender certamente todos os idiomas do mundo (o que também
significaria uma sugestão para essa pessoa ficar calada, orando e/ou meditando,
cf. vs. 28).
Ou Paulo poderia estar
recorrendo a fina ironia no vs. 2, como fez ao
tratar do problema dos judaizantes que requeriam a circuncisão de todos,
chegando a dizer, segundo alguns especialistas em grego, que os que insistiam no
rito da circuncisão para os conversos cristãos, fariam melhor se, em lugar de
somente terem removida uma pequena parcela de tecido do órgão genital masculino
(o prepúcio), cortassem tudo de uma vez (ver Gál. 5:12—“se mutilassem”, do
grego ’apocópsontai, palavra derivativa
do verbo com o sentido de “emascular-se”, “castrar-se”). O apóstolo Paulo
caracteriza-se às vezes como bastante irônico.
Por fim, se o fenômeno
carismático moderno é manifestação do Espírito Santo, como ficam os textos de 1
Cor. 12:4, Efés. 4:4, 12, 13 que falam que o Espírito é concedido para união,
fraternidade, edificação da igreja como um todo? Já se viu grupo mais desunido
do que as várias corporações pentecostais protestantes, acrescida nestas
últimas décadas do segmento católico para dividir ainda mais os vários grupos
que reivindicam posse especial do Espírito de Deus? Disse Jesus: “Por seus
frutos. . .”
E se tal fenômeno é
evidência do derramamento da “chuva serôdia” (Atos 2:17ss), por que, após
tantas décadas, ainda não se superou a “vergonha da tarefa inacabada”—a
evangelização mundial prevista em Mat. 24:14 pelas várias corporações que
teriam esse poder espiritual superior? Ademais, em Efésios 4 Paulo não
estabelece como regra que as línguas deveriam ser dom único ou necessariamente
atribuído a todos, pois os dons são vários, e variadamente concedidos: ver
Efés. 4: 11, 1 Cor. 12:8-11. – Prof. Azenilto G. Brito.
FONTE: http://www.azenilto.com
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