DIANTE DA IMAGEM: DA PLANÍCIE DE DURA AO CONFLITO FINAL
Ricardo André
Texto Base: Daniel 3:1-15
Texto Complementar: Apocalipse 13:11-18
INTRODUÇÃO
Há narrativas nas
Escrituras que nos emocionam. Outras nos ensinam grandes lições de fé. Mas
existem algumas que ultrapassam o campo da história e se tornam verdadeiras
janelas para o futuro. São acontecimentos que, além de relatarem fatos reais,
revelam profeticamente aquilo que ocorrerá pouco antes da volta de Cristo. Daniel 3 é uma dessas narrativas.
À primeira vista,
encontramos apenas um poderoso rei, uma imensa estátua de ouro, uma multidão
reunida para uma cerimônia oficial e três jovens hebreus que se recusam a
desobedecer ao seu Deus. Entretanto, quando contemplamos esse capítulo à luz da
profecia bíblica, percebemos que ele é muito mais do que um registro histórico.
Ele constitui um ensaio profético do conflito final entre a verdadeira e a
falsa adoração.
A imagem de ouro
erguida na planície de Dura não foi apenas um monumento da soberba de
Babilônia. Ela simboliza um sistema de adoração imposto pelo poder civil e
religioso, exigindo obediência absoluta sob ameaça de morte. Aquilo que
aconteceu na antiga Babilônia não foi um episódio isolado da história; foi uma
antecipação do último grande teste que envolverá toda a humanidade.
Não é por acaso que o
mesmo Deus que inspirou o profeta Daniel também inspirou o apóstolo João. O
Espírito Santo ligou essas duas profecias de maneira extraordinária. A história
apresentada em Daniel encontra seu desfecho profético em Apocalipse. O que
começa na planície de Dura alcança seu clímax em Apocalipse 13, onde somos
advertidos de que, nos últimos dias da história da Terra, surgirá novamente um
poder que exigirá adoração, levantará uma imagem e imporá sua autoridade por
meio de decretos e sanções contra aqueles que permanecerem fiéis aos
mandamentos de Deus.
Essa conexão não é
fruto da imaginação humana; ela faz parte da revelação divina. O conflito
central permanece o mesmo: Quem merece a nossa adoração? A quem obedeceremos
quando a fidelidade a Deus exigir coragem, renúncia e até mesmo sacrifício?
Por isso, Ellen White
afirma: “A História se repetirá. A religião falsa será exaltada. O primeiro dia
da semana, um dia comum de trabalho que não possui santidade alguma, será
estabelecido como o foi a estátua de Babilônia.” (Eventos Finais [CPB, 2011], p. 80).
Diante dessa solene
advertência, precisamos estudar Daniel 3 não apenas para admirar a coragem de
Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, mas para aprender como permanecer firmes quando
enfrentarmos o mesmo princípio de prova em escala mundial.
Nesta mensagem, veremos
que a história da planície de Dura não pertence apenas ao passado. Ela aponta
diretamente para o futuro. Descobriremos que a imagem de ouro anuncia a imagem
da besta; que a fornalha ardente antecipa a perseguição final; que a fidelidade
daqueles três jovens revela a experiência do povo remanescente; e que o Deus
que caminhou com eles no fogo é o mesmo que estará ao lado de Seu povo no
último conflito entre a verdade e o erro.
I
– A IMAGEM DE OURO: O ORGULHO HUMANO DESAFIANDO A DEUS
O primeiro movimento de
Satanás no grande conflito sempre foi substituir a autoridade de Deus pela
autoridade humana. Foi assim no Céu, quando Lúcifer desejou ocupar o lugar do
Altíssimo; foi assim no Éden, quando nossos primeiros pais foram tentados a
decidir por si mesmos o que era certo e errado; e foi assim na antiga
Babilônia, quando Nabucodonosor tentou transformar sua vontade em lei absoluta.
Daniel inicia esse
capítulo dizendo: "O rei Nabucodonosor fez uma imagem de ouro" (3:1).
À primeira vista, essa
pode parecer apenas uma informação histórica. Mas, quando examinamos
cuidadosamente o texto, percebemos que essa imagem representa muito mais do que
uma magnífica obra arquitetônica. Ela simboliza a tentativa do homem de
desafiar os decretos do Céu.
O arqueólogo ou o
historiador talvez fique impressionado com suas dimensões monumentais (27 m x
2,70). Entretanto, o estudante da profecia percebe algo ainda mais profundo:
aquela imagem era uma declaração pública de independência em relação à Palavra
de Deus.
Conforme descreve C.
Mervyn Maxwell:
“Essa imagem blasfema,
de Daniel 3 era visível a uma distância de vários quilômetros, enquanto a sua
superfície dourada resplandecia sob os intensos raios do sol. A tecnologia e o
custo de sua construção devem ter sido assunto para vários meses” (Uma Era Segundo as Profecias de Daniel
[CPB, 2004], p. 51).
Imaginem a cena. Durante
meses, milhares de trabalhadores estiveram envolvidos naquele gigantesco
empreendimento. Recursos financeiros praticamente ilimitados foram empregados.
Toda a engenharia do império foi mobilizada para levantar aquele monumento que
dominava a paisagem da planície de Dura. Quando os primeiros raios do sol
incidiam sobre sua superfície revestida de ouro, ela podia ser vista a
quilômetros de distância, impondo respeito, admiração e temor.
Mas a pergunta
permanece: Por que Nabucodonosor mandou construir essa imagem?
A resposta está no
capítulo anterior. Em Daniel 2, Deus havia concedido ao rei um sonho
extraordinário. Naquela visão profética, uma grande estátua composta por
diferentes metais representava a sucessão dos grandes impérios da história
mundial.
A cabeça de ouro
simbolizava Babilônia. O peito e os braços de prata representavam o império
Medo-Persa. O ventre e os quadris de bronze apontavam para a Grécia. As pernas
de ferro simbolizavam Roma. E os pés de ferro misturado com barro revelavam a
fragmentação dos reinos até o estabelecimento do Reino eterno de Deus.
Era uma mensagem clara
e irrefutável: nenhum império humano é eterno. Todos passam. Somente o Reino de
Deus permanecerá para sempre.
Nabucodonosor compreendeu
perfeitamente essa mensagem. Entretanto, conhecer a verdade não significa
aceitá-la. É muito provável que o rei tenha ficado profundamente incomodado com
uma declaração específica da interpretação de Daniel: “Depois de ti se levantará
outro reino, inferior ao teu” (Dn 2:39).
Seu orgulho não
permitia admitir que Babilônia tivesse prazo de validade. Seu coração
recusava-se a aceitar aquilo que Deus já havia determinado. Por isso, cerca de
vinte anos depois do sonho registrado em Daniel 2, Nabucodonosor resolveu
responder à profecia divina com uma contraprofecia humana.
Se Deus havia mostrado
apenas uma cabeça de ouro, o rei ergueria uma estátua inteiramente de ouro. Da
cabeça aos pés. Era como se dissesse diante de todo o universo: "Deus
disse que meu reino terminará. Eu afirmo que jamais terminará."
A imagem de ouro era,
portanto, uma tentativa deliberada de contradizer a Palavra de Deus. Era o
orgulho humano levantando-se contra a soberania divina. Era a criatura
desafiando o Criador. Contudo, havia ainda outro propósito por trás daquela
construção monumental.
Nabucodonosor
compreendia que a estabilidade política do império dependia da fidelidade
absoluta de seus administradores.
Como observa o
Comentário Bíblico Andrews: “O que era necessário para evitar o colapso do
reino era a lealdade absoluta dos que ocupavam cargos administrativos em todo o
reino. O rei ordenou que todos estivessem presentes na dedicação da imagem (v.
2)” (Comentário Bíblico Andrews [CPB,
2025], p. 703).
Não era apenas uma
cerimônia de inauguração. Era um gigantesco teste nacional de fidelidade. Todos
os governadores, prefeitos, juízes, tesoureiros, magistrados e autoridades do
império foram convocados.
Ninguém poderia alegar
desconhecimento. Ninguém poderia permanecer neutro. Cada pessoa teria de fazer
uma escolha pública. Curvar-se ou permanecer em pé. Obedecer ao rei ou
permanecer fiel ao Deus do Céu.
Entretanto, o aspecto
mais sério daquela cerimônia ainda estava por vir. A imagem não possuía apenas
significado político. Ela tinha caráter religioso.
O Comentário Bíblico Andrews afirma: “A cerimônia não era apenas
política, mas religiosa. No momento apropriada, todos os que estavam diante da
imagem deveriam se prostrar e adorá-la (v. 5)” (Idem).
Percebam como Satanás
sempre trabalha. O Estado usa sua autoridade. A religião fornece a legitimidade
espiritual. E ambos unem forças para controlar a consciência das pessoas.
Ao se curvarem diante
daquela imagem, os oficiais do império estariam demonstrando, pelo menos
exteriormente, lealdade absoluta ao rei.
Aquela imagem não era
simplesmente uma escultura. Ela representava a tentativa humana de substituir a
vontade de Deus pela vontade do homem. Representava a exaltação do poder humano
acima da autoridade divina. Representava a rebelião contra a profecia.
Nabucodonosor havia
realizado grandes conquistas militares. Transformara Babilônia na maior
potência do mundo. Mas ainda lhe faltava uma conquista: vencer a Palavra de
Deus. E isso jamais seria possível. Porque nenhum decreto humano pode anular
aquilo que Deus determinou. Nenhum governo consegue impedir o cumprimento da
profecia. Nenhuma autoridade terrestre pode alterar os planos do Céu.
Aplicação
Profética
Queridos irmãos, esse
relato não foi preservado apenas para satisfazer nossa curiosidade histórica. Ele
foi registrado porque voltará a acontecer.
De acordo com o
calendário profético, estamos vivendo nos últimos momentos da história deste
mundo. Assim como houve uma imagem na antiga Babilônia, Apocalipse 13 anuncia
que haverá outra imagem nos acontecimentos finais da história humana, para
forçar a uniformidade religiosa.
João descreve a
obra-prima do engano satânico no tempo do fim. O dragão atua por meio de duas
bestas para estabelecer um sistema mundial de falsa adoração. O objetivo
permanece exatamente o mesmo observado em Daniel 3: conquistar a adoração universal. Novamente
“Igreja e Estado” se unirão para forçar o culto idólatra. A estratégia final é
obrigar o mundo a fazer algo para a primeira besta: formar uma imagem dedicada
a ela e então adorar essa imagem, e, por tabela, adorar a besta e o próprio
dragão. Novamente “Igreja e Estado” se unirão para forçar o culto idólatra
O profeta declara: “Seduz
aqueles que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi permitido
realizar diante da besta, dizendo aos
que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta, àquela que foi
ferida à espada e sobreviveu” (Ap 13:14, NAA), impondo sua marca de autoridade
e perseguindo aqueles que se recusarem a se submeter (Ap 13:14-17).
A besta que sobe da
terra — representando a nação norte-americana e, por extensão, o protestantismo
apostatado naquele contexto — exercerá influência para que “todos, os pequenos
e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz com que lhes
seja dada certa marca na mão direita ou na testa” (Ap 13:16, NAA).
Observem um detalhe
impressionante. João menciona seis categorias de pessoas: “os pequenos e os
grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos”. O
número seis é símbolo do homem sob o controle de Satanás.
Esse detalhe dialoga de
maneira extraordinária com Daniel 3. A imagem possuía sessenta côvados de altura
e seis côvados de largura. A ordem para adorar a imagem aparece seis vezes em
Daniel 3 (Dn 3:5, 7, 10, 12, 14 e 18).
No Apocalipse, a
advertência contra a adoração da besta e de sua imagem também aparece seis
vezes (Ap 13:15; 14:9, 11; 16:2; 19:20; 20:4). E o próprio número da besta é
666, também enfatizando o número 6.
Essas correspondências
dificilmente podem ser consideradas coincidência.
Daniel apresenta o
modelo histórico. Apocalipse revela seu cumprimento escatológico. Portanto
fazemos bem em prestar muita atenção ao que ocorre nessas narrativas e como
Deus conduz de modo soberano os assuntos do mundo.
Aquilo que ocorreu na
planície de Dura funciona como uma miniatura profética do conflito final entre
Cristo e Satanás.
Assim como
Nabucodonosor levantou sua imagem para desafiar a autoridade divina, a imagem
da besta representará um sistema religioso-político que buscará substituir a
autoridade de Deus pela autoridade humana.
Por isso, Daniel 3 não
é apenas uma história sobre três jovens hebreus. É uma mensagem dirigida ao
povo remanescente dos últimos dias.
O mesmo conflito
continua. A mesma pergunta permanece.
Quando chegar o momento
decisivo, diante de quem estaremos dispostos a nos curvar? Diante dos decretos
dos homens ou diante da autoridade eterna da Palavra de Deus?
II
– A ADORAÇÃO SERÁ O GRANDE TEMA DO CONFLITO
Depois de levantar a
imagem de ouro na planície de Dura, Nabucodonosor preparou uma grandiosa
cerimônia para sua dedicação. Todos os detalhes foram cuidadosamente
organizados. As principais autoridades do império foram convocadas. A música
deveria soar no momento exato. O ambiente inspirava reverência e solenidade.
Tudo parecia majestoso. Mas, por trás de toda aquela pompa, escondia-se uma
profunda batalha espiritual.
Daniel 3 não é um capítulo
sobre arquitetura, nem sobre música, nem sobre política. Também não é, em
primeiro lugar, um relato sobre perseguição religiosa. O tema central desse
capítulo pode ser resumido em uma única palavra: Adoração.
Não por acaso, ao longo
do capítulo aparecem repetidamente as palavras adorar, prostrar e servir. O
Espírito Santo deseja que o leitor compreenda que o grande conflito sempre gira
em torno de uma única pergunta: Quem é
digno da nossa adoração?
Quando chegou o momento
determinado, ao som dos instrumentos musicais, toda a multidão se prostrou
diante da imagem de ouro. A música, o ambiente solene e a pressão da maioria
criaram uma poderosa atmosfera de conformidade. Curvar-se parecia o caminho
mais fácil, mais seguro e mais conveniente. Entretanto, em meio àquela multidão
ajoelhada, três homens permaneceram de pé. Sadraque, Mesaque e Abede-Nego
recusaram-se a prestar culto à imagem levantada pelo rei.
A fidelidade deles tornou-se
imediatamente visível. Não foi necessário que protestassem. Não levantaram
cartazes. Não fizeram discursos. Bastou permanecerem em pé quando todos os
demais se curvaram. A verdadeira fidelidade a Deus sempre se destaca, mesmo em
silêncio.
Naturalmente, aquela
atitude não passou despercebida. Alguns oficiais babilônios aproveitaram a
ocasião para denunciar os três jovens diante do rei. Daniel registra que eles
disseram:
1) Foi o próprio rei
quem confiou a esses homens importantes responsabilidades administrativas na
província da Babilônia;
2) Esses judeus não prestam
culto aos deuses do rei;
3) Eles também se
recusam a adorar a imagem de ouro que o senhor levantou (Dn 3:8-12).
A acusação tinha um
propósito muito claro: despertar a ira de Nabucodonosor e apresentar a
fidelidade a Deus como um ato de deslealdade ao Estado. Essa estratégia
continua sendo utilizada ao longo da história. Sempre que os poderes humanos
entram em conflito com a autoridade divina, procuram retratar os fiéis como
pessoas rebeldes, perigosas ou contrárias ao bem comum.
Tomado pela indignação,
Nabucodonosor mandou trazer imediatamente os três jovens à sua presença. Entretanto,
antes de executar a sentença, concedeu-lhes uma segunda oportunidade. Talvez
imaginasse que eles não tivessem compreendido a ordem. Talvez acreditasse que,
diante da ameaça de morte, mudariam de atitude.
O rei estava disposto a
repetir toda a cerimônia. A música tocaria novamente. A imagem continuaria
diante deles. Restava apenas uma escolha. Curvar-se ou morrer (Dn 3:13-14).
Foi então que
Nabucodonosor pronunciou uma das declarações mais arrogantes registradas nas
Escrituras: “E quem é o deus que os poderá livrar das minhas mãos?” (Dn 3:15,
NAA).
Sem perceber, o rei
deixou de desafiar apenas três jovens. Ele lançou um desafio ao próprio Deus do
Céu.
A resposta daqueles
jovens constitui uma das maiores demonstrações de fé encontradas em toda a
Bíblia:
“Se o nosso Deus, a
quem servimos, quiser livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e
das suas mãos, ó rei. E mesmo que ele não nos livre, fique sabendo, ó rei, que
não prestaremos culto aos seus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que o
senhor levantou” (Dn 3:17,18, NAA).
Que extraordinária
declaração de confiança!
Eles não serviam a Deus
porque tinham garantia de livramento. Serviam porque Deus era digno de ser
obedecido. Sua fidelidade não dependia das circunstâncias. Dependia do caráter
de Deus.
Eles sabiam que o Senhor
possuía poder para livrá-los. Mas também reconheciam Sua soberania para agir
conforme Sua perfeita vontade. A verdadeira fé não exige explicações. Ela permanece
firme mesmo quando não conhece o resultado.
Antes daquele dia
decisivo, certamente aqueles jovens já haviam preparado o coração. Quando
começaram a circular os rumores sobre a construção da imagem e sobre a
cerimônia de adoração que seria realizada, eles buscaram comunhão com Deus.
Meditaram em Suas promessas, fortaleceram a confiança em Seu poder e
relembraram os princípios eternos dos Dez Mandamentos. Com a consciência
firmada na Palavra, tomaram uma decisão inegociável: permaneceriam fiéis ao Senhor,
quer fossem libertados da fornalha, quer entregassem a própria vida em
testemunho de sua fidelidade.
Essa é a essência da
verdadeira adoração. Adorar não consiste apenas em cantar hinos, fazer orações
ou participar dos cultos. Adorar é reconhecer que somente Deus possui
autoridade absoluta sobre nossa consciência. Adorar é permanecer fiel quando
obedecer a Deus exige coragem. Adorar é continuar confiando mesmo quando a
fidelidade parece custar tudo.
Percebam, irmãos, que o
conflito nunca foi sobre uma estátua de ouro. O conflito era sobre quem
receberia a adoração. Era uma disputa entre a autoridade humana e a autoridade
divina. Entre a palavra do rei e a Palavra de Deus.
Aplicação
Profética
É exatamente esse mesmo
cenário que reaparece em Apocalipse 13. João utiliza repetidas vezes a palavra
"adorar", deixando claro que o conflito final da história também
será, acima de tudo, uma crise de adoração. O centro da controvérsia não será
econômico, político ou simplesmente social, embora todos esses elementos
estejam presentes. A questão decisiva será espiritual: quem receberá a adoração da humanidade?
Assim como
Nabucodonosor ergueu uma imagem e exigiu que todos se prostrassem diante dela,
Apocalipse apresenta um poder que levantará a imagem da besta e buscará obter
adoração universal mediante sinais, enganos, coerção e perseguição.
João, sob a inspiração
do Espírito Santo, utiliza Daniel 3 como um modelo profético para descrever os
acontecimentos finais. A antiga planície de Dura torna-se uma antecipação da
crise escatológica.
Na Babilônia antiga, a
ordem era: "Adorem a imagem." Na Babilônia espiritual, a ordem será a
mesma. Naquele tempo, quem permanecesse fiel enfrentaria a fornalha. No tempo
do fim, aqueles que permanecerem leais a Cristo enfrentarão restrições
econômicas, perseguição e até mesmo um decreto de morte.
Contudo, a grande
pergunta continua inalterada desde os dias de Daniel: Quando o mundo inteiro se curvar, permaneceremos de pé ao lado de
Cristo?
A resposta a essa
pergunta não será determinada apenas naquele dia. Ela está sendo construída
agora, nas pequenas escolhas diárias de fidelidade, obediência e comunhão com
Deus.
Quem aprende a adorar
somente ao Senhor nas decisões aparentemente pequenas da vida estará preparado
para permanecer fiel quando chegar o grande teste profético anunciado em
Apocalipse 13.
III
– A UNIÃO ENTRE RELIGIÃO E ESTADO
Até este momento vimos
que Nabucodonosor levantou uma imagem e exigiu adoração. Entretanto, resta uma
pergunta fundamental: Como aquela falsa
adoração foi imposta?
A resposta é simples e
profundamente profética. Ela foi imposta
pela união entre o poder religioso e o poder político. Embora a imagem
possuísse caráter religioso, quem obrigava as pessoas a adorá-la era o Estado.
O rei promulgava o decreto, os magistrados o executavam e a punição recaía
sobre todos os que se recusassem a obedecer.
Esse é um princípio que
atravessa toda a história do grande conflito. Sempre que a religião abandona o
poder da Palavra de Deus e busca apoio na força do Estado para impor suas
crenças, nasce a perseguição. Foi assim na antiga Babilônia. Foi assim durante
a Idade Média. E, segundo a profecia, será novamente assim pouco antes da volta
de Cristo.
Apocalipse 13 apresenta
exatamente esse mesmo cenário.
A besta que emerge da
terra (Ap 13:11), identificada como sendo os Estados Unidos da América,
exercerá papel decisivo nos acontecimentos finais. A profecia revela que esse
poder levantará uma imagem da primeira besta e utilizará sua influência para
conduzir o mundo à falsa adoração (Ap 13:14).
Os Estados Unidos, que
em sua origem ofereceram liberdade religiosa e serviram de refúgio para milhões
de pessoas perseguidas por motivos de consciência, desempenharão, segundo a
profecia, uma função perseguidora nos eventos finais, utilizando sua autoridade
para favorecer um sistema religioso apostatado.
Mas surge uma pergunta
importante: O que é, afinal, a imagem da
besta?
Ellen G. White responde
com clareza:
“Quando as principais igrejas dos Estados
Unidos, ligando-se em pontos de doutrinas que lhes são comuns, influenciarem o
Estado para que imponha seus decretos e lhes apoie as instituições, a América
do Norte protestante terá então formado uma imagem da hierarquia romana, e a
aplicação de penas civis aos dissidentes será o resultado inevitável. [...] A
“imagem da besta” representa a forma de protestantismo apóstata que se
desenvolverá quando as igrejas protestantes buscarem o auxílio do poder civil para
imposição de seus dogmas” (O Grande
Conflito [CPB, 2006], p. 445).
Observem como essa
declaração dialoga diretamente com Daniel 3. Na planície de Dura, a imagem
somente possuía força porque estava amparada pelo decreto do rei. Da mesma
forma, em Apocalipse 13, a imagem da besta adquire poder coercitivo por meio da
legislação civil.
Como
isso se dará? Os Estados Unidos da América do Norte,
num futuro bem próximo, por meio de seu parlamento, emitirão um decreto que
obrigará a todos guardarem o domingo (o falso sábado), como um gesto de
adoração ao papado, a besta que emerge do mar (Ap 13:1-10). O Decreto Dominical
será o clímax da união entre esses duas bestas. Nesse tempo, a observância do
domingo pelas pessoas se tornará “a marca da besta”. Pessoas de todas as
classes sociais serão pressionadas a receber essa marca em sua mão direita ou
na testa (Ap 13:15-18), resultando na perda da liberdade do fiel povo de Deus,
que sofrerá terrível perseguição e boicote econômico e, por fim, a pena de
morte.
Nesse contexto, a
observância do domingo, imposta por lei em oposição ao mandamento divino,
constituirá aquilo que Apocalipse denomina de "marca da besta". Pessoas de todas as classes sociais
serão pressionadas a receber essa marca "na mão direita ou na testa"
(Ap 13:15-18), enfrentando sanções econômicas, perseguição e, por fim, um
decreto de morte contra aqueles que permanecerem fiéis aos mandamentos de Deus.
Sobre esse momento
solene, Ellen G. White escreveu:
“Quando, porém, a observância do domingo for
imposta por lei, e o mundo for esclarecido relativamente à obrigação do
verdadeiro sábado, quem então transgredir o mandamento de Deus para obedecer a
um preceito que não tem maior autoridade que a de Roma, honrará desta maneira
ao papado mais do que a Deus. Prestará homenagem a Roma, e ao poder que impõe a
instituição que Roma ordenou. Adorará a besta e a sua imagem. Ao rejeitarem os
homens a instituição que Deus declarou ser o sinal de Sua autoridade, e
honrarem em seu lugar a que Roma escolheu como sinal de sua supremacia,
aceitarão, de fato, o sinal de fidelidade para com Roma - "o sinal da
besta". E somente depois que esta situação esteja assim plenamente exposta
perante o povo, e este seja levado a optar entre os mandamentos de Deus e os
dos homens, é que, então, aqueles que continuam a transgredir hão de receber ‘o
sinal da besta’” (O Grande Conflito
[CPB, 2006], p. 449).
Por essa razão, Ellen
White declara ainda:
“A questão do sábado
será o ponto controverso no grande final conflito em que o mundo inteiro há de
ser envolvido” (Testemunhos Seletos
[CPB, 1985], v. 3, p. 19).
E acrescenta:
“Quando a América, o
país da liberdade religiosa, se aliar com o papado, a fim de dominar as
consciências e impelir os homens a reverenciar o falso sábado, os povos de
todos os demais países do mundo hão de ser induzidos a imitar-lhe o exemplo.” (Testemunhos Seletos [CPB, 1985], v. 2, p.
373).
Essas declarações
revelam que a crise final não será apenas religiosa. Ela envolverá governos,
parlamentos, sistemas jurídicos e instituições civis.
A liberdade de
consciência será colocada à prova.
Nesse contexto, Ellen
White adverte:
“A Igreja e o Estado
estão agora fazendo preparativos para um futuro conflito. Como outrora os
romanistas, os protestantes estão agindo dissimuladamente para exaltar o
domingo. Por todo o país a igreja papal está elevando seus gigantescos e
maciços edifícios em cujos recessos se hão de repetir as cenas de perseguição
de outros tempos.” (Testemunhos Seletos,
v. 2, p. 149).
Ao observarmos o
cenário religioso e político contemporâneo, percebemos movimentos de
aproximação entre diferentes segmentos do cristianismo e uma crescente valorização
da cooperação entre religião e poder civil. Tais movimentos são compatíveis com
o cenário delineado nas profecias de Daniel e Apocalipse e merecem ser
acompanhados com discernimento espiritual, sempre à luz das Escrituras.
Várias coligações e
organizações cristãs, sobretudo nos Estados Unidos da América do Norte, estão
trabalhando arduamente neste sentido. A própria visita de Ratzinguer à casa
branca nos Estados Unidos, em 2008, não foi por acaso. Isso foi claramente o
cumprimento da profecia relativamente ao estender das mãos sobre o abismo de
que falou a serva do Senhor e o veremos de uma forma ainda mais acentuada. Mais
do que nunca, espiritismo, protestantismo e catolicismo estão unidos no
propósito de implementar uma lei dominical!
Daniel
3 e Apocalipse 13: o mesmo padrão profético
Voltemos agora à
planície de Dura. Daniel registra que o decreto de Nabucodonosor deveria ser
obedecido por todos. Não havia privilégios. Não havia exceções. Não importava
nacionalidade. Não importava posição social. Não importava influência política.
Todos deveriam adorar.
Apocalipse 13 utiliza
praticamente a mesma linguagem ao declarar que a falsa adoração alcançará "...a
todos, pequenos e grandes, ricos e pobres..."
A semelhança é
impressionante. Daniel apresenta o modelo
histórico. João descreve seu cumprimento escatológico.
Observem a sequência
dos acontecimentos em Daniel 3.
Quem organizou toda a
cerimônia? O rei.
Quem promulgou o
decreto? O governo.
Quem executou a ordem?
Os magistrados.
Quem aplicava a
punição? O Estado.
Mas qual era o
objetivo? Impor uma prática religiosa.
Aqui encontramos um dos
mais importantes princípios proféticos das Escrituras: Sempre que o Estado utiliza seu poder para impor adoração, nasce a
perseguição. Foi assim na Babilônia.
Foi assim durante o período medieval.
E Apocalipse anuncia que será novamente assim nos acontecimentos finais da
história.
Cristo
permanece ao lado dos Seus fiéis
Mas Daniel 3 não
termina com o decreto. Também não termina com a perseguição. Nem com a
fornalha.
Quando Sadraque,
Mesaque e Abede-Nego foram lançados no fogo, ocorreu o maior milagre daquele
capítulo. Ao olhar para dentro da fornalha, Nabucodonosor ficou completamente
perplexo. Ele esperava encontrar três homens consumidos pelas chamas. Entretanto,
viu quatro homens caminhando livremente em meio ao fogo (Dn 3:24).
Segundo sua própria
percepção, declarou que o quarto personagem era semelhante a "um filho dos
deuses" (Dn 3:25).
O rei não conseguia
compreender plenamente aquilo que seus olhos contemplavam. Nós, porém, sabemos
quem estava ali. Era o próprio Senhor Jesus Cristo, em uma forma pré-encarnada,
para mostrar uma verdade que atravessa toda a história do povo de Deus: Cristo nunca abandona aqueles que
permanecem fiéis a Ele.
Sobre esse momento
extraordinário, Ellen G. White escreveu:
“O Senhor não esqueceu
os Seus. Sendo Suas testemunhas lançadas na fornalha, o Salvador Se lhes
revelou em Pessoa e junto com eles andava no meio do fogo. Na presença do
Senhor do calor e do frio, as chamas perderam seu poder de consumir” (Profetas e Reis [CPB, 2007], p. 508, 509).
Essa promessa alcança
também o povo remanescente dos últimos dias. A profecia anuncia que haverá um
tempo de prova. Haverá oposição. Haverá perseguição. Mas a mesma presença que
caminhou com os três hebreus na fornalha caminhará com aqueles que permanecerem
leais aos mandamentos de Deus e à fé em Jesus.
A maior promessa de
Daniel 3 não é a ausência da fornalha. É a presença de Cristo dentro dela.
IV
– A PRESSÃO ECONÔMICA: A FIDELIDADE QUE NÃO PODE SER COMPRADA
À medida que avançamos
na comparação entre Daniel 3 e Apocalipse 13, percebemos que ambos os capítulos
descrevem uma escalada na perseguição ao povo de Deus.
Na planície de Dura, a
consequência imediata da desobediência era a fornalha ardente. Em Apocalipse
13, porém, o cenário torna-se ainda mais abrangente.
Antes da sentença de
morte, haverá uma tentativa de enfraquecer a fidelidade do povo de Deus por
meio da pressão econômica. O objetivo permanece o mesmo: obrigar a consciência
a se render.
O profeta João declara:
“Para que ninguém possa comprar ou vender [...]” (Ap 13:17).
A profecia revela que
aqueles que permanecerem fiéis aos mandamentos de Deus enfrentarão restrições
que alcançarão os aspectos mais básicos da vida. Comprar, vender, trabalhar,
sustentar a família e participar da vida econômica tornar-se-ão instrumentos de
coerção. O conflito ultrapassará o campo das convicções religiosas e atingirá
diretamente a sobrevivência.
Entretanto, nem mesmo
essa pressão será suficiente para satisfazer os inimigos da verdade.
Quando a coerção
econômica não produzir o resultado esperado, a perseguição se intensificará.
Sobre esse momento
solene, Ellen G. White escreveu:
“[...] A ira do homem
será especialmente despertada contra os que santificam o sábado do quarto
mandamento; e por fim um decreto universal denunciará a estes como dignos de
morte. Os tempos de provação que estão diante do povo de Deus reclamam uma fé
que não vacile. Seus filhos devem tornar manifesto que Ele é o único objeto do
seu culto, e que nenhuma consideração, nem mesmo o risco da própria vida, pode
induzi-los a fazer a mínima concessão a um culto falso. Para o coração leal, as
leis de homens pecaminosos e finitos se tornam insignificantes ao lado da
Palavra do eterno Deus. A verdade será obedecida, embora o resultado seja
prisão, exílio ou morte.” (Profetas e
Reis [CPB, 2007], p. 512, 513).
Percebam que a
estratégia de Satanás muda ao longo da história, mas seu objetivo permanece
exatamente o mesmo.
No Egito, utilizou a
escravidão. Na Babilônia, empregou a fornalha. Na Idade Média, recorreu às prisões,
aos tribunais religiosos e até o assassinato. No tempo do fim, utilizará também
mecanismos econômicos, prisões, decretos civis e assassinatos dos fiéis.
Em todas essas
situações, porém, o alvo é sempre o mesmo: forçar a consciência e substituir a
obediência a Deus pela submissão aos homens.
Mas Daniel 3 nos ensina
uma verdade extraordinária. O milagre não aconteceu quando o decreto foi
publicado. Também não aconteceu quando os três jovens foram denunciados. Nem
quando compareceram diante do rei. Nem mesmo quando foram amarrados e lançados
na fornalha. O milagre aconteceu dentro do fogo.
Quando tudo parecia
perdido, Cristo manifestou Sua presença ao lado de Seus servos. O quarto Homem
estava na fornalha. Essa é uma das mais belas promessas de toda a Bíblia.
Deus nem sempre impede
que Seus filhos atravessem a prova. Mas jamais os abandona durante ela.
Sobre essa promessa,
Ellen G. White escreveu:
“Aquele que andou com
os hebreus valorosos na fornalha ardente, estará com os Seus seguidores em
qualquer lugar. Sua constante presença confortará e sustentará. Em meio ao
tempo de angústia – angustia como nunca houve desde que houve nação – Seus
escolhidos ficarão inamovíveis” (Idem,
p. 513).
Que promessa
maravilhosa! O mesmo Cristo que caminhou entre as chamas com Sadraque, Mesaque
e Abede-Nego caminhará ao lado de Seu povo no último conflito da história. Isso
também nos ajuda a compreender uma importante lição sobre a fé daqueles três
jovens.
Eles criam plenamente no
poder de Deus para livrá-los. Mas não condicionavam sua fidelidade ao milagre. Essa
compreensão aparece claramente nas palavras: “Mas se Ele não nos livrar” (Dn
3:17-18).
Eles sabiam que Deus podia
livrá-los. Entretanto, reconheciam que o Senhor nem sempre escolhe livrar Seus
servos da maneira esperada.
Ao longo da história,
muitos homens e mulheres de Deus permaneceram fiéis sem experimentar um
livramento miraculoso nesta vida. Profetas como Isaías e Zacarias sofreram a
morte por permanecerem leais ao Senhor. Da mesma forma, inúmeros cristãos,
desde os tempos apostólicos até nossos dias, testemunharam sua fidelidade
enfrentando perseguições, prisões e o próprio martírio.
Daniel 3 registra um extraordinário
livramento físico. Contudo, essa não é a experiência de todos os servos de
Deus. Em muitos momentos, o Senhor permite que Seus filhos O glorifiquem não
por meio de uma vitória visível, mas por intermédio de uma fidelidade
inabalável em meio ao sofrimento.
Às vezes, Deus manifesta
Seu poder libertando. Em outras ocasiões, manifesta Seu poder sustentando. Em
ambas as situações, Seu nome é glorificado.
Essa verdade prepara o
povo de Deus para os acontecimentos finais. Nossa esperança não repousa na
certeza de escaparmos de toda prova. Nossa esperança repousa na certeza de que
Cristo jamais nos abandonará e de que nossa vida está segura em Suas mãos. Por
isso, o maior livramento prometido aos fiéis não é, necessariamente, a
preservação da vida presente. A grande esperança do cristão é a vitória
definitiva sobre a morte.
Mesmo que alguns dos
filhos de Deus venham a selar sua fidelidade com a própria vida, todos serão
contemplados com o maior de todos os milagres: a ressurreição por ocasião da gloriosa volta de Jesus. Como
anunciam as Escrituras em 1 Tessalonicenses 4:13-18 e 1 Coríntios 15:12-26,
Cristo chamará Seus filhos do pó da terra, e a morte será vencida para sempre.
Essa é a certeza que
sustentou os três jovens hebreus. Essa é a esperança que fortaleceu os mártires
ao longo dos séculos. E essa será também a esperança do povo remanescente que
permanecerá fiel até o fim.
V
– O PEQUENO REMANESCENTE FIEL
Depois de contemplarmos
a grandiosidade da imagem, a força do decreto, a união entre religião e Estado
e a ameaça da perseguição, nossos olhos são conduzidos para uma cena que, à
primeira vista, parece insignificante, mas que possui enorme significado aos
olhos de Deus.
Enquanto milhares de
pessoas se curvavam diante da imagem de ouro, apenas três homens permaneceram
em pé. Que contraste impressionante!
De um lado, uma multidão
incontável. Do outro, apenas Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Humanamente
falando, eles estavam completamente sozinhos. Não possuíam influência política.
Não tinham apoio popular. Não dispunham de poder militar. Não podiam contar com
a proteção de qualquer autoridade humana. Tinham apenas uma coisa: a certeza de
que Deus era digno de sua obediência.
Aquela cena nos ensina
uma das maiores lições da história da redenção: A verdade nunca é determinada
pela maioria.
Ao longo das
Escrituras, Deus frequentemente realizou Sua obra por meio de uma minoria fiel.
Nos dias do dilúvio, quase toda a humanidade rejeitou a mensagem divina, mas
Noé permaneceu fiel. Nos dias de apostasia em Israel, Elias chegou a pensar que
estava completamente sozinho na defesa da verdadeira adoração. Jeremias
permaneceu praticamente isolado enquanto anunciava a Palavra do Senhor a uma
nação rebelde. O próprio Senhor Jesus Cristo foi rejeitado pela maioria de Seu
povo, abandonado por muitos discípulos e conduzido à cruz. Aos olhos do mundo,
parecia derrotado. Aos olhos do Céu, porém, era o verdadeiro vencedor.
A história bíblica
demonstra que Deus nunca mede a verdade pelo número de seus seguidores. A
fidelidade sempre valeu mais do que a popularidade. Foi exatamente isso que
aconteceu na planície de Dura.
Enquanto todos se
curvavam, três homens permaneceram de pé. Eles não se deixaram influenciar pela
pressão da maioria. Não negociaram seus princípios. Não permitiram que o medo
anulasse sua fidelidade.
Preferiram permanecer
ao lado de Deus, ainda que isso significasse enfrentar a fornalha ardente. Esse
pequeno grupo de fiéis não representa apenas três jovens hebreus do século VI
a.C. Eles apontam para outro grupo descrito nas profecias do Apocalipse.
Depois de apresentar o
conflito final envolvendo a besta, sua imagem e sua marca, João dirige nossa
atenção para o povo que permanecerá fiel até o fim. Ele declara: “Aqui está a
perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus”
(Ap 14:12).
Assim como Sadraque,
Mesaque e Abede-Nego permaneceram firmes diante da imagem de ouro, o povo
remanescente permanecerá fiel diante da imagem da besta. Assim como aqueles
jovens recusaram adorar aquilo que Deus não havia autorizado, os santos dos
últimos dias também permanecerão leais exclusivamente ao Senhor.
João apresenta duas
características que identificam esse povo.
Primeiro, eles guardam os mandamentos de Deus.
Sua obediência não é motivada pelo medo, nem pelo desejo de alcançar a salvação
por méritos próprios, mas nasce de um coração transformado pelo amor de Cristo.
Em um tempo de crescente rebelião contra a Lei divina, eles permanecem fiéis à
vontade de Deus.
Segundo, eles possuem a fé em Jesus. Essa
expressão revela uma confiança inabalável no Salvador. É a mesma fé demonstrada
pelos três hebreus quando declararam que Deus podia livrá-los, mas que
permaneceriam fiéis mesmo que o livramento não viesse da maneira esperada.
Essas duas características
caminham juntas. A verdadeira fé produz obediência. E a verdadeira obediência
somente é possível por meio da fé em Cristo. Esse é o retrato do remanescente
profético.
Não é um povo perfeito
por suas próprias forças, mas um povo que confia inteiramente em Jesus e, por
essa razão, permanece fiel aos Seus mandamentos. O mundo poderá considerá-los
poucos. Poderão parecer frágeis diante dos grandes poderes da Terra. Serão alvo
de oposição, incompreensão e perseguição. Mas o Céu os reconhece como Seu povo.
Assim como Deus honrou
os três jovens na planície de Dura, também honrará Seu povo remanescente no
conflito final. Portanto, a grande pergunta que Daniel 3 e Apocalipse 14
dirigem a cada um de nós não é: "Com quantos você está?" A pergunta é
muito mais profunda: “Ao lado de quem
você permanecerá quando a maioria decidir se curvar?”
Que Deus nos conceda a
mesma coragem de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, para que, sustentados pela fé
em Jesus e firmados em Sua Palavra, permaneçamos de pé quando o mundo inteiro
decidir ajoelhar-se diante da falsa adoração.
VI
– O TESTE NÃO É APENAS EXTERNO
Ao contemplarmos a
firmeza de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, podemos ser levados a pensar que a
decisão deles foi relativamente simples. Afinal, bastava permanecerem de pé. Mas
não foi assim.
A verdadeira batalha
aconteceu antes que eles chegassem à planície de Dura. A vitória deles não
começou diante da imagem de ouro; começou muito antes, quando decidiram que
Deus ocuparia o primeiro lugar em sua vida.
Eles poderiam ter
procurado justificar uma atitude diferente. Poderiam ter pensado: “Vamos apenas
nos ajoelhar exteriormente.” “Deus conhece nosso coração.” “Não precisamos
criar um problema tão grande por causa de um simples gesto.” “Depois pediremos
perdão.”
Esses argumentos parecem
razoáveis à lógica humana. Entretanto, a fidelidade verdadeira não procura
justificativas para fazer concessões ao erro. Os três jovens compreenderam que
adoração não é apenas uma atitude interior; ela envolve toda a pessoa.
A verdadeira adoração
une mente, coração, consciência e ações. Aquilo que fazemos com o corpo também
expressa aquilo que cremos. Por isso, eles recusaram qualquer gesto que pudesse
transmitir a ideia de lealdade a um sistema contrário à vontade de Deus.
Esse princípio continua
válido para o povo de Deus hoje.
Como igreja
remanescente, rejeitamos a adoração de imagens de escultura e evitamos
introduzir em nossos templos ou lares objetos destinados à veneração religiosa.
Cremos que somente o Senhor é digno de adoração e dirigimos nossas orações
exclusivamente ao nosso Pai celestial por meio de Jesus Cristo. Entretanto, a
idolatria nem sempre assume a forma de uma imagem de ouro. Ela pode instalar-se
silenciosamente no coração.
Vivemos em uma
sociedade que constantemente disputa nossa atenção, nosso tempo e nossas
prioridades. É possível que alguém jamais se curve diante de uma estátua e,
ainda assim, permita que outras coisas ocupem o lugar que pertence somente a
Deus. Isso acontece quando o trabalho se transforma no centro absoluto da
existência, consumindo todas as energias e não deixando espaço para a comunhão
com o Senhor e para a família.
Acontece quando
passamos horas incontáveis diante das redes sociais, do entretenimento ou de outras
distrações, enquanto a Bíblia permanece fechada e a vida de oração se torna
cada vez mais superficial.
Também pode ocorrer
quando a busca por conforto, status ou bens materiais domina nossos pensamentos
e decisões. O desejo de adquirir uma casa maior, um carro mais novo,
equipamentos mais modernos ou qualquer outro patrimônio, embora legítimo em si
mesmo, pode transformar-se em idolatria quando passa a governar nossas escolhas
e ocupa o lugar que pertence exclusivamente a Deus.
Os bens materiais foram
concedidos por Deus para facilitar a vida e servir de instrumentos para o bem. Contudo,
quando sua aquisição consome o tempo, as forças, os recursos e a dedicação que
pertencem ao Senhor, aquilo que deveria ser uma bênção transforma-se em um
obstáculo à vida espiritual.
Toda idolatria possui
esta característica: ela desloca Deus do centro da vida.
É por isso que Daniel 3
continua tão atual. A pergunta não é apenas: “Você se curvaria diante da imagem de ouro?”
A pergunta é: “O que ocupa hoje o primeiro lugar em seu
coração?” Porque aquilo que domina nosso coração é, na prática, aquilo que
adoramos.
A fidelidade exigida no
tempo do fim não será construída de maneira repentina. Ela será o resultado de
uma vida inteira de comunhão com Deus. Quem aprende a ser fiel nas pequenas
decisões de hoje estará preparado para permanecer firme nas grandes decisões de
amanhã.
Quem honra a Deus agora
com seu tempo, seus talentos, seus recursos e sua obediência à Sua Palavra
desenvolverá, pela graça de Cristo, o caráter necessário para enfrentar a crise
final.
Sadraque, Mesaque e
Abede-Nego permaneceram de pé diante da imagem porque, muito antes daquele dia,
já haviam decidido permanecer de joelhos somente diante do Deus verdadeiro.
Essa também deve ser a
nossa decisão. Se desejamos permanecer em pé quando chegar o último grande
teste profético, precisamos aprender hoje a viver diariamente em fidelidade ao
Senhor, colocando-O acima de qualquer interesse, prazer, conquista ou bem
material.
A fidelidade que
sustentará o povo de Deus no tempo do fim não será improvisada. Ela está sendo
formada, dia após dia, nas escolhas silenciosas da vida cristã, quando
decidimos que Cristo terá sempre o primeiro lugar em nosso coração.
Conclusão
Profética
Daniel 3 não pertence
apenas ao passado. Ele descreve o futuro.
Observe os paralelos:
|
Daniel 3 |
Apocalipse 13 |
|
Babilônia
literal |
Babilônia
espiritual |
|
Imagem
de ouro |
Imagem
da besta |
|
Decreto
de adoração |
Decreto
universal de adoração |
|
Pena
de morte |
Decreto
de morte |
|
Três
hebreus |
Remanescente
fiel |
|
Cristo
na fornalha |
Cristo
com Seu povo no tempo do fim |
Daniel apresenta o
tipo. Apocalipse apresenta o antítipo. O conflito continua sendo o mesmo: Quem
receberá nossa adoração?
Não é apenas uma
questão de um dia de culto, mas da autoridade que reconhecemos. O conflito
final envolverá a obediência aos mandamentos de Deus em contraste com
mandamentos humanos impostos pela união entre poderes religiosos e civis. O
sábado bíblico torna-se o sinal visível dessa lealdade porque está diretamente
ligado à autoridade do Criador (Êx 20:8-11; Ap 14:7), enquanto a imposição de
um dia de adoração estabelecido por autoridade humana representa a
reivindicação de uma autoridade concorrente.
Ellen White escreveu: “O
sábado será a pedra de toque da lealdade; pois é o ponto da verdade
especialmente controvertido. Quando sobrevier aos homens a prova final,
traçar-se-á a linha divisória entre os que servem a Deus e os que não O servem.
Ao passo que a observância do sábado espúrio em conformidade com a lei do
Estado, contrária ao quarto mandamento, será uma declaração de fidelidade ao
poder que se acha em oposição a Deus, é a guarda do verdadeiro sábado, em
obediência à lei divina, uma prova de lealdade para com o Criador. Ao passo que
uma classe, aceitando o sinal de submissão aos poderes terrestres, recebe o
sinal da besta, a outra, preferindo o sinal da obediência à autoridade divina,
recebe o selo de Deus.” (O Grande
Conflito [CPB, 2006], p. 605).
Quando esses eventos
acontecerem Cristo virá para buscar o Seu povo fiel. Ellen White escreveu: “A
substituição do verdadeiro pelo falso é o último ato do drama. Quando esta
substituição se tornar universal, Deus Se revelará. Quando as leis dos homens
forem exaltadas acima das leis de Deus, quando os poderes da Terra procurarem
obrigar os homens a guardar o primeiro dia da semana, sabei que chegou o tempo
para Deus agir” (Eventos Finais [CPB,
2011], p. 80).
Apelo
Hoje, ainda não ouvimos
o som da trombeta da planície de Dura, mas muitas "músicas" do mundo
procuram conquistar nossa lealdade: a pressão da maioria para nos conformarmos
com as normas e valores do mundo, o desejo de aceitação, o poder político, os
interesses econômicos e a conveniência.
Deus está formando um
povo que permanecerá de pé quando todos os demais se curvarem.
Que possamos decidir
hoje, antes que venha a crise final, dizer como Sadraque, Mesaque e Abede-Nego:
“Se formos lançados na
fornalha em chamas, o Deus a quem servimos pode livrar-nos, e ele nos livrará
das tuas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, sabe, ó rei, que não
serviremos aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer”
(Dn 3:17,18, NVI).
O mundo caminha rapidamente
para o cumprimento final dessas profecias.
A pergunta não é se
acontecerá… Mas de que lado você estará.
Você está preparado
para permanecer fiel, mesmo sob pressão? Sua vida está alinhada com a Palavra
de Deus? Você tem discernido os sinais dos tempos?
Hoje é o tempo de
decidir. Se você deseja entender melhor as profecias, permanecer fiel à
verdade, se preparar para os eventos finais e estar ao lado de Cristo custe o
que custar. Entregue sua vida completamente a Deus hoje.
Não espere o decreto.
Não espere a crise. Decida agora.
Que o Senhor nos
conceda essa mesma fidelidade, para permanecermos firmes até o dia em que
Cristo voltar em glória. Amém.

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