A VERDADE QUE LIBERTA
Ruben Aguilar*
A área do Templo de
Jerusalém foi, em muitas ocasiões, o cenário no qual Jesus demonstrou o caráter
divino de Seu ministério. Em João 8, lemos que Ele reafirma Sua autoridade ao
defender a mulher apanhada em flagrante pecado. Após esse episódio, muitos judeus
passaram a questionar o Mestre, contestando a autoridade de Sua mensagem; ainda
assim, apesar dessa incredulidade, “muitos creram Nele” (Jo 8:30). Na
sequência, Jesus dirige-Se aos que creram e faz uma promessa plena de
esperança: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32, ARA).
Os termos utilizados
pelo Mestre, embora necessários para qualificar a realidade humana, introduzem
conceitos que beiram as fronteiras do indefinível. O que é a verdade? O que é a
liberdade? Para muitos pensadores, esses termos pertencem à categoria da
metalinguagem, dada a dificuldade de defini-los com precisão. “O que é a
verdade?” (Jo 18:38), questionou Pilatos a Jesus nos momentos que antecederam
Seu sacrifício final. O texto bíblico transmite a ideia de uma saída abrupta de
Pilatos, sem que ele aguardasse a resposta esclarecedora do Mestre.
O presente estudo
pretende contribuir para a compreensão da sentença pronunciada por Jesus (Jo
8:32), buscando apresentar o sentido semântico, literário e bíblico dos termos
ali empregados.
O
que é a verdade?
A maioria das obras
enciclopédicas, embora cada texto use fraseologia própria, conceitua de forma
sintética a verdade como a concordância com o que é real. Segundo T. R. Giles,
essa definição tem origem em Aristóteles, ao formular a Teoria da
Correspondência, segundo a qual “toda proposição é verdadeira se o que expressa
como sendo o caso for realmente o caso”.1 Platão, por sua vez,
qualifica o conhecimento verdadeiro como sabedoria. Para esse pensador, o ser
humano tem duas formas de acesso à sabedoria: a primeira, denominada doxa,
corresponde ao saber que não precisa ser buscado, como o calor, a vegetação ou
os sons da natureza; a segunda, chamada episteme, representa o conhecimento
verdadeiro, adquirido por meio da busca racional por meio do método.2
Ao longo dos séculos,
diversos pensadores formularam diferentes enunciados com o objetivo de
expressar o significado do termo “verdade”. Chegou-se, inclusive, à
sistematização de tipos de verdade, como a histórica, a científica, a
intuitiva, a da coerência, bem como a objetiva e a abstrata. Contudo, o que se
destaca em todos esses enunciados é o conhecimento como fator necessário para o
acesso à verdade. Pedro Abelardo, no prefácio do seu livro Sic et Non, sugere a
prática da dúvida para o desenvolvimento do conhecimento: “Pela dúvida nós
chegamos à pesquisa, e por esta, alcançamos a verdade”.3
Se o conhecimento
conduz à verdade, então a verdade, no âmbito humano, será sempre relativa. O
conhecimento humano é, de fato, parcial, pois se amplia continuamente por meio
da ciência, da tecnologia e do saber em geral. Conclui-se, assim, que, para o
ser humano, é impossível obter a verdade absoluta, como já admitia Kant. Esse
mesmo pensador reconhecia como fonte última de toda verdade a atividade de uma
entidade superior.4 René Descartes, de modo ainda mais enfático,
afirmava que a verdade só se encontra em Deus, em quem estão contidos todos os
tesouros da ciência e da sabedoria.5 Esse pensamento exalta o
atributo da onisciência divina, que implica a ideia de que a verdade
corresponde ao perfeito conhecimento de Deus sobre todas as coisas (Jó
28:20-26).
Outros autores,
anteriores aos já mencionados, emitiram afirmações semelhantes. Agostinho
admitia que a verdade das coisas existia apenas na mente de Deus. Anselmo de
Cantuária confirmava que Deus é a causa eterna de toda verdade. Dessa maneira,
compreende-se que a verdade depende da revelação, pois toda verdade é verdade
divina. Outros pensadores, como Leibniz, Malebranche e Berkeley, concluíram que
toda verdade, afinal, é verdade de Deus.
No Antigo Testamento, a
palavra “verdade” é uma tradução do termo hebraico emeth, que ocorre cerca de
uma centena de vezes. Os tradutores desse vocábulo relacionam seu significado a
virtudes pessoais, como fidelidade, integridade, firmeza de promessa,
segurança, veracidade no falar e retidão de conduta. Na versão da Septuaginta
(LXX), em muitos textos nos quais aparece o termo hebraico emeth (“verdade”), a
tradução emprega o vocábulo grego pistis (“fé”). Apesar dessa diversidade
semântica, o uso do termo “verdade” expressa sempre uma atitude de dependência
de Deus, pois, segundo linguistas especializados, não há verdade — no sentido
bíblico — fora de Deus.6 Uma expressão clara dessa compreensão encontra-se
no cântico de Moisés, ao afirmar que Deus é emeth (“verdade”) (Dt 32:4); ideia
semelhante aparece no Salmo 31:5.
No Novo Testamento, a
palavra “verdade” é uma tradução do vocábulo grego aletheia, que ocorre mais de
110 vezes. Esse termo também é traduzido como fidelidade, justiça e paz
duradoura; no entanto, especialistas afirmam que, etimologicamente, aletheia
sugere algo que é revelado, aberto ou descoberto.7 Os escritores
neotestamentários utilizam o termo “verdade” no sentido de uma revelação
divina, que chega ao conhecimento humano por meio das declarações de Jesus (Jo
8:45) e da ação do Espírito Santo (Jo 16:13). Ainda mais enfática é a afirmação
de que o próprio Cristo é a verdade (Jo 14:6), sendo verdadeiro porque não
busca a própria glória, mas a Daquele que O enviou (Jo 7:18). Mesmo limitado em
Sua natureza por ocasião da encarnação, Jesus era cheio de graça e verdade (Jo
1:14) e, diante de Pilatos, declarou que a razão de Sua existência era dar
testemunho da verdade (Jo 18:37). Com base nessas afirmações, Paulo reafirma
que a verdade se encontra em Cristo (Rm 9:1) e sugere, ainda, que ela se torna
sinônimo do próprio evangelho (2Ts 2:13; Gl 5:7).
O
que é a liberdade?
A forma mais sintética
que a maioria das enciclopédias conceitua liberdade é a condição de ser livre,
com o direito de expressar-se e agir segundo a própria vontade. Na época de
Péricles (século V a.C.), o equivalente a liberdade era parresia, entendida
como o “direito de falar livremente”.8 Aristóteles relacionava a
liberdade ao uso da vontade: o homem que realiza ações voluntárias é livre;
aquele que realiza ações involuntárias é escravo.9 Ao longo dos
séculos, o conceito predominante de liberdade foi o de “fazer o que se deseja”.
Hegel, por sua vez, desenvolve o sentido de liberdade ao afirmar que ela
consiste naquilo que uma pessoa tem poder de fazer, ou na capacidade de
edificar o próprio destino.10
Apesar das
contribuições filosóficas, o conceito de liberdade manifesta-se de formas
variadas, quase proporcionalmente ao número de expressões culturais e modos de
pensamento, destacando-se, sobretudo, as ideias políticas. Analistas dos
variados conceitos de liberdade concordam que ela não pode ser compreendida
apenas como um direito pessoal ou individual, uma vez que o ser humano é, por
natureza, um ser social. Por essa razão, sustentam a proeminência de um fator
comum a todas essas expressões: a imposição da lei. A lei (nomos) é requerida
como princípio de ordem, de modo que toda forma de liberdade deve estar sujeita
à prescrição da lei, seja ela natural ou moral.
Ao admitir que a
liberdade está sujeita à imposição da lei, considera-se que essa condição
humana estabelece a relação universal segundo a qual toda causa produz um
determinado efeito. Kant afirmava que, na natureza, observa-se um completo
“determinismo” e que a liberdade não é uma questão física, mas moral,
situando-se no reino do noumeno, isto é, na “mente humana”.11 Ampliando
o sentido desse conceito, admite-se que a liberdade é vivenciada na esfera da
consciência humana.
No Antigo Testamento, a
palavra “liberdade” aparece sob duas formas principais, em pouco mais de uma
dezena de textos. O vocábulo hebraico derôr (“liberdade”) refere-se à
prescrição que determinava a libertação dos escravos a cada 50 anos (Lv 25:10).
Esse termo também aparece na narrativa histórica da libertação dos escravos
durante o reinado de Zedequias (Jr 34:8). O outro vocábulo é hopshît, usado de
forma adjetivada para se referir à libertação dos escravos no sétimo ano (Êx
21:2, 5). Esse termo também expressa a condição de uma pessoa afastada da
comunidade por motivos de saúde (2Rs 15:5). Na versão da LXX, o vocábulo grego
empregado é eleutheria, que designa a condição do homem livre em contraste com
o escravo ou o estrangeiro. No entanto, quando aplicado ao povo de Israel, o
termo exalta a libertação do povo da escravidão egípcia (Êx 20:2; Dt 7:8) e, em
sentido profético, relaciona a liberdade com a obra do Redentor, o Messias, que
viria para proclamar libertação aos cativos (Is 61:1).
No Novo Testamento, o
termo grego eleutheria (“liberdade”) assume um significado mais restrito,
dissociado das expressões de cunho político e do direito de seguir o desígnio
da vontade humana. No uso que o apóstolo Paulo faz do termo, manifesta-se o
sentido determinista de alcançar a liberdade gloriosa dos filhos de Israel (Rm
8:21; Gl 5:1), com a consequente liberdade do pecado (Rm 6:18, 22).
A
verdade vos libertará
A promessa proferida
pelo Mestre da Galileia — “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”
(Jo 8:32, ARA) — de modo algum se refere ao conhecimento da verdade alcançado
pelo ser humano nas áreas científica, cultural ou em qualquer outra ordem. Tal
verdade será sempre relativa e sujeita a modificação. Cristo, ao contrário,
referia-Se ao conhecimento da verdade absoluta ou divina. A verdade é um
atributo de Deus; e, em sentido ainda mais enfático, Ele declara que Deus é
verdadeiro (Jo 7:28), reafirmando, assim, que Deus é a própria verdade. O ser
humano adquire essa verdade por meio da revelação: pela Palavra escrita (Jo
17:17; Dn 10:21), pela atuação do Espírito Santo (Jo 16:13) e, de forma
suprema, pela pessoa de Cristo (Jo 14:6).
Ao adquirir o
conhecimento da verdade mediante essas três fontes da revelação, o ser humano
experimenta uma profunda transformação, pois esse conhecimento da verdade não é
meramente teórico, mas existencial; trata-se do novo nascimento (Jo 3:3-5). O
conhecimento da verdade é uma realidade prática (Jo 3:21), que envolve a
conversão e transforma o indivíduo em um verdadeiro adorador (Jo 4:23). Ellen
White incentiva a vivência dessa prática ao afirmar: “A única maneira pela qual
podemos obter maior compreensão da verdade é conservar o coração brando e
submisso ao Espírito de Cristo”.12
O complemento da
sentença proferida pelo Mestre acerca do conhecimento da verdade é a promessa
de alcançar a liberdade. Não se trata de uma liberdade de cunho político ou
social, proclamada pelo espírito cívico humano, mas de uma liberdade cujo fim
último conduz à vida eterna (Rm 6:22). Ellen White reafirma essa compreensão ao
declarar que “a verdade se revela como o poder divino para a salvação”.13
Concluindo, é
necessário destacar que a liberdade prometida por Cristo foi o propósito do Seu
ministério (Lc 4:18) e foi efetivamente realizada no evento da cruz (Gl 3:13).
Ao adquirir o conhecimento da verdade, isto é, ao aceitar a revelação divina, o
ser humano recebe libertação do pecado (Rm 6:18, 22), do cativeiro de Satanás
(Lc 13:16), da condenação da lei (Rm 7:6; 8:3) e da morte (Rm 8:2, 21).
*Ruben
Aguilar, professor emérito de Teologia do Unasp, Engenheiro
Coelho
Referências
1. Thomas R. Giles,
Introdução à Filosofía (São Paulo: EDUSP, 1979), p. 126
2. Manuel G. Morente,
Lecciones Preliminares de Filosofia (Cidade do México: Editorial Diana, 1964),
p. 6.
3. Tony Lane,
Pensamento Cristão – Dos Primórdios à Idade Média (São Paulo: Abba Press,
1999), v. 1, p. 135.
4. Immanuel Kant, Great
Books of the Western World, The Critique of the Pure Reason (Chicago:
Encyclopedia Britannica Inc., 1952), v. 42, p. 94
5. Rene Descartes,
Great Books of the Western World, Meditation IV (Chicago: Encyclopedia
Britannica Inc., 1952), v. 31, p. 89
6. R. Laird Harris,
Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Vida
Nova, 1998), p. 87
7. Jean J. von Allmen,
Vocabulário Bíblico (São Paulo: ASTE, 2001), p. 597
8. Johannes B. Bauer,
Dicionário de Teologia Bíblica (São Paulo: Edições Loyola, 1981), v. 2, p. 634.
9. José F. Mora,
Diccionário de Filosofía Abreviado (Buenos Aires: Editora Sudamericana, 1974),
p. 255.
10. George W. F. Hegel,
“The Philosophy of Right” em Great Books of the Western World, v. 46, p. 26.
11. Immanuel Kant, “The
Science of Right”, em Great Books of the Western World, v. 42, p. 420.
12. Ellen G. White, O
Desejado de Todas as Nações (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), p.
396
13. White, O Desejado
de Todas as Nações, p. 363
FONTE: Revista Ministério, MAR-ABR 2026

Comentários
Postar um comentário