UM JARDIM NO DESERTO: COMO DEUS ME GUIOU, SUSTENTOU E FORTALECEU EM LAGARTO


Ricardo André

Texto base: “O Senhor o guiará constantemente; satisfará os seus desejos numa terra ressequida pelo sol e fortalecerá os seus ossos. Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam” (Isaías 58:11, NVI).

Esse versículo é uma das promessas mais ternas e completas das Sagradas Escrituras. Nela, Deus assegura ao Seu povo orientação contínua, provisão mesmo em tempos de escassez e força renovadora para permanecer de pé. Essa promessa não ignora os desertos da vida; ao contrário, ela afirma que, mesmo neles, o Senhor faz brotar vida.

Essa verdade não é apenas teológica para mim — ela é profundamente existencial.

Em janeiro de 1993, um amigo querido, o pastor Evandro L. Cunha, convidou-me a viajar para Lagarto, no interior de Sergipe. Recém-formado em Teologia pelo então IAENE (hoje UNIANE), ele havia recebido o chamado para pastorear o Distrito da Igreja Central de Lagarto. O plano inicial era claro: eu o auxiliaria como obreiro, concluiria o Ensino Médio e, em seguida, seguiria para o Seminário Adventista, na Bahia, para também estudar Teologia. Ser pastor era, naquele momento, meu projeto de vida.

Cheguei a Lagarto em fevereiro de 1993. Este ano completou 33 anos desde que deixei minha cidade natal, Cabo de Santo Agostinho, litoral sul de Pernambuco para viver em Lagarto, cidade maravilhosa. Hoje, ao olhar para trás, percebo que aquele passo marcou muito mais do que uma mudança geográfica. Foi um verdadeiro desenraizamento. Deixar Cabo de Santo Agostinho não foi apenas uma mudança de endereço, foi muito mais do que arrumar malas e mudar de endereço. Foi como arrancar um pedaço das minhas raízes e plantá-lo em solo desconhecido. Acostumado ao cheiro do mar, ao aconchego do lar, ao calor humano das conversas de esquina e ao conforto de saber que, em cada rua, havia alguém que me conhecia pelo nome, eu nunca imaginei que um dia trocaria tudo isso por Lagarto, no interior de Sergipe.

Meses depois, uma reviravolta: decidi não seguir mais o caminho da Teologia. Meu projeto de vida mudou. Passei a desejar ser professor. Essa decisão trouxe consequências imediatas. Precisei deixar a casa pastoral e fui morar com três amigos da igreja, em uma casa generosamente cedida pelo irmão Arão. Ali permanecemos até abril de 1994, quando a casa precisou ser devolvida para reforma.

A partir daí, comecei a viver um dos períodos mais difíceis da minha vida. Sem moradia fixa, sem trabalho formal, sobrevivia vendendo produtos naturais — uma renda insuficiente até mesmo para garantir as necessidades básicas. Foi então que Deus, mais uma vez, mostrou-Se fiel em Sua provisão, usando pessoas. Meu amigo Irineu Roberto, ao tomar conhecimento da situação difícil que eu enfrentava naquele período, não permaneceu indiferente. Sensibilizado, moveu-se por compaixão e colocou sua fé em ação. Foi ele quem me ofereceu abrigo, disponibilizando um quarto no prédio do Sindicato dos Bancários, onde trabalhava, localizado na rua Laudelino Freire, no centro comercial da cidade. Ali permaneci por alguns meses.

Mais do que um teto, Irineu me ofereceu segurança, respeito e esperança em um momento em que tudo parecia instável. Seu gesto foi uma resposta concreta de Deus às minhas orações silenciosas. Posso afirmar, sem exagero, que ele foi um verdadeiro anjo de Deus em minha vida, usado pelo Senhor para me sustentar quando minhas forças já estavam quase no limite.

Essa experiência marcou profundamente meu coração e reforçou em mim uma convicção que carrego até hoje: a amizade verdadeira é uma das maiores expressões do amor de Deus na vida humana. Amigos são pontes que o Senhor constrói para que atravessemos os vales da existência. Irineu foi essa ponte para mim — firme, segura e providencial.

Minha gratidão por ele é eterna. Seu gesto simples, porém profundamente cristão, não apenas me ajudou a sobreviver àquele momento difícil, mas deixou uma marca indelével na minha história. Sempre que olho para trás, reconheço que Deus cuidou de mim por meio da amizade leal e generosa de Irineu Roberto, e por isso, dou graças a Deus por sua vida.

Em 1995, por intermédio de um amigo querido, José Carvalho de Menezes, o nosso “Juquinha”, Deus cruzou novamente o meu caminho com pessoas que marcariam minha vida de forma definitiva. Foi assim que conheci Hilda Boujart e sua filha, Hilda Catarina, duas mulheres extraordinárias, cuja generosidade e sensibilidade cristã se tornaram abrigo em um dos momentos mais decisivos da minha caminhada em Lagarto.

Elas não apenas me ofereceram um lugar para morar; acolheram-me como família. Abriram as portas de seu lar, mas, sobretudo, abriram espaço no coração. Naquela casa encontrei mais do que teto e alimento: encontrei cuidado, respeito, segurança emocional e a possibilidade real de recomeçar. Foi naquele ambiente de acolhimento que pude me reerguer, organizar minha vida, estudar, trabalhar e enfrentar com dignidade os grandes desafios que ainda estavam diante de mim.

Ali vivi por sete anos, até meu casamento, em setembro de 2002. Sete anos que foram fundamentais para minha formação humana, espiritual e profissional. Sem aquele abrigo, sem aquela acolhida amorosa e constante, dificilmente eu teria conseguido permanecer em Lagarto e vencer os obstáculos que surgiam pelo caminho. O lar de Hilda e Catarina foi, para mim, um verdadeiro refúgio preparado por Deus, um espaço de cura, estabilidade e esperança.

Atualmente, ambas já faleceram, mas sua memória permanece viva em minha história. A gratidão que carrego por elas é profunda, sincera e eterna. Reconheço, com plena convicção, que foram instrumentos vivos da provisão divina, usadas por Deus para me sustentar quando eu mais precisava. Sempre que relembro minha trajetória, sei que parte do que sou hoje foi construída graças ao amor, à generosidade e à fé dessas duas mulheres que Deus colocou no meu caminho.

Minha trajetória de vida em Lagarto reflete exatamente o apoio de pessoas que acreditaram em mim, como as saudosas Hilda e Catarina, Irineu Roberto, Juquinha, entre outras.

A decisão de ir para Lagarto foi movida por esperança - esperança de novos horizontes, de crescimento pessoal, talvez de um recomeço. Mas o que eu não esperava era o peso da distância. Mas nada foi tão difícil quanto a solidão. Os primeiros anos, entre 1993 e 1995, foram difíceis. Passei por momentos de solidão e sei o que é estar sozinho. Foram os anos mais difíceis da minha vida. Tinha muita saudades da minha querida mãe, de meus irmãos e amigos. A saudade da família apertava no fim da tarde, quando a noite chegava e eu lembrava das noites em Cabo, com risadas e vozes familiares. Aqui, em Lagarto, o mesmo anoitecer me encontrava sozinho, encarando paredes que ainda não tinham história. Foram três natais e reveillon sozinho. Foram dias tristes e difíceis de suportar. O que me animava naqueles momentos de solidão e em meio às dificuldades era quando focava na certeza da presença divina, na promessa de que Jesus está sempre presente e pronto para nos guiar e sustentar.

Eu cria, com fé simples, que o olhar de Cristo acompanhava cada passo meu. Mas foi justamente nesses momentos que experimentei de maneira mais clara a orientação e a força contínuas de Deus. Quando tudo parecia faltar, Ele não faltou. Quando me senti desamparado, lembrei-me da promessa de Jesus: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28:20).

Em 23 de janeiro de 1994, recebi uma carta da minha mãe Noêmia Cordeiro de Souza. Nela, havia preocupação, tristeza e amor. Um trecho nunca saiu da minha memória:

“[...] Naquele dia que você me telefonou entrei em depressão só em lembrar que estava sozinho sem família. Espero que tenha encontrado alguém que [lhe dê] palavras de conforto. [...] Termino aqui estas poucas linhas com o coração cheio de saudades. A próxima te dou mais notícias. Eu te abençoo”. 

Esta carta da minha mãe causou-me uma impressão tão grande que a guardo com muito carinho. Vi muito amor nela. Ela me abençoou. Guardei aquela bênção. Acredito profundamente que as orações da minha mãe e sua bênção foram canais da graça de Deus, sustentando-me na solidão e preparando o caminho para tudo o que viria depois.

Hoje, 33 anos depois, posso testemunhar: Deus cumpriu Sua promessa. Construí uma carreira sólida, formei-me em Pedagogia e História, tornei-me professor efetivo das redes públicas municipal e estadual. Construí amizades, formei família, criei raízes. Lagarto deixou de ser apenas o lugar para onde vim trabalhar; tornou-se o meu lar, o meu lugar de pertencimento. Em vez de recuar, escolhi lutar. Fui estudando, trabalhando, insistindo — dia após dia, passo a passo. E venci.

Olho para trás e vejo que, mesmo nos “lugares secos”, Deus fartou minha alma. Ele me guiou continuamente, fortaleceu-me quando minhas forças falharam e fez de uma história marcada por solidão um jardim regado, onde hoje há paz, gratidão e testemunho.

Como escreveu Ellen G. White, resumindo com precisão minha experiência:

“Se consagrarmos a vida a serviço de Deus, nunca chegaremos a situações para as quais Ele não haja feito provisão. Qualquer que seja nossa situação, temos um Guia para nos dirigir no caminho; quaisquer que sejam nossas perplexidades, temos um Conselheiro infalível; quaisquer que sejam nossas aflições, privações ou solidão, temos um Amigo compassivo” (Parábolas de Jesus, p. 173).

 

Deus guia, mesmo quando não compreendemos o caminho. Deus provê, mesmo quando tudo parece faltar. Deus fortalece, mesmo quando estamos emocionalmente exaustos.

A promessa de Isaías 58:11 não é poética apenas — ela é real, viva e experimentável.

Oração Final

Senhor, obrigado porque Tu me guiaste quando eu não via o caminho, sustentaste minha alma nos desertos e fortaleceste minha vida quando eu já não tinha forças. Que minha história glorifique o Teu nome e fortaleça a fé de outros que hoje atravessam seus próprios lugares secos. Amém.

Comentários

  1. Belíssimo e inspirado seu testemunho. Que o Eterno continue abençoando você e sua família 🙏

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