“LEVANTEM-SE, Ó PORTAIS ETERNOS!”: A ENTRADA TRIUNFAL DE CRISTO E A ESPERANÇA DOS REDIMIDOS


 Ricardo André

Texto Bíblico: “Levantem as suas cabeças, ó portas! Levantem-se, ó portais eternos, para que entre o Rei da glória. Quem é o Rei da glória? O Senhor, forte e poderoso, o Senhor, poderoso nas batalhas. Levantem as suas cabeças, ó portas! Levantem-se, ó portais eternos, para que entre o Rei da glória. Quem é esse Rei da glória? O Senhor dos Exércitos, ele é o Rei da glória” (Salmo 24:7–10, NAA).

INTRODUÇÃO

O Salmo 24 está entre os textos mais solenes, majestosos e teologicamente profundos de toda a Escritura. Ele não é apenas poesia sagrada; é liturgia viva, é teologia cantada, é revelação dramatizada em forma de louvor. Trata-se de um cântico de entronização, proclamado de maneira antifônica — em alternância de vozes — numa das mais significativas cerimônias da história de Israel: a chegada da arca da aliança à cidade de Jerusalém, sob a liderança do rei Davi (2Sm 6; 1Cr 15).

Por um período, a arca — símbolo visível da presença do Deus invisível — estivera na casa de Obede-Edom, em Quiriate-Jearim. Agora, após preparo espiritual, reverência e ordem, Davi organiza um cortejo triunfal para conduzir a arca ao lugar que lhe fora destinado. Não se tratava apenas do transporte de um objeto sagrado, mas da proclamação pública de que o Senhor era, de fato, o Rei de Israel, o verdadeiro soberano da nação.

Ellen G. White descreve com rara beleza esse momento solene. À medida que o cortejo se aproximava da capital, acompanhado por músicos, cantores e levitas, uma explosão de louvor ecoava pelas colinas de Jerusalém. Em forma de desafio litúrgico, as vozes clamavam aos guardas postados sobre os muros da cidade:

“Levantai, ó portas, as vossas cabeças;

Levantai-vos, ó entradas eternas,

E entrará o Rei da glória!”

De dentro das muralhas vinha a pergunta ritual, não por ignorância, mas para exaltação:

“Quem é este Rei da glória?”

E a resposta ressoava com força crescente:

“O Senhor forte e poderoso,

O Senhor poderoso na guerra!”

O cântico se repetia, agora com centenas de vozes unidas, até que, como o som de muitas águas, a proclamação final era entoada:

“O Senhor dos Exércitos;

Ele é o Rei da glória” (Sl 24:7-10).

"Então, as portas se abriam de par em par, o cortejo entrava, e a arca era depositada com temor reverente na tenda preparada para recebê-la (cf. Patriarcas e Profetas [CPB, 2007], p. 707–708).

Contudo, embora esse salmo esteja historicamente ligado à conquista de Jerusalém e ao transporte da arca da aliança, seu significado não se esgota naquele evento. Inspirado pelo Espírito Santo, Davi escreveu mais do que compreendia plenamente. O Salmo 24 transcende o seu contexto imediato e aponta profética e messianicamente para uma realidade muito maior: a vitória final do Messias e Sua entrada triunfal na presença do Pai.

À luz da fé adventista do sétimo dia, esse salmo encontra seu cumprimento mais glorioso não nas portas de Jerusalém terrestre, mas nas entradas eternas da Jerusalém celestial. Após a ressurreição, Cristo ascende ao Céu não como um vencedor solitário, mas como o Conquistador do túmulo, levando consigo as primícias dos redimidos — testemunhas vivas de que a morte fora derrotada.

O Comentário Bíblico Adventista afirma que “as palavras dos versos 7 a 10 foram cantadas por dois corais de anjos quando os céus receberam o verdadeiro Filho de Davi de volta à Jerusalém celestial” (CBASD, v. 3, p. 774). O que antes fora ensaiado na terra, agora se cumpria em sua plenitude no Céu.

Ellen G. White, em O Desejado de Todas as Nações (pp. 833–834), descreve essa cena com profundidade reverente e beleza incomparável — um dos quadros mais belos da revelação cristológica. Ela descreve a cena de alegria quando Cristo chega ao Céu com esses santos ressuscitados:

“Todo o Céu estava esperando para saudar o Salvador à Sua chegada às cortes celestiais. Ao ascender, abriu Ele o caminho, e a multidão de cativos libertos à Sua ressurreição O seguiu. A hoste celestial, com brados de alegria e aclamações de louvor e cântico celestial, tomava parte na jubilosa comitiva.

“Ao aproximar-se da cidade de Deus, cantam, como em desafio, os anjos que compõem o séquito:

"Levantai, ó portas, as vossas cabeças;

Levantai-vos, ó entradas eternas,

E entrará o Rei da Glória"!

Jubilosamente respondem as sentinelas de guarda:

"Quem é este Rei da Glória?"

“Isto dizem elas, não porque não saibam quem Ele é, mas porque querem ouvir a resposta de exaltado louvor:

"O Senhor forte e poderoso,

“O Senhor poderoso na guerra.

Levantai, ó portas, as vossas cabeças,

Levantai-vos, ó entradas eternas,

E entrará o Rei da glória"!

“Novamente se faz ouvir o desafio: "Quem é este Rei da Glória?" pois os anjos nunca se cansam de ouvir o Seu nome ser exaltado. E os anjos da escolta respondem:

"O Senhor dos Exércitos;

Ele é o Rei da Glória!" Sal. 24:7-10.

“Então se abrem de par em par as portas da cidade de Deus, e a angélica multidão entra por elas, enquanto a música prorrompe em arrebatadora melodia.

“Ali está o trono, e ao seu redor, o arco-íris da promessa. Ali estão querubins e serafins. Os comandantes das hostes celestiais, os filhos de Deus, os representantes dos mundos não caídos, acham-se congregados. O conselho celestial, perante o qual Lúcifer acusara a Deus e a Seu Filho, os representantes daqueles reinos imaculados sobre os quais Satanás pensara estabelecer seu domínio - todos ali estão para dar as boas-vindas ao Redentor.”

Assim, o Salmo 24 nos conduz por três grandes movimentos espirituais: primeiro, o clamor às portas eternas, que exige abertura total à soberania divina; depois, a revelação de quem é o Rei da glória, vencedor na maior de todas as batalhas; e, por fim, a certeza de que Cristo não entra sozinho, pois Sua vitória garante vida e esperança aos que nEle confiam.

É nesse cenário de triunfo, adoração e esperança que este salmo nos convida agora a ouvir novamente o clamor que atravessa a história e ecoa até nossos dias: “Levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da glória.” Ao mesmo tempo somos convidados a contemplar não apenas quem Cristo é, mas o que Sua vitória significa para todos aqueles que, pela fé, O aguardam.

I. O CLAMOR ÀS PORTAS ETERNAS (Sl 24:7)

“Levantai as vossas cabeças, ó portas!

Levantai-vos, ó entradas eternas,

Para que entre o Rei da glória!”

Este não é um convite cortês, nem uma solicitação simbólica. É um clamor celestial — solene, autoritativo e triunfante — que ecoa pelos domínios da eternidade. O verbo não é “sugestão”, mas ordem; não é “pedido”, mas proclamação. O céu inteiro parece prender a respiração diante Daquele que se aproxima. A linguagem do salmo está carregada de autoridade e expectativa, como se todo o universo estivesse em suspensão diante do momento mais decisivo da história da redenção: o retorno do Filho de Deus à presença do Pai, agora não mais como Servo sofredor, mas como Vencedor do túmulo.

As “portas” aqui mencionadas não são estruturas inertes de madeira ou pedra. Elas são poeticamente personificadas, chamadas a reagir, a responder, a se erguer diante da chegada de Alguém cuja glória excede tudo o que foi criado. O Comentário Bíblico Andrews observa que, em seu sentido imediato, essas portas apontam para os antigos portais do templo; porém, em sua dimensão mais ampla e profética, representam o acesso à presença direta de Deus, a cidade celestial e o povo preparado para receber o Rei. Como afirma o comentário:

“As portas, portões ou portais, que são personificados (v. 7), são as ‘antigas’ ou ‘eternas’ portas do templo, mas, por extensão, representam também a cidade e o povo que estão prontos para a vinda do Rei” (Andrews, v. 2, p. 176).

Esse detalhe é profundamente significativo. Antes que o Rei entre, as portas precisam se levantar. Antes da manifestação da glória, há um chamado à abertura total. Nada pode permanecer fechado, baixo ou resistente diante daquele que venceu a morte. As portas são convocadas a se erguer porque o Rei que se aproxima não cabe em entradas estreitas, nem em corações parcialmente abertos.

Na narrativa profética do Salmo 24, não é um rei terreno que retorna de uma batalha qualquer. É Cristo — o Cordeiro que foi morto — agora ressuscitado e exaltado. Ele não entra marcado pela humilhação da cruz, mas revestido da glória da vitória. As marcas ainda estão em Suas mãos, mas agora são troféus da redenção. A cruz não foi o fim da história; foi o caminho para a entronização.

Ellen G. White afirma que, ao se aproximar das portas da Cidade Santa, os anjos que acompanham Jesus proclamam exatamente as palavras deste salmo. O Céu inteiro entra em expectativa. Não há improviso, não há pressa, não há silêncio constrangido. Há reverência, há solenidade, há celebração. A pergunta “Quem é este Rei da glória?” não nasce da ignorância, mas do desejo santo de ouvir, mais uma vez, a resposta que exalta o Redentor.

Esse ponto revela uma verdade essencial para a fé cristã: o Céu não se abre automaticamente. Ele se abre porque houve vitória. As portas eternas se levantam porque a justiça foi satisfeita, o pecado foi derrotado e a morte perdeu sua autoridade. A entrada gloriosa de Cristo nos lembra que nossa esperança não está fundamentada apenas na cruz — embora ela seja central — mas na ressurreição e na exaltação do Salvador.

E aqui surge uma aplicação inevitável: se as portas eternas se levantaram para receber Cristo, o que dizer das portas do nosso coração? O mesmo clamor que ecoou no Céu ainda ressoa hoje: Levantai-vos. A pergunta não é se o Rei é digno de entrar — Ele já provou que é. A questão é se estamos dispostos a abrir completamente, sem reservas, sem resistência, para Aquele que é, ontem, hoje e eternamente, o Rei da glória.

O clamor às portas exige uma resposta. A abertura das entradas eternas requer uma confissão pública. A vitória precisa ser explicada, anunciada e celebrada.

Por isso, agora o salmo nos conduz do clamor para a revelação, do gesto simbólico para a verdade essencial. Se as portas devem se levantar, precisamos saber quem é Aquele que entra. Se Ele é recebido como Rei, é necessário compreender que tipo de Rei Ele é e qual batalha Ele venceu.

É justamente essa resposta que o salmista nos apresenta a seguir. O Salmo não apenas pergunta — ele proclama. Não apenas interroga — ele revela.

E assim avançamos para o próximo movimento desta liturgia celestial.

II. QUEM É ESTE REI DA GLÓRIA? (Sl 24:8)

“Quem é este Rei da glória?”

“O Senhor forte e poderoso,

O Senhor poderoso na batalha.”

A pergunta ecoa novamente pelas entradas eternas: “Quem é este Rei da glória?”

E, mais uma vez, ela não nasce da ignorância, mas da adoração. É uma interrogação litúrgica, cuidadosamente repetida, para que a resposta seja proclamada com ainda mais força. O Céu pergunta não porque desconhece, mas porque deseja ouvir, outra vez, o nome do Redentor exaltado. No culto celestial, a glória de Cristo não é presumida — ela é celebrada.

E a resposta vem clara, solene e definitiva: “O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na batalha.”

Mas essa declaração nos conduz imediatamente a uma questão essencial: que batalha foi essa?

Certamente não uma guerra política. Não foi contra Roma, nem contra exércitos humanos, nem contra espadas ou lanças. A batalha vencida por este Rei foi infinitamente mais profunda e decisiva. Ele lutou contra o pecado que escravizava a humanidade, contra Satanás que acusava, contra a morte que reinava, e contra o sepulcro que parecia definitivo.

Foi uma batalha travada no Getsêmani, quando o peso do pecado quase esmagou Sua alma.

Foi uma batalha travada no Calvário, quando o céu se fechou e o Pai pareceu ocultar o rosto.

Foi uma batalha travada no silêncio do túmulo, quando tudo parecia perdido — mas não estava.

O Rei da glória venceu não pela força das armas, mas pela obediência até a morte. Ele não conquistou territórios; conquistou corações. Não derramou o sangue de inimigos; derramou o Seu próprio sangue. Essa é a guerra que define quem Ele é.

E há um detalhe profundamente comovente na narrativa celestial: embora vitorioso, Cristo não reivindica imediatamente a coroa. Ellen G. White afirma que, ao chegar às cortes celestiais, Jesus detém o louvor dos anjos. Ele ainda não recebe as vestes reais, nem se assenta no trono. Há algo que precisa ser feito primeiro.

Ele entra na presença do Pai. Mostra a fronte ferida. Apresenta o flanco traspassado. Ergue as mãos e os pés marcados pelos cravos. E então, aponta para o maior troféu de Sua vitória:

“Apresenta a Deus o molho movido” — aqueles que ressuscitaram com Ele, representantes da grande multidão que um dia também sairá dos sepulcros na Sua segunda vinda.

Ellen G. White descreve esse momento sublime: “[...] Todos ali estão para dar as boas-vindas ao Redentor. Estão ansiosos por celebrar-Lhe o triunfo e glorificar seu Rei. Mas Ele os detém com um gesto. Ainda não. Não pode receber a coroa de glória e as vestes reais. Entra à presença do Pai. Mostra a fronte ferida, o atingido flanco, os dilacerados pés; ergue as mãos que apresentam os vestígios dos cravos. Aponta para os sinais de Seu triunfo; apresenta a Deus o molho movido, aqueles ressuscitados com Ele como representantes da grande multidão que há de sair do sepulcro por ocasião de Sua segunda vinda. Aproxima-Se do Pai, em quem há alegria a cada pecador que se arrepende; que sobre ele Se regozija com júbilo. Antes que os fundamentos da Terra fossem lançados, o Pai e o Filho Se haviam unido num concerto para redimir o homem, se ele fosse vencido por Satanás. [...] Ouve-se a voz de Deus proclamando que a justiça está satisfeita. Está vencido Satanás. Os filhos de Cristo, que lutam e se afadigam na Terra, são "agradáveis... no Amado". Efés. 1:6.” (O Desejado de Todas as Nações [CPB, 2004], p. 834).

Essa declaração sela o destino do universo. O grande conflito alcança seu ponto decisivo. O Pai confirma aquilo que o Filho conquistou. A justiça foi satisfeita. A redenção foi aceita. O inimigo foi derrotado. E os filhos de Cristo — ainda lutando na Terra — são declarados “agradáveis no Amado” (Ef 1:6).

Aqui aprendemos uma verdade essencial para a vida cristã: as maiores batalhas da história não foram visíveis aos olhos humanos. O mundo viu uma cruz; o céu viu uma vitória. O mundo viu um corpo sem vida; o céu viu a derrota definitiva de Satanás.

E muitas das maiores vitórias de Deus em nossa vida seguem o mesmo padrão. Elas acontecem no invisível, no silêncio da fé, na perseverança que ninguém aplaude, nas decisões tomadas quando ninguém está olhando. Antes de qualquer glória visível, há sempre uma batalha espiritual vencida no secreto.

Por isso, quando o Céu pergunta: “Quem é este Rei da glória?”, a resposta não é apenas teológica — é experiencial. Ele é o Rei que venceu por nós, que luta conosco e que garante que, no final, a vitória também será nossa.

Mas o Salmo 24 ainda não encerrou sua mensagem. A vitória do Rei da glória não é um triunfo solitário, nem uma conquista egoísta. Ele não venceu apenas por Si, mas por nós. E é aqui que a cena celestial se torna ainda mais comovente.

Quando Cristo se apresenta diante do Pai, Ele não leva apenas as marcas da cruz; Ele leva consigo pessoas. Antes de receber a coroa, Ele apresenta o fruto da Sua vitória. Antes de ser entronizado, Ele aponta para aqueles que foram arrancados do domínio da morte.

O Céu percebe algo extraordinário: o Rei da glória não entra sozinho.

A resposta à pergunta “Quem é este Rei da glória?” nos conduz inevitavelmente a outra revelação: para quem Ele venceu? Se Ele é poderoso na batalha, essa vitória precisa alcançar alguém além Dele mesmo. E o Salmo, iluminado pela revelação do Novo Testamento, nos mostra que a glória de Cristo se manifesta plenamente quando Ele entra acompanhado dos redimidos.

É assim que o louvor celestial se aprofunda, e o foco se desloca do Vencedor para os resgatados pelo Vencedor. A história avança da identidade do Rei para o alcance da Sua vitória.

Queridos irmãos e irmãs, a maior batalha da história não foi travada diante das multidões, mas no invisível. O mundo viu uma cruz; o Céu viu uma vitória. O mundo viu silêncio; o Céu ouviu o grito da redenção consumada.

E essa verdade fala diretamente ao nosso coração hoje. Talvez você esteja travando batalhas que ninguém vê. Lutas internas, silenciosas, prolongadas. Decisões difíceis, lágrimas escondidas, perseverança sem aplausos.

Mas o mesmo Cristo que venceu no invisível continua lutando por você. A mesma vitória que abriu as portas eternas garante que as portas da esperança ainda não se fecharam para sua vida. O Rei da glória não esqueceu os que ainda estão no campo de batalha.

Cristo venceu para não entrar sozinho. Ele venceu para levar consigo filhos e filhas redimidos. Ele venceu para garantir que aqueles que hoje lutam, amanhã reinarão com Ele.

O apelo desta mensagem não é apenas para admirar o Rei da glória, mas para seguir o Rei da glória. Não é apenas para celebrar Sua vitória, mas para confiar nela. Hoje, o céu ainda proclama: “O Senhor forte e poderoso.” E a pergunta que permanece não é mais quem Ele é, mas se estamos dispostos a caminhar com Ele.

Se você deseja entregar a Cristo as batalhas invisíveis da sua vida; se deseja confiar não na sua força, mas na vitória dEle; se deseja fazer parte dessa comitiva gloriosa que um dia entrará pelas portas eternas…

Então, no silêncio do seu coração, diga ao Senhor: “Rei da glória, luta por mim. Abre as portas. Leva-me contigo.”

Porque aquele que venceu a maior batalha da história ainda chama pelo nome aqueles que Ele deseja levar consigo.

III. CRISTO NÃO ENTRA SOZINHO: AS PRIMÍCIAS DOS REDIMIDOS

Este é um dos ensinos mais sublimes e consoladores da teologia adventista. A cruz não foi apenas o lugar da morte de Cristo, mas o cenário inicial de uma ressurreição que já anunciava o triunfo final. O evangelho declara que, no momento de Sua morte, “abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos” (Mt 27:52, 53).

Esses santos ressuscitados não retornaram à vida para experimentar novamente a morte. Eles foram conduzidos ao Céu com Cristo, como as primícias do Seu sacrifício expiatório, a evidência viva e concreta de que o poder da morte foi definitivamente quebrado. No Céu, não estão almas desencarnadas, mas seres humanos reais, redimidos e ressuscitados, antecipando aquilo que acontecerá com todo o povo de Deus no tempo determinado.

Ellen G. White descreve esse momento com reverente majestade: “Quando [Jesus] surgiu, vitorioso sobre a morte e o túmulo, enquanto a Terra vacilava e a glória do Céu resplandecia em redor do local sagrado, muitos dos justos mortos, obedientes à Sua chamada, saíram como testemunhas de que Ele ressurgira. Aqueles favorecidos santos ressurgidos saíram glorificados. Eram escolhidos e santos de todos os tempos, desde a criação até os dias de Cristo” (Primeiros Escritos [CPB, 1988], p.184).

Ela acrescenta ainda: “Quando Cristo ressurgiu, trouxe do sepulcro uma multidão de cativos. O terremoto, por ocasião de Sua morte, abrira-lhes o sepulcro e, ao ressuscitar Ele, ressurgiram juntamente. Eram os que haviam colaborado com Deus, e que à custa da própria vida tinham dado testemunho da verdade” (O Desejado de Todas as Nações [CPB, 2004], p.786).

Isso significa que o Céu já recebeu seres humanos redimidos. A ressurreição não é uma abstração teológica nem uma esperança simbólica — é um fato histórico e escatológico. Aquilo que aconteceu com Cristo é a garantia do que acontecerá com todos os que Nele dormem.

Nossa esperança cristã não se resume ao desejo de “ir ao Céu”, mas à certeza gloriosa de estar com Cristo para sempre. A ascensão de Jesus, acompanhado pelas primícias dos redimidos, é o selo da promessa eterna: “Porque Eu vivo, vós também vivereis.”

IV. O REI DA GLÓRIA AINDA ESTÁ ÀS PORTAS

O Salmo 24 encerra-se com um clamor solene e insistente: “Levantem-se, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória.”

Esse eco não se limita a um acontecimento do passado nem se restringe ao cenário celestial. Ele continua ressoando ao longo da história da redenção e alcança o presente com urgência profética. Esse chamado ecoa:

·        à porta do coração humano;

·        à porta da igreja;

·        à porta da própria história.

Como observa o Comentário Bíblico Andrews, “a abertura dos portões personificados do templo para receber o Deus soberano e vitorioso nos convida a também reconhecê-Lo como nosso Senhor soberano e abrir as portas do nosso coração para receber o Rei da glória” (CPB, 2025, v. 2, p. 176).

Hoje, esse mesmo Rei da Glória Se apresenta de forma pessoal e amorosa. Ele declara: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3:20, NVI).

Que tragédia espiritual seria manter fechada a porta da vida Àquele que é o Rei dos reis e a única Fonte da vida eterna. Quando Cristo entra no coração humano, Ele deixa de ser apenas um conceito teológico e Se torna uma presença viva, transformadora e real.

Ao prometer: “Entrarei e cearei com ele”, Jesus revela Seu desejo de comunhão íntima. Ele bate à porta da igreja e do mundo por meio da igreja, mas, sobretudo, Se coloca diante da porta de cada coração. Ele anseia habitar conosco diariamente, suprir nossos anelos mais profundos, curar nossas feridas espirituais e, finalmente, salvar-nos do pecado, do sofrimento e da morte eterna. Aos que Lhe abrem a porta, Ele promete algo ainda maior: assentar-se conosco em Seu trono, como vencedores, na eternidade (Ap 3:21).

O mesmo Cristo que entrou triunfante no Céu após Sua ressurreição voltará novamente, agora com poder e grande glória. Embora muitos tratem a segunda vinda como mito ou fantasia religiosa, o Senhor assegurou: “Voltarei e vos receberei para Mim mesmo” (Jo 14:1–3). Sua Palavra não falha. Essa promessa constitui a bendita esperança do povo de Deus (Tt 2:13), pois marca o início de uma vida que jamais terá fim.

A segunda vinda de Jesus é, sem dúvida, o maior evento escatológico da história deste planeta. Até hoje, o dilúvio foi o acontecimento de maior impacto global; contudo, os eventos que acompanharão a volta do Filho do Homem superarão amplamente tudo o que a Terra já presenciou. Cristo virá na glória do Pai, acompanhado por milhares e milhares de anjos em um glorioso cortejo real (Mt 24:30–31).

“Eis que vem com as nuvens, e todo olho O verá” (Ap 1:7). O uso do tempo presente — “vem” — destaca não apenas a certeza do evento, mas também a sua iminência.

Naquele grande dia, os salvos de todas as eras exclamarão com alegria:

“Este é o nosso Deus; nEle confiamos, e Ele nos salvou” (Is 25:9, NVI).

Após longa espera, chegará finalmente o momento mais aguardado pela criação. Nos cemitérios da Terra, as sepulturas se abrirão, e os justos mortos ressuscitarão para a vida imortal. Ellen G. White descreve:

“Os mortos preciosos, desde Adão até os últimos santos que morrerem, ouvirão a voz do Filho de Deus e sairão dos sepulcros para a vida imortal” (Eventos Finais [CPB, 2011], p. 158).

Será um reencontro indescritível: mães abraçando filhos, esposos reencontrando esposas, famílias restauradas para nunca mais se separarem. “Amigos, há muito separados pela morte, reúnem-se para nunca mais se apartarem, e com cânticos de alegria ascendem juntos para a cidade de Deus” (O Grande Conflito [CPB, 2004], p. 645). Naquele dia, encontraremos homens e mulheres de todas as épocas — antediluvianos, patriarcas, profetas, apóstolos e reformadores. Essa também é a sua esperança. Imagine-se fazendo parte desse grupo feliz!

Mais ainda: esse será o dia em que nossa redenção estará plenamente selada. O Desejado de Todas as Nações (Jesus) será revelado em glória, e receberemos nossa herança eterna como filhos de Deus.

“O vencedor herdará todas estas coisas, e Eu serei seu Deus, e ele será Meu filho” (Ap 21:7). “Todo remido compreenderá o serviço dos anjos em nossa própria vida. Que maravilha será entreter conversa com o anjo que foi o seu guardador desde os seus primeiros momentos, que lhe vigiou os passos e cobriu a cabeça no dia de perigo, que o protegeu no vale da morte, que assinalou o seu lugar de repouso, que foi o primeiro a saudá-lo na manhã da ressurreição [...]. De que perigos, visíveis e invisíveis, temos sidos protegidos mediante a intervenção de anjos, jamais saberemos até, à luz da eternidade, as providências de Deus nos sejam reveladas” (Eventos Finais [CPB, 2011] p. 170).

Por fim, o Universo estará completamente purificado. O pecado, os pecadores impenitentes e todo o mal terão desaparecido para sempre. Como declara Ellen G. White: “O grande conflito terminou. Pecado e pecadores não mais existem. O Universo inteiro está purificado. Uma única palpitação de harmonioso júbilo vibra por toda a vasta criação. DAquele que tudo criou emanam vida, luz e alegria por todos os domínios do espaço infinito. Desde o minúsculo átomo até ao maior dos mundos, todas as coisas, animadas e inanimadas, em sua serena beleza e perfeito gozo, declaram que Deus é amor” (Ellen G. White, O Grande Conflito [CPB, 2004], p. 678). 

Diante dessa realidade, só existem dois destinos possíveis. Ou o ser humano se apega ao pecado e perece com ele, ou aceita o convite gracioso de Cristo e vive eternamente com Deus na nova Terra (Ap 21:1–5).

Assim, a pergunta final já não é apenas: “Quem é o Rei da Glória?” A pergunta decisiva é: as portas da nossa vida estão verdadeiramente abertas para Ele?

Não basta admirar Cristo como Rei no Céu. É indispensável submeter-se a Ele como Rei da vida hoje.

CONCLUSÃO – UMA CENA, UMA PROMESSA, UMA DECISÃO

O Céu já celebrou uma entrada gloriosa. Os anjos já proclamaram a vitória.

O Pai já confirmou a obra do Filho. Mas a história ainda não terminou. Em breve, o mesmo Rei da Glória: Não entrará no Céu, sairá do Céu para buscar os Seus.

Hoje, o Espírito Santo repete o clamor do Salmo 24, não às portas do Céu, mas às portas do seu coração: “Levantem-se, ó portais …

Há algo que precisa ser removido? Algum pecado tolerado? Alguma decisão adiada? Alguma entrega incompleta?

Se você deseja dizer:

“Senhor, minhas portas estão abertas. Reina em mim hoje, para que eu entre contigo na glória amanhã”, eu o convido a tomar uma decisão agora — em oração, em entrega, em compromisso.

Que, naquele grande dia, possamos ouvir não apenas o clamor dos anjos, mas a voz do próprio Cristo dizendo: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo” (Mt 25:34, NVI). Amém.

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